Notas iniciais
Sem mais enrolações... Boa Leitura!

Sua et Unica

***

Antes era yo pequeña y digo ye...ye...yea,
Te veía tan inalcanzable y digo ye...ye...yea,
Y ahora voy a conquistarte y te digo yea,
Y por fin yo podre besarte y te digo ye...ye...yea.
No soy la niña que antes era...era,
Yo lograre que tú me quieras...quieras...quieras.

Y si te vas, ¿dónde iré yo?
Y si te vas, ¿dónde iré yo?
Es el amor cosa de dos
Sin ti no sé quién soy.

¿Dónde iré yo?, de Belinda.

Era uma noite quente. Estrelas reluziam no céu escuro e sem nuvens. Aquele era sem dúvida o tipo de noite na qual Albafica gostaria de se sentar no imenso jardim de sua casa e ouvir os poemas da mãe ou os relatos corriqueiros de Minos sem se preocupar com mais nada.

Infelizmente não era isso que faria aquela noite.

Estava no hall de entrada da mansão Dordellion, na companhia de seus pais e de mais algumas pessoas que também chegavam cedo para a recepção que se daria dali a uma hora. O rapaz respondia educadamente, mas sem muito entusiasmo, aos cumprimentos que os desconhecidos lhe faziam. Sentia-se estranho naqueles trajes — um terno italiano prateado e gravata da mesma cor acompanhados de blusão e sapatos pretos — e estava muito mais interessado em apreciar a arquitetura do lugar porque, mesmo depois de seis anos de amizade, aquela era primeira vez que visitava a casa de Minos.

O hall era circular e abria espaço para dois corredores laterais, bem como a um maior, cujo arco de entrada era triangular, na extremidade oposta à porta principal. Uma larga escada helicoidal se destacava à esquerda do ambiente, desembocando no balcão do segundo andar e se estendendo aos demais andares. Mezaninos cobriam as paredes que ladeavam a porta de entrada, permitindo uma boa circulação de ar e iluminação natural.

Tudo ali era branco com acabamento em dourado, diferente da mansão Genero, em que predominavam marrom e bege. Finalmente, Albafica compreendia em que o amigo se baseava ao chamar sua casa de “sombria”.

Um grupo de pessoas havia se reunido ao redor de Albafica, todos interessados em saber mais sobre o “misterioso” herdeiro dos Genero. Arnan e Rachel bem que tentavam manter os convivas a uma distância segura do filho, mas não obtinham sucesso, pois também tinham a própria cota de enxeridos para afastar. Tanta proximidade estava deixando Albafica extremamente desconfortável.

— Al! — Minos o chamou, despontando no alto da escada e começou a descê-la. Estava deslumbrante metido em um terno risca de giz preto e com os cabelos platinados caindo pelos ombros e costas. Só a visão dele deixou Albafica mais calmo. Hoster, que seguia o filho de perto, resmungou alguma coisa que fez Minos dar uma careta de deboche e permanecer calado o restante do caminho até os convidados. Não havia sinais da mãe dele. Vaidosa como era, ainda devia estar se arrumando.

Alguém perguntou se Albafica tinha namorada ou pretendente e outro se ele estava interessado em arranjar uma, o que fez o rapaz engolir em seco, negar com um sorriso sem graça e abraçar a si mesmo numa tentativa instintiva de se resguardar.

— Sejam muito bem-vindos! Espero que aproveitem a noite! — Minos cumprimentou a todos com tais palavras, marcadas com um de seus sorrisos de falsete, abrindo caminho pelos fofoqueiros, isto é, convidados, que cercavam o jovem de cabelos azuis. — Agora, me deem licença! Tenho algumas coisas para resolver antes da recepção. Al, você me ajuda, não é? — E sem esperar respostas, agarrou Albafica pela mão e o arrastou depressa para o corredor à direita do hall, para bem longe de todos.

— Minos, meus pais! — o mais jovem protestou, só vendo uma torrente de agitados cabelos prateados a sua frente.

— Eles vão sobreviver! — rebateu Minos, sem diminuir a velocidade de seus passos ou se virar.

Havia inúmeras portas naquele corredor, mas Dordellion ignorou todas, levando o amigo até a primeira intercessão do acesso e dobrando a direita. Depois de mais alguns passos, parou, mexendo na maçaneta da porta à esquerda deles e pediu que Genero esperasse, entrando em seguida. Albafica ficou um pouco confuso, mas permaneceu onde estava. Melhor isso do que voltar e ser alvejado por mais um monte de perguntas inconvenientes...

Logo Minos retornou com uma bandeja contendo uma travessa tampada, um balde de gelo, uma garrafa, duas taças e pratos. O engraçado era que as coisas não estavam exatamente arrumadas na bandeja, mais pareciam ter sido jogadas ali às pressas. Minos disse, já se afastando da porta:

— Vamos logo, antes que Gepeto perceba que eu afanei essas coisas!

— Você estava roubando comida? — Albafica estava pasmo.

— Vem logo! — Minos repetiu e deu língua, fazendo o mais jovem sorrir e segui-lo.

— Para onde está me levando? — Albafica o questionou, caminhando ao lado do mais velho. Não havia nem uma viva alma além deles naquele corredor e as portas começavam a rarear.

Dordellion deu um sorriso enigmático e falou:

— Você vai ver já, já.

O mais jovem dos Genero foi conduzido até uma pequena escada, que ficava próxima a lavanderia — o cheiro de amaciante que exalava detrás das portas duplas por que passaram não deixava dúvida. Certamente era o acesso que os empregados usavam para transitar pela casa em dias como aquele. Inclusive enquanto subiam encontraram com alguns serviçais, que os cumprimentaram e seguiram com seus afazeres.

Depois de alguns lances de escada, Albafica teve que parar para recuperar o fôlego. Não tinha as mesmas limitações de outrora, mas aquele tipo de atividade ainda o deixava exausto. Com um olhar culpado, Minos equilibrou a bandeja em uma só mão e se desculpou, oferecendo a outra ao menor:

— Foi mal, meu pai não gosta muito de elevadores... Estamos quase chegando.

Albafica assentiu ainda um pouco ofegante e aceitou a mão que lhe era oferecida.

Realmente com mais dois lances de escadas, os degraus se acabaram, só restando uma porta, que Dordellion abriu, dando passagem ao amigo. Assim que adentrou aquele espaço, Albafica pensou que o esforço valera a pena.

Estavam no terraço da mansão, que também era um jardim adornado pelos mais diversos tipos de rosas. Só por rosas. Era tão dispendioso que só podia ser comparado ao roseiral de Arnan. Minos deu um de seus sorrisos convencidos ao ver a expressão maravilhada de Albafica.

— Bem-vindo ao meu lugarzinho especial! O senhor me acompanharia? — apresentou Minos e ofereceu a mão uma vez mais ao amigo, que riu da falsa seriedade dele e a aceitou.

Albafica foi conduzido por entre as roseiras, que formavam verdadeiros túneis naturais, até o centro do jardim, onde havia um balanço e alguns bancos de pedra ao redor dos quais se tinha uma boa visão de todo o terraço bem como do céu. Genero inspirou fundo satisfeito. O ar daquele lugar detinha uma fragrância única.

Acomodaram-se num dos bancos e Albafica, ainda explorando tudo com os olhos, disse:

— É lindo, Minos — e seu olhar recaiu sobre a larga porta que certamente levava às dependências principais da mansão e seu sorriso diminuiu um pouco —, mas tem certeza de que os outros visitantes logo não vão estar por aqui?

— Só se meus pais quiserem ver corpos tombando da balaustrada. — Minos deu de ombros, fazendo caras e bocas enquanto tentava abrir a garrafa que trouxera consigo. Albafica lançou um olhar cético ao amigo, que foi suficiente para que ele parasse de brincar com a garrafa. — Não, só eu tenho a chave daquela porta — Minos contou, cutucando debaixo da gola da camisa branca e revelou um cordão de prata que usava. Havia uma pequena chave pendurada nele. — E nenhum dos convidados ficaria perambulando pela área de serviço. São frescos demais para isso...

Dito isso, Minos voltou a mexer na garrafa.

— Graças aos deuses! — Albafica suspirou. Apoiava as mãos no banco e tinha a cabeça jogada levemente para trás, os olhos cerrados e a expressão embebida em alívio. — Eu realmente não quero acabar em outra sessão de perguntas...

— Hum, e eu pensando que você estivesse curtindo ser o centro das atenções lá embaixo.

O comentário zombeteiro de Dordellion fez Albafica reabrir os olhos e encará-lo com uma careta mal-humorada. Minos ainda lutava com a garrafa.

— Ha, ha. Sabe que é perigoso chegar perto demais de mim. E eu não gostei nem um pouco do modo invasivo como me trataram.

Minos deu de ombros outra vez.

— Você esperava o que, Al? Essas pessoas não estão acostumadas a respeitarem limites, sem falar que você é exatamente o tipo de assunto que elas mais adoram.

Ele conseguira abrir a garrafa e agora enchia as taças. Pela cor, era vinho. Genero ergueu uma sobrancelha. Nunca chegara perto de bebidas alcóolicas. Seus pais não bebiam por causa de sua saúde. Não sabia se era só um cuidado exagerado deles ou se tinha realmente fundamento, nunca se dera ao trabalho de saber a respeito, mas essa dúvida o fazia agora pensar se deveria realmente ingerir aquilo. Não estava afim de estragar a festa de ninguém passando mal.

Enquanto encarava o vinho de forma arisca, o jovem perguntou:

— Como assim? — Realmente não entendia como podia ser “o tipo favorito de assunto” para alguém, além de, talvez, para os médicos.

Minos tinha destampado a travessa, revelando os vários aperitivos e doces que ela continha, e disse, espetando alguns com palitinhos e os arrumando nos pratos:

— Rico, cheio de mistérios, solteiro, gato...

A última palavra dita pelo mais velho fez o coração de Albafica do nada palpitar mais rápido e sua face arder em fogo. Era impossível como sempre alguma palavra ou gesto do amigo o deixava assim. Simplesmente não compreendia o porquê disso.

Voltou o rosto discretamente para o chão para que seus cabelos, que agora beiravam suas omoplatas, ajudassem a ocultá-lo de Minos — seria extremamente perturbador se ele percebesse seu estado e começasse a lhe amolar —, e falou para disfarçar e também para acalmar-se:

— O dinheiro é dos meus pais, a minha vida não tem graça, eu nem sou tão bonito assim e só tenho treze anos! — Realmente não era um bom assunto e decididamente não tinha motivos para sair do plumo por causa das brincadeiras de Minos.

— Se surpreenderia com a idade com que algumas famílias da comunidade noivam seus herdeiros... — Minos disse em tom malicioso. — Aqui. — Estendia-lhe um prato e uma taça.

— Obrigado — aceitou os mimos, observando a carinha colorida e sorridente que Minos fizera com a comida, porém não conseguia sequer tocá-la. Um verdadeiro buraco-negro havia brotado em seu estômago. Ele nunca me falou sobre uma noiva... — Fala por experiência própria? — indagou sem desviar os olhos da comida, receando a resposta.

— Não. — Albafica não conseguiria expressar em palavras o alívio que essa simples declaração de Dordellion lhe trouxe. — Meus pais sempre se preocuparam mais com meus estudos do que com as demais coisas. — Minos falava com a boca cheia. — Eu sou um afortunado, por assim dizer...

Albafica teria recriminado os maus modos do outro se não se sentisse tão leve. Então, limitou-se a pôr o canapé, que era o olho direito da carinha em seu prato, na boca. O sabor estava tão bom que não demorou a comer o outro olho. Apesar dos pesares, aquela estava sendo uma noite agradável.

Pelo menos, era o que Albafica pensava até Minos sussurrar rente à sua orelha:

— E só para constar, você é lindo, senhor Modesto.

Engasgou com o canapé e não teve remédio a não ser beber o vinho. Ou melhor, o que pensava ser vinho e que na realidade era suco de uva. Teria ficado feliz com isso, se não estivesse tão irritado com Dordellion. Fuzilava-o com a face vermelha de raiva.

— Que foi? — O modo quase inocente com que ele perguntou aquilo fez sua raiva se misturar com alguma outra coisa, uma coisa que lhe deixava com vergonha. Desviou o olhar para o prato, atacando a comida e resmungando entre uma mastigada e outra, sem nem parar para pensar que achava aquilo realmente nojento:

— Está com problemas nos olhos...

Depois de lhe observar por um instante sem esboçar reação alguma, Minos começou a rir, tanto que os olhos chegavam a lacrimejar.

— Está rindo do quê?

Levou alguns segundos para que os risos de Dordellion diminuíssem para um sorriso alegre e sem traços de nenhuma outra coisa, coisa rara de se ver no rosto dele, e que ele começasse a se explicar, enxugando as próprias lágrimas:

— É que eu me lembrei que atualmente só duas coisas conseguem me fazer relaxar: esse jardim e você.

As palpitações retornaram ao peito de Albafica, que não sabia muito bem como agir, já que enfiar a cabeça na terra estava fora de questão e esconder o rosto parecia inútil porque sentia seu corpo inteiro em brasa. Então, continuou atacando a comida e bebendo o suco. Tinha até pego coisas do prato esquecido de Minos, que distraído com os próprios pensamentos não percebia os efeitos que suas palavras tinham no menor e continuava a falar:

— Faz tempo que quero trazer você aqui, mas nunca encontrava uma ocasião apropriada. Até perdi a conta de quantas vezes imaginei ver todas as minhas rosas reunidas. — Sua rosa... Minos já me chama assim há tanto tempo, então por que agora está me deixando tão perturbado? Genero se perguntava, não vendo praticamente nada a sua frente. — Quem ia imaginar que aconteceria por acaso? — Deixara a taça cair no chão, chamando finalmente a atenção de Minos. — Albafica?

Albafica estivera tão aturdido que acabara dando uma forte mordida no lábio inferior e a dor repentina o fez largar a taça, que agora jazia em cacos cristalinos aos seus pés. Por sorte já estava vazia ao cair ou sua calça e sapatos agora estariam imundos. Seu prato praticamente vazio estava esquecido a seu lado no banco.

— Estou sangrando — reconheceu, vendo as pontas dos dedos com os quais tocara o lábio dolorido manchadas de rubro. — Estou sangrando... Logo agora.

Não conseguia nem olhar para Dordellion, pois, embora não compreendesse a confusão de sentimentos que havia em seu interior, tinha acabado de pôr um ponto final nada agradável no momento especial dele. Sim, pois seu sangue representava um perigo para aquele jardim. Nunca pude retribuir devidamente toda atenção que Minos me dá, e ainda faço isso? Sentia-se um idiota, mais ainda por estar prestes a chorar.

— Desculpe-me, Minos. Preciso sair daqui ou vou acabar envenenando as rosas — dizia com os olhos fechados bem apertados para barrar as lágrimas e as mãos espremidas no colo. — Sou tão desajeitado... Desculpe.

As mãos de Minos tocaram seu rosto, voltando-o na direção dele e, antes que Albafica pudesse pensar no que aquele gesto significava, sentiu os lábios dele contra seu lábio inferior, a leve sorvida que cediam ali provocava um formigamento agradável, e reabriu os olhos só para ter certeza de que não estava imaginando coisas.

Não estava. Seu único amigo o estava beijando.

Minos se afastou depois de um momento com os lábios avermelhados, um sorriso gentil e o olhar enevoado. As mãos não tinham abandonado o rosto ruborizado do menor e as palavras que lhe dedicou foram tão afáveis quanto a brisa perfumada que corria pelo jardim.

— Do que está falando? Você é a única rosa que me importa, Al.

Quando Minos se aproximou de novo, Albafica atou as mãos aos ombros dele e retribuiu com um desejo, até então ignorado e inominável, o beijo com gosto de veneno, ferro e novidade.

¢¢¢

Una Pluribus

***

El con todos sus amigos llega y digo ye...ye...yea,
Yo me rio para que el me vea y digo ye...ye...yea,
Quiero saber lo que estás pensando y digo ye...ye...
yea,
Tal vez soy lo que estás buscando y digo ye...ye...
yea.

[…]

El mundo está paralizado
Por fin nos hemos encontrado.
No soy la niña que antes era
Yo lograre que tú me quieras.

¿Dónde iré yo?, de Belinda.

Um barulho, que se assemelhava ao de uma porta sendo batida com força, despertou Albafica do sono de morte que dormia.

Sua cabeça pesava e latejava de dor. Sentia os cabelos grudados ao rosto, pescoço e ombros numa massa de fios e sangue seco. Se achava tombado sobre os joelhos, seus braços se esticavam aos lados de seu corpo. Os pulsos e tornozelos estavam atados por grilhões, o mínimo movimento os machucava.

Ouvia passos.

Ao abrir os olhos não viu nada, além de borrões avermelhados. Piscou algumas vezes em vão, porém logo recebeu ajuda: um forte jato d’água no rosto, tão forte que pensou que seu crânio fosse rachar. Quando a enxurrada findou todo ar tinha fugido de seus pulmões.

Minos estava parado a sua frente com uma mangueira de incêndio nas mãos e um sorriso de escárnio nos lábios. Dolorosamente, ainda vergava a sapuris de Griffon ao passo que Armadura de Ouro de Peixes tinha sumido. Albafica trincou os dentes e desviou o olhar do rosto dele, mirando em volta.

Estavam numa sala pequena, de teto baixo e cheirando a mofo. Não havia nenhuma conexão com o exterior, além da porta fechada. A pouca iluminação vinha de uma luz de emergência, presa no alto da parede à sua direita, à esquerda da porta. A mangueira que Minos segurava provinha de um aro dependurado na parede à esquerda. Havia uma mesa daquele lado, coberta por um pano cinza.

Agathia estava de pé na quina entre a parede a que estava preso e aquela, os olhos cerrados e a expressão concentrada. Um cosmo dourado a envolvia e o alcançava por meio de uma linha que escapava de um novelo que ela segurava com ambas as mãos. A Linha da Vida, pensou Albafica, lembrando-se que havia pedido que ela o mantivesse vivo. Mesmo assim não ficou tranquilo. Afinal, Agathia não poderia reparar todos os seus ferimentos, pois isso deixaria claro para Thanatos que o Selo da Cura estava ali e que o Dourado era seu Zetharos. Tudo que Agathia pode fazer é me manter vivo. E não morrer seria deveras doloroso. Albafica desviou os olhos da deusa-selo, continuando com seu breve reconhecimento, pois não queria que ela percebesse o quanto aquela situação o incomodava.

Junto à parede oposta à qual Albafica estava preso, havia uma cadeira e nela se assentava Thanatos, que havia se livrado do manto sujo de sangue e tinha agora a sapuris grafite totalmente à mostra. O Cavaleiro de Peixes fechou a cara assim que o viu e Minos se afastou para perto da mesa, deixando que ambos se encarassem sem impedimentos. O deus fechou o pequeno livro que lia e o cumprimentou:

— Bem-vindo de volta, Cavaleiro de Ouro. Estava ansioso por seu despertar... — Embora as palavras, o tom dele era frio e não esboçava sorriso. Toda a irritação que provocara nele tinha desaparecido. — Como vê, agora podemos conversar mais à vontade. — Thanatos fez um gesto com a mão, indicando a sala. — Então, por que não começamos do princípio? Onde Athena está se escondendo?

Albafica rolou o olhar do rosto do deus para o de Minos, encontrando os olhos dele cobertos de indiferença, o corpo recostado à mesa, os braços cruzados e o semblante despreocupado. O que está havendo com você, Minos?

— Eu não sei — respondeu à pergunta de Thanatos.

— Griffon...

Em resposta ao chamado do Deus da Morte, Minos ergueu a mão esquerda. Ligado a cada um dos dedos dele havia um filamento semitransparente: as linhas da Marionete Cósmica. E, acompanhando o movimento do indicador de Minos, o de Albafica se moveu só que na direção contrária. Não demorou para que um grunhido de dor escapasse de sua boca. Seu dedo estava quebrado.

Eles vão mesmo apelar para isso?! Genero indagou-se, sentindo calafrios. Mesmo que já estivesse acostumado a sentir dor por causa de sua saúde debilitada desde o nascimento, aquilo não seria fácil. Sofrer nunca era fácil.

— Onde Athena está? – Thanatos voltou a perguntar.

— Eu não sei... — Albafica repetiu a mesma resposta e Thanatos olhou para Minos, que moveu outro dedo, agora o anelar. Mais um dedo quebrado, outro grunhido de dor.

— Onde Athena está?

— Vá pro Inferno — Albafica falou e gritou em sequência. Minos fechara a mão em punho sem esperar pela permissão do deus e agora a mão direita do Cavaleiro pendia aberta, retorcida em ângulos aleatórios. — Desgraçado! — O Cavaleiro de Ouro não sabia muito bem a quem praguejava.

O interrogatório prosseguiu, sempre a mesma pergunta para a qual não tinha a resposta, e sua outra mão e pés acabaram igualmente danados. Não era um Cavaleiro consagrado pelo Santuário. Só recebera a Armadura de Peixes das mãos da Amazona de Ofiúco porque seu pai se recusara a aceitá-la e acabou por ser escolhido por ela num momento de necessidade. Como poderia saber onde Athena e seu exército se encontravam? E mesmo que eu soubesse, preferiria morrer a contar para esse deus...

Thanatos se levantou da cadeira, a face fria cheia de desdém, e caminhou em direção à porta.

— Vocês, Cavaleiros, realmente são teimosos... Espero que tenha gostado dessas acomodações, Peixes, porque vai ficar aqui até que responda essa pergunta. — Um sorriso impiedoso marcava os lábios do deus quando se voltou para o Juiz de Griffon. — Minos, tenha a bondade de tratá-lo com o máximo de hospitalidade, sim?

— Às suas ordens, senhor. — Minos fez uma breve reverência e Agathia preocupada apertou o novelo dourado. Albafica se limitou a baixar a cabeça e respirar para abrandar a dor. Suma logo daqui, seu infeliz. Thanatos deve ter interpretado isso como sinal de fraqueza, pois sua voz soou quase alegre ao abrir a porta.

— Voltou mais tarde. Divirtam-se.

O mesmo som que despertou Albafica ecoou pelo ambiente. Estava sozinho com Minos. Finalmente.

— Blábláblá — Dordellion resmungou, fitando a porta com ceticismo. — Ele só está fugindo por causa do seu sangue... Enfim, você sabe muito bem o que queremos de você, Al. — Ele tinha se aproximado e agachado a sua frente com os antebraços apoiados nas pernas. — Não vou ficar fazendo a mesma pergunta toda hora. Não tenho paciência para isso e você sabe. Então, quando estiver cansado do tratamento especial que vou te dar, diga que já chega e conte o que sabe e tudo acaba. — Ele abriu um sorriso travesso, meio cúmplice, mas o olhar seguia cheio de indiferença.

Para ele dizer isso, será que estamos sendo vigiados? Albafica se perguntou, procurando no fundo dos olhos roxos do amado algum código do que ele não podia dizer, mas não encontrou nada, além daquela mesma indiferença de antes. Mesmo assim, não posso perder essa oportunidade para tirar essa história a limpo.

— Minos...

— Hum? Mais já? — Ele parecia surpreso, quase decepcionado. — Achei que fosse resistir um pouco mais...

— Estamos sozinhos agora — frisou, ignorando o comentário dele —, então me diga o que pretende fazer no Exército de Hades. O que é tão importante para você ter que me machucar? O que está havendo com você?

— Era para você dar respostas e não fazer perguntas, Al. — Minos soava quase cansado.

— Me responda!

Se não pode me dizer seus motivos, pelo menos me dê algum indício... Qualquer coisa serve! Suplicava em seu íntimo, mas a expressão, bem como o olhar, era determinada. Minos suspirou, vencido, antes de dizer:

— O Imperador Hades prometeu a nós, Espectros, um lugar no mundo perfeito e pacífico que ele criará depois que derrotar Athena, por isso eu permaneço no Exército do Inferno mesmo depois de tantas e tantas Guerras Santas. Para mim, é natural obedecer as ordens dele e de seus comandantes e Thanatos, que é um desses comandantes, me ordenou tirar informações de você. — Ele deu de ombros. — Quer motivo melhor?

— Isso não é verdade! — Albafica bradou, vendo-o erguer uma sobrancelha. — Eu nunca senti nada de maligno vindo de você. Não tem como você ser um Espectro de Hades, não tem!

Um sinal, Minos! Só um sinal que seja! Suplicava, porém tudo o que via era superficialidade ocultando uma turvação profunda. Minos sorriu como alguém que se lembra de algo e se justificou:

— Ah, isso é porque minha Estrela Maligna estava adormecida. Você a sente agora, não é?

Se a sentia? Sim, infelizmente sentia aquele cosmo envolto em trevas, entretanto isso poderia ocorrer por causa da presença da sapuris de Griffon. Não provava nada, mas também não negava. Tudo que Albafica tinha eram as palavras de Minos e elas o empurravam ao desespero.

— Não pode ser verdade, não pode... — murmurou enquanto ele se punha de pé.

— Se você não quer acreditar, o problema é seu, Al. — Dessa vez o tom dele foi extremamente frio. — Não estou aqui para te convencer de minha lealdade ao Imperador Hades, estou aqui para te fazer cuspir a informação que meu deus tanto quer. Vamos nos ater a isso, ok? — O cosmo dele se expôs obscuro como as trevas da morte. Como o cosmo de um verdadeiro servo de Hades. Por Athena, será mesmo verdade? Seu peito doía em agonia só de pensar isso.

— O que eu sou para você?! — Albafica gritou fechando os olhos. Não era alguém acostumado a externar seus sentimentos ao extremo, mas quando se tratava de Minos tudo em seu interior ficava uma bagunça. — Não interessa que você seja mesmo uma das Cento e Oito Estrelas Malignas! Depois de tudo que vivemos juntos...! Eu não posso ser só mais um Cavaleiro de Athena para você!

Sentiu o brilho escuro do cosmo dele recuar.

— Tem razão, você não é só um Cavaleiro para mim. — Essa declaração fez com que abrisse outra vez os olhos. Os lábios dele se desenhavam num sorriso infame, o olhar era irritantemente calmo. — Você é uma das muitas rosas que eu possuí, a mais linda e por causa disso teve mais atenção que as outras, mas isso não o torna especial agora que está novamente entre o Imperador Hades e o sonho de Utopia dele. Agora não passa de mais uma rosa que eu tenho que arrancar.

— Novamente? — Foi tudo que conseguiu dizer.

As palavras ditas pelo Espectro de Seven nas Ruínas de Lemúria ecoaram no canto mais profundo da mente de Albafica. Algo sobre ele ser previsível por ser como o Cavaleiro de Peixes do século XVIII, mas não se ateve a isso. As memórias daquela noite, há seis anos, vinham à tona com mais intensidade. Quando Minos deixou que soubesse como ele se sentia a seu respeito. Como ele podia agora dizer de forma tão banal que era só mais uma rosa? Só mais um dos inimigos que ele tinha que tirara do caminho de Hades?

Será possível que seus sentimentos por mim foram realmente enterrados por Eras de lealdade a Hades, Minos? Não, não pode ser! Você sabe muito bem que todas as promessas que ele faz e refaz aos Espectros não passam de mentiras! Mas nós... Nós sempre... Sempre foi verdadeiro, pelo menos de minha parte. Albafica estremecida por causa da dor em seu coração, que era muito mais terrível do que a que castigava seu corpo machucado.

A verdade era que quer acreditasse ou não no que Minos dizia, estava sozinho vivendo um maldito pesadelo. Sua cabeça latejava muito, seu coração pesava dentro do peito e seus olhos secos por pura força de hábito fitavam o outro, feridos. Nunca conseguira saber o porquê de seu pai tê-lo mantido vivo só para passar a vida lhe evitando e agora também não podia contar com o apoio de Minos.

— Não me olhe assim, Al — pediu Dordellion, sorrindo indolente. O cosmo arroxeado dele se fazia visível. Das mãos escapavam filamentos que se ligavam a todo o corpo do Cavaleiro de Peixes. — O Minos que você conheceu nunca existiu de verdade. Era apenas uma máscara temporária, uma ilusão. Eu, o Juiz de Griffon, a Estrela Celeste da Nobreza, sou um ventríloquo. Tudo o que cai em minhas mãos está fadado a se tornar uma marionete mais cedo ou mais tarde e chegou sua vez, Albafica. — Minos deu de ombros, indiferente. — Encare isso como um troco pela rosa que você enterrou no meu peito no passado. E não se esqueça que tudo acabará quando você decidir contar onde Athena se esconde. — Ele ergueu as mãos. O sorriso beirava o cruel. — Marionete Cósmica.

Ao som de seus bramidos de dor, a dança dos dedos dele se deu. E enquanto era conduzido, Albafica se recordou de um céu azul sob o qual dançou aquela mesma dança, à luz daquele mesmo sorriso zombador e doente.

Notas finais
Esse capítulo foi confeccionado e postado em duas partes primeiramente, de modo que cada parte possui um subtítulo, que indiquei logo no início de cada uma, acima das citações da música, agora que o repostei como um só, ok? Bjinhos! Até a próxi! ^-^/