Aliança Carmesim
6 Capítulo VI - Pai
Notas iniciais
[...]
Vi mágoa, incompreensão
e mais de uma velha revolta
a dividir-nos no escuro.
A mão que eu não quis beijar,
o prato que me negaram,
recusa em pedir perdão.
Orgulho. Terror noturno.
Porém nada dizia.
Fala fala fala fala
Puxava pelo casaco
que se desfazia em barro.
Pelas mãos, pelas botinas
prendia a sombra severa
e a sombra se desprendia
sem fuga nem reação.
Porém ficava calada.
[...]
ANDRADE, Carlos Drummond de. Viagem na Família. In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Records, 2010. p. 96.
Era para ser um fim de semana no mínimo diferente. Arnan viajara a Suécia, sua terra natal, para tratar de um negócio e acabara levando Albafica consigo depois de muita insistência da esposa, que desejava que os dois tivessem um tempo só pra eles para, quem sabe, conseguirem conversar normalmente como pai e filho.
Apesar disso, Arnan foi cuidar de seus negócios logo após o check in, largando o filho sozinho no chalé de inverno. Como Albafica sentia falta de Minos, nem mesmo pudera se despedir dele! Tamanha era a vontade de sua mãe de que nada, nem ninguém, atrapalhasse o plano dela de fazer com que ele e o pai se entendessem. Era mais do que óbvio que se Dordellion soubesse da viagem iria atrás, nem que em outro voo.
O rapaz até tentou se distrair ali mesmo, mas no fim optou por sair para dar uma volta, esquiar, talvez — sempre quisera fazer isso e nunca tivera a chance, nunca lhe deixavam. Sua saúde era delicada, verdade, mas estava muito mais forte do que quando criança, mais forte do que há dois anos quando executara a Lâmina de Rizao sem o consentimento do pai e quase se matara. Não ter por perto ninguém que soubesse de seu estado de saúde talvez fosse bom de vez em quando. Pelo menos, foi o que pensara ao sair.
Conheceu um grupo de jovens na estação — dois rapazes e três moças —, todos muito simpáticos e que tiveram a gentileza de convidá-lo para esquiar com eles. Geralmente, Albafica não era de se permitir ficar muito perto de estranhos, mas como precisava de umas dicas, acabou por aceitar o convite deles. Não era feito de porcelana, se eles tentassem qualquer gracinha, poderia se defender por si mesmo muito bem. Mas eles não fizeram nada, foi o tempo que fez.
Bem sabia que ficar tanto tempo exposto ao frio era uma decisão no mínimo idiota, mas acabou por acompanhar o grupo até o final do passeio e agora estava na cama com febre. Primeiro a tosse e agora a febre. Era oficial: pegara um resfriado. E pensar que não tinham se hospedado na antiga mansão Genero para evitar que todo o mofo, bolor e umidade, acumulados na casa fechada há tanto tempo, afetassem sua saúde...
Os rapazes tinham acabado de ajudá-lo a se acomodar quando Arnan escancarou a porta do quarto, assustando a todos. O terno risca de giz preto, resguardado por um sobretudo de igual cor, estava impecável, embora os cachos azuis-claros do cabelo dele estivessem um tanto bagunçados. A face semidestruída exalava irritação, como Albafica jamais tinha visto, e a bengala tinha o peixe esculpido em seu tomo completamente aprisionado pela mão direita dele bem cerrada, com os nós brancos.
— Sumam — ordenou ele, adentrando o recinto num coxear veloz. O olho bom se cravava no rosto do filho. Não tinha gritado, nunca gritava, mas ninguém ousou contestar. Todos se foram no mais completo silêncio, entrecortado pela tosse do mais jovem dos Genero. — Já foi medicado? – quis saber o pai, parando ao pé de sua cama.
— Não, não consegui encontrar a nécessaire que mamãe me deu... E no posto médico não tem, parece que o estoque deles se esgotou... — Respondeu entre uma tossida e outra.
Um resfriado não era grande coisa. Em dois, três dias qualquer pessoa sã estaria completamente recuperada, porém para Albafica era um problema que se arrastaria como um insistente garoar de uma semana, com o tratamento adequado. Sem ele corria risco de vida.
— Como você soube... tão rápido? — acrescentou Albafica e imediatamente uma sobrancelha do Patriarca dos Genero se ergueu, enquanto a outra se franzia, ainda mais irritada.
— Queria que eu não soubesse? Saiu da Grécia só para se matar, por acaso?
— Eu nem queria ter saído da Grécia... — Albafica recebeu um olhar cortante do pai pela franqueza, então desviou os olhos da face dele, logo tendo que cerrá-los em uma crise de tosse, dessa vez forte, tanto que a mão com que cobriu a boca acabou manchada de vermelho. — Desculpe por atrapalhar sua reunião, então... Por favor, volte. Vou me virar sozinho.
Após um breve momento, o agitar do sobretudo preto e das madeixas azuis de Arnan chamaram a sua atenção. Não pôde evitar que seus olhos se arregalassem ao ver que ele havia lhe dado às costas.
— Está proibido de sair desse quarto, entendeu? — disse Arnan, à voz seca. — Seria problemático se você começasse a expelir sangue envenenado pelas áreas de convivência do chalé.
Então, ele vai mesmo me deixar aqui... Reconheceu Albafica com um amuo anestesiado lhe banhando os ossos, as vistas começavam a embaçar com as lágrimas decorrentes de seu estado de saúde. Nenhuma surpresa. Pensava na mãe, em casa, imersa no doce sonho de que algum dia eles pudessem ser uma família de verdade. Desculpe, mãe. Para esse homem eu nunca vou passar de algo que ele tem que suportar, nada além disso. Não entendo porque ele não me deixou morrer, não entendo...
— Sim, senhor — acedeu por fim, caindo em mais uma crise violenta de tosse, mas mesmo assim Arnan se retirou do quarto, batendo a porta e a trancando para ter certeza de que não iria tentar sair com sua tosse, seu veneno e suas questões.
¢¢¢
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
deste repensamento;
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No voo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade,
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Perguntas. In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Records, 2010. p. 100-101.
Albafica estava quebrado. Braços, pernas, costelas... Tudo em migalhas. Desmaiou de dor diversas vezes, a última vez por causa de um murro que Minos lhe dera no rosto, já de saco cheio de seu inalterado “eu não sei”, e agora recobrava a consciência. Respirava devagar para não sentir mais dor, já sentia dor o suficiente sem seus pulmões espremendo suas costelas.
Com seus olhos acortinados por uma película de sangue, vasculhou o cômodo atrás de seu infame algoz, mas só encontrou Agathia no mesmo cantinho de antes, agora sentada abraçando o novelo dourado que era a Linha da Vida; ela parecia cochilar, talvez para repor as energias.
Estavam sozinhos ali.
O rapaz engoliu em seco e tossiu. Seus lábios estavam rachados e sua garganta tão seca que o ar que respirava chegava a arranhá-la, fazendo seus olhos lacrimejarem. Baixou a cabeça. Em seu íntimo, se arrependia momentaneamente de ter pedido que Agathia não o deixasse morrer. Que bobagem, pensou, tentando reunir alguma saliva em vão, sua boca era um deserto, e só conseguiu mais uma carga de tosse áspera e dor. Mesmo morrendo, não estarei livre das garras desses trastes. Não mudaria nada.
Trastes... E pensar que Minos, a razão de ter decidido enfrentar Thanatos e de ter se posto em risco, era um desses trastes cruéis, um cego arauto da morte. Não havia ironia maior, tampouco dor. Um laço de anos, um sentimento tão forte, impregnado de carinho e cuidado, reduzido a nada por uma rivalidade antiga, uma contenda divina, que os arrastava para longe um do outro, como uma forte e impiedosa correnteza. Um Cavaleiro e um Espectro; por causa desse antagonismo só lhes restava destruir um ao outro? Albafica não conseguia aceitar essa sorte, a despeito da grande dor que assolava seu corpo.
Seu desejo era escapar daquele lugar antes que Minos retornasse. Não queria confrontá-lo, estar sob a mira daquele olhar indiferente, sob a influência das palavras frias dele ou dos sorrisos zombadores. Porém, não tinha como fugir, os grilhões que o atavam eram indestrutíveis perante seu corpo esfacelado. Então, decidiu aproveitar aquele tempo sozinho para reunir forças, tal como o Selo da Cura fazia.
Cerrou os olhos, concentrado na respiração, pausada e sempre calma, mas tão logo o fez escutou o barulho da porta abrindo. Minos voltou, talvez Thanatos esteja com ele. Albafica mordeu a parte interna do lábio inferior, essa era a única providência que podia tomar para lidar com a próxima bateria de agressões. Ouvia passos, não conseguia distinguir de quantas pessoas de tão desorientado como estava devido aos traumas na cabeça, porém tinha certeza que se aproximavam.
— Albafica — chamaram-no, parando a sua frente.
Um calafrio de choque cruzou o corpo de Albafica, que arregalou os olhos de imediato, deparando-se com a ponta das vestes daquele que o havia chamado. Vestes de tecido fino e branco, cuja barra quase tocava o chão cinzento manchado com o sangue venenoso do prisioneiro. Parecia a túnica de Thanatos, a mesma em que o Cavaleiro de Peixes cuspira instantes depois de ser capturado por Minos.
Isso só aumentou o choque inicial do rapaz, afinal, tinha certeza absoluta de que a voz que o chamara não pertencia a Dégel — nem mesmo a Minos. Nenhum deles havia se manifestado, o que evidenciava que não estavam por ali. Estava só com sua deusa-selo adormecida e o recém-chegado. Não, não é... Não pode ser... Ergueu o rosto devagar, a expressão tomada de espanto, para verificar se sua suspeita estava correta.
Aquela túnica branca, de fato, era idêntica à do Deus da Morte, porém as ombreiras de grafite polido, de sob as quais a túnica se desfraldava, eram acabadas por detalhes em dourado — as de Thanatos tinham o acabamento em prata. Com o elmo ocorria igual alternância de cores, além de que as asas deste tinham os tamanhos inversos aos do elmo da Morte, como se fosse a imagem do mesmo, saída de um espelho.
Diferente de Dégel, o homem que o observava silenciosamente já estava quase na casa dos cinquenta anos, embora quase não se notasse; seria muito bonito se não fosse pelas cicatrizes que tomavam conta de todo o lado esquerdo de seu rosto. O olho esquerdo estava oculto por um tapa-olho e o direito ainda era azul, contudo todo o brilho lhe fora roubado. Os cabelos ainda eram compridos e cacheados, porém anormalmente dourados como ouro. A expressão tinha perdido todo ar de severidade, só restando apatia, mas ele ainda trazia à mão direita a bengala negra com um peixe esculpido na base.
— Pai...? — A voz de Albafica soou pouco mais alta do que um sussurro.
O recém-chegado cerrou o olho bom, soltando um longo suspiro antes de responder.
— É verdade que me ocultei por trás de Arnan Genero para ter acesso à mansão Solo, mas apenas isso. — Ele reabriu o olho, cravando-o no rosto do prisioneiro. — Sou Hypnos, o Deus do Sono.
Albafica voltou a baixar a cabeça, não suportava olhar para aquela figura. Seu pai nunca havia demonstrado uma pitada de carinho sequer para consigo. Indiferença, às vezes frieza, era tudo que recebia dele, mesmo assim ele era seu referencial de ser inatingível e vê-lo sujeitado daquela maneira era frustrante, doloroso ao pensar em como sua mãe sofreria por medo de perdê-lo. Ainda bem que ela está visitando minha avó. Talvez ainda haja uma maneira de libertá-lo disso... Franziu o cenho, sentindo desmotivação, pontadas de vergonha pela própria impotência. O que estou pensando? Não consigo salvar nem a mim mesmo. Minos, Dégel, pai... Por que estão tirando todos de mim?
Por muitos anos, seu pai se manteve afastado dos problemas ocasionados pelas contendas divinas, ele até mesmo havia recusado se tornar o Cavaleiro de Ouro de Peixes e expulsara a insistente amazona de Ofiúco de sua casa. Por isso, Albafica estranhou quando ele decidiu deixar o recanto seguro que criara para si mesmo só para contar sobre os Quatro Selos a Poseidon. Agora essa atitude fazia sentido. Fora Hypnos o tempo todo, provavelmente, tentando jogar o Imperador das Oceanos contra Athena, assim as chances de encontrá-la rapidamente aumentariam. Afinal, quanto mais gente procurando, melhor.
O Cavaleiro de Peixes se lembrou que os Espectros contra os quais havia lutado nas Ruínas de Lemúria estavam a serviço de Hypnos. Então, foi por isso que o Exército do Inferno descobriu sobre os Quatro Selos tão rápido. O Sono teve acesso à biblioteca de meu pai... Será que Poseidon conseguiu destruí-la? Não importa mais... Tudo que estava lá já é do conhecimento desse deus...
— Aqui — disse Hypnos, se inclinando um pouco na direção do acorrentado servo de Athena e aproximando algo escuro e cilíndrico dos lábios dele. Albafica logo percebeu ser uma garrafa térmica. — É um preparado de ervas. Fará com que se sinta melhor. — acrescentou ele, respondendo à expressão desentendida e indagadora do Cavaleiro.
Albafica desviou a boca do objeto de imediato. Encarava o Deus-Mensageiro com um olhar repleto de ferocidade, o semblante endurecido por debaixo dos cabelos e do sangue, o que fez o Sono franzir levemente as sobrancelhas.
— Essa mudança de tática não vai surtir efeito algum em minha resposta. Então, me poupe dessa encenação asquerosa — falou, praticamente cuspindo as palavras. — Que Minos volte a me espancar! É mais prático.
— Encenação asquerosa? — O deus tornou a ficar ereto, com a testa ainda enrugada. Parecia pensativo. — Hum, você acredita que eu aparecer diante de você com o corpo que era de seu pai, oferecendo um pouco de alívio depois de tudo pelo que passou se trata de uma artimanha para fazê-lo cooperar conosco. — A característica inexpressividade dele retornou à face, e o falar mecânico perdurou. — Faz sentido, realmente, mas não é o caso. Não tenho nada a ver com essa situação lamentável em que meu irmão o colocou. Tomei conhecimento de seu cárcere ainda há pouco...
— E decidiu me fazer uma visita de cortesia — antecipou as palavras dele, com um sorriso de ironia tão venenoso quanto seu sangue. — Fico lisonjeado.
— Que atitude mais indecorosa... Você não costuma ser assim, Albafica.
— Como se você me conhecesse bem, deus.
Nem mesmo meu pai me conhecia. Ele nunca quis conhecer.
— Conheço melhor do que imagina, acredite você ou não — alegou Hypnos, sem que seu ritmo de falar mecânico se alterasse. Decididamente seu temperamento não tinha nada a ver com do irmão. — De todo modo, não vim até aqui para perder tempo com discussões tolas, assim como não vim fazer parte das selvagerias de Thanatos. Desejo apenas conversar civilizadamente com você, garoto, e venhamos a concordar que não está em condições. — Ele voltou a se inclinar na direção do Cavaleiro, pondo a boca da garrafa ao alcance dos lábios dele novamente. — Portanto, beba. Deve estar sedento.
Aquilo não passava de um gracejo do Sono, pois os lábios rachados e o olhar vacilante com que Albafica fitou o frasco negro o delatavam em demasiado. Engoliu em seco, os lábios a tremer, e tentou pensar logicamente.
Havia ido parar naquele lugar porque Thanatos achava que conseguiria fazê-lo entregar a atual posição da Deusa da Guerra, então claro que não estava nos planos dele matá-lo antes que abrisse a boca, logo aquilo não se tratava de veneno. O mais provável é que fosse algum tipo de poção com efeito alucinógeno. Tolher-lhe o discernimento do que era real e ilusório certamente aumentaria em muito as chances de arrancar dele o que desejavam. Eu não sei nada sobre o paradeiro de Athena, então não corro riscos.
Arrependeu-se logo do pensamento. Afinal, ainda que não soubesse nada sobre Athena, ao tocar aquela coisa ainda corria o risco de acabar revelando a presença do Selo da Cura se fosse indagado sobre os Quatro Selos. Afinal, Hypnos, dito quem desenterrou a lenda delas das profundezas do esquecimento, estava ali, era ele quem lhe oferecia aquele alívio. Olhou de soslaio para a deusa-selo adormecida, ela ainda se agarrava ao novelo dourado, completamente alheia ao que acontecia. Não podia deixar que ela caísse nas mãos dos servos de Hades, não podia. Mesmo assim aquela oferta era tentadora, dado à sede e as fortes dores que o assolavam. Mirou novamente a face apática do Deus do Sono, a expressão bambeando entre a fraqueza e a raiva, e bradou:
— Não preciso da sua piedade!
— Nem a terá, pois tal coisa não faz parte de minha natureza. — Nada no tom ou no semblante de Hypnos se alterou, ele apenas permaneceu lhe oferecendo a garrafa. É certo que ele já sabe tudo o que Dégel e eu descobrimos em Jamiel... Não perderia tempo me interrogando sobre coisas que já sabe. Podia ouvir sua garganta seca sussurrando aos seus ouvidos. Ninguém, além de mim, pode ver ou sentir Agathia. Não contei a ninguém sobre ela. Está segura, mas talvez deixe de estar se me fizerem em pedaços e ainda assim eu continuar a viver.
O Dourado de Peixes ainda resistiu por mais alguns instantes, mas acabou por ceder à sede, sorvendo o líquido em sôfregas goladas. O descer rompante do preparado arranhava sua garganta, mas era agradável, até demais. Era refrescante e o sabor adocicado.
Mais de um minuto se passou. Diferente do que esperava, Hypnos permitiu que bebesse todo o conteúdo da garrafa. Era de uma paciência notável para um servo de Hades e um deus. Assim que terminou, ele a tampou e guardou numa das dobras da túnica.
— Sobre o que quer conversar? — Albafica o questionou após retomar o fôlego, vendo com espanto ele puxar o tomo da bengala, revelando a fina lâmina chamada Sinneren. Achou que ele fosse golpeá-lo e tentou se preparar, mas tudo que a espada cortou foram as algemas que lhe prendiam, deixando que despencasse no chão malhado de rubro. Feito isso, o deus voltou a embainhá-la, indo até a mesa à esquerda do cômodo num andar coxeante e recolhendo o pano cinza que a cobria enquanto o Cavaleiro de Peixes se esgueirava para junto da parede. A queda havia sido dolorosa, mas se sentia bem melhor agora sem os membros dependurados.
De posse da cadeira que antes estava ao fundo da sala, Hypnos se aproximou do prisioneiro, pondo-a diante dele. Depois colocou a bengala debaixo do braço, abriu o pano cinza que trazia consigo, cobriu o rapaz e se sentou, deixando a bengala recostada à sua perna direita e as mãos ao colo. Albafica observara os movimentos dele com um olhar arisco, não entendia o porquê dele estar sendo tão atencioso — presenciar tais atitudes empreendidas por alguém com aquele rosto era perturbador demais para ele, e talvez fosse essa a ideia, deixá-lo perturbado o bastante para que se rendesse —, mas aceitou o cobertor improvisado de bom grado, encolhendo-se sob ele para se aquecer.
Hypnos finalmente retomou a palavra:
— Embora eu não aprecie os métodos bárbaros de Thanatos, sou tão servo de Hades quanto ele. Falhamos em todas tentativas de determinar o paradeiro de Athena e, mesmo que isso soe insistente, você, como um dos Cavaleiros de Ouro, ainda é a melhor fonte de informação. Então, devo lhe perguntar... — Albafica soltou um suspiro claramente impaciente, mas também de alívio mascarado. Parece que os Quatro Selos ficarão fora dessa conversa, então Agathia está segura. — Tenha em mente que não o ferirei independentemente da resposta que me der. Só peço que seja sincero. Se for, procurarei meu irmão depois de deixá-lo e, uma vez confirmada a verdade, não haverá mais razão para que ele o torture, ele também não poderá gastar mais tempo com isso, pois o imperador Hades o puniria por se desviar do dever que o incumbiu. Tem a minha palavra.
— Claro que tenho porque você, diferente de Thanatos, é um deus benevolente — o Cardeal do Oeste rebateu, azedo. Não gostava de ver aquele deus das trevas agindo daquela forma, como se fosse alguém honrado e decente. Antes fosse mais como Thanatos, assim se veria a vontade para xingá-lo.
— Benevolência também não é da minha natureza — falou o Sono, indolente a sua provocação. — Apenas acreditarei em suas palavras.
Suspirou novamente. Não conseguiria irritá-lo, estava mais do que claro, então deixou que todos os traços de sarcasmo e raiva abandonassem sua face, restando apenas a determinação que o mantinha e a dor que o fustigava, dizendo:
— Eu não sei onde Athena está. Nunca estive na presença dela ou de qualquer Cavaleiro, exceto Shina de Ofiúco, que me entregou a Cloth Stone de Peixes e depois desapareceu sem deixar rastros. — Aquela era a verdade, mais bem explicada que antes, mas a mesma verdade que vinha dizendo e redizendo a incontáveis horas, embora Thanatos e Minos não conseguissem aceitar. — Não posso ajudá-lo.
O olho bom de Hypnos ainda o analisou por um instante, após o que se fechou.
— Compreendo. — Foi tudo que o Sono disse a respeito da declaração do Cavaleiro antes de apanhar a bengala, se erguer da cadeira e principiar sua caminhada para abandonar a sala, porém se deteve após alguns passos, voltando a fitar, por cima do ombro, o rapaz. Embora sua expressão seguisse apática, o olhar trazia um interesse peculiar e algo semelhante a uma preocupação receosa. — Você não consideraria deixar de lado a armadura de ouro que só lhe trouxe sofrimento para se tornar servo do senhor Hades?
— Como? — Foi tudo o que Genero pôde dizer diante da surpresa.
O deus se voltou para ele.
— Mesmo com sua doença, alguém com seu nível de habilidade seria de grande ajuda para o Exército do Submundo. Você teria mais a ganhar do que nós. Além de sobreviver a esse lugar, poderia ficar ao lado de Minos. É o que você quer, não é? Vejo o quanto essas feridas lhe doem na alma, bem mais do que na carne. A dor de ver aquele em quem mais confia mudar, afastar-se de você, transformar-se em seu inimigo...
— Acha mesmo que eu trairia todas as pessoas da Terra e Athena por causa de um assunto pessoal? — Enquanto falava, Albafica podia ouvir as palavras ásperas com que Minos retribuíra sua preocupação e carinho. Gostaria de sentir raiva delas, mas tudo que sentia era vontade de chorar. — Não me subestime, Hypnos! — Mas não iria fazê-lo, então fechou os olhos.
— Não o subestimo — Diferente do que pensava, Hypnos não desistiu. Parecia decidido a recrutá-lo, o tom era quase obstinado —, sei que a força de quem já passou por tantas provações é grande, mas todo homem teme alguma coisa, você não é exceção. É a solidão o que você mais teme.
— Não.
— É, sim. Um dia, você temeu ver aqueles que amava sofrerem, e ainda teme isso, mas a dor de estar sozinho novamente, sem poder tocar ninguém, o apavora. E Minos é o único ser no mundo em quem você pode tocar sem receio e você o perderá, vivendo ou morrendo nesse lugar, a menos que abandone Athena e se converta num Espectro. Assim também estará sempre próximo de seu pai. — Albafica abriu os olhos a simples menção do pai, percebendo que Hypnos tinha se aproximado um pouco mais de onde estava. — Por mais que não possam conversar, ele pelo menos poderá vê-lo através de mim. Verá que está feliz ao lado de Minos e seguro de machucar alguém com o próprio corpo. Ele estará a salvo do sofrimento que o impingem a sua dor e ausência.
— Não brinque comigo! — Albafica gritou, sentando-se e sentindo todo o corpo explodir numa dor lancinante. Agathia acordou assustada e Hypnos recuou um passo, a testa levemente franzida e a mão livre erguida, como se para pedir calma ao irritado rapaz. Albafica sentia que ia desmaiar de tanta dor, mas como a garganta estava bem hidratada continuou gritando, tamanha era sua raiva. — Minos já deixou bem claro que não passo de uma marionete que ele já cansou de usar! Isso não irá mudar mesmo que eu venda a minha alma a Hades! Sem falar que meu pai nunca me deu a mínima! Para ele eu nunca signifiquei nada! Sou só um projeto que não deu certo! Um inútil que só atrapalha! — Suas vistas escureceram, então engoliu em seco e recostou as costas na parede para não tombar de vez, espremendo as próximas palavras entre ofegos e gemidos reprimidos. — Trair Athena por eles... Nunca ouvi nada tão absurdo.
— Se essa é sua decisão, então que seja. — O Deus do Sono se mantinha firme em sua expressão indiferente, mas a voz soou desapontada, quase sem-graça. — Direi a Thanatos que já não há motivos para mantê-lo sob custódia. Adeus. — Hypnos foi até a porta, mas não a abriu. — Não é da minha conta, mas talvez você deva saber que seu pai não o deixou naquele quarto de chalé há seis anos para retornar ao trabalho — disse ele sem se virar novamente para olhar o prisioneiro. — Ele foi providenciar um remédio para curá-lo daquele resfriado e quando retornou você estava ardendo em febre, inconsciente e delirante. Ele não o abandonou até que melhorasse, como em todas as vezes que você esteve em condições críticas, e isso acabou custando o negócio pelo qual ele havia viajado até a Suécia. Por isso, vocês voltaram a Grécia antes do previsto, não por ele ter pedido a paciência com você. — Ele abriu a porta. — Essa é a resposta para a pergunta que você nunca se dignou a fazer, Cavaleiro de Athena. — Hypnos voltou o rosto para o interior do cômodo só o suficiente para que Albafica visse a linha escarlate, que lhe escapava do olho bom, este que tinha o azul opaco diluído rapidamente em ouro obscurecido. — Amor.
O Sono se foi, deixando para trás o som da porta batendo, que reverberou pela cabeça de Albafica, fazendo-a latejar dolorosamente. Ele cerrou os olhos, gostaria de poder cerrar também os ouvidos. Sua mente revisitava seu passado, detendo-se nos momentos que estivera com Arnan, procurando ignorar toda a frieza e indiferença dele.
O brilho de expectativa que marcava o olhar do pai enquanto lhe esperava dizer se aceitava ou não iniciar o treinamento com as Rosas Diabólicas e o Elo Carmesim, a tentativa dele de mantê-lo longe de tudo e de todos, de impedi-lo de usar a Lâmina de Rizao, o encerramento de seu treinamento, a mania de lhe tratar como alguém que necessita de cuidados constantes, alguém incapaz de tomar as próprias decisões, a profunda irritação que o consumia ao adentrar o quarto daquele chalé e lhe encontrar adoentado por causa de sua falta de juízo, o aspecto descabelado dele, até mesmo a sensação que teve ao acordar na manhã seguinte, de que alguém tinha acarinhado seus cabelos e o acalmado durante os piores momentos da noite. Essa sensação... Sempre a tinha quando despertava após um período de mal-estar inconsciente e sempre julgara ser o eco do cuidado da mãe, mas sua mãe não havia estado naquela noite na Suécia, há seis anos.
Durante um longo tempo, interpretara tudo isso como falta de interesse e paciência, subestimação e até vergonha, por causa da frieza de Arnan, mas agora, percebia que era excesso de zelo. Não, não é isso! Hypnos só estava brincando com minha cabeça. Se meu pai me amasse, não me trataria com tanta indiferença! Albafica tentou se recompor, mas logo ouviu a própria voz, na infância, dizer: Estou com medo, pai. Tenho medo de como ela vai reagir. Não quero que nada de ruim aconteça a ela.
Naquela ocasião, temia que a mãe soubesse que estava piorando, que o tratamento não estava adiantando de nada, temia que ela acabasse sofrendo ao ponto de ficar doente também, então mentira para ela. Mas não para o pai. Não conseguia mentir para ele, não precisava mentir porque ele não iria se abalar por sua causa. Ele iria sofrer por não ter um herdeiro, não por sua causa, não por sua culpa, então não tinha porquê esconder a verdade dele, podia falar com ele.
Um dia, você temeu ver aqueles que amava sofrerem, e ainda teme isso, Hypnos dissera e estava certo. O fato de Arnan não sofrer por sua dor mais o aliviava do que magoava quando criança. Era um bálsamo que com o tempo também se tornou uma inquietação. Se só interessava para ele como o herdeiro que deveria perpetuar sua linhagem, por que ele se dera ao trabalho de mantê-lo vivo, de torná-lo forte o bastante para se erguer, se sabia que se tornaria incapaz de fazê-lo?
Essa é a resposta para a pergunta que você nunca se dignou a fazer, Cavaleiro de Athena. Amor. Era doloroso admitir, mas o Sono tinha razão. Todas as atitudes de Arnan para consigo, até mesmo o modo frio como o tratava, eram porque ele pensava em seu bem-estar. Não era ele quem não o conhecia, mas sim o contrário. E por sua ignorância arrogante, Albafica o traiu e permitiu que Hypnos o absorvesse de vez.
Ainda a sós na pequena e úmida sala com Agathia, que o observava de seu canto com um olhar apiedado, Albafica sucumbiu aos prantos de desespero puro que se acumulavam em seu peito, certo de agora estava mais sozinho do que nunca, nos braços de seu maior medo como jamais havia estado.
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