Alianças de Sangue e Ferro
5 O Brilho da Estirpe Tudor
Dois dias haviam se passado desde a conversa franca no Salão dos Espelhos, e uma calmaria incomum pairava sobre o palácio. Mas não era uma calmaria de tédio, e sim de antecipação. O Grande Banquete Anual do Povoado era uma tradição onde a nobreza abria as portas para os líderes locais, uma exibição de poder e benevolência que exigia perfeição.
No estrado real, o Rei Ricardo quebrou todos os protocolos de sua habitual distância. Ele não apenas se sentou ao lado de Katherine, como buscou a mão da rainha, cobrindo-a com a sua e depositando um beijo demorado sobre as juntas de seus dedos.
— Você fez um milagre em quarenta e oito horas, Katherine — sussurrou Ricardo, os olhos brilhando com uma admiração que ia além da política. — Eu nunca a vi tão radiante quanto hoje, e sinto que devo isso à sua paciência com minha filha.
Katherine sorriu, um sorriso que, pela primeira vez, alcançou seus olhos de forma genuína.
— O crédito é dela, Ricardo. A força sempre esteve lá; eu apenas dei a ela o molde certo para que ninguém a subestimasse.
As trombetas ecoaram, anunciando a entrada dos herdeiros. O mestre de cerimônias bateu o bastão no chão de mármore, sua voz preenchendo o salão.
— Sua Alteza Real, Príncipe Marcone Tudor! — O primogênito inglês entrou com passadas firmes, a capa vermelha pesada sobre os ombros, exalando a confiança de um futuro rei.
— Sua Alteza Real, Princesa Sofie de Petrovic! — Sofie surgiu como uma visão de elegância, cada movimento calculado, encontrando Marcone no centro do salão com um aceno de cabeça respeitoso. Eles trocaram um olhar de cumplicidade, já agindo como os líderes que o reino precisava.
— Sua Alteza Real, Príncipe Lucas de Petrovic! — Lucas entrou sob os aplausos. Ele exibia seu habitual ar de superioridade, ajeitando os punhos da camisa de seda, pronto para ser o centro das atenções.
Houve uma pausa dramática. O mestre de cerimônias respirou fundo, anunciando o último nome com uma ênfase especial.
— Sua Alteza Real, Princesa Alice Tudor!
O salão mergulhou em um silêncio absoluto. No topo da escadaria, Alice apareceu. Ela estava magnífica. O vestido francês era uma obra-prima de tons creme e ouro, com uma saia armada que parecia flutuar. Seus cabelos loiros estavam presos em um penteado alto e sofisticado, com cachos perfeitos caindo delicadamente de sua tiara de diamantes. Ela não corria; ela flutuava, mantendo a cabeça erguida com uma nobreza que até então escondia.
Lucas, que estava parado no meio do salão, sentiu o ar escapar de seus pulmões. Sua boca se abriu levemente, e ele esqueceu completamente de manter sua expressão de desdém. Alice parecia uma deusa esculpida em mármore e seda.
Marcone, agora seu irmão de consideração e notando o estado de choque de Lucas, aproximou-se e rindo baixo, deu um toque no ombro do outro rapaz.
— Cuidado, Lucas. Se continuar olhando assim para minha irmã, vai esquecer como se respira.
Sofie, posicionada ao lado deles, abriu seu leque para esconder um sorriso travesso.
— Limpe a baba, Lucas — sussurrou ela, divertida. — É apenas a "menina sem modos" que você tanto criticou. Tente não desmaiar quando ela chegar perto.
Alice desceu o último degrau e caminhou em direção a eles. Ao passar por Lucas, ela percebeu o choque no rosto do príncipe e sentiu uma satisfação deliciosa. A música da valsa começou a preencher o ambiente. Seguindo a etiqueta, Lucas estendeu a mão mecanicamente, e ela a aceitou com uma leve reverência.
Enquanto deslizavam pelo salão na valsa, Lucas permanecia em silêncio, os olhos fixos na transformação diante dele.
— O gato comeu sua língua, príncipe? — Alice perguntou, a voz baixa e carregada de uma classe impecável, embora seus olhos tivessem aquele brilho travesso de sempre. — Ou será que o peso do meu vestido é demais para os seus olhos franceses?
Lucas recuperou a postura, embora seu coração ainda batesse de forma desordenada.
— Eu apenas estava tentando decidir se é realmente você ou algum espírito que tomou seu lugar. Devo admitir... a França lhe cai bem, Alice. Você está... diferente.
— Diferente? — Ela arqueou a sobrancelha, girando com perfeição no ritmo da música. — Katherine me ensinou que a classe é uma armadura. Mas não se engane, Lucas. Por baixo da seda, ainda sou a mesma que pode te derrubar no barro. Só decidi que seria um desperdício não deixar você sem palavras pelo menos uma vez.
Lucas sorriu de canto, apertando levemente a mão dela durante a dança.
— Pois saiba que você conseguiu. E isso é a coisa mais irritante que você já fez até agora: estar tão bonita que eu não consigo nem reclamar da sua presença.
No estrado, Ricardo observava o par com um sorriso satisfeito, aproximando-se ainda mais de Katherine.
— Parece que a guerra deles mudou de tática — ele comentou. — E a nossa, Katherine... eu gostaria que a nossa se transformasse em algo real. Sinto que este contrato foi a melhor decisão que já tomei.
Katherine olhou para o marido e, pela primeira vez, permitiu que sua guarda baixasse. O amor, antes uma palavra proibida, começava a sussurrar pelos corredores de Versalhes.
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