Alianças de Sangue e Ferro
18 As Manchas da Honra e o Peso do Dever
A manhã em Versalhes nasceu cinzenta, como se o próprio céu se recusasse a brilhar após a invasão de privacidade da noite anterior. No Salão do Conselho, o Arcebispo de Paris, com uma solenidade que beirava o cruel, exibiu aos olhos dos ministros e dos Reis o lençol de linho finíssimo. A mancha carmesim no tecido era a prova legal, o selo de autenticidade que validava o tratado entre duas nações.
— A pureza da nova Rainha é atestada. A união está consumada perante Deus e os homens — declarou o clérigo.
Ricardo assentiu com um alívio frio, enquanto Katherine desviava o olhar, sentindo pela primeira vez um travo amargo de culpa pelo preço que sua "filha" política tivera que pagar.
O Banho de Purificação
Longe dali, nos aposentos reais, o som da água sendo despejada em uma imensa banheira de cobre era o único ruído. Alice estava sozinha. Ela entrou na água quente quase fervendo, sentindo a pele arder, mas a dor física era preferível à sensação que a dominava.
Ela pegou uma bucha de crina e começou a esfregar o corpo com uma força desesperada. Seus ombros, seus braços, seu ventre... Alice esfregava até que a pele ficasse em carne viva e avermelhada. Ela se sentia marcada, invadida, como se a plateia que estivera atrás das cortinas tivesse deixado impressões digitais em sua alma. Lágrimas de raiva e humilhação misturavam-se ao vapor da água.
— Nojento... — sussurrou ela para as paredes vazias. — Tudo isso é nojento.
O Despertar do Príncipe
Lucas entrou no quarto momentos depois. Ele estava vestido com uma túnica leve, o rosto carregando uma expressão que não era mais a do libertino arrogante, nem a do noivo venenoso. Ao ouvir o som frenético da esfregação vindo de trás do biombo, ele parou.
Ele caminhou lentamente até a borda do compartimento de banho. Através do vapor, ele viu Alice. Ela não percebera sua presença; continuava a esfregar o braço com tanta violência que parecia querer arrancar a própria pele.
— Alice... pare com isso — disse ele, a voz baixa e desprovida de qualquer sarcasmo.
Ela deu um pulo, cobrindo o peito com os braços, os olhos azuis faiscando de uma fúria vulnerável.
— Saia daqui, Lucas! Você já teve o que queria, já deu a eles o que eles pediram! Vá celebrar sua vitória nas tavernas!
Lucas não saiu. Ele deu um passo à frente, observando as marcas vermelhas no corpo dela.
— Não houve vitória ontem, Alice. Não para mim — ele admitiu, e pela primeira vez, sua voz soou humana. — Eu sei o que aquela cerimônia... o que aqueles homens lá fora representam. Eu notei que você não está bem.
— Ah, notou? — ela riu, um som seco e quebrado. — Notou que eu me sinto como um animal de exposição? Que cada toque seu ontem à noite parecia uma assinatura em um contrato de venda? Eu me sinto suja, Lucas. E não há água quente o suficiente na França para limpar o que vocês fizeram comigo.
Lucas sentou-se na borda da banheira, mantendo uma distância respeitosa, mas sem desviar o olhar. Ele estendeu a mão para tirar a bucha de crina das mãos trêmulas dela.
— Nós fomos forçados a ser monstros um com o outro — sussurrou ele. — Mas o conselho já partiu. O Arcebispo já conseguiu sua prova. Agora somos apenas nós dois neste quarto. Se você quiser me odiar, odeie. Mas não se destrua por causa do que eles nos obrigaram a fazer.
Alice soltou a bucha, deixando os ombros caírem enquanto o choro finalmente vencia sua resistência. Lucas, em um gesto que nunca imaginaria fazer três anos atrás, pegou um pano macio, molhou na água e começou a passar suavemente sobre os ombros feridos dela, tentando curar com silêncio o que as palavras de ambos haviam estraçalhado.
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