Aliança Importuna
2 I — A princesa
Notas iniciais

— Vince, você tem certeza disso? — Aili perguntava pela centésima vez. Doía-lhe o coração ver seu filho casar-se por obrigação, odiava isto.
— Sim mamãe, já lhe disse. E mesmo se quisesse, agora é muito tarde para voltar atrás. — Ele falou, fazendo a mãe dar um sorriso orgulhoso, porém triste. Realmente era tarde demais para voltar atrás, afinal era o dia do casamento. Mesmo se não fosse, após aceitar a proposta não poderia simplesmente recusá-la. Ele estava devidamente arrumado, suas roupas eram de um cinza claro, com alguns detalhes em prata e azul escuro, que era a cor da capa que usava. Seus cabelos loiros estavam mais alinhados que o normal, enquanto a fina coroa de ouro envolvia sua cabeça. Ele já estava indo para o local da cerimônia, onde seu tio já estava pronto para celebrá-la. Havia centenas de pessoas no local, toda a nobreza de Aster e boa parte da de Alúrion estavam presentes. Nesse momento o loiro se pôs a pensar no que faria se a teoria de seu tio a respeito da aparência de sua noiva estivesse correta... Abandoná-la no altar só causaria uma guerra, então o que faria? Mesmo que houvesse uma reunião para esta noite mesmo, isso só o livraria por esta noite, não é? Mesmo que pudesse ter a mulher que quisesse, ainda teria que cumprir suas obrigações como marido, ou não?
— Isso não é hora de pensar nisso Vincent... — O loiro murmurou para si mesmo enquanto cobria os olhos com uma mão.
— Arrependido príncipe Vincent? — Ouviu uma voz irritantemente familiar atrás de si.
— De maneira alguma Rosemary. — Ele respondeu, virando-se e se deparando com a garota de cabelos rosados. Aquela era Clain Rosemary, a filha mais velha da família Clain e uma de suas candidatas à esposa. Ele até pensou em ter um relacionamento sério com a doce mulher que tanto lhe amava, até descobrir que ela amava apenas a sua coroa. Mas nada que lhe afetasse, nunca chegou a amá-la, ao contrário do que a mesma pensava. Ela era tão egocêntrica que não aceitava o fato de Vincent não se interessar mais por ela.
— Mesmo? Não é o que parece. — Ela sorriu — Seria mais fácil se você tivesse se casado comigo, então teria uma bela esposa que te ama, mas agora está a se casar com uma desconhecida. — lamentou-se com lágrimas nos olhos. Vincent quase revirou os olhos perante aquele teatro.
— Já eu acho que o melhor está sendo agora, afinal isto será bom para o reino, inclusive para você. Agora eu preciso ir. — Ele falou dando as costas à mulher, mas não antes de ver seu rosto irritado. Uma das pessoas que menos gostava era Rosemary, ela usava sua beleza para persuadir todos ao seu redor, usando de lágrimas incrivelmente falsas para fazer-se passar por uma moça frágil, quando na verdade era tão perigosa e traiçoeira quanto uma cobra.
— Príncipe, aí está você! — Lei, o primeiro ministro, chamou — Rápido, a carruagem de sua noiva acaba de chegar. — Lei chamou, fazendo Vincent apressar o passo em direção ao “palco”. Afinal aquilo era um show para aquietar os cidadãos de ambos os países. Ele colocou-se a frente de seu tio, olhando para enorme carruagem com o brasão da família real de Alúrion que estava pairando em direção ao local onde estavam. Por segurança a princesa desceria bem ali.
— Hora da verdade. — Jeile falou extremamente baixo para Vincent, olhando para a carruagem — Está pronto? — Jeile perguntou, parecendo mais ansioso para ver o rosto da princesa do que o próprio noivo.
— Sim. — Vincent respondeu sorrindo, olhando para o tio de canto. Nesse momento algo incrivelmente inesperado aconteceu. Um raio negro cruzou o pátio e acertou a carruagem, explodindo-a. O autor de tal ato não fez questão de se esconder, pois começou a rir, sendo cercado pelos guardas de Aster enquanto os da princesa a procuravam em meio aos destroços.
— Princesa Charlotte! — gritou uma das nobres,, e logo um silêncio medonho instalou-se no local.
— Não adianta procurar, ela foi pulverizada! — O homem de cabelos e olhos castanhos gritou contente.
— Sabe que morrerá por este ato, não sabe? — Jeile perguntou em voz alta ao homem que se riu.
— Que me importa minha morte se eu fiz a vontade de meu mestre. — respondeu ao rei, sorrindo.
— Então creio que seu mestre ficará muitíssimo decepcionado contigo. — Uma voz doce e branda ecoou no pátio, fazendo com que todos olhassem para cima, procurando-a. Uma linda moça de cabelos e olhos negros, contrastantes com o tom claro de sua pele e o branco de seu longo vestido, enfeitado por fitas rosa claras, estava sentada sobre um cetro mágico; este era negro cheio de pontos luminosos, como se fosse um céu estrelado; no topo um hexagrama que, assim como o resto do cetro, parecia o céu noturno. Mesmo que o vestido não permitisse ver direito, suas pernas estavam cruzadas enquanto suas mãos pousavam ao lado de seu corpo, sobre o cetro. Vincent analisou a moça minuciosamente. Ela era incrivelmente linda, com certeza uma das moças mais bonitas que já havia visto. Pode reconhecê-la rapidamente como a princesa Charlotte, pois usava um diadema feito de ouro branco com cristais, e por seus cabelos estarem presos era possível ver a marca real de Alúrion no lado esquerdo de seu pescoço.
— Sua desgraçada... — O homem tentou atacá-la novamente, porém foi devidamente detido pelos guardas. A princesa levantou-se do cetro e flutuou levemente até onde estava Vincent, que não lhe tirou os olhos por um momento. O cetro em sua mão desfez-se em um pequeno hexagrama cristalino, que voltou para o pingente do colar que ela usava. Vincent não a conhecia, mas sabia que ela devia ser bastante habilidosa para escapar daquele ataque tão rapidamente.
— Princesa Charlotte, está bem? — Um de seus guardas pessoais perguntou, confirmando que aquela era Charlotte. A moça sorriu.
— Perfeitamente. — Ela respondeu, para então fazer uma elegante reverência ao rei e aos príncipes presentes.
— Lamento por esta falha em nossa segurança, mas fico feliz que esteja bem. — Jeile falou a princesa, nesses raros momentos Vincent o via como rei. Pois sempre o via em casa como um tio completamente louco.
— Oh, não se preocupe com isto. — A princesa falou, sua expressão era despreocupada — Imaginei que aconteceria algo do tipo, houve várias tentativas como esta no meu percurso até aqui. — concluiu, porém ninguém ficou totalmente surpreso. Era óbvio que os inimigos políticos não estavam felizes com este casamento, e ainda havia o rei de Gália.
— Pois bem. — O rei pronunciou-se em voz alta, chamando a atenção de todos. — Passado este incidente lamentável, daremos prosseguimento à cerimônia. Esta noite será oficializado o laço matrimonial entre Aster-ae-Daemonia Eucarystia Vincent e Alúrion Belmont Lial Charlotte. — O rei deu início ao discurso cerimonial, o qual Vincent não ouviu nem a metade. Ele olhava para a moça ao seu lado vez ou outra, os olhos dela estavam voltados para o rei, mas ele tinha a ligeira impressão de que ela também não ouvia o que era dito. A atenção do príncipe só se voltou a cerimônia quando o Rei lhe dirigiu a palavra diretamente — É de espontânea vontade que ambos aceitam unir-se? — Jeile perguntou, Vincent e Charlotte olharam-se ligeiramente, em uma mensagem silenciosa que dizia “não tem volta”, antes de responderem.
— Sim. — disseram em uníssono.
— Com isto, eu o Rei Aster-ae-Daemonia Eucarystia Jeile, declaro-vos oficialmente casados. A partir de hoje são esposo e esposa, e devem honrar seu laço matrimonial. — concluiu o rei, olhando para ambos. Todos esperavam apenas um ato para finalizar a cerimônia, e eles sabiam disso. Charlotte levantou ligeiramente seu rosto com o intuito de encarar Vincent, ele se sentiu perdido ao encarar aqueles olhos negros, não expressavam nada que ele conseguisse decifrar e isso o incomodava. Ele aproximou-se da moça, erguendo seu rosto delicadamente antes de beijar-lhe, fazendo com que finalmente as palmas soassem no pátio.
Agora era oficial; eles estavam casados.
Vincent sentia-se um pouco confuso. Nunca quisera se casar e estava apreensivo em se casar com alguém que não conhecia, ainda não achava algo bom, porém não chegava a ser ruim. Além de linda, Charlotte parecia ser poderosa e muito interessante, porém ele não conseguia saber o que ela pensava a respeito daquele casamento. Sua expressão neutra estava matando-o. Após o termino da cerimônia eles entraram rapidamente, e então os portões do palácio foram fechados por segurança. Ele teve de ir diretamente para a sala de reuniões para encontrar-se com o rei, seu pai e o primeiro ministro. Depois do atentado contra a princesa era necessário que houvesse uma reunião para tratar da segurança.
— Oh, Vincent. — Adam murmurou no momento em que o loiro adentrou a sala, ele sentou-se ao lado do pai, já que o primeiro ministro estava do lado esquerdo do rei.
— Vince, lamento por ter que vir a esta reunião na noite de seu casamento, ainda mais com uma esposa tão bonita... — Jeile falou, fazendo Vincent rir enquanto revirava os olhos.
— Temos coisas mais importantes a tratar. — Vince falou, fazendo o tio assentir.
— Ao menos o futuro rei tem a cabeça no lugar... — Lei falou enquanto lia uns papéis, fazendo Jeile olhar feio para ele. — Enfim, o grande problema do incidente de hoje é que não sabemos sua origem. O criminoso recusa-se a revelar quem é seu mestre, e temos muitos suspeitos. Pode ser qualquer inimigo político dos reis Jeile e August, ou pode ter sido obra de Gália.
— Ele não fez questão de esconder-se, parece-me terrorismo. Penso que é algum inimigo político. — Adam falou, fazendo Jeile assentir.
— Eu concordo com Adam, mas devemos ficar atentos. Designarei uma equipe para fazer a segurança da princesa e os portões do palácio ficarão fechados, Vincent é melhor que vocês evitem sair do castelo por hora.
— Tudo bem. — O loiro falou, não questionaria, pois sabia que era o melhor a se fazer. A reunião não se prolongou muito e após terminarem de traçar alguns planos de defesa e sobre o que fariam do criminoso, encerraram-na.
— Vince. — Adam chamou o filho antes que este entrasse no corredor de seu quarto — Está tudo bem?
— Sim. — Vincent sorriu tranquilamente — Não tem com o que se preocupar. — falou, fazendo seu pai sorrir antes de continuar caminhando. O loiro deu um suspiro antes de ir para seu quarto, queria dormir, porém teve uma surpresa ao entrar. Charlotte estava sentada em sua cama, seus cabelos estavam soltos e ele notou serem mais curtos do que imaginava, estavam pouco abaixo ombros da moça; esta usava uma camisola branca com um hobby da mesma cor por cima. Em seus pés havia sapatilhas de pano, como as que Aili costumava usar em seu quarto, a moça tinha os tornozelos cruzados como uma dama, apesar de ter uma expressão descontraída no rosto enquanto parecia analisar o quarto de Vincent com olhos atentos. Ao notar a entrada do príncipe a moça o encarou por um breve momento, ela tinha uma expressão serena no rosto.
— A reunião terminou mais cedo do que eu esperava. — Ela comentou olhando para um ponto qualquer do quarto, enquanto Vincent fechava a porta atrás de si — Lamento invadir seu quarto, mas preciso esclarecer algo. — ela falou, apesar de parecer não se importar nem um pouco em invadir o quarto dele.
— Pois bem, diga. — Vincent falou, a moça levantou-se e ele caminhou em direção a sua cama, enquanto ela afastava-se um pouco da mesma.
— Tenho certeza que já sabe disso, mas este casamento é apenas para manter a paz entre os países. Não sou inocente a ponto de pensar que se manterá em castidade, então seja discreto com o que for fazer, não quero meu nome envolvido em escândalos. — Vincent ficou surpreso com a sinceridade da moça, que apesar das palavras, tinha a voz mansa. O loiro riu.
— Já vi a bela imagem que tem de mim. — falou irônico.
— Ora, não use de ironia. Sabemos que não é necessário ser um gênio para saber que você não é nenhum santo. — disse a princesa, fazendo Vincent sorrir sarcasticamente. Ela estava certa, não podia negar esse fato.
— É, parece-me que fui o único enganado nesse casamento. — Ele falou sorrindo, o que fez a mulher sorrir antes de caminhar para a porta, porém antes de abrir ela dirigiu-se ao príncipe uma última vez.
— Deixe-me em paz e eu te deixarei em paz, comece a me incomodar e tornarei tua vida num inferno. — advertiu, encarando-o com um sorriso quase gentil no rosto, apesar da voz um tanto autoritária. Após isto deixou quarto, fazendo Vincent rir baixo antes de jogar-se na cama.
— Que mulher arrogante. — murmurou para si enquanto olhava para o teto, não imaginava que a mulher que tinha aquele rosto tão doce seria desse tipo. — Esse casamento será interessante.
Fale com o autor