Notas iniciais
Esse é o penúltimo capítulo. Espero que vocês gostem :)

Ele estava recostado na poltrona de olhos fechados quando ouviu passos. Seus olhos então abriram, e ele a viu parada há poucos metros dele, sorrindo levemente.

— Podemos ir. — Ela diz. Mac se levanta e a observa de cima a baixo. Uma calça jeans escura, um par de tênis brancos e um moletom preto compunham seu look. Os cabelos dela estavam presos em um coque, com alguns cachos deixados de fora. Ele estava encantado.

— Ok. — Responde, simplesmente. No entanto, o detetive não se move, o que arranca uma risadinha de Stella. Ele ergue uma das mãos, enrolando um dos cachos em seu dedo. Seu polegar encontra sua bochecha, e ele se aproxima um pouco mais. Enquanto ele a olha, uma pequena parte da briga volta aos seus pensamentos.

"Eu escondo as coisas de você? É você quem não tem coragem de dizer como se sente. Agir como se as coisas entre nós não tivessem mudado, não faz com que o sentimento simplesmente suma, Mac."

— Você está bem? — Ela pergunta, confusa pela repentina mudança de expressão em seu rosto. Mac força um pequeno sorriso e tira sua mão do rosto dela.

— Sim, tudo bem. Vamos? — Ele se vira e caminha até a porta, abrindo-a para que Stella passe. Ela sabia que algo estava errado, e levando em conta que, apesar do clima entre eles ter melhorado drasticamente, nenhum dos dois tocou no assunto da briga. Era nítido que Mac estava tentando agir além da mágoa que ainda sentia, assim como Stella.

No caminho até o laboratório eles conversaram sobre tudo, menos, é claro, sobre o que de fato deveriam conversar. Eles sorriram e riram quase que o caminho todo, fazendo com que o engarrafamento tenebroso de Nova York nem os incomodasse. Já eram 18h30 quando as portas do elevador se abriram e os dois adentraram o laboratório.

— Ele está me esperando no escritório. Vou tentar resolver o mais rápido possível. — Diz Mac, a olhando.

— Não se preocupe. Vou ajudar a equipe enquanto te espero. — Ele a encara com os olhos semicerrados, fazendo-a sorrir. — Só vou ver o que eles estão fazendo e dar aquele apoio moral. Relaxa, detetive.

Com um último sorriso ela se vira e começa a caminhar pelo longo corredor em direção a sala de descanso. Mac a acompanha com seu olhar, tentando se convencer de que trazê-la foi uma boa ideia.

— Oi, chefe. Pensei que só te veria amanhã. — Danny se aproxima com alguns arquivos nas mãos, notando o olhar desconfiado do chefe. — Está tudo bem? — Pergunta, seguindo seu olhar.

— Está. É que Sinclair quer conversar comigo. Vou resolver isso e já vamos.

— Vamos? — Indaga. — Stella te convenceu de trazê-la? — Mac assente, reprimindo um suspiro cansado. — Como ela está?

— Ela diz que está bem. E talvez realmente esteja. Só estou preocupado. — Admite. — Vê-la dentro daquele carro hoje mais cedo foi assustador. Não é uma imagem fácil de esquecer. Além disso, não é como se ela não tivesse se machucado.

— Eu entendo. Apesar da concussão não ter sido grave, é bom que ela pegue leve. Mas não se preocupe, Mac. Ficaremos de olho nela enquanto estiverem aqui e a manteremos longe de encrenca. — O loiro pisca para o chefe, que sorri levemente em agradecimento. — Vou ver Sid. Ele terminou a autópsia da nossa vítima. Quer que eu te mantenha informado?

— Não, não precisa. Amanhã você me entrega os relatórios. — Danny apenas assente e se despede do amigo, entrando no elevador.

Enquanto isso, Stella observa Lindsay e Hawkes conversarem através das paredes de vidro da sala de descanso. Ao chegar na porta, eles a olham.

— Stella! — Lindsay praticamente grita, indo ao encontro da amiga para abraça-la. — O que está fazendo aqui? Deveria estar descansando.

— Mac veio resolver algumas pendências com Sinclair, então aproveitei para dar uma escapadinha. Queria ver vocês. — Agora foi a vez de Sheldon abraça-la.

— E como você está? — Pergunta o amigo.

— A minha dor de cabeça vai e volta desde que saí do hospital, mas no geral estou bem. Foi só um susto. — Ela esboça um sorriso genuíno que logo os convence. Eles então se sentam à mesa, onde alguns arquivos estão espalhados. — No que estão trabalhando?

— Uma mulher foi morta ao tentar impedir um assalto em um supermercado. — Começa Sheldon, entregando o arquivo a Stella. — O assassino estava usando moletom preto e uma máscara. As câmeras de segurança não funcionam. Não há nenhuma testemunha além do funcionário que estava lá na hora.

— E o que ele disse? — Questiona, sem tirar os olhos do arquivo.

— Ele não lembra de muita coisa. — Responde Lindsay. — O cara desmaiou no momento em que o assassino atirou na vítima. Quando ele acordou os paramédicos já estavam no local.

— Aqui diz que as evidências foram contaminadas. O que aconteceu? — Ela os olha com curiosidade. Hawkes remexe nos papéis sobre a mesa e pega uma foto tirada da cena.

— Ao que tudo indica, antes do assassino fugir ele empurrou uma das prateleiras na sessão de vinhos sobre a nossa vítima. Todos os vestígios de sangue se misturaram com o vinho. Não conseguimos usar muita coisa.

— Esperto. — Murmura Stella. — Posso ajudá-los de alguma forma? — Antes que um dos amigos pudessem responder, o celular de Lindsay toca.

— É o Danny. — Diz, olhando no visor. — Ele disse que devemos manter você longe de trabalho e, consequentemente, longe de encrenca. — Stella revira os olhos, arrancando uma risada dos amigos.

— Maravilha! — Resmunga. Novamente o celular de Lindsay toca, dessa vez com uma mensagem de Adam.

— Adam quer nos ver. — Ela junta os arquivos sobre a mesa e se levanta, sendo acompanhada por Hawkes. — Quer ir com a gente?

— Eu vou ver o Sid. Se der tempo, depois encontro vocês. — Ela da um meio sorriso para os amigos, que se despedem e saem da sala. Seus olhos descansam em um ponto qualquer sobre a mesa, enquanto suas mãos repousam nos bolsos do moletom. Stella se lembra de alguns longos minutos atrás quando Mac tocou sua bochecha e depois mudou completamente, como se tivesse notado que ultrapassara uma linha inexistente entre eles.

Há um resquício de medo dentro dela de que mesmo depois da conversa, as coisas não voltem a ser como antes.

•••

— Ei, Stella! — Danny a cumprimenta quando a vê sair do elevador, já no necrotério. — Sei que provavelmente não aguenta mais que te façam essa pergunta, mas...

— Eu estou bem, Messer. — Responde com um leve sorriso. — Então quer dizer que vocês estão tentando me manter longe de confusão? — Havia um tom desafiador em sua voz. Danny ri, desconcertado.

— O chefe está preocupado. Sabe como é. Só tentando manter você em segurança, Bonasera. Nos deu um baita susto hoje. — Ela desvia seu olhar brevemente, consentindo. Apesar de não gostar de todo aquele cuidado excessivo sobre ela, era compreensível a preocupação dos amigos. — Descanse, está bem? Preciso que minha companheira de carro volte logo. Don tem um péssimo gosto musical e ele faz uma verdadeira lambança com aqueles nachos. — Murmura baixinho, como se contasse um segredo. Stella ri.

— Pode deixar. — Com um sorriso, Danny passa por ela e entra no elevador. Stella então segue pela sala, avistando Sid de longe terminar de cobrir um corpo. — Sid?

— Stella, minha querida. — Ele desenha um largo sorriso ao vê-la se aproximar. — Não esperava ver você por aqui.

— Espero que eu não esteja te atrapalhando. — Diz ela, levemente envergonhada.

— Não, não. Eu já terminei por aqui. Posso ajudá-la com alguma coisa? Parece um pouco desanimada. — Ele observa, notando a falta de brilho nos olhos de Stella. A perita não diz nada, o que serve como resposta o suficiente para Sid. — Venha! Sente-se aqui comigo.

Sid a guia gentilmente até uma das mesas que usava para fazer anotações. Ele puxa duas banquetas e senta ao lado de Stella.

— E então, porque aquele brilho está tão distante dessas duas esmeraldas em seus olhos? — Pergunta, carinhosamente. Stella sorri de canto, desviando seu olhar para suas próprias mãos entrelaçadas sobre o colo.

— Lembra quando nos encontramos no laboratório há alguns meses atrás e você disse que eu estava com um brilho diferente? Como se eu estivesse...

— Apaixonada? — Completa. — Eu me lembro.

— Eu olhei pra você e disse: "Apaixonada? Eu? Claro que não, Sid" — Ambos riem com a lembrança. — Daí você me arrastou pelos corredores até o vestiário e parou comigo em frente a um espelho. Você disse: "É esse brilho. Está vendo?". — Stella respira fundo, a fim de segurar o choro. — Depois de um tempo eu percebi que aquele brilho só aparecia quando eu estava ao lado dele.

Sid a olhava atentamente. Havia um misto de curiosidade e expectativa em seus olhos, mas ele permaneceu em silêncio, respeitando o tempo de Stella. E então, ela continuou.

— Depois que eu percebi isso o meu impulso foi recuar. Só que a coisa toda complica quando ele é o seu parceiro e chefe. — Sid reprime um sorriso. Ele amava estar certo. — Eu tentei continuar me afastando, pelo menos pra colocar as ideias no lugar. Mas não deu, Sid. Mac sabe quando por algum motivo eu tento me afastar, o que o faz se aproximar ainda mais. É um dos motivos que fizeram eu me apaixonar por ele. — Ela desvia novamente o olhar, sentindo mais algumas poucas lágrimas rolarem. — Quando eu estava começando a aceitar as coisas como estavam, eu percebi, Sid. Algo nele também havia mudado em relação a mim.

— Ele também está apaixonado por você. — Sussurra o legista.

— Era o que eu achava. — Sua voz sai baixa, carregada de incerteza. — Ontem nós brigamos, e em um dado momento eu simplesmente o pressionei. Disse que ele não tinha coragem de admitir o que sente por mim. — Ela solta uma risadinha sem humor. — Eu o conheço tão bem, Sid. Pressionar Mac Taylor nunca foi uma boa ideia. Ele recua. É como um mecanismo de defesa. Um deles, pelo menos.

— Vocês conversaram sobre isso?

— Não, ainda não. É por isso que eu estou aqui. — Ela o olha, e tenta desesperadamente não desmoronar. — Nós já brigamos várias vezes antes e sempre nos reconciliamos. Tudo fica bem no final.

— Mas você acha que agora será diferente, certo? — Stella assente.

— Nós ultrapassamos essa linha tênue que há entre a amizade e a paixão. Não há mais volta, Sid. O que significa que as coisas não voltarão a ser como eram, e eu estou com medo disso. — Ela prende a respiração por um momento, tentando segurar a enxurrada de lágrimas que querem descer. — Eu sinto que estraguei tudo e agora não sei o que fazer. Você é como um pai pra mim, e eu preciso de um conselho.

— Stella, querida... — Sid põe suas mãos sobre as de Stella e as aperta gentilmente. — Você não foi a única que eu questionei sobre a aparência encantadora de uma pessoa apaixonada. — Ela o olha confusa, e ele sorri.

" — Sid, vim buscar o relatório da autópsia. — Sid ergueu os olhos do corpo a sua frente e observou Mac se aproximando. O homem mais velho retirou os óculos e encarou o detetive.

— Você está diferente... — Observou Sid, semicerrando os olhos. Mac guardou as mãos nos bolsos da calça social e arqueou uma sobrancelha.

— Diferente como? — Questionou. Sid se lembrou quase que instantaneamente de como Stella estava algumas semanas antes.

— Há um brilho diferente em você. — Disse ele. — Por acaso você estava com a Stella agora a pouco?

— Estávamos conversando sobre o caso. Por que? — Sid sorri um pouco.

— Nada não. Vou pegar seu relatório. — Sid se virou e caminhou até sua mesa, pegando o relatório sobre ela. — Sabe, Mac, um trabalho como o nosso exige que sejamos observadores. No meu caso isso me ajuda a notar vestígios em um corpo que normalmente outras pessoas não notariam. Ou então, perceber se um suspeito está ou não falando a verdade, você sabe... — Ele se voltou para Mac, que o encarava com o cenho franzido.

— Onde está querendo chegar?

— Depois que você aperfeiçoa esse talento tão poderoso que é observar, tudo passa a ser visto com mais clareza. Como quando vemos alguém apaixonado, que é o seu caso. — A expressão no rosto do detetive mudou. Sid sorriu levemente e entregou o relatório a ele.

— Sid, eu não...

— Pense no sorriso dela por 5 segundos, e então eu te deixarei em paz. — Pediu o legista, cruzando os braços contra o peito. Mac abriu a boca para falar, mas logo a fechou. Ele já estava acostumado com as intromissões de Sid Hammerback, mas aquele simples pedido deixou o moreno desconcertado.

— Sorriso de quem? — Indagou, se fazendo de desentendido.

— Apenas pense, Mac. — Mac alisou os cabelos com umas das mãos e respirou fundo. Ele sabia que se não desse o braço a torcer, Sid não o deixaria sair dali. Ele então parou e permaneceu em silêncio por alguns segundos. Foi quando, inconscientemente, seus lábios se contraíram num pequeno sorriso, o que arrancou uma risadinha de Sid. — Quando o sorriso dela te faz sorrir, então o amor está no ar, meu amigo."

— Eu poderia ter arrastado ele até um espelho também, mas eu realmente amo o meu emprego e queria mantê-lo. — Diz, divertido. — Aquele homem é apaixonado por você, Stella.

— Mas, e se... — Sid logo a interrompe.

— A vida é muito curta para cogitarmos cada "e se" existente. Vocês têm um ao outro, aqui e agora. Não deixe que o medo interfira no seu futuro. — Ele diz, como em um sussurro. — Se Mac for esperto, o que eu tenho certeza que ele é, ele não vai deixar que o medo o atrapalhe também.

Stella desce do banco e da um abraço apertado em Sid, que o retribui na mesma hora.

— Obrigada. — Ela sussurra, com a voz embargada. O homem mais velho se afasta após alguns segundos e ergue suas mãos, secando o rosto de Stella.

— Independente do que aconteça, nunca permita que esse brilho se apague. — Ela assente. — Ei, Mac. — Cumprimenta o legista ao vê-lo se aproximando, recebendo o aceno do ex-marine. Stella respira fundo e se vira, encontrando o olhar de Mac.

— Danny me disse que estava aqui. — Ele observa os olhos avermelhados de Stella, mas decide não perguntar. Pelo menos não naquele momento. — Já resolvi aquelas pendências. Tem mais alguma coisa que você queira fazer? — Pergunta, pacientemente.

— Eu já dei um oi pro pessoal. Acho que já podemos ir embora. — Mac assente. Stella olha para Sid e esboça um pequeno sorriso, que logo fora retribuído. Em seguida ela passa por Mac, tentando manter os olhos inchados longe dos dele. O moreno acena novamente para Sid e começa a seguir Stella, mas logo para ao ouvir seu nome.

— Qualquer dúvida, lembre-se do sorriso dela. — Ele vê o legista dar uma piscada antes de recolocar seus óculos e se ocupar em mais alguma de suas tarefas. Mac olha em direção a Stella, que o esperava em frente ao elevador. Lembrar-se do sorriso dela era, sem dúvida, a coisa que ele mais amava fazer.

Continue...