Alguns Contos Funestos
2 Uma Aplaudível Palhaçada
Eu estava ali há um bom tempo. Do outro lado da rua a vi entrar. Sua mão encantadora enrolando-se em volta da maçaneta da porta do Banco. A pele devia ser macia como veludo e quente como palha.
Ela era a escolhida. Entrara sem uniformes, provavelmente era apenas uma mulher consultando seu saldo monetário. O crepúsculo me escondia embaixo de sua capa trevosa. A rua era silenciosa e calma. Uma névoa branda flutuava por toda aquela região. Era inverno e meus pés pareciam congelar.
Distante o apitar de um navio me traz memórias crepitantes. “Cinco minutos para entrar no palco” era o significado do alarme no Backstage. Com o passar dos anos, o frio no estômago da imaturidade, deu lugar a uma ansiedade pulsante em minhas veias.
O Circo Sorcellerie estava cheio. Era assim todos os dias. No espelho a minha frente eu via um artista: A maquiagem sobre o rosto. O sorriso exacerbado de um palhaço feliz.
Ao fundo gritavam meu nome. Uma multidão erguendo a voz para saldar um ídolo. Levantava com os sapatos compridos caminhando através das cortinas que me separavam do palco. Protegido atrás delas, esperava o ascender do público. As gargalhadas exaltando meu dom.
Erguem-se os mantos vermelhos. Um clamor exuberante inicia-se. Presenteiam-me com risos. E ao findar, espero a dose do meu vício. A droga intravenosa que me leva ao nirvana: Os Aplausos.
Uma orquestra regida por mim. De todos os cantos as batidas começam. Principiam em pianíssimo e depois alcançam o apogeu me glorificando. De lesta a oeste, sob aquelas tendas, eu sou um deus.
Todavia ao decorrer dos anos, como uma música antiga, substituíram o Circo. As pessoas começaram a se entreter com outras coisas, e as cadeiras se esvaziavam gradativamente. O palco onde ocorriam as apresentações parecia ter me engolido e roubado meus sonhos. Os aplausos eram mirrados. A pequena dose que recebia era insuficiente. Até que chegou o triste dia aonde as lonas vieram ao chão. Tudo acabara e no mesmo dia desaparecera. Nenhum vestígio de minha existência restava sobre o solo. Uma borracha indolente apagara meu passado.
Empregos deviam me ver como um monstro, já que fugiam de mim em toda tentativa. Outros Circos não me queriam, já que por ser conhecido levava o nome do antigo concorrente. Procurei algo menor. Não encontrei nada. Desci degraus de humilhação.
Transformei-me num cozinheiro de um restaurante sujo. Localizado em um bairro do subúrbio, nossa última preocupação era a higiene. Faturar em cima de um idiota faminto, era nosso lema.
Aquele lugar era como uma prisão. Com o tempo a gordura faz dele sua zona de conforto. O cheiro do óleo te embriaga e alucina.
Era uma noite de sábado. Fim do expediente. Só sobrara eu e John, o chefe malacafento. As garçonetes fugiam como uma revoada de pássaros indo ao sul. Possuíam o cérebro de um pombo, mas o corpo de uma miss. E isso bastava nesse comércio decrépito.
– As meninas já foram, é melhor você, seu gordo, limpar toda essa porra direito – Ele apontava o dedo indicador para o meu rosto. Ainda fervia ao fogo o óleo das batatas fritas. Eu apenas o olhei e não me movi – O que cê tá me encarando? Não quer receber a merda da sua esmola?
Existem momentos que definem quem você será. É como uma fração de segundos que modifica seu caráter. Uma alteração em seu gene que transforma sua personalidade e refaz suas escolhas. E esse foi o meu momento.
Segurando a panela com a mão direita, despejei todo o óleo fervendo sobre ele. O chefe gritava como um alucinado. Para calá-lo despejei o liquido ardente pela sua garganta. Ele se contorcia. Jogava-se contra a parede, chocando-se contra as mesas, derrubando pratos e copos.
Todo o ódio, pela vida miserável a qual fui sentenciado, entrou em erupção dentro de mim. A chuva de gritos vexatórios que ouvi saindo por entre os lábios do homem cruel durante tanto tempo, inclinou-me à vingança.
Peguei a faca de aço que reluzia alegre. Culminante ansiava tragar sua vitima. Parecia pedir por sangue. Eu apenas atendi seu pedido. Ela cravou no peito de John, o maldito soltou um grito sufocado e morreu agonizando.
Sentia dentro de mim que ainda precisava fazer algo. Com a arma banhada no liquido carmesim cortei dele ambas as mãos. Meu espírito regozijava assegurando ser isso o certo a fazer. Segurei cada uma delas para cima e as fiz tocarem. O som do aplauso vindo de outra palma era jubiloso. Aumentava gradualmente, sentia a antiga sensação de prazer. Naquele cenário catastrófico fechei os olhos e consegui imaginar o público me adorando. As aclamações ecoando. Como uma onda um arrepio entorpecente correu pelo meu braço. Eu estava de volta.
Ao voltar pra casa, vi que essa era minha nova droga. O novo orgasmo intravenoso que me satisfazia. Então a fome cresceu dentro de mim. Comecei a procurar novas mãos. Escolhi mulheres como vítimas, já que eram mais fáceis de domar. Não existia um sistema rigoroso de escolha. Procurava um lugar onde poucas pessoas passavam e ao encontrar a garota perfeita eu cortava.
Só existia um problema: Sem o portador, as mãos apodreciam rapidamente. Isso começou a me preocupar. Então tive a ideia do século: comecei a sequestrar meninas. Trancava-as no porão. Subia até meu quarto. Passava a maquiagem delineando a felicidade em minha face. O pó, as cores, o nariz. Voltava e fazia uma apresentação empolgante. Sentia-me vivo novamente. No começo elas choravam, pediam socorro. Contudo com um pouco de correção as educava.
O show principiava Era como um pequeno circo. Amarrava-as nas cadeiras e deixava suas mãos livres de forma que conseguissem fazer o único movimento que era necessário: O aplauso. O medo dava lugar à alegria e logo conseguia observar a felicidade delas em me aplaudir. Com o tempo, cansadas queriam fugir, ou até mesmo morrer. Então as sacrificava, abrindo vaga para outras mais propensas a fazer o serviço com maior habilidade.
E era isso que fazia agora. A garota que entrara no banco tinha o biótipo perfeito. Sob o céu negro e silencioso esperava. O som de suas palmas tocando deveria ser como o cantar dos anjos.
Ela sai. Vira em uma pequena rua lúgubre: O lugar perfeito. Atravesso. Meus passos soando amenos. Adentro no nevoeiro focado na mulher de altura mediana. Nosso andar está sincronizado, contudo noto uma pequena alteração na velocidade dela.
A caçada começa.
Ela percebendo o que ocorria começa a correr. Entretanto nossa distância é muito pequena. Seguro a arma firme.
– Fique parada, se não eu atiro. – Obedece amedrontada Estamos a sós no lugar. Aproximo-me calmamente. A menina está rija, não se movimenta.
– Por favor, senhor, eu dou o dinheiro. Apenas me deixe ir. – A voz melindrosa e fina é sincera. Suas mãos tremem.
– Eu não quero seu dinheiro – Ela parece se surpreender.
– Por favor, eu tenho filhos. – Suplica deixando rolar uma lágrima. Desce como uma avalanche até cair de seu queixo macio. Eu me aproximo ainda mais, estamos um de frente para o outro. A mulher parece tão frágil. Contudo a aparência é como um vidro opaco, pouco te deixa ver. De súbito, ela arranca a arma das minhas mãos e segura meu braço me imobilizando. Cai encima de mim exercendo seu peso sobre minhas costas. Meu rosto arrasta no chão encrespado e arranhando começa a sangrar. Minha força excede a dela. Com meu antebraço acerto um golpe sobre sua fronte.
Ela resiste forte. Com uma algema prende meus braços para trás e me faz refém. O sangue começa a escorrer pelo meu rosto e pinta de carmesim minha face. Tento me soltar. Entretanto sinto o cano da arma detrás da minha cabeça. É como o dedo indicador que John apontava para mim.
– Eu sou policial, idiota – Diz empostando autoridade. Não parecia a garota singela que pedia clemência. – Você está preso.
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