Alguns Contos Funestos
3 Uma Crônica de Goddecity
Estava escuro dentro da Van enferrujada. Um cheiro ruim de podridão exalava. As mãos dela estavam presas atrás e sua face pressionava sobre a superfície metálica e gélida da qual o automóvel era feito.
A multidão cercava o veículo e batia na lataria. Gritavam, ameaçavam-na, diziam ser Marina uma imunda. Entretanto a memória da garota estava apaziguada de qualquer culpa. Os fios loiros platinados alongavam-se enquanto ela permanecia deitada. Suas lágrimas faziam a maquiagem escura borrar e marcar seu rosto como garras arranhando a pele.
“Prostituta!”, “Possuída!” e “Você vai ter o que merece!” são exemplos do clamor da população erguendo-se nas ruas de Goddecity. Se estivesse fora da Van a apedrejariam, puxá-la-iam pelas ruas arrastando seu rosto cândido no asfalto, vendo a cartilagem rasgar e o sangue escorrer como... “Como o sangue de cristo!” diria uma velha gorda vestindo roupas apertadas e comportando uma cruz entre as dobras do pescoço.
Era tão nova. Nenhuma ruga se alojava em seu semblante jovial. Sonhadoras como ela naquela cidade cristã não haviam. Queria ter sido Rainha do Baile, contudo agora um funesto abismo a separava desse sonho.
Os anos perdidos, a juventude desperdiçada em algo que nunca acreditou. Ia à igreja todo domingo. Antes do badalar dos sinos convocar os fiéis, Marina já tinha se arrumado. Vestidos de seda, um laço prendendo as mechas ensolaradas e o coração pintado em baixo do olho esquerdo. “Coração de cristo” tentava justificar quando alguma irmã perguntava a ela o que seria tal vaidade.
Tudo isso fora superficial, não digo que não acreditava em Deus. Entretanto não o via como o homem chato que adorava o silêncio e exigia uma vida maçante. Ela tinha nascido na cidade errada, disso tinha certeza. Enquanto o padre resmungava o sermão sua mente divagava em seus desejos: “Não quero ser tão comportada. Eu quero ser uma puta do século 21.” Pensava titubeando com os dedos sobra a coxa rija “Cantar nos bares vestindo roupas curtas. Ser amada, sentir o prazer luxurioso me consumindo.”. Entretanto quando tudo acabava, ela voltava a estudar e viver sobre os olhos onipotentes do todo criador.
Um buraco faz o veículo tremeluzir e sua fronte colidir com o metal. Uma de suas unhas longas e rosadas, abomináveis para os outros, quebra-se em uma lasca vagando a esmo longe da mão feminina que a abrigava. Ela sabia qual seria seu fim. Chegara o dia em que morreria e desejaria não ter vivido uma mentira. Talvez se tivesse tentado fugir. Escapar daquele imã que prende qualquer cidadão que nasce na maldita cidade, isso não aconteceria. Teria sido uma artista, conhecido homens, sentido o prazer que uma donzela puritana não pode.
Desde pequena nascera sabendo que a lei de Goddecity era diferente do resto do mundo. Enquanto outros lugares prendiam as pessoas que roubavam, ali elas eram decapitadas na praça depois de confessarem a Deus. Ao redor a evolução era contínua, ali o tempo parecia ter parado desde a Idade Média.
O automóvel parara. O barulho do freio era como o sinal de que seu fim começava. A multidão que provavelmente a acompanhara fazia um silêncio apreensivo. Passos na parte de fora circundam o veículo e abrem as portas traseiras. O sol penetra como uma espada afiada buscando uma vítima. “Horríveis anos sendo uma tola” ela pensa. Queria partir em paz consigo mesma, contudo nunca se perdoaria por ter se fixado nesse lugar hostil e inóspito. Eles a seguram, enlaçando os dedos nos braços finos e sensíveis. As lagrimas que não foram secadas, escondiam-se em seu queixo tentando pular. Antes de tirarem-na, dão a ela um liquido transparente. A jovem tenta rejeitar, contudo acaba ingerindo a substância amarga.
Enquanto a conduzem para seu destino, os olhos furtivos da população fitavam-na, agredindo-a sem palavras. A tradicional guilhotina repousava no centro da praça. O brilho suicida do aço reluzente parecia divertir-se com a situação. O padre a esperava ao lado. O semblante profundo, as bolsas de pele em baixo dos olhos, a face enrugada e o nariz pontudo e longo apontando para ela. Ajoelhou-se perante o instrumento mortal. Um tremor percorreu todo seu corpo arrepiando-a.
– Marina, nunca esperei tê-la aqui – A voz morta, recitando as palavras lentamente como num sermão – Mentiu todos esses anos escondendo sua imundice atrás da máscara de uma santa. – o povo corresponde as acusações. Gritam denegrindo-a. Um homem alto e magro berra: “Puta!”. O xingamento se espelha e enche a boca de quase todos. O padre logo levanta a mão silenciando a multidão. – Você sabe que merece isso, não é?!
– Você não tem o direito. É crime, vivemos num século onde as condenações não são assim. Vocês são loucos. Todos vocês! – Um tom desesperado adornava sua exclamação.
– Não, mocinha. Você é louca. Uma menina pega com as mãos entre as pernas no banheiro da escola só pode receber uma condenação. – Antes que a população se agite, ele continua a falar rapidamente – Rendendo-se aos pecados insanos da sexualidade.
– A juventude não foi feita pra ser bela? O que há de mais belo senão o prazer? – As palavras graves ecoando pelos lábios carnudos – Eu me arrependo de nunca ter cometido um grande erro. De ter vivido cega junto com vocês, relevando essas loucuras, pensando que um dia tudo mudaria.
– Você só tem dezesseis anos e já está tomada pelo mal. – Ele afasta os olhos dela virando-se em direção ao povo – Além do pecado sexual, ela também queimava Bíblias. Testemunhas vieram até a igreja contar.
– Isso é uma mentira. Mas... Mas e seu quisesse. Eu tenho o direito de ser contra o cristianismo. Posso fazer uma pilha de Bíblias e queimá-las na frente da minha casa. – O povo se enfurece, algumas pessoas tentam vir até ela, todavia são contidas pelos policiais que mantém a segurança no local.
– Eu não preciso dizer mais nada. Está bem óbvio que esta não tem escrúpulos algum.
– Vocês não podem fazer... fa... – antes que pudesse continuar, seu estomago contraíra-se e regurgitando como uma vertente, vomitou.
– Isso é o demônio se manifestando! – A população delira. “Matem-na!” gritam em altive tom. Sangue, tripas e pão-de-ló em uma poça maculosa no chão. Marina não entendia, não tinha porque ter vomit... A lembrança dos homens a obrigando a engolir o liquido com gosto de fel fazem-na entender. Não teria sido algo aleatório.
– Vocês me envenenaram! Me envenenaram!– Ela chora. Suas lágrimas vertem banhando sua bochecha rosada – Como podem fazer isso? Como podem ser tão cruéis? Apenas para me incriminar ainda mais.
– O diabo é mentiroso. Fala através dessa prostituta. – Os dedos longos do homem passam sobre seu cabelo – Você vai partir com Deus, querida.
O dia em que morreria chegou. Tudo o que ocorrera em seguida fora muito rápido. Ela colocara o pescoço sobre o ferro frio. Os raios solares fazendo seus olhos parecerem diamantes. Ficara pouco tempo ali. O oxigênio chegando frio até seu pulmão. A garganta soluçando. Suas mãos tremendo. Um silêncio se estabeleceu. As pessoas atônitas, ansiosas pela justiça do sangue esparramando-se. Até que o metal descera cortando o ar. Antes que pudesse gritar, a guilhotina a matou. Levara sua vida por uma pequena perda de Inocência. O cenário fúnebre era pintado com carmesim e todos se alegravam.
Seria admirável dizer que Goddecity mudara por causa dela. Entretanto isto seria mentira. A adolescente que tanto desejava, agora nada mais podia ser. Partira do jeito que tanto odiou: como uma linda mentira.
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