Alguns Contos Funestos
1 Entre Brigas e Pentagramas
Sexta-feira, 19h12min.
A casa estava silenciosa. Seus pés descalços sobre o chão frio de madeira doíam. A escuridão a sua volta era como perder-se numa caverna. Das janelas uma branda luz lunar adentrava os vidros parecendo querer espiar o que aconteceria.
O machado era pesado e câimbras repousavam sobre as articulações das mãos de Henry. Um som minucioso vinha da sala flutuando até os ouvidos do homem apreensivo. Encostado na parede ele começou a caminhar. Silenciosamente um passo após o outro se aproximava da porta aberta. Largando a arma afiada a sua frente, segurou nos umbrais gélidos. Os dedos vagarosamente instalando-se um de cada vez. Olhou através do corredor que o separava do cômodo na qual uma mulher cantava algumas notas melancólicas.
- Querido, eu sei que você está aí. – O tom feminino horripilante o assustara. Como uma onda um arrepio espalhava-se por todo seu corpo. Colocou a mão na boca tentando abafar sua respiração inquieta. — Não tente me enganar. Venha aqui. Não vai querer deixar-me zangada – Com uma pitada de sarcasmo, a mulher permitiu-se gargalhar. A risada altiva pareceu preencher todos os cantos da casa. Ele começou a recuar – Eu sei onde você está. Não tente fugir, bobinho. Venha aqui agora! – O grito fez a casa estremecer. Henry sentira o tremor na madeira chegar aos seus dedos.
- Eu estou indo. Espero que você não esteja zangada – Disse após se levantar e posicionar-se em direção a sala. Da porta entreaberta uma luz verde bruxuleava. O cheiro do sal e do enxofre que ele colocara sobre o machado era forte e causava náuseas.
- Sinto que alguém se armou contra mim. – Ela parecia farejar. Sons estranhos saíam do cômodo e adentravam os ouvidos amedrontados do rapaz. – Talvez agora seja um bom momento para discutirmos a relação.
Com a mão esquerda abriu a porta enquanto a outra segurava o instrumento aguçado. A pouca coragem que Henry possuía pareceu sumir naquele instante. Deitada sobre uma pilha de corpos ela comia a carne de um braço femíneo. Sua roupa banhada com sangue. Uma poça carmesim escorria pelo chão. A luz esverdeada vinha de velas que a circundavam. No teto um pentagrama vermelho estava desenhado.
- Digamos que eu também estive me armando. – articulou sorrindo. Recolheu uma madeixa dos cabelos loiros atrás da orelha. Com a língua limpou a gota de sangue que escorria pelo queixo sedoso. – Não se preocupe com essa sujeira, querido. Caso você queira podemos chamar a empregada amanhã.
Sexta-feira, 15h27min.
- Não, você não está entendendo. – Roger arqueava as sobrancelhas duvidosas. A casa estava vazia. Henry sentiu que poderia contar ao seu melhor amigo o que descobrira. Sentia-se apreensivo. Os dois de fronte a mesa encaravam-se. Ele tilintava os dedos sobre a madeira num ritmo frenético – Eu não estou dizendo bruxa como um xingamento. Estou falando de verdade, daquelas que tem poderes e que matam pessoas.
- Você está louco, cara.
- Quisera eu estar. Estou falando sério. Mary é uma bruxa!
- Isso é insano. Eu sempre odiei aquela vadia por ficar sentada o dia inteiro com aquele traseiro mole na frente da TV enquanto fazia você trabalhar para sustentar as suas regalia. Só que isso é demais. É loucura. – Ele gesticulava como era de costume. As mãos acentuando cada palavra proferida.
- Eu sei que pode ser esquisito. Mas isso aqui é Nova Orleans. – argumentou Henry de maneira convincente — Crescemos ouvindo lendas como essas.
- Existe um motivo para as chamarmos de lendas. É porque não existem! – Exclamou colocando os braços sobre a mesa.
- Eu desabafei com você porque somos melhores amigos. Eu não mentiria, Roger. – Um breve silêncio sobrepôs à conversa. Um olhava para outro. Tentavam absorver a informação.
- Se ela realmente for uma bruxa... – Ele não termina a frase – Quantas vezes eu lhe disse para terminar esse namoro ridículo? Dizer pra ela “Eu não vou pagar suas malditas contas de jeito nenhum. Por que não arranja um emprego?”. Dar um pé na bunda daquela vadia de gostos caros! E você, seu homenzinho burro, apenas me ignorou.
- Cara, eu preciso realmente me livrar dessa garota do pior jeito. – Ponderou esfregando as mãos sobre a testa. Tentando esquecer tudo que acontecia. Todavia, já era tarde demais.
Sexta-feira, 19h15min.
O sal em seu bolso pesava. Aqueles olhos lindos como duas pedras âmbar filtrando-o. O rosto delicado, delineando uma face doce que camuflava a criatura horrenda que estava a cinco passos de Henry.
- Você vai ficar aí me olhando? Não vai atacar sua pobre namorada? – Indagou simulando uma falsa ingenuidade. – Vamos, você não quer me perguntar nada, lindo?
- Por que eu? – Sua voz estarrecida indagava com sinceridade.
- Ah, por favor. Um jovem rapaz buscando o verdadeiro amor... – Ironizou jogando o braço humano mordido com total desleixo – Você estava pedindo pra ser enganado. Digamos que eu não seja a pessoa mais... – perdeu alguns segundos procurando uma palavra que costurasse a frase – esforçada desse mundo. – concluiu sorrindo – Precisava de um homem que pudesse me sustentar. Então conheci você que caiu como uma luva na minha mão – Disse enfatizando com o dedo apontado para sua palma aberta. – Sem contar seu corpinho que é realmente delicioso. – Terminou passando a língua sobre seus lábios carnudos.
- Sua vadia. – O sorriso irônico no rosto de Mary deu lugar a um semblante irritado.
- Iremos agir assim, você larga esse machado idiota e eu finjo que nada disso aconteceu.
- Não – Disse Henry dando mais um passo em direção a ela, pisando sobre a poça de sangue.
- Eu espero ter entendido errado.
- Não, você entendeu certo, bruxa – Ao findar da frase, redirecionando toda sua força, ele levantou a arma amolada e jogou contra ela. Seria um ataque certeiro, atravessando o crânio infernal da loira. Entretanto, com um leve aceno de sua mão, o instrumento fora jogado contra a parede, fincando na madeira.
- Você realmente achou que iria me deter só com isso, querido? – Ela ergueu-se da pilha de corpos. Seus olhos esbranquiçaram e subitamente seus pés não tocavam mais o chão. Levitando ela ia em direção ao rapaz. Henry tentou fugir, mas era impossível. Seus pés estavam paralisados naquele lugar.
O cabelo de Mary era como tentáculos contorcendo-se sem influência da gravidade. As chamas verdes das velas ardiam mais fortes. Sangue começou a cair do teto através das linhas do pentagrama. Uma fumaça embriagante começou a tomar conta do cômodo. Algumas rachaduras tragavam o chão. Ela estava na frente dele. Os olhos selvagens.
- Você ainda é uma delicia – Falou passando a língua pelo rosto do homem inquieto.
- E o que você acha do gosto disso aqui? – Inquiriu Henry tirando um punhado de sal do bolso e colocando dentro da boca da maldita bruxa.
Ela gritava tentando limpar com a mão a língua ardente. Mas era tarde, já tinha engolido uma quantidade suficiente. Caiu no chão e começou a contorcer-se.
- Eu vou matar você, seu idiota. – Sua voz era temível. Dos seus olhos vazavam sangue e com o dente ela arrancara um pedaço da língua comprida.
- Ah, você não vai – Após recuperar o machado, ele levantara sobre ela o metal amolado e desceu a arma que mordeu o pescoço de Mary decapitando-a. O corpo parou instantaneamente de se contorcer. As velas apagaram e no escuro só foi possível ouvir a voz de Henry – Por que você simplesmente não arranjou um emprego?
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