Algoritmo (Digimon)
1 Prólogo Principal: A agência
Notas iniciais
Um pálido sol começava a surgir timidamente por trás das nuvens cinzentas daquele calmo e tranquilo dia de primavera. Debaixo do céu, como em contraste à natureza que parecia sonolenta e preguiçosamente tentando acordar, as pessoas moviam-se na cidade com a pressa habitual, as cabeças ocupadas e carregadas com o estresse de sempre, começando cedo. Vidas que se moviam, vidas que traçavam seus passos, vidas que precisavam ser criadas... Vidas que surgiam.
Não era fora do comum haver discussões no prédio daquela agência em dias de semana. Os que eram calouros naquele trabalho estranhavam, mas depois acostumavam-se com o jeito flutuante e atrapalhado dela. E de fato, Marta já havia acostumado-se, também, a constantemente levar reclamações por seu desleixo e falta de atenção.
- É a terceira vez este mês! Quantas vezes preciso dizer para não confundir as fichas e nem tirá-las da ordem alfabética? – queixava-se a voz aguda de uma mulher que devia ser baixinha, pois seu topete ruivo mal aparecia por trás da interminável papelada em cima da mesa à sua frente. — Tem ideia do atraso que isso vai nos trazer desta vez?
E lá estava sua chefe; como sempre, a reclamar-lhe. A própria Marta já não sabia o porquê de não ter sido despedida após tantos anos. Nas horas em que pensava nisso, porém, sorria diante de sua lentidão: afinal de contas, trabalhava para sua mãe e sabia que seria perdoada quantas vezes possível, apesar de seu incrível histórico de desleixos acidentais. Mas sinceramente ela tentava seu melhor a cada dia, e parecia satisfeita com a vida parada e pequena que levava.
-Não, Marta, deixe que eu faço isso. Vá levar o lixo para fora, vá.
Ao sair pela porta dos fundos do abafado prédio, ela olhou para o sol que começava a sair. Ele iluminou seu rosto de meia idade, semi-enrugado, com a expressão passiva e aérea de sempre, como quem está sempre a se perder em pensamentos distantes; e os cabelos loiros na altura dos ombros, em cachos meio desarrumados. Espreguiçou-se como pôde, enquanto segurava os sacos de plástico, aproveitando a luz e o calor pela primeira vez no dia, para compensar a falta que fizeram mais cedo. O lugar era fechado por altos muros, exceto por um dos lados, que dava para uma cerca de arame, de onde o sol aparecia. No canto oposto à porta estava o latão de lixo, que basicamente era a única coisa de mais na área quadrada e vazia.
Vizinho ao prédio da agência em que ela trabalhava, estava outro prédio, cujo muro estava agora a encarar. Vez ou outra, quando passava pelo pátio vazio em que estava, costumava ouvir os ruídos do prédio afiliado à pequena agência; já haviam se tornado familiares.
Após terminar o serviço e espanar as mãos no antigo vestido, ela encostou-se na parede, e pôs-se um pouco a pensar. Respirando fundo, ela fechou os olhos e sentiu um pouco mais do calor do sol contra seu rosto, esquentando seu corpo como quem ajuda a tirar todo o sono e acordar plenamente. De repente, ela teve a impressão de a luz do sol contra suas pálpebras ficar um pouco mais forte que o comum. Levantando-se da suja parede, abriu os olhos e tomou um susto.
Foi então que ela reparou, olhando para o chão mais ou menos no centro do espaço quadrado em que estavam os fundos do prédio. Brilhando com uma luz azul intensa, e gradualmente ganhando uma forma sólida, estava um embrulho familiar, que nem mesmo seus desleixos poderiam deixar passar da primeira vez. Imediatamente ela relacionou a forma do embrulho ao prédio vizinho. Era a única possibilidade.
-Ei, Marta! Por que está demorando tanto? Venha cá pra dentro logo! – mesmo em algum lugar fechado da agência, a voz de sua mãe sempre arranjava uma maneira de atravessar e se fazer ouvida, aguda e estridente. Sem saber o que fazer, totalmente confusa, ela pegou o embrulho, que definitivamente era aquilo que pensava, e entrou.
O destino agiu naquele dia.
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