Algoritmo (Digimon)

3 Capítulo I: A impulsiva, o falso e o esquisito


Notas iniciais
Neste capítulo finalmente a história começa a se mover; uma introdução a quase todos os protagonistas e suas personalidades é o objetivo, além do pontapé inicial da história.

[ No início, cada um de nós tinha seu horizonte traçado...

BON VOYAGE!

Bon-Bon Blanco ]


Havia algo de pesado no ar típico de domingo parado que envolvia a rua, normalmente já inerte. A ociosidade e o vazio da avenida longe do centro, quase sem carros ou pessoas, eram quase palpáveis, como que um convite à preguiça e à desocupação. Não ajudava o fato de o sol tentar, sem sucesso, atravessar seus raios pelas espessas nuvens que cobriam grande parte do céu. No extremo da rua estava um clube de esportes com uma aparência vazia e solitária, apesar de a fachada verde e as portas estarem bem cuidadas.

Na calçada ao longo da rua vinham dois adolescentes, que não aparentavam ser mais velhos do que estudantes. O primeiro chamava-se Bruno. Era alto e magro, de uma pele talvez clara demais para passar despercebida, e com um cabelo escuro, curto e fino, que caía pela testa de seu rosto pontilhado por sardas. Na frente dos olhos negros usava estranhos óculos, de aros brancos com lentes quadradas e curvadas nas pontas, que lhe davam um ar exageradamente nerd e incomum. Vestia uma simples e larga camisa verde-escura de mangas curtas, jeans desgastados à altura dos joelhos, com grandes bolsos, e calçava um par de chinelos pretos que arrastava lentamente com os pés enormes enquanto andava sonolento.

Já o outro rapaz era bem mais baixo que o outro, ainda mais magro e parecia ser mais novo. Tinha uma pele bem mais amorenada e seus cabelos eram loiro-escuros e em cachos. Usava uma camiseta preta sem mangas, com detalhes brancos e adornada por desenhos vermelhos, que ficava demasiado folgada em seu corpo fino; além de uma leve bermuda azul-clara decorada de faixas brancas do lado esquerdo e pequenas, simples sandálias azul-escuras nos pés. Em seu rosto jovem estava estampada uma expressão parada, através dos olhos verdes e dos lábios meio grandes. Seu nome era Daniel.

Bruno não sabia o que pensar da situação. Era incomum ele deixar seu descanso das tardes de domingo para bater perna com alguém, e ainda por cima com alguém como Daniel. Não eram exatamente amigos; faziam mais o tipo de se falar quando necessário e se dar bem à medida de quanto fosse preciso. E ele sabia muito bem porque não conseguia se sentir à vontade com ele, assim como outras pessoas que o conheciam. Daniel era incomum. E foi uma curiosidade estranha que havia despertado em Bruno no momento em que ele apareceu literalmente do nada à sua casa (não que tivesse vindo antes alguma vez na vida), dizendo que precisava dar uma volta com alguém, que fez com que Bruno cedesse seu descanso de feriado para ir sabe-se lá para onde com Daniel.

– Pra onde é que a gente tá indo, mesmo? – perguntou ele, tentando se livrar do sono de vinte minutos atrás.

– Um clube de esportes. Ali no final da rua. – Daniel respondeu, apontando. Para um garoto que parecia não ter crescido direito, tinha uma voz estranhamente grave e direta. Bruno lembrou como achava isso engraçado nas vezes em que falava com ele no colégio, enquanto olhava para o tal clube à distância. Até que caiu a ficha de uma coisa que apenas o sono podia ter feito ele esquecer, que todos sabiam.

– Cara... Não era você quem tinha ficado com a Taís, na qui-

Daniel suspirou, meio irritado.

– É. Fui eu, sim. Mas não quero ficar falando desse assunto hoje. – Bruno olhou sem entender. – Nos últimos dois dias todo mundo tem me perguntado sobre isso, e eu não aguento mais ficar repetindo. Já é chato demais ter que evitar ela.

– Hã? Como assim... – agora Bruno estava sinceramente confuso.

Daniel deu outro suspiro, impaciente.

– É que... – de repente ele tirou seu celular, que vibrava, do bolso da bermuda. Bruno continuava a olhar intrigado enquanto ele parecia ler uma mensagem, antes de entregar o celular a ele, com um olhar que dizia “olha o que você fez”, como se a mensagem fosse culpa de ficarem falando demais sobre a garota.

Bruno apanhou o celular e leu:

Daaaan :(

ja te liguei umas 20 vezs hojee e nada!

pq vc ta sumido assim? desde ontem n

consigo falar com vc :( me liga ta? bjs

Agora definitivamente Bruno não entendia mais nada. O fato é que todos sabiam como na última festinha, na quinta-feira, Daniel havia ficado com uma garota. O motivo de todos saberem, porém, era porque não era uma garota qualquer.

Taís do C era simplesmente aquilo lá em cima. Era um fato que não era a mais gostosa, porque haviam outras como Vivi, Gabriela ou Marina. Mas de alguma maneira Taís acabava sempre roubando a cena, como se houvesse um feitiço sobre suas feições de anjinho. Seja pelo jeito com que sabia mexer com os brios dos garotos como ninguém nas conversas, atrapalhar até mesmo um professor despreparado com seu sorriso inocente, e depois passar grande parte do tempo rindo e comentando com as outras. E era impressionante como parecia haver alguma pressão sobrenatural naquele leve corpinho moreno, sempre cheiroso e que atraía desde os mais confiantes até os mais tímidos.

O fato de Daniel haver conseguido algo (coisas até demais, diziam) com ela era algo sem precedentes, afinal, absolutamente ninguém ouvira falar de Taís ficar com alguém, ou pelo menos de isso se tornar conhecido no colégio, ou fora dele. E agora que o loirinho mirrado chegara aonde ninguém chegou, o que não devia ter faltado era gente querendo tirar os fatos a limpo (pensando assim, ele até entendia a revolta de Daniel por haver tocado no assunto revirado).

– Oi.

Acordando de seu devaneio, Bruno percebeu que ele havia ligado para ela, impassível, enquanto ele remoía os fatos. Os dois garotos continuaram a andar.

– Escuta... Taís. Taís.

Outro suspiro. Bruno imaginou o que ela estaria falando.

– Olha – a voz dele engrossou de novo, apesar de continuar caminhando tranquilamente, como se estivesse no lugar de Bruno -, eu não quero saber. Para de ficar me ligando, beleza? – outra pausa. – Não. Isso tá me incomodando bastante, entendeu? Me deixa em paz. NÃO! – ele ficou em silêncio alguns instantes, como que ouvindo a resposta, e desligou tranquilamente.

Bruno olhava, estupefato. Tinha acabado mesmo de presenciar um cara – um imbecil – dar um fora na menina que fazia a cabeça de todos?

– Mas – mas que porra foi essa?

– Talvez não faça parar de me encherem o saco com as perguntas – Daniel falou, passando a mão pelos cachos com um ar de alívio -, mas pelo menos ela vai parar de ficar atrás de mim. Ela é insuportável...

Sem palavras, Bruno contentou-se em ficar quieto e tentar entender em que merda ele estava pensando. Tinham chegado à entrada do clube.

– Eu nunca suportaria ficar andando com aquela garota – ele continuou calmamente, como se sentisse que devesse uma explicação. Nem lembro de como as coisas foram parar desse jeito. Sempre tive um tesão enorme pelo tipo dela, só isso. Ninguém se lembra de como ela gostava de humilhar as outras, no ano passado, nem de como passa o tempo falando merda de gente como eu e você. E nem de como aquele tal de Felipe levou a culpa toda daquela confusão em setembro, em que ela tava envolvida. – disse, enquanto passavam pela catraca da portaria do clube, surpreendentemente sem ninguém por perto.

– Mas – começou Bruno indignado.

– E você – cortou Daniel – esqueceu daquela vergonha de meses que passou por causa dela, quando resolveu falar que estava apaixonado. Mas nem são essas coisas que me irritam mesmo nela. Ela fala pra caralho.

Parado com a boca aberta, Bruno calou-se e entrou no clube atrás dele. De repente lembrou-se do porque Daniel ser incomum. O esquisito, às vezes grosso, às vezes bobo. Aquele que, como uma máquina, analisava friamente as coisas que lhe eram pertinentes. Aquele que sempre era bizarramente sincero e quieto, e tudo isso enquanto parecia estar alheio a tudo, como se não fosse com ele.

– Cara – ele riu, enquanto começavam a andar pelo clube, que certamente daria um descanso à chatice das perguntas dos outros a Daniel após a semana cansativa de colégio -, cê é muito doido. Sério.

Daniel fez um ar de riso pela primeira vez.

–Hm.

***

A casa era enorme, mas o jardim de trás era maior ainda. Uma árvore de média idade se erguia entre as plantas, e em meio da grama bem cuidada, lindas flores e arbustos, projetava a sombra de suas folhas para parte do jardim, e sobre uma bela rede azul-escura bordada com desenhos e amarrada em duas árvores menores, de tamanhos parecidos e engenhosamente plantadas. O jardim ficava dentro de uma grande área quadrada, separada por uma cerca de tijolos que alcançava algumas dezenas de centímetros acima do solo, e o separava do resto dos fundos da casa, com mesas e guarda-sóis perfeitos para churrascos com os vizinhos. Apenas a visão dos fundos da casa era capaz de intimidar qualquer um; era certo de que os habitantes viviam uma vida de classe alta.

Ali, em cima da rede, em meio às plantas e aos ocasionais beija-flores e abelhas e sob as sombras da árvore e dos altos muros das casas adjacentes, estava deitada uma bela adolescente, de pele rosada, como quem acaba de correr vários metros e fica com o rosto corado. Seu nariz fino chamava a atenção, assim como uma pinta escura na bochecha esquerda, e seus longos cabelos castanhos estavam soltos, caindo pela rede e pelo busto, razoavelmente ondulado. Visivelmente acabara de chegar em casa, pois ainda calçava os tênis brancos e as meias, além de uma calça jeans branca e comprida, justa às grossas coxas, e uma blusa azul, de tecido leve, sobre a qual pousava as mãos, em cima da barriga. O ar ao seu redor mantinha-se impregnado com o perfume chamativo da garota.

De olhos fechados, Marina apreciava o descanso no pedaço de natureza como se o nunca o tivesse feito, apesar de fazê-lo quase todos os dias. Um ruído que aumentava chegou a seus ouvidos. Abrindo os olhos, viu um avião cruzando o céu abaixo das densas nuvens, muito ao longe. A tranquilidade era palpável.

De repente, a dor.

Uma dor, não sabia exatamente onde, a alfinetava distantemente. Outra vez. Sempre a sentia quando estava em momentos de extrema paz. Era como se houvesse esquecido de algo importante, algo que deveria estar fazendo. A tranquilidade... não era... certo...

E então a sensação se foi, como todas as outras vezes, deixando uma sensação de algo perdido na mente, reminiscente a um deja vu, porém claramente diferente; e no olhar vago de Marina, que se levantara e agora mirava vagamente em frente.

– Má?

Mirtes, a cozinheira, estava na porta dos fundos da casa, além do murinho de tijolos, com o cabelo preso e o sorriso gentil de sempre no rosto negro que se aproximava das rugas da velhice. Marina pisou no chão de grama, voltando à realidade, e foi ao encontro dela.

– Por que demorou tanto? Pelo menos almoçou bem?

– Claro, Mirtes. – ela respondeu, rindo. – A Gabi fez questão de fazer um almoço enorme pra todo mundo que foi no aniversário. Mas eu dei um jeito de pagar a minha parte lá com o dono do restaurante. – contou ela desviando o olhar enquanto ria baixinho.

Mirtes balançou a cabeça com um muxoxo. Às vezes se perguntava como ela não era roubada todos os dias, com tanta inocência.

– E a festa é de noite, né?

– Sim.

– Hum... sua mãe tá lá em cima. – falou Mirtes apontando com o polegar para o casarão. – Porque não passa o resto da tarde com ela? Eu tenho bastante trabalho a fazer.

Marina murmurou algo inintelingível antes de se abaixar para receber um beijo na testa da negra.

***

O pequeno apartamento iluminou-se quando um jovem entrou, antes de acender as luzes e fechar a porta. Caminhando brevemente em direção ao quarto, ele jogou-se na cama e olhou para o teto, quente e um pouco afobado como resultado de andar na rua. Mas tudo isso sumiu quando ele começou a contemplar o teto, com a mente vazia.

***

Era como se estivesse ali o tempo todo, e só percebera agora.

Tudo o que ele via a seu redor era um ofuscante branco, tão intenso que engolia até mesmo o que ele tentasse pensar, e o distraía, de forma que não era possível bloquear a poderosa luz. E não poderia bloquear nem que quisesse, afinal, ele não tinha pálpebras – ou olhos. De fato, o ser que acabava de acordar não tinha sequer algo que parecesse com um corpo, e flutuava inconsistente na forma de uma massa estranha, fragmentada em formatos e consistências aleatórios, e dentro da redoma talvez pequena, talvez gigantesca, preenchida – preenchida? — de luz.

Gradualmente, a sensação de queimação extrema tomou conta de seus sentidos. Era como se estivesse fervendo e sendo mexido no meio do ar. Teve vontade de gritar, mas não conseguia sentir nada além da dor, uma dor quente, como que misturando, juntando e remontando as partes flutuantes. Quando o medo do desconhecido chegou ao ápice, e ele desejou furiosamente saber onde estava – quem era – e por que doía tanto, tudo literalmente congelou.

Um frio capaz de cortar o próprio ar se instalou na redoma, e o brilho outrora incrivelmente ofuscante começou a diminuir. Com uma sensação irresistível de alívio e tranquilidade, o corpo dele caiu, fazendo um ruído no fundo da redoma – pois agora ele tinha um corpo, após ser “fervido, misturado e congelado”, um pequeno corpo esverdeado, com cabelo, olhos e membros, completo.


Com o resto de suas forças, Kaoru levantou a cabeça para olhar além da redoma, que agora desaparecera e não era mais que uma imagem queimada em sua memória ocular. Mas antes de poder registrar algo mais do que as coisas que aparentemente eram redomas similares à que estava, que faziam um círculo em volta do lugar, ele perdeu a consciência e todas as perguntas morreram.

***

O sonho estava tomando um rumo estranho, e ela percebeu que poderia fazer as coisas conforme a sua vontade. Era divertido. Mas gradualmente, começou a ficar difícil de enxergar as coisas do sonho. Seus olhos estavam fechados e ela escutava os ruídos de um lugar parado. Mas não era importante... Tentou focar-se no sonho.

Um barulho irritante e alto cortou o ar de calmaria do quarto.

Um despertador antigo tocava alto seu alarme, forçando Priscila a desistir do sonho para apertar o botão. Ela tentou fechar os olhos novamente, mas era inútil. Olhou para o relógio digital do despertador, e o horário não era uma surpresa: 15:27. Domingo... O que seria de sua vida louca sem eles.

Um som em outra parte da casa a despertou de seu transe: Não podia deixar que as chances de o que soava como “Priscila!! Vem cá, criatura!” serem realmente o que parecia fossem reais. Tomar banho – talvez dar uma fugida de casa... De um salto, ela pulou da cama e ficou em pé, mas no momento em que fez isso, sentiu uma terrível tontura e um ofuscamento nos olhos, parecido com cegueira, por alguns instantes. Talvez – com certeza –, ela notou, sentando de novo na cama, bebera demais...

Priscila era um pouco baixinha para a idade. Tinha cabelos cor de mel, iguais aos olhos, e por cima das feições arredondadas do rosto, estava sempre com uma franja em cima de algum olho; e seus olhos estavam agora intrigados a respeito de como diabos ela conseguiu vestir aquele pijama amarelo antes de cair na cama, do jeito que estava ontem. Resolveu deixar esse enigma para depois, e atravessou rapidamente o pequeno e bagunçado quarto, desviando das coisas no chão.

Quinze minutos depois, com as olheiras da ressaca que o banho não conseguiu tirar (além de uma teimosa dor de cabeça que a martelava), vestindo uma camiseta rosa e um short azul-claro meio folgado, a loira cuidadosamente olhava para fora do corredor, na direção da cozinha. Ninguém à vista, e um som de televisão podia ser ouvido na sala, que era o único caminho para sair de casa. Não só o seu quarto nos fundos, mas toda a casa parecia ser bagunçada, de forma que parecia que alguém muito apressado e sem organização estava de mudança repentina. As coisas das crianças estavam sempre espalhadas pelo chão, enquanto elas dormiam em um quarto embaladas ao som de um filme qualquer na outra televisão (pelo que ela conseguiu entender, enquanto espiava ao passar pelo corredor).

Atenta a qualquer movimento que pudesse ser de sua mãe, ela atravessou a cozinha, que era pequena como todos os outros cômodos, silenciosa como uma sombra. A meio caminho ela distraiu-se, vendo uma embalagem de salgadinho pela metade, e enfiou uma meia dúzia deles na boca rapidamente. Olhando atentamente dentro do saco prateado, viu uma tatuagem barata, do tipo que dão para crianças. Sem pensar duas vezes, grudou o papelzinho com a imagem tribal no abdômem, rindo baixinho. Continuou o caminho em silêncio.

Ao chegar à sala, sentiu um certo alívio. Quem estava esparramado no sofá era o seu primo chato, Felipe. Pelo menos sua mãe realmente não parecia estar por perto; tinha esperanças de que não estivesse em casa.

– Hm? Acordou agora? – o sardento resmungou com tom de deboche em sua voz de preguiça, desviando o olhar da televisão e aprumando-se no sofá. – Melhor correr antes que minha tia te pegue. Eu sei da história, hein. – ele riu. Felipe era perigoso, gostava de entregar Priscila para a mãe só para ver ela se dar mal. Se ele já havia contado a história ou não, era um mistério.

Mas a porta que dava para a rua estava bem em frente, e Priscila não resistiu. Ele não a conseguiria alcançar mesmo, era um preguiçoso com cara de sono que nunca devia ter corrido na vida. De um salto, ela atravessou a sala e abriu a porta, e avistou o muro de casa. Dorzinhas de cabeça não a impediam de ser rápida. Só que então...

Uma dor repentina apareceu em sua orelha, quando ela se preparava para correr. Sua mãe, que sem dúvida ficara esperando do lado de fora, era quem a estava puxando, como se faz com crianças. E não parecia nada satisfeita.

– MENINA! – berrou ela, a arrastando consigo para dentro de casa novamente.

– Que foi, mãe? Me solta – ela tentou fazer uma cara de desentendida enquanto tentava se desvencilhar devagar.

– Nem vem com essa pra cima de mim! – sua mãe bradou, enquanto olhava para Felipe. O safado fingia ignorar a situação, enquanto assistia televisão casualmente. Agora Priscila tinha certeza que ele tinha tomado parte, fazendo a tia esperar do lado de fora enquanto Priscila caía direitinho...

– Cê acha que te botei de castigo por que, peste? – ela esbravejou, largando a orelha. – Além de fugir do castigo saindo ontem de noite, ainda me rouba o último dinheiro que eu tinha pras compras dessa semana! Tu vai pro teu quarto e só sai na hora da escola agora!

– Ah, dá um tempo. – Priscila respondeu cautelosamente, porém ainda fazendo pouco, enquanto esfregava a orelha agora vermelha. – Tenho dezesseis, idade suficiente...

Felipe riu pelo nariz.

– ...pra ser irresponsável e não ter que responder por nada – ela finalizou rindo, calculando bem o risco do deboche.

Dona Regina fez um gesto vago de alguém que vai dar um tapa maternal, mas muda de ideia no meio do trajeto. E Priscila sabia como isso nunca acontecia mesmo.

Regina era uma senhora iniciando nos quarenta, com um rosto nas portas da idade avançada, grandes olhos castanhos penetrantes e um cabelo escuro e curto, beirando os ombros. Sua expressão de repente adotou um tom mais manso.

– Sua tia vai me cobrar aquele dinheiro de antes... – sua voz agora era bem mais baixa e um pouco abalada, como se falasse sozinha. – A gente nunca t-

Em uma fração de segundo, Priscila mandou às favas o primo traíra que descobrira sobre ela ter fugido de noite para a festa e ter ficado lá durante toda a madrugada, sabe-se lá onde, com quem e fazendo o quê, além de ter roubado o dinheiro importante, em uma casa onde todo dinheiro era muito. Deixou Felipe pensar o que bem entendesse e abraçou, naquela fração de segundo, sua mãe.

– Eu fiz de novo.

Era um murmúrio, um pedido de desculpas silencioso de alguém que sabia que não merecia tais desculpas, e parecia querer consertar de alguma maneira. Tão rápido como começou, o abraço se desfez, e Priscila voltou rapidamente para a cozinha, sem dar atenção a Felipe, que com certeza estava impressionado com a cena.

Era sempre assim, um ciclo a repetir-se. Ela nunca conseguia segurar seus impulsos; jamais deixava passar qualquer oportunidade que lhe apetecesse, desde nova. Quando sentia gula por um lanche qualquer, dava um jeito de comer o que não lhe pertencia. Se via ou imaginava uma maneira de se divertir ou tirar proveito de algo, levava na brincadeira e se jogava na diversão iminente. Procurava sempre aproveitar cada momento cegamente, e fazia loucuras. E no momento estava incomodada por não conseguir se arrepender sinceramente.


Regina continou parada, observando a filha tirar o plástico da tatuagem barata, já formada na barriga, e pela enésima vez esqueceu de julgá-la enquanto a observava com amor nos olhos.

***

A sala do reitor era simples, porém aconchegante. Não muito maior que uma sala de estar comum, detinha uma escrivaninha, uma poltrona pequena porém confortável atrás, e duas cadeiras na frente; uma estante sem graça, mas com uma quantidade considerável de livros enfileirados; e uma janela de vidro relativamente ampla, que exibia a visão monótona de uma área qualquer do campus. O próprio reitor tinha um olhar complacente e despreocupado, cabelo castanho começando a rarear acima da testa e a ganhar fios brancos aqui e ali, enquanto sua boca de lábios finos era um pouco cômica, especialmente com seus sorrisos de canto que surgiam na conversa. Seus óculos tinham aros um pouco grandes. Vestia roupas casuais; parecia à vontde.

Sentado em uma das cadeiras estava um rapaz adulto de enorme presença. Era moreno, de cor tão escura que à distância parecia quase negro; a cor de sua pele causava um agradável contraste com a camisa social roxa. Tinha olhos negros expressivos e brilhantes, e seus dentes brancos tiravam a atenção do rosto completamente liso cada vez que sorria. Seus braços musculosos, mas não exageradamente, tinham as mãos descansadas no colo. Estava bem arrumado, de calça jeans comprida e tênis.

– ...mas sabe, filho, eu não posso arranjar as coisas por aqui sempre que quero. É bem difícil...

– Eu sei como deve ser. Pelo menos tento imaginar – riu o rapaz; sua voz era gentil e tinha um eco de inocência; tinha um olhar complacente. Qualquer pessoa se sentiria à vontade perto de alguém como ele.

– Mas então, Marcos, o que você queria pedir?

– É que eu tô sentindo muita dificuldade na matéria do professor Carlos... – ele coçou a cabeça enquanto ria, parecia uma criança envergonhada. De fato, a matéria de Carlos estava dando bastante trabalho a ele.

– Hm...

– Eu vi que semana que vem vai ter aulas extras com a Márcia... Mas ninguém ficou animado, tá todo mundo preocupado com o teste do Carlos que tá chegando por aí. Acho que não vai dar ninguém nessas aulas... Muita gente vai tar ocupada. – E ele lançou um olhar irresistível, como se pudesse mexer na vontade do reitor.

Era mentira. Todos estavam aliviados com a notícia das aulas extras de Márcia; provavelmente ninguém faltaria. Mas Marcos havia conseguido um bom desempenho na matéria problemática, apesar de estar quebrando a cabeça nas aulas de Carlos, com as quais ironicamente nem todos tinham dificuldade.

– Bem... eu tinha ouvido que era bem o contrário disso... – por trás dos óculos, o reitor estudou discretamente, mas atentamente, as feições de Marcos.

– Eu também achava que as coisas estavam ao contrário disso. Todo mundo... há algumas semanas. Mas agora tá tudo muito diferente, senhor. Depois que ele começou a...

Tudo mentira. E só quem ganharia com isso seria Marcos, às custas de muitos.

– Entendo. Se é assim, terei uma conversa com eles. Não se preocupe, sei que você veio aqui preocupado com a situação das turmas. – os olhos do reitor brilharam sinceramente. – Você é um bom menino... vi seus boletins, sabe. Notas excelentes... E há algumas semanas, quando me encontrei com sua família, soube de seus sucessos... Natação, karate, inglês... Você é muito esforçado, rapaz.

Marcos fingiu se envergonhar; um fingimento perfeito e impecável.

– Falando assim parece até que... – coçou a cabeça de novo. O brilho dourado de um anel em sua mão apareceu ao fazê-lo.

– Mas é verdade, não? – gargalhou o homem. – Fique tranquilo, vai se dar bem.

– Obrigado, senhor. – ele falou se levantando, ainda fingindo uma leve vergonha ao sair. – Nos vemos.

Ele acenou da cadeira.

Fechando a porta da sala, Marcos suspirou. Não por alívio de estar anteriormente nervoso, mas por finalmente se livrar do cheiro estranho e incômodo que cercava o homem. Geralmente todos torciam o nariz e falavam meio atravessado ao passar pelo reitor, mas Marcos acabara de sorrir e conversar simpaticamente com perfeição com ele. Com certeza, ele pensou em vitória por dentro, havia atingido algum lugar no psicológico do homem com sua boa vontade e gentileza. Ele sempre sabia como atingir as pessoas.

– E então, cara? O que ele falou? – era seu colega de turma, Fábio. Estivera esperando-o do lado de fora da sala, ansioso pelos resultados da conversa.

– Tudo ótimo! – Marcos deu um sorriso vibrante e confiante, completamente falso. – Ele vai ver como mudar os horários o mais rápido possível. Boas chances, cara.

– Ainda bem! – disse Fábio socando o ar em comemoração silenciosa. – Não ia ter como eu chegar às três da tarde, do jeito que as coisas estão em casa...

Fábio precisava urgentemente de reforço na matéria de Márcia, assim como muitos. Estivera desesperado, em contraste à felicidade dos alunos em geral, ao ver o horário das aulas extra, e havia pedido a ajuda de Marcos para conversar com o reitor sobre as aulas.

– Tá tranquilo agora, né? Vamo no bar no Maneco descansar saindo daqui?

– Claro... agora tá mais fácil de descansar...

Marcos realmente precisava tirar um tempo para descansar e tomar uma. E estava ciente que simultaneamente iria destruir o tempo que Fábio usaria para revisar a matéria quando chegasse em casa, por o colega não saber beber com moderação e ficar doidão pelo resto da noite. Mas isso não o incomodava em sua consciência. Precisava ir ao bar com ele, e pronto. Os problemas do outro eram irrelevantes.

– Vou no banheiro, pera. Vai indo na frente. – falou Marcos ao começarem a andar pelo corredor.

Havia agido, mais uma vez, pelos seus objetivos. Ele desejava o sucesso. Seus objetivos...

***

Seus objetivos...

Uma figura, segurando duas esferas cegantemente brilhantes, só pensava em seus objetivos.

***

Jogando água fria no rosto, Marcos levantou a cabeça e olhou-se no espelho. Friamente, contemplou seu próprio rosto e sua beleza auto-proclamada. Seus negros olhos miravam firmemente... Não se abalavam mesmo após ter acabado de fazer algo perturbador com os outros.

Ele acariciou, por hábito, o anel em seu dedo com a água da torneira, e saiu do banheiro.

– Opa! ...oi, Marcos!

Michele, a garota jovem da sala sempre próxima a sua. Era baixinha, e suas tranças eram no mínimo diferentes. Sempre usava saias longas, como se estivesse a caminho da igreja ou algo assim. Marcos sabia como ela tinha um fraco por ele, mas para ele ela não era nada de mais.

– Desculpa! Tudo bem? – ele sorriu simpaticamente, sem exagero, ao pegar do chão os cadernos que ela deixara cair, e os entregando em seguida.

– Tudo, e com você? – o que era isso? Ele percebeu imediatamente que esta não era a Michele de sempre. Havia uma certa firmeza na garota aérea que ria de tudo que ele falava... Antes que ele pudesse responder com um jovial “Tudo ótimo”, ela de repente o empurrou levemente para a parede, e falou. – Na verdade... Eu queria te perguntar uma coisa...

Isso era ruim, ele pensou. Se a gostosa religiosa que fazia Letras o visse, suas chances de qualquer coisa iriam por água abaixo. Lentamente, ele afastou as mãos dela sem parecer grosseiro, apesar de olhar rapidamente para o fim do corredor onde Fábio há muito desaparecera.

– O quê?

– Cê acha que o Fábio fica comigo?

Hm... Estranho. Menos mal.

– Não conheço ele direito... Mas acho que sim. Que pergunta, hein?

– Brigada. ‘té amanhã. – e se afastou.

Então devia ser isso... Pelo jeito bravo com que ela o olhou e o empurrou, o mais provável era que Michele tinha desistido dele, e começado a pensar naquele que andava junto dele, Fábio. E se sentia com uma certa raiva por haver pensado em Marcos por qualquer razão, mas agora era capaz de encará-lo e falar com ele. Marcos tinha certeza da hipótese, sua análise do que os outros pensavam era algo sobrenatural; facilmente deduzia as razões das ações das pessoas.

– Até que enfim.

Fábio estivera esperando ele no portão; aparentemente demorara demais no banheiro. Já na rua, caminharam juntos a destinando-se ao bar próximo.

– Marcos...

– Hm?

– Cê que é amigo da Rafaela...

– Que é que tem?

– Eu tô pensando nela essa semana toda. Acho que vou tentar algo amanhã. Que cê acha?

Marcos deixou escapar uma risada do fundo de sua consciência para a voz.

– Qual a graça?

– Nada, lembrei de algo engraçado. – era cômico, de fato, como virara cupido de repente e poderia interferir em algo tão sutil... Só por diversão, resolveu atrapalhar a intenção da garota que acabara de falar com ele. – Acho que deve, sim. Ela gosta de firmeza; acho bom você não andar ficando com ninguém até conseguir algo. – ele respondeu, tentando manter o riso malvado.

Manipular era uma dádiva maravilhosa. Era preciso, e às vezes era uma diversão. E ele vivia dentro disso.

***

Sozinho no banheiro simples do clube, Daniel tirou a camiseta descansadamente enquanto observava seu corpo, peito infantil e fino, e braços compridos demais apesar de magros, no espelho. Estava a caminho de sair, já com a grande piscina em vista quando desmaiou.

Pelo menos parecia um desmaio iminente, mas pareceu recobrar-se em uma fração de segundo. Completamente confuso, perguntou-se o que seria quando aconteceu de novo. Lentamente, como uma bizarra pulsação alheia que se infiltrava em seus sentidos e sua própria pulsação, ele sentia a sensação similar a desmaio repetidamente, sua visão piscava intermitente entre escuridão e o lugar onde estava, e começou a cair ao chão de azulejos.

A sensação de espasmos perturbadores se intensificou e ficou com intervalos cada vez menores. Inerte, quando estava em convulsões ao chão e sem voz, Daniel finalmente apagou quando os intervalos sumiram e só o que ficou foi a sensação catastrófica que se apoderava de seu corpo.

***

Luz atravessava suas pálpebras.

Após vários segundos de estagnação, ele abriu os olhos. Tudo era cinza, e a confusão começou a se realizar em sua mente. Baixando a visão enquanto percebia que estava deitado, ele foi percebendo pouco a pouco as dimensões do lugar em que se encontrava. Pareciam árvores e grama... Mas o mais chocante era que tudo não passava de cinza, em vários tons.

Enquanto ainda estava abobado, um flash súbito passou em sua visão, trazendo cor a tudo por alguns segundos e então esvaindo-se, com tudo voltando ao cinza novamente. O choque não foi o suficiente para fazê-lo levantar-se, mas ajudou a diminuir a lerdeza inata da situação.

Ficou parado, sentado ali e girando a cabeça ao redor para observar o lugar, sem saber o que pensar; e então a cor voltou e sumiu de novo. Resolveu esperar que isso continuasse a se repetir, e não deu outra. Após alguns minutos, sua visão estava definitivamente colorida, apesar que entrava e saía do cinza quando chegava perto de piscar. Começou a entrar em certo desespero ao se perguntar o que isso na sua visão significava, além do lugar estranho em que estava.

Seus olhos bateram em algo no chão próximo que fez seu coração disparar. Não podia ser... Não tinha como... Esquecendo todas as dúvidas, ele ficou de pé para se certificar de que não estava delirando, apesar de todas as provas anteriores de que deveria estar.

Seus olhos confirmaram o tão inacreditável quanto todo o resto, porém muito mais interessante: com o coração acelerado, ele constatou a garota incosciente, bela e inerte na grama, com a blusa aberta e os seios quase aparecendo por debaixo do sutiã exposto à luz do sol.

Rodrigo se perguntou se algum dia em sua vida parada conseguiria processar todos esses absurdos.

***

Fazia no mínimo cinco minutos que Daniel atravessava as plantas, vestindo apenas a bermuda e com os olhos injetados, como quem está à beira de um surto psicótico. Já não sendo normal, isso não era questionável à luz da situação sem sentido e louca em que se encontrava.

Ele era objetivo. Ele encontrava a solução imediatamente, e friamente tomava as decisões e posicionava suas opiniões. E agora por estar jogado em algo sem explicação e desesperador, estava à beira de perder a razão. Havia acordado neste lugar absolutamente desconhecido e sem precedentes. Raptado? Sequestrado? Jamais duvidara de qualquer teoria mirabolante que os outros inventassem. Um planeta distante. Alienígenas. Realidade superior. Tudo passava como um furacão em sua mente, e ele pelo hábito que lhe era próprio, frustrava-se nervosamente a tentar descobrir uma solução para suas dúvidas. Agora andava sem rumo, como um robô, marchando por entre as árvores e arbustos desconhecidos, esperando que a resposta aparecesse por milagre.

Um brilho à frente. Água. O mar! Era um lago. Suas águas escuras e onduladas estendiam-se longamente até onde pôde divisar a distante margem. Lembrou-se da piscina que mirou no clube. A semelhança o atingiu como se a piscina o tivesse traído por haver se transformado no escuro lago. O céu do clube também o havia traído. A razão começava a fugir de Daniel... Estava a momentos de passar mal seriamente. Antes que pudesse perceber, já estava na beira do enorme lago.

Mirando a água escura, a razão foi-se completamente, e ele começou a sentir diversas emoções. Medo. Desespero. Confusão. Pela primeira vez desde que tornou-se gente, Daniel sentiu emoções de fato, e as emoções eram dolorosas. Começou a sentir ódio também.

Um som chegou a seus ouvidos. Estivera agachado, com o rosto enterrado na grama rasa da beira do lago, quando ouviu aquele som. Parecia um deslocamento de água; ele não estava em condições de compreender nem mesmo sons brutos. Sem pensar, com pura curiosidade pela primeira vez em sua vida, ele levantou a cabeça rapidamente para encarar a origem do som. Desejou não tê-lo feito.

A cinco metros do nível da água do lago, erguia-se uma forma que parecia haver sido implantada nos olhos de Daniel, tão surreal e inacreditável que era. O medo implantou-se completamente de seu corpo, pela primeira e mais violenta vez.

A figura começava grossa como o tronco de uma colossal árvore, que grotescamente ia se desdobrando para fora da água, e sua cor era de um branco escamoso juntamente de um vermelho felpudo e peludo, rajado de verde. Os olhos do adolescente acompanharam vidrados enquanto iam subindo pelo corpo de seja lá o que fosse aquilo que surgira. Incontáveis membros semelhantes a nadadeiras estavam espalhados aos montes pelo corpo gigantesco. Ao topo da forma enorme que parecia firme, mas ia desenrolando-se de um forma que deu arrepios em todo o corpo de Daniel, estava uma horrível cabeça, que possuía um capacete amarelo brilhante pontudo, com um chifre literalmente em forma de raio que se projetava para fora do crânio. Para completar a visão, havia uma boca deformada, cuja repulsiva gengiva e músculos estavam expostos, em que caberiam dezenas de pessoas, com uma língua saltada e grossa que mexia-se lentamente, como uma cobra ameaçadora e espantosamente vermelha. A criatura mantinha seus enormes olhos azuis, de pupilas verticais, intensamente fixos em Daniel, que parecia já haver morrido.

Notas finais
No próximo capítulo, as bases da saga serão reveladas, o resto dos protagonistas aparecerá e os primeiros inimigos terão uma participação.