Algoritmo (Digimon)

4 Capítulo II: Vaniur


[Este lugar é um mundo totalmente diferente (...)

Wired Life

Meisa Kuroki]


De longe, parecia apenas uma massa compacta de árvores cortada por um curso d’água, que seguia reto na maioria do trajeto, com leves curvas aqui e ali. Mas ao olhar com atenção, ficava explícita a bizarrice que era o conjunto de plantas que formavam aquele bioma sem precedentes. Continha altos pinheiros escuros que se erguiam para fora do mar de folhas, disputando altura com grossos carvalhos e mangueiras de copas largas. À sombra, era possível ver os arbustos rasteiros e densos, com espinhos secos, e sentir a fresca água que escorria das folhas de árvores próprias de florestas tropicais. O matagal sem nexo tinha clareiras aleatórias que ocorriam com frequência entre as árvores, e estendia-se por um bom pedaço. À distância, era possível notar a forma massiva de uma pequena montanha, da qual o rio aparentemente se afastava.

O céu pelo qual a mata era iluminada brilhava em um azul puro com raros fiapos de nuvens, e exibia um sol ofuscante que se erguia a certo ângulo, quase a pino. O céu também tinha suas estranhezas que poderiam ser notadas caso observado por um certo tempo, como os pontos brilhantes que apareciam repentinamente, semelhantes a estrelas diurnas, e uma ocasional “tremida” no azul da abóbada, como um pano balançado ao vento, exibindo inúmeras e minúsculas linhas cruzadas entre si em um pequeno espaço longe e indistinguível do resto do céu pela cor, que sumiam depois de alguns segundos para reaparecer em outro ponto.

No topo de um dos maiores pinheiros do matagal, estava uma criatura que destoava ainda mais gritantemente do ambiente, e chamava a atenção discretamente como um ponto azul-escuro agarrado à alta árvore, parado. Seus movimentos eram extremamente limitados, como se temesse estar sendo observado e atingido.

A princípio, era um ser de aparência reptiliana e selvagem, mas esta impressão era completamente quebrada pelas roupas – roupas – que o lagarto usava. Por cima de uma pele que era escamosa, mas tinha como verdadeiro chamativo a coloração quadriculada s como a tintura de um soldado em missão (com tons azul-claro e azul-escuro), o réptil vestia um grosso colete escuro, feito de couro no tronco e de material metálico nos membros, no capacete e na longa cauda. Apertadas com negros cintos de fivelas brilhantes, suas luvas cobriam completamente suas garras com três dedos cada, deixando apenas as alarmantemente enormes unhas expostas.

A cor principal da criatura era um misto do azul claro e escuro da tintura em suas escamas, cujos pequenos quadrados variavam em razão de tamanho entre si, com o verde-escuro da mochila de aparência metálica que carregava nas costas, e duas boias amarelas em forma portátil e reduzida que eram presas a seus cotovelos. Debaixo do capacete, ligado a tubos mais grossos que artérias a seu colete, sua cabeça comprida aparecia, com afiados dentes e uma viva língua na boca que abria raramente para respirar melhor no alto da árvore. Seus olhos grandes e amarelos apareciam por um buraco numa máscara de couro, colada às escamas quadriculadas, que cobria menos de metade de seu rosto. No final de seu crânio alongado, um par de narinas longas e finas ficava na ponta do focinho alongado.

O lagarto militar superdesenvolvido já estava parado deste jeito há bem uns dez minutos, com uma mão e uma perna o sustentando firmemente aos galhos do pinheiro, de forma que não parecia ser muito cansativo. Olhando sempre para baixo, ele atentamente esperava, movendo os grandes olhos brilhantes de clareira em clareira, como se prestasse atenção em algo que poderia aparecer a qualquer momento na floresta abaixo.

Os minutos se arrastavam. Se fosse de sua natureza, o monstro estaria suando de ansiedade. Por que esperar escondido, no topo de uma árvore, com uma camuflagem que destoava facilmente do forte verde escuro das folhas finas e pontudas? Ele não sabia exatamente a razão de não ter coragem para descer e procurar o que quer que fosse, mas esse pensamento o deixava desconfortável. Mas isso era redundante, afinal, a própria missão em si o incomodava profundamente. Ali em cima era silencioso e pacífico, tudo o que se podia ouvir era um vago murmúrio do curso do rio abaixo. Se tivesse como, ele gostaria de passar todo o seu tempo ali, sem precisar ir ao encontro do que o esperava...

Um som se fez ouvir na mata. Era uma voz feminina, que gritava sem medo e animada, mas que deixava um certo ar tremido, como se houvesse uma insegurança seguida pelo silêncio. A desconhecida gritava de intervalo em intervalo, e o levíssimo tom de desespero ia subindo sorrateiramente a cada chamada. O réptil no topo do pinheiro sabia o que deveria ser, tinha certeza de que era isso. Após hesitar por alguns segundos, ele foi saltando silenciosamente pelos galhos sólidos da planta, se aproximando das árvores menores e do chão. Quando se aproximou das copas de árvores em contraste da mata, conseguiu identificar a fonte do som.

Tomando a decisão de segui-la por enquanto, como que adiando o encontro que temia, ele a manteve à vista enquanto pulava de galho em galho, sem fazer ruído.

***

A luz machucou a visão de Marina quando ela acordou. A princípio era apenas um sol forte, que lhe doeu os olhos e a fez fechá-los instintivamente. Seu corpo estava mole e não respondia imediatamente, mas ela foi baixando a cabeça, cega, até abrir os olhos de novo e tentar observar seus arredores ao sentir-se mais confortável. Era surpreendente.

Tudo à sua volta, desde a mistura exótica e sem sentido de plantas até o céu fortemente brilhante da clareira era cinza. As cores que deveriam estar nas plantas do cenário não eram refletidas, como um fenômeno bizarro ou doença estranha. Ela tentou levantar-se, mas a tontura se intensificou, fazendo tudo rodar e forçando-a a voltar ao chão. Olhando em volta uma segunda vez, começando a se perguntar que coisa estranha haveria acontecido com seu corpo, ela tomou um susto ao reparar na pessoa que a estivera observando sem ela perceber.

Ele era um rapaz bastante alto, e de rosto difícil de enxergar, talvez por estar tão tonta. Usava uma larga camisa que batia abaixo da cintura, jeans escuros igualmente compridos e uma meia cinza tirada pela metade em um dos seus pés, em contraste com o tênis amarrado no outro. Seu cabelo quase no pescoço era meio liso, porém bagunçado, e caía sobre sua testa e olhos, dando a impressão de que não podia enxergar direito enquanto deixava seu rosto mais escondido. Apesar do bigode e da barba média que cobria as faces, sua boca era bastante visível, com uma expressão de receio. Ele não dava a impressão de que se cuidava bem.

– Q-quê?

Com certeza ela tinha falado, perguntando ilogicamente a ele ou a qualquer um que pudesse responder suas dúvidas, enquanto de novo tonta, baixava a cabeça. Mas sua voz não tinha saído. Apenas um eco distante dela chegou aos seus ouvidos, e Marina continuou a olhar bobamente à sua volta, meio assustada.

– O que é isso? – e de novo se assustou com o som que saiu de sua boca, abafado e longíquo, difícil de ser escutado pela própria autora. Começava a ficar nervosa pouco a pouco com tudo aquilo, e a perceber que algo sério devia ter acontecido.

O rapaz, em preto e branco como todo o resto e trêmulo, começou a falar algo (ou pelo menos a tentar), enquanto fazia gestos tímidos e mexia a boca mudamente. Era como estar em uma dimensão diferente de outra pessoa, ela notou distraidamente enquanto se esforçava para tentar ouvir algo.

Durante alguns minutos em que a tensão crescia, os dois continuaram em confusão, Marina a cada instante entendendo melhor a gravidade que a situação deveria ter enquanto ia se recobrando da tontura e se levantava cada vez mais. A certa altura, quando distraiu-se pela aparência do ambiente e deixou de tentar ouvir o rapaz, e estava a pensar como as plantas a lembravam do jardim onde certamente estivera a pouco, todas as cores apareceram de súbito.

O verde das folhas e o azul de um céu meio escondido foram refletidos, a assustando. Antes que pudesse se tranquilizar ao ver as coisas voltarem ao normal em sua visão, as cores desapareceram outra vez. Ela olhou para o rapaz, perdida, como quem pede uma explicação. Ele fez uma cara totalmente embaraçada, e olhou para o chão.

Não demorou até que as cores voltassem de novo, fossem de novo, e tornassem a voltar, até que voltaram por tanto tempo que ela achou seguro dizer (ou pelo menos ter esperança) que o fenômeno não fosse se repetir. O pior da tontura também havia passado, e embora não se sentisse muito melhor, ao menos conseguia ficar de pé e andar em volta da clareira.

– Eu... Me chamo Marina. – ela arriscou dizer novamente, pois uma lógica estranha a instigava a acreditar que a audição dela e do estranho também estivessem normalizadas. E parecia estar melhor, no mínimo. Com certeza ela conseguiu ouvir, ainda com um leve eco e com um tom estranho, mas sem dúvida a sua voz, baixa e um pouco fina. — Quem é você?

– R-Rodrigo. – o estranho falou com um sobressalto, como se ela tivesse falado de surpresa e assustado ele. A voz dele era baixa, um pouco grossa e meio difícil de se entender, como se não quisesse estar falando daquele jeito. Olhou para o chão de novo.

Ela sentou mais uma vez no chão de terra, um pouco mais aliviada.

– Ainda bem... – suspirou a garota. – Acho que aconteceu algo de sério comigo... Eu...

Ela levou a mão ao coração, e surpresa, percebeu que a blusa estivera aberta, mostrando o sutiã branco e um pedaço dos altos seios. Envergonhada, fechou a blusa rápido, pensando que não era para menos o rapaz estar tão embaraçado até agora durante todos aqueles minutos.

– Eu... eu também. – Rodrigo falou abruptamente, com certeza tentando mostrar que não estivera olhando o pequeno acidente. – Eu tava vendo tudo em preto e branco...

Ela levantou a cabeça, assustada. Um fenômeno daqueles que acontecia em mais de uma pessoa?

– Mas... também aconteceu isso comigo. E minha voz... – ela se lembrou. – Agorinha mesmo, você me ouviu falar?

Ele balançou a cabeça.

– E eu tava tão tonta... Você viu, né...

Rodrigo respondeu com um “É”, com o coração disparado. De fato, não lembrava de estar tão nervoso em muito tempo. Não tinha a mínima ideia do que podia ter acontecido a eles dois, e nem estivera tentando entender. Só estava paralisado, desde que acordara, pela imagem da garota. Tudo o que sabia era que num momento, tinha acabado de chegar em casa e começava a tirar os tênis, e no outro, tinha ido parar num lugar selvagem com a cabeça cheia de sintomas estranhos. Mas isso não importava nem um pouco, nem o deixava tão nervoso quanto as perspectivas que passavam atropeladas em sua mente: estava isolado com uma garota tão gostosa como ele não via há muito tempo, sem pista alguma de quanto tempo levariam para voltar para casa, ou se chegariam a voltar facilmente.

Rodrigo não era apressado e nem agitado. Desde que acordara, com certeza tinha ficado intrigado com a situação e tentando imaginar algum tipo de resposta plausível, mas desde que pôs os olhos na garota desmaiada com a blusa aberta sua mente ficou em branco. Ficaria em branco de qualquer jeito, é verdade. Com ou sem garota – ele era dado a frequentemente passar pelas situações sem pensar muito e nem tomar decisões; apenas seguia o caminho mais provável. Além de ser extremamente tímido e recluso.

Ele ficou esperando ela falar mais algo, sem tirar os olhos, enquanto ela observava distraída a vegetação.

– Como pode...?

Ela se abaixou de novo, pasma ao notar o arbusto de espinhos secos que crescia ao pé de uma árvore claramente tropical e úmida. Um pouco além da clareira, ela notou, estava um grupo de cactos amarelos e finos, não muito longe de uma pequena poça abaixo da árvore, em que boiavam cerca de meia dúzia de miniaturas de vitórias-régias, cada uma com um broto de flor rosa.

– Esse lugar... não é normal. – ela admitiu, se assustando cada vez mais enquanto jogava os longos cabelos para trás para observar melhor.

Rodrigo tentou falar algo.

– Ahn... Como... Como você chegou aqui? – ele perguntou com aquela voz estranha, difícil de entender.

Marina virou-se para ele com uma expressão intrigada no belo rosto. Ele sentiu um leve arrepio ao se ver encarando-a de novo.

– Digo... – ele percebeu que tinha falado de um jeito errado, nervoso. – O que... Onde você tava antes de... desmaiar?

– Eu tava em casa. – o olhar dela ficou desfocado, como quem tenta se lembrar. – Com sono, eu acho...

– Eu também tava em casa... – Rodrigo achou que talvez fosse melhor darem um rumo sobre o que deduzir e tentar falar algo útil. – Com um pouco de sono também... Mas isso n-não faz sentido. Como... Como duas pessoas... Sabe... Parar nesse lugar...

– Eu não consigo entender. – concordou ela. Agora que estava um pouco mais calma e pensando melhor, Marina voltou a pensar mais normalmente. Acontece que ela era uma pessoa tão inocente e altruísta que na maioria do tempo sempre acabava pensando na situação dos outros antes da sua. E agora que havia se acalmado começou a pensar por qual tipo de situação triste ele devia ter passado antes de encontrá-la, sozinho naquele ambiente desconhecido e arrancado de sua casa. Quase esquecendo que ela havia passado o mesmo – era assim que Marina pensava, como se a sua situação e a do outro não tivessem diferença em importância.

Rodrigo ficou envergonhado ao ver ela olhar para ele com uma cara tão complacente.

– B-bem... – ele tentou raciocinar; era meio difícil. – A gente tem que explorar esse lugar e pedir ajuda. Vamo ver se conseguimos entender como viemos parar aqui...

– É. – assentiu ela, ainda com uma expressão triste.

Eles foram andando, ao saírem da clareira iluminada e se aventurarem mata adentro, reparando na vegetação que não existia em qualquer livro de Geografia; Rodrigo atrás, como era hábito dele de andar depois das pessoas. As dúvidas iam crescendo em suas cabeças, querendo ou não, e os deixando inquietos. Como alguém poderia sair de uma cidade e acordar numa mata tão bizarra sem uma explicação? Nenhum dos dois estava com o celular, e isso só piorava a perspectiva de entender o que havia acontecido. Parecia que estavam em algum filme de mortes sangrentas; Rodrigo não parava de olhar por trás do ombro enquanto andava ainda com a meia pela metade em um pé e o tênis amarrado no outro.

– ...eu acho que pode ter sido alguma droga. – Marina ia dizendo com aquela voz fina e feminina. – Toda aquela tontura, e...

– Deve ter sido um sequestro ou algo assim. – acrescentou ele, enquanto a ficha da situação finalmente ia caindo. Ele sentiu um gelo imenso na barriga, arregalando um pouco os olhos escuros – Será que nossos órg...

Marina deu um grito assustado, pulando para trás instintivamente. Rodrigo olhou, igualmente chocado. À frente deles e enterrada no chão, estava algo que devia ser uma planta marrom com forma de ostra, com extremidades pontudas como pequenos dentes, que havia se fechado com violência no momento em que ela quase pisou, distraída.

O corpo de Rodrigo percebeu antes de sua mente que quando ela havia pulado para trás com o susto, tinha encostado completamente e com força os quadris largos em seu corpo, e agora apertava a coxa esquerda dele, assustada. Ele não ousou se mexer, com o coração a mil e a boca entreaberta de surpresa.

A planta, ou seja lá o que aquela coisa fosse, foi abrindo devagar outra vez, e Marina deu a volta ao redor da grama amarelada que estava ao redor, sem nem ao menos perceber o que havia acontecido entre eles. Tratou de tomar distância ao máximo da planta bizarra, e foi em frente.

Sem dúvida bastante excitado sexualmente, ele ficou alguns instantes parado e de boca entreaberta, tentando se certificar da sensação das nádegas dela em contato direto com seu corpo, sua cintura ao alcance pleno das mãos e a mão dela em sua coxa, como se estivesse a se perguntar se as drogas que causaram todos aqueles efeitos agora estavam a fazê-lo imaginar coisas. Com uma sensação de anestesia no cérebro e uma expressão de quem havia levado um soco maravilhoso, ele seguiu ao redor da criatura que mordia também, quase sendo mordido. Os sons que vinham da planta fechando e abrindo continuaram a ecoar pela mata mesmo depois que já tinham se distanciado.

Um minuto de caminhada silenciosa depois, onde ela estivera absorta a tentar entender exatamente onde no mundo existiria uma planta daquelas, Rodrigo se perguntou se ela estaria talvez chateada, e sem pensar, divagou se deveria pedir desculpas pelo ocorrido.

– Eu... Foi m-

Um ruído cortou a sua fala, fazendo-se ouvir em volta da mata. Era um ruído profundo, quase como um trovão, mas definitivamente vinha da terra e estava próximo. Marina olhou para ele, como que para certificar-se se não era outro efeito bizarro em seu sistema nervoso igual ao do desmaio.

– Vamos! – ela chamou, correndo na direção do barulho. Era certo que esperava encontrar alguma pista do que quer que tivesse acontecido, ou no mínimo qualquer um a quem pudessem perguntar em que lugar do mundo estavam.

Os dois correram com cautela pela vegetação sem sentido, parando aqui e ali para se orientarem pelo ruído, que se repetia cada vez mais alto e distraído, Rodrigo deixou o único pé do tênis para trás ao passar por alguma raiz exposta, e continuando com uma meia pela metade no outro pé sem dar importância. Até que, ao chegarem a uma gigantesca árvore de casca grossa e raízes proeminentes que saltavam da terra e se estendiam por bem uns cinco metros cada, puderam ouvir com clareza vozes estranhas.

Os dois andaram mais devagar ao redor das raízes, tentando ouvir. Atrás da árvore enorme, numa outra clareira podiam-se ouvir duas vozes. Uma era estranha demais – era estridente e alta, mas ao mesmo tempo conseguia ser grossa. O dono da voz parecia irritado, e uma ou duas vezes o ruído do trovão se fez ouvir, muito mais alto que antes, enquanto ele gritava. A outra voz, que falava em um tom assustado, como se respondesse à outra, parecia ser produzida por uma pessoa com sérios problemas de garganta, ou hormonais. As vozes não falavam na língua deles – de fato, era difícil identificar o que falavam, e a única explicação era ser outro idioma.

Eles ficaram parados em pé, visivelmente indecisos sobre ir encontrar quem estava discutindo ou não. Pelos ruídos, parecia que um deles estivera batendo em um dos troncos de pinheiro que havia por ali, e pelo estado do que podiam ver da árvore os golpes ou eram bastante fortes, ou bastante furiosos. O que poderiam encontrar com tais vozes e tal força os assustava, e não ousavam nem ao menos dar uma olhada entre as grossas raízes.

Rodrigo tomou um susto.

– Isso... É alemão! – e ficou em silêncio, tentando ouvir mais. Parecia mesmo com alemão, do pouco que sabia ou já ouvira, mas não tinha como confirmar. Mas quando a outra voz respondeu, ele se assustou mais ainda. – Agora... Não... Tem como... E-espanhol!?

Marina tentou ouvir também, e apesar de não entender muito, com certeza era possível sentir algo essencial que mudava nas palavras, algo que não precisaria saber a língua para ter certeza de que ela estava a mudar, de uma para outra, e ainda mais quando uma terceira voz surgiu, fanha como a segunda, e falou em algo que parecia ser uma terceira língua.

– N-não tenho certeza... Mas isso parece ser japonês. – ele comentou abismado.

Até mesmo Rodrigo estava curioso agora, e na mesma hora os dois levantaram da raiz gigante e tentaram ter uma visão de quem estava conversando de uma vez por todas. Acharam uma fresta meio grande na raiz de onde talvez pudessem ser vistos, mas a curiosidade não deixava isso incomodar. Os dois foram até lá com cautela, e procuraram pelas pessoas.

Não eram pessoas.

O que Marina e Rodrigo viram a seguir foi algo que demorou a ser processado por seus cérebros, e mesmo depois de ser processado não foi aceito. Não tinha como ser real. Um medo que nenhum dos dois havia sentido na vida tomou conta de seus corpos, um medo de algo tão inacreditável que fazia toda a situação, desde o despertar do desmaio até aqui, parecer uma piada de mal gosto.

Havia quatro deles. Quatro coisas, ou seres, estavam na clareira pantanosa, ao lado do pinheiro que já ameaçava desabar mediante os golpes sucessivos de antes. O coração de Rodrigo disparou, mais do que quando Marina jogou a bunda em cima dele, e muito mais do que quando achou ter ficado com problemas visuais. Na verdade, talvez nunca tivesse disparado daquele jeito em toda a vida.

Ele ficou alguns segundos parado, tentando absorver a visão. Sentiu que deveria correr, tinha que sair dali, era o óbvio a se fazer. Mas, talvez pela curiosidade de entender melhor, pelo fascínio que era a visão, ou talvez ainda por sua natureza lerda e aérea, ele não se mexeu. Continuou ali, encarando as criaturas, como se fosse continuar fazendo isso por horas. Ela também não havia se mexido, mas era evidente que tremia tanto quanto ele.

Três criaturas estavam encarando uma quarta, como se bizarramente a conversa com vozes que pareciam humanas de antes tivesse sido entre eles. Mas obviamente não tinha como.

Uma das três criaturas era um caranguejo tão enorme que provocava calafrios. Sua grossa carapaça era de um azul-escuro reluzente mesclado a manchas vermelhas aqui e ali. Possuía as oito patas dos caranguejos, dando a ele uma horrível aparência de uma aranha com pinças supercrescida. E o mais assustador era que ele tinha um rosto entre os espaços frontais da carapaça, um rosto quase humano, com dois olhos verdes e uma boca, surreal ao extremo como uma mutação de alguma ficção científica. Tinha uma pinça proeminente em um dos membros, brilhante e ameaçadora, que descansava no chão no mesmo nível do rosto.

A criatura à direita do caranguejo era ainda maior; provavelmente alcançava a altura dos joelhos deles, ou mais. Era um sapo gigantesco, verde-vivo, com quatro patas pequenas que terminavam em uma única unha cada e também tinha um rosto. Um rosto bizarro, de uma boca rasgada e com alguns dentes para fora, e olhos vermelhos que faziam Rodrigo achar que estava olhando para algum demônio. Em cima do corpo do sapo havia uma barbatana maior ainda que o corpo dele, laranja e fina, que lembrava a barbatana dos tubarões, golfinhos e orcas.

A última criatura do trio era nojenta. Brilhava como se fosse uma bolsa d’água viva, era azul-escuro e tinha um rabo de peixe com membranas transparentes. O rosto desta era desprovido de feições, como se alguém tivesse desenhado dois olhos negros e uma boca rasgada em um balão cheio de água. Os membros dianteiros eram bizarros, extremamente pequenos porém com veias aparecendo e algo que deveriam ser mínimos músculos, e terminavam em três garras. Os de trás não eram desenvolvidos, como um girino.

E a quarta criatura que encarava o trio...

– AHÁ!

Rodrigo sentiu um frio extremo nas entranhas enquanto uma adrenalina louca começava a circular em seu corpo. A quarta criatura tinha visto ele e Marina além das raízes, e agora apontava para eles com algo que deveria ser um sorriso satisfeito. Tremendo como nunca, ele finalmente saiu de seu transe e puxou a garota pela mão, correndo como quem corre do diabo.

Mas em alguns segundos, antes que pudessem ter dado alguma distância verdadeira entre eles e as criaturas, aquilo que tinha apontado para eles pulou por cima de suas cabeças e caiu no chão à sua frente com estrondo, encurralando-os. Marina caiu ajoelhada, como se estivesse prestes a desmaiar. Ele não prestou atenção nela pela primeira vez. Estava aterrorizado demais.

Era um ser baixo, que não devia passar muito além da cintura. Verde como um monstro, tinha uma aparência semi-humana que arrepiou todos os pelos do pescoço do rapaz. Sua cabeça era desproporcional e grande, com dois dentes inferiores que saíam da boca gigante e chegavam ao rosto. Seus braços e pernas eram pequenos, mas suas mãos e pés eram enormes, e tinham cinco dedos cada, como um primata monstruoso. Seus olhos eram esbugalhados e davam a impressão de ele não ter pálpebras apesar de piscarem; tinha olhos amarelos e vivos. No topo da cabeça, ironicamente, estava um moicano vermelho e arrepiado, o que confirmou que seja lá como, aquela coisa só poderia ter saído de um sonho maluco ao extremo. Para completar, estava vestido com pequeninos trajes de aparência antiga, talvez medieval, que eram um colete tosco e um tipo de calça com traços indígenas (visto o pedaço que pendia no meio) preso por um cinto. Sinceramente, Rodrigo não censuraria se Marina desmaiasse ou passasse mal, e não entendia por que isso ainda não havia acontecido a ele.

A criatura falou, abrindo aquele sorriso inexplicável com a boca monstruosa e soltando a voz que parecia ter falado algo semelhante a alemão antes. Ele olhou para os lados, pensando em correr, mas algo lhe dizia que não tinha como ganhar distância daquela coisa. E deixar Marina sozinha, talvez morrer, o privaria de algumas situações que o deixavam excitado só de pensar, caso sobrevivessem àquelas coisas e saíssem dali.

Ele continuou falando, naquilo que parecia alemão a Rodrigo, mas era difícil de captar devido talvez a seu coração martelando suas costelas como se quisesse sair de seu corpo, tamanho o medo. Ele ouviu – não, sentiu – as outras três criaturas se aproximando devagar por trás. Estava morto. Ou, no mínimo, traumatizado. Não tinha o menor ânimo de confrontar ou falar algo àquelas coisas.

O ser verde fez uma expressão confusa e desapontada, e então uma voz igualmente bizarra desconhecida – com certeza, de uma das outras criaturas – falou algo por trás de Rodrigo. Ele assentiu, com aquela cabeça de monstro, e falou mais coisas. Mas parecia ser em outro dialeto. Então Rodrigo surpreendeu-se, se possível, mais ainda.

– Não... D-d-dá pra entender.

Era a voz de Marina. Sentada no chão, parecendo assustada como jamais estivera, ela segurava as mãos que tremiam com força, mas falou com firmeza ao monstro. A impressão que dava era que ela queria entender o que ele tentava falar, como se tivesse importância entender seja lá o que uma coisa igual um goblin está tentando dizer enquanto você está à beira de um infarto. Fez-se silêncio.

O monstro, ainda parecendo intrigado, tentou falar novamente, e Rodrigo novamente teve a leve impressão de que as palavras que ele pronunciava lembravam um idioma diferente, apesar de ele não saber qual outra vez. Aquilo tinha que ser um sonho. Um goblin furioso e poliglota numa selva de sabe-se lá quantos biomas misturados. Ele estava começando a ficar lerdo e inerte, ali em pé olhando. Sua mente começava a ficar vazia – mas isso era normal de Rodrigo mesmo — , tamanha a quantidade de informação inacreditável em um único dia.

– E agora, entendem?

Marina, sentada no chão, arregalou os olhos e gritou trêmula.

– S-s-s-sim!

O monstro deu uma risada grossa e satisfeita que fez Rodrigo se arrepiar mais ainda, se é que era possível.

– Então é isso: bem-vindos ao inferno. – ele falou, satisfeito e com um brilho estranho nos olhos amarelos.

Silêncio de novo.

– Qual é, riam um pouco. Uma piada! – e ele deu a risada grossa de novo.

Marina e Rodrigo tinham acabado de cair na brincadeira de mal gosto mais cruel de todos os tempos. Uma que poderia causar ataques cardíacos muito facilmente.

***

Priscila estava começando a perder o controle, finalmente. Já estava gritando “Alguém” e “Socorro” há dez minutos enquanto andava por entre as plantas que mais pareciam fazer parte de outro planeta, e só não gritava “Por favor” porque sabia que esse seria o sinal de que estaria oficialmente em desespero. Ela tentava manter uma aparência calma, como se tentasse convencer a si mesma de que a situação não era tão grave quanto obviamente devia ser.

Não iria conseguir isso por outros dez minutos.

Já achava que deveria ter tomado alguma coisa muito séria de efeito retardado na noite passada quando viu tudo em preto e branco e não conseguia ouvir a própria voz, além da tontura forte. Quando isso passou, resolveu sair da margem do rio e ir mata adentro, para acabar se abismando com as combinações de plantas que qualquer pessoa sem formação escolar saberia que não vivem juntas. Que lugar era aquele?

Descalça, sem nada – literalmente — além do short azul-claro folgado e da camiseta rosa, a loira acabou cansando de andar enquanto chamava, e sentou numa pedra redonda ao lado de uma poça de algo que era muito capaz de ser areia movediça. Tinha que se motivar a continuar falando...

De olhos fechados, ela começou a aceitar que devia estar sem esperança de sair dali tão cedo. Não sabia quem a tinha mandado pra um lugar que parecia tão distante – e não somente isso, como bizarro também -, mas sabia que estava sozinha. Nem mesmo animais apareceram, para que ela pudesse dizer que fez uma ponta como Branca de Neve...

Ouviu passos. Na mesma hora levantou a cabeça e olhou em volta, esperançosa. Com certeza eram passos, alguém estava amassando a grama, gravetos, flores ou lama – seja lá o que mais tivesse naquele lugar maluco. O vulto ia surgindo por trás de algo que deveria ser uma cruza de parreira com cipós, seguido pelos olhos cor de mel ansiosos dela.

Ela sentiu um certo alívio. Realmente era alguém, um alto rapaz moreno, de camisa social, jeans e tênis, bonito e assustado, que se aproximava. Ele parecia ainda mais aliviado, enquanto se encaminhava a Priscila e ela se levantava da pedra. Ela presumiu, chateada, que ele não parecia ser exatamente um morador do local. Tudo indicava que o moreno estava tão perdido quanto ela.

– Graças a Deus... – ele murmurou com uma voz fraca que não combinava com seu porte. Priscila não pôde deixar de sorrir. — Você... – ofegou. – Sabe que lugar é esse?

– Não moro aqui também. – riu ela com ar travesso, escondendo completamente suas preocupações como se estivesse ali a passeio. – E nem você, parece.

– Eu... Tava andando na rua... Acho que desmaiei e... – O rapaz forte colocou as mãos na cabeça, parecendo se desesperar. – Aí eu senti umas coisas estranhas... Desculpa, tô ficando meio sem controle... Isso tudo me assustou muito.

Mentira. Marcos não havia se traumatizado tanto com a experiência. Na verdade, a cada minuto estava mais confiante, após o choque inicial e os sintomas estranhos. Tinha certeza que qualquer que fosse a situação fantástica que estava se desenrolando, ele sairia ileso, e faria de tudo para usar quem encontrasse para isso. Já estava bem mais tranquilo.

– Ah, que é isso. Já pensou se somos os primeiros humanos a irem parar em um planeta desconhecido? – riu ela de novo, igual uma boba despreocupada. Nem parecia que era ela que estava gritando agora há pouco (e que ele deveria ter escutado).

Ele deu uma risadinha nervosa e tímida, na medida certa, como sempre.

– Sou Marcos...

– Priscila.

Apesar de por fora parecer leve e sem consciência da situação – ou no mínimo muito idiota -, Priscila havia tornado-se extremamente atenta desde que ele aparecera. Todos os seus movimentos, olhares, expressões e tom de voz não passavam despercebidos pelos olhos espertos da loira, e ela sabia que a qualquer momento poderia ver uma brecha para ter base em achar ele suspeito ou inocente. Não tinha como saber se não fora ele mesmo que a havia trazido àquele lugar (apesar de tudo o que ela lembrar antes do suposto desmaio era estar em seu quarto, procurando uma calcinha), ou se mesmo sendo inocente, ele poderia vir a ser alguém perigoso se passando por vítima. Os olhos cor de mel encararam com inocência o rosto, com uma dúvida que começava a crescer a respeito do sujeito.

Os dois estavam, de fato, em duas frequências diferentes ao mesmo tempo. Uma em que eram um trêmulo e tímido perdido e uma pateta aérea, e outra em que ele assumia o papel de quem queria ganhar a confiança dela para ter melhores chances de sobrevivência, enquanto ela avaliava cada movimento dele com absurda rapidez e detalhismo. Era um verdadeiro duelo para ver quem sacava a intenção do outro primeiro.

Marcos olhou um pouco para o cenário, pensando em fazer algum comentário casual sobre a vegetação, mas lembrou-se de algo que honestamente havia esquecido.

– Putz... Esqueci que tô com meu celular, que burro. – ele apanhou o aparelho no bolso, sem paciência para fingir que estava com as mãos trêmulas dessa vez.

Ela notou que ele parecia sincero. Talvez não fosse realmente tão suspeito quanto havia pensado.

Ele digitou algo e pôs o aparelho no ouvido, tentando de verdade, pelo seu próprio bem.

– Droga... Fora de área. – desanimou-se por dentro e deixou transparecer. – E o seu?

– Não trouxe. – nem bolsos tinha no short; parecia uma sem-teto. Ela continuava com a expressão aluada estampada na cara. – É bom a gente dar uma olhada por aí então, né?

– É. – ele respondeu a encarando com aquela máscara de assustado e tímido, que apesar de bem executada não escapou ao julgamento dos olhos da garota. Novamente, ela sentiu a frieza por trás da expressão e voltou a questionar-se sobre o que pensar dele. Ainda não tinha se decidido, talvez ele realmente estivesse se fingindo por alguma razão. Ou poderia ser uma impressão causada pelo estresse de tudo que estava acontecendo.

Mas os pensamentos da loira sobre o que achar disso, querendo ou não, logo tiveram que mudar de rumo. Pouco após alguns minutos de caminhada, em parte notando a vegetação, em parte prestando atenção ao que Marcos pudesse fazer, Priscila teve que parar de andar e acabando por deixar de pensar nisso. O motivo de os dois pararem, espantados, estava bem à frente, claro como o dia.

À sombra de uma fileira de oliveiras, que pareciam ter sido plantadas em fileira de propósito, estava um animal selvagem. Deveria ser um filhote de onça, talvez leão ou até mesmo um gato-do-mato. Era difícil para eles se concentrarem na espécie, pois estavam impressionados demais com a presença do animal. Mais do que o medo de serem atacados, tanto Priscila quanto Marcos sentiram aquilo nos olhos azuis da fera, que viera andando calmamente com suas patas de garras afiadas pelo caminho oposto até topar com eles. Ele tinha um tufo avermelhado de pelos no topo da cabeça, como um topete. O que mais assustou Priscila foi o rosto do felino – era como algo fantástico, uma expressão inegavelmente humana nos traços da boca fechada e nos olhos que encaravam os dois. Por alguma razão, ela sentia que era como se o filhote de fera pudesse falar a qualquer momento.

– São vocês.

Priscila piscou. Marcos também pareceu aturdido.

Sem dúvida o felino tinha falado, tão naturalmente quanto qualquer um, sem sotaque reconhecível, com uma voz que facilmente passava disfarçada como um homem de trinta e cinco anos, decidido e com um quê de arrogância. Não, não tinha como Marcos ser suspeito de o que quer que fosse. A não ser que ele fosse um alienígena daquele planeta onde animais falavam. Ambos não ousavam tirar os olhos do animal, com medo de não poderem dizer que viram com os próprios olhos o que aconteceria em seguida.

– Lionill... Gurai. – ele fechou os olhos por um instante enquanto continuava a falar no mesmo tom sério e profundo de homem adulto, seja lá o que aquilo fosse. Era como estivesse se apresentando, mas era bizarro demais para ser aceito. Mas era o que parecia ser – o nome dele. – Devo começar a explicar sozinho, suponho.

A garota, em um impulso louco, decidiu que provavelmente entraria para a história e ganharia prêmios mais fácil se se apresentasse ao animal falante antes de Marcos.

– Meu... nome... é... Priscila. – ela deu um passo à frente e falou com o animal, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O queixo de Marcos finalmente caiu, ao olhar para a situação. – Você... É...

O felino deu um rugido baixo que parecia um suspiro, interrompendo-a. Ela calou-se, ainda com o sorriso bobo no rosto, enquanto olhava ele andar lentamente para trás, como se fosse avançar com unhas e dentes. Na hora em que Priscila começou a achar que de fato era isso o que ele iria fazer, um ruído fez-se ouvir atrás dos humanos. Algo parecia ter caído no chão do alto, e a muito custo Marcos e ela viraram as cabeças para ver o que foi.

Cada vez mais ela achava estar em outro planeta, pois dessa vez o ser que havia aparecido era um soldado que devia ter sido transferido para o corpo de um lagarto gigantesco e bípede, completo com um colete, capacete e tinta de camuflagem azul por cima das escamas. Tinha olhos amarelos que se mexiam olhando de um para outro.

A boca de Marcos estava aberta até o chão. Priscila forçou-se a falar algo para não ficar louca de vez, virando-se para a nova criatura.

– Quer ver como eu sou foda? Você sabe falar também. – apontou. Uma dor de cabeça que não tinha relação com a ressaca começava a aparecer.

O enorme réptil, que também tinha feições humanas, parecia receoso de alguma coisa, mas falou.

– Então... Então vocês são os aliens. – do nada, Marcos sentiu uma vontade incrível de socar o soldado lagartixa. Eles?

Priscila começou a rir, sem opção. Virou a cabeça pra cima e deu umas risadinhas; algum dia tudo faria sentido, com certeza. Sua sanidade começava a ir embora, com rapidez. Enquanto dava outra olhada na paisagem que nunca ficava velha, viu uma coisa vindo na direção de todos eles, enquanto um grito distante chegava a seus ouvidos. A essa altura, era possível qualquer coisa no mundo aparecer, então ela não hesitou em gritar com uma certa urgência:

– Cuidado!

Um segundo depois, Marcos havia se jogado para o lado com uma incrível rapidez de reflexos. Não muito distante, havia caído fogo no chão. Fogo, vermelho e fumegante, perfurou a terra batida e soltou fumaça. Priscila finalmente caiu sentada, perdendo a cabeça. Ficou quieta, olhando para baixo enquanto ouvia o que se passava.

Outro grito se fez ouvir, antes alguém pudesse dizer mais alguma coisa. Vindo do alto, planava mais outro ser inacreditável – só podia ser um dragão. A parede psicológica que Priscila usava para suportar tudo começava a ruir, afinal. O ser pousou com estrondo perto do soldado lagarto, que também saiu para o lado, assim como Marcos. Com uma cambalhota desajeitada, ele caiu no chão, embolando-se na terra. Ele gritou algo em alguma linguagem desconhecida, e parecia se dirigir ao humanos. O felino grunhiu, irritado:

– Você esqueceu a linguagem deles? Preste atenção em alguma coisa. – falou de forma solene, como se fosse óbvio que estava cercado por idiotas.

– Verdade! – gritou o dragão, se levantando com rapidez do chão onde caíra. Sem dúvida, ele falava com um sotaque mexicano. Toda bizarrice tinha seu limite... ou não. – Como eu disse, essa vai ser minha entrada de agora em diante! Desculpem pela fumaça... Quis impressionar os estrangeiros! – e abriu um grande sorriso que parecia de algum monstro de filme de terror.

Marcos arregalou os olhos para a criatura. Era grande, passava de sua cintura. Tinha um corpo escamoso de alguma cor entre o verde e o azul, ele não saberia dizer qual. Sua cabeça sem dúvida só poderia ser de um dragão, arredondada porém com um ligeiro alongamento na parte do focinho e boca, com tocos de chifres vermelhos de dragão chinês no topo, bifurcados. O lado de trás da cabeça parecia ter escamas em um formato de grandes espinhos. Também tinha um par de asas do mesmo vermelho, e um rabo quase tão grande e largo quanto o tronco, que balançava feliz. Tinha três dedos nas patas – mãos, pelo que parecia -, com grandes unhas cada, e pés chatos também com três garras grandes. A barriga e a parte inferior da boca eram brancas, e nos seus olhos vermelhos profundos estava uma expressão de completa excitação.

Marcos ainda não sabia como conseguia observar tudo sem enlouquecer, mas era certo que de alguma maneira todas aquelas coisas estranhas tinham o efeito de uma ofensa pessoal a alguma coisa dentro de si. De fato, um tipo desconhecido de raiva começou a despertar dentro do rapaz, ao ver monstro após monstro aparecendo diante de seus olhos.

– Calma... – murmurou o monstro soldado de seu canto, ainda tímido. – Não assuste os aliens...

Foi a gota d’água.

– Ah, não foi nada, Foxy. – o dragão soltou uma gargalhada infantil e boba com aquela voz que misturava uma criança e um monstro. – Vamos agora, quando a gente encontrar o resto deles vamos explicar...

– CALA A BOCA! – ele havia perdido o controle. Fora de si, Marcos encarava a criatura draconiana e gritava tão alto quanto podia, como um desafio. Um desafio para responder ao desafio inicial que eles haviam feito por existirem e aparecerem. – QUERO SABER QUE LUGAR É ESSE – AGORA! MONSTROS DE MERDA!

Priscila olhava pasma, sem reação. As três criaturas olharam para Marcos por alguns instantes, até que, para a surpresa das outras duas, o dragão respondeu:

– ÓTIMO! – rugiu ele, tão alto quanto. Seus olhos brilhavam em delírio, parecia esquecer as prioridades. – Preciso de uma luta para ver do que mais este meu corpo é capaz! – e abriu a grande boca, como se fosse avançar em Marcos em bote, enquanto este ainda encarava furioso o réptil.

No momento seguinte, tudo o que Marcos vira foi o filhote de leão aparecer, como um raio, entre ele e o dragão. Tinha uma pata levantada, em um sinal ameaçador de aviso.

– Kept... Que merda você tem na cabeça?

– Posso lutar com você antes, se quiser! Ninguém teve coragem de nos dar um treinamento decente mesmo! – e ele riu, como se nada tivesse acontecido. Riu, esquecendo do que estava para fazer, e continuou rindo e rosnando até ficar calado.

O leão grunhiu, novamente irritado. O lagarto vestido de soldado observava no mesmo canto de sempre, olhando de um para outro. Suspirou de alívio quando o felino baixou a pata com garras.

Marcos havia se recuperado de seu acesso de fúria. Estava arrependido, muito provavelmente havia desmanchado seu papel de garoto bonzinho e assustado que poderia lhe ser útil. Iria tentar mantê-lo de agora em diante, e esperava que o papel não teria sido estragado para com Priscila.

O leão virou-se para Marcos, parecendo exasperado. Agora ele pôde notar que não era um simples animal, não só pela fala, pelo que parecia. Em volta do pescoço, ele pôde ver desta vez, o felino que falava tinha um grande anel, dourado e reluzente, com uma pedra oval verde encravada. Não mais receoso, pensando talvez que se corria algum risco, fora de alguma maneira defendido pelo leão, ele observou enquanto o animal o encarava de perto, e outra vez fazia a pose de bote que estava a fazer antes de o soldado réptil aparecer das árvores. Iria dar mesmo um bote?

A pata dianteira que estava mais atrás brilhou, e um segundo depois, uma estranha luz surgiu do corpo dele, meio que cegando todos os outros. Da luz, apareceu uma esfera azul, com um símbolo que estava meio ofuscado por todo aquele brilho. Marcos ficou estático sem querer, enquanto via o leão jogar a esfera de encontro a seu corpo. Ele sentiu algo como uma luva de veludo passando em seu braço quando ela fez contato.

O leão suspirou.

– Você, então? – virou-se para Priscila, que ainda estava sentada no chão, e sem cerimônias por já estar irritado, colheu a esfera no ar com um movimento da pata como se pudesse usar telecinese e a jogou em direção à garota. Dessa vez, ao encostar nos seios da garota, o brilho azul se intensificou, e parecia se solidificar enquanto diminuía e se condensava.

Lionill sentiu uma certa satisfação por dentro, mas limitou-se a falar, virando-se para Marcos desta vez:

– Vaniur. É o nome do lugar onde vocês estão.

***

É isso, pensou Jingal. Agora ou nunca.

À beira do lago, ele sentia-se dividido entre seus sentimentos de maneira horrível.

Mexa-se! Agora!

O corpo do humano flutuava sobre a superfície negra da água. Em breve estaria inalcançável.

Não posso. Não quero.

Ele não queria participar da maldita missão. Estava bem, estava confortável, mesmo que não conhecesse nada ainda do mundo para onde acabara de ser mandado. Queria fugir, desobedecer ao favor que fora pedido deles. Gostava de viver, era uma sensação boa. Poder ter a liberdade de escolher entre viver para uma missão ou viver por viver. É verdade que talvez tivessem liberdade depois de cumpri-la, mas... Mesmo estando preso à vida por tão pouco tempo, Jingal tremia de medo, por alguma razão, ao pensar em morrer. Não queria lutar. Não queria se envolver com ninguém perigoso, muito menos com os tais aliens.

Alguma coisa dentro de Jingal pensava diferente, e ele tentava reprimir essa fração de razão contrária. Estaria pondo outros em risco... Talvez valesse a pena tentar... Talvez tivesse algo que valeria a pena, apesar de se arriscar. Salvar alguém. Servir para salvar tudo aquilo que estava em risco na missão, e começando por salvar aquele corpo que boiava fragilmente, desmaiado.

Sentindo que não poderia voltar atrás em uma decisão tão séria, mas ainda querendo imensamente poder sumir, se esconder, fugir de seu medo, Jingal lançou-se à agua.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.