Algo maior que eu
7 Um mundo maior do que parece
Na velocidade que Mirlanda cavalgou acabou sendo um passeio rápido, na maior parte por que quando a Elfa percebeu a força com que Kissares abraçava sua cintura resolveu acelerar o passo só para ver se conseguia assusta-lo ainda mais. Ele saltou do cavalo assim que pararam, antes que a Elfa oferecesse ajuda, teve que se apoiar nos joelhos pois as pernas estavam tremulas.
—Precisava ser tão rápido?
—Desculpe por isso, Calisto não sabe aqui gosta de correr pela manhã —ela disse acariciando o cavalo. Fique aqui eu vou ver se o barco está pronto. —Dito isso ela entrou em uma das tavernas ali perto do porto.
O dia não demoraria para amanhecer as bancas de peixes já estavam cheias e aos poucos os servos iam chegando para abastecer as cozinhas de seus senhores. No meio dos que perambulavam àquela hora da manhã estava o velho Bel.
—Então você sempre acorda cedo? —Disse o pequeno se aproximando do velho.
—É um habito do tempo em que eu vivia da espada, hoje em dia serve para adiantar o café das crianças e arrumar peixe fresco para o almoço.
—Sobre aquilo que conversamos esses últimos dias.
—A sim, é um bom plano, mas temo que se for possível fazer um bom trabalho isso vai atrair a atenção, aquela cabana não é nada, mas uma casa grande...
—Impostos.
—Isso mesmo, ainda tenho alguns contatos no castelo, quero tentar conseguir uma permissão para atuarmos como uma escola e ou orfanato, pode ser que eu tenha que gastar um pouco do ouro que você me deu para conseguir a papelada, mas se eu conseguir seremos isentos dessas taxas e podemos até conseguir o apoio de alguns nobres.
—Eu não entendo muito disso então vou deixar por sua conta.
—Claro, não precisa se preocupar.
A Elfa veio se aproximando curiosa para saber com quem Kyssares estava conversando.
—Saudações — ela disse logo para anunciar sua presença.
—Senhorita. —O velho Bel se curvou.
—Belmondrez ela não gosta de ser chamada assim. —Explicou o pequeno.
—Não me importo se quem disser for um cavalheiro. —Ela continuava tentando irrita-lo.
Kyssares apresentou os dois sem dar muitos detalhes das relações que tinha com eles.
—Temos um problema para resolver, temos que ir —disse a Elfa.
—Perdão eu não quero atrasa-los e também tenho uma dúzia de tarefas para fazer antes do meio dia então com sua licença. —O velho Bel fez uma saudação e se retirou.
—Qual o problema?
—Achei que estaria tudo arranjado, mas o capitão do barco se recusa a nos levar, vamos.
Eles caminharam pelas pontes de madeira até um barco ancorado onde um senhor discutia com um dos servos da Elfa.
—Nem pensar eu sou um pescador, me contrataram para levar e trazer, mas não me disse onde era, nem a pau eu vou para aquelas bandas.
—Não me cause problemas senhor, você estava... —dizia o servo quando Mirlanda se aproximou. —Senhorita estou resolvendo o assunto não se preocupe.
—Não tem nada resolvido, pode por favor pedir para ele retirar suas coisas do meu barco?
—Quanto o senhor quer pelo barco? —Disse a Elfa tentando resolver logo o assunto.
O pescador pensou por um momento, era um homem simples e seu barco apesar de funcionar muito bem já era velho e a aparência não era das melhores.
—15 Mil —ele disse.
—Isso é um insulto, essa coisa não vale nem metade disso. —Disso o servo da Elfa.
—Você tem que levar em consideração o valor sentimental, o barco de um pescador é sua vida.
—Tudo bem —disse a Elfa contrariando seu servo. Kyssares ficou realmente impressionado pensando em quanta riqueza aquela mulher poderia possuir. —Quando terminarmos aqui pode ir este homem te levara até minha residência para te pagar.
—Tudo bem com isso, mas vocês sabem velejar?
O Hobbit balançou a cabeça negativamente.
—Ensine o que precisamos saber —disse Mirlanda.
—Então todos a bordo do Madalena. —Madalena era um barco pesqueiro médio com uma só vela O velho homem explicou tudo que podia embora boa parte dos truques dos marinheiros só poderia ser aprendido com experiência. O Hobbit ouviu com atenção cada detalhe, para aquele trabalho queria ser em útil e provar seu valor.
Tiveram um pouco de dificuldade para tirar o barco do lugar no início, mas depois ficou mais simples, a Elfa parecia ter tudo planejado, o maior perigo que corriam naquele momento era se perder no mar, então ela não parava de olhar a bússola enquanto Kissares se esforçava para guiar o barco. Ficaram bem apreensivos prestando atenção nos detalhes então perceberam que não dava mais para ver Siattes estavam em mar aberto, felizmente o tempo estava bom, o vento forte então era por hora era questão de manipular a vela e girar o leme.
—Vai me dizer para onde estamos indo? —Ele gritou para a Mirlanda na proa.
—Uma ilha sem nome, não é uma viajem longa então não se preocupe, temos bastante comida e agua, com um pouco de sorte será bem tranquilo.
As horas passavam e eles se revezavam nas funções sempre atentos as mudanças do vento e as reações do barco. Já que estavam em alto mar o Hobbit não precisava esconder seu rosto não dava para parar de admirar a beleza a sua volta, o mundo agora parecia bem maior do que ele pensava ser. No fim da tarde quando o sol se deitou no horizonte o mar se tranquilizou e a luz laranja coloriu o céus, o Hobbit no leme tinha uma bela vista da maior beleza que até então tinha visto, Mirlanda distraída sentada na proa com os cabelos ao vento usando somente um vestido simples a luz do crepúsculo colorindo sua pele, uma visão inebriante. Kyssares ficou tão focado na beleza que nem percebeu quando ela notou seus olhos grudados nela, a moça encabulada tratou de ajeitar o vestido já que o vento deixava suas coxas desprotegidas, só então o Hobbit desviou o olhar.
Viajaram mais dois dias sem conversar mais do que o necessário, dormiam em horas diferentes para garantir uma viajem segura. Na terceira noite Kissares ouviu um barulho estranho para se ouvir no meio do mar, parecia um latido, Mirlanda estava dormindo dentro do barco e ele não quis acorda-la imediatamente, procurou em volta, mas era difícil ver naquela escuridão, entretanto o barulho ficava cada vez mais alto, olhando da proa pode ver destroços no meio do mar e entre os destroços viu o que parecia um cachorro grande flutuando em cima de um grande pedaço de madeira. Kyssares virou Madalena para desviar dos destroços, mas ao mesmo tempo aproximar o barco o máximo possível para que pudesse resgatar o cão. Recolheu a vela e desceu a ancora, preparou o bote e com cuidado desceu o barquinho na agua, remou o mais rápido que pode e quando se aproximou notou primeiro que não era um cachorro, mas um lobo o que parecia ainda mais incomum, apesar de estar latindo não parecia agressivo, parecia querer chamar atenção, assim que se aproximou mais o bicho pulou da tabua para o bote, mas não parou de latir. Kyssares olhou em volta esperando encontrar mais alguma coisa quando notou uma garota desacordada agarrada a uma madeira não muito distante de onde estava, remou mais um pouco até poder puxa-la para dentro do bote, só então o lobo parou de ladrar, começou a lamber o rosto da garota, parecia preocupado. Foi difícil levar os dois até o barco, mais difícil ainda conseguir suspender o bote, tinha que girar duas manivelas pesadas revezando entre elas, foi cansativo. Assim que terminou Kyssares podia se preocupar mais com os resgatados, o lobo negro ainda não era adulto e tinha a pata machucada, mas não parecia sério, o próprio animal parecia mais preocupado com a garota do que com sigo mesmo. A garota respirava embora tivesse alguns ferimentos, mas nenhum grave demais, Kyssares se aproximou dela com cuidado para não irritar o lobo, mas este parecia não se importar. O Hobbit notou algo incomum, a garota tinha orelhas de animal além das normais, eram pretas como o cabelo então até que passavam despercebido, mas de fato eram orelhas. O Hobbit nunca havia visto um ser como ela, foi outra extensão do mundo que conhecia.
—É sua dona? —Ele perguntou ao animal, sabia que não teria uma resposta adequada, mas o olhar do lobo mostrava que sim. —Ela está molhada, vou leva-la para dentro e talvez você não goste do que eu vou ter que fazer, talvez eu deva acordar aquela Elfa para ajudar com essa parte, mas conhecendo ela é melhor não.
O Hobbit se esforçou mais uma vez e carregou a garota para dentro até um dos dois pequenos quartos, o que estava livre é claro. Enquanto o lobo observava em silencio ele tirava com cuidado as roupas dela que eram partes de couro costuradas, para sua surpresa ela não estava vestindo nada por baixo, Kyssares estava envergonhado, mas tinha que fazer isso, precisava analisar o corpo da garota para ter certeza que não estava ferida. Sua pele era tão branca que os ferimentos ficavam evidentes, mas não passavam de arranhões, nada muito sério, quando chegou a hora da parte de baixo ele pensou um pouco em como faria isso, as roupas estavam molhadas então era necessário, mas talvez fosse demais para ele, então fechou os olhos e puxou a saia de couro, com rapidez cobriu as partes mais importantes então pode analisar o resto, nenhum ferimento grave nas coxas também, mas outra coisa surgiu, uma calda de pelo negro como o cabelo, sem demorar mais, o Hobbit secou o corpo da garota com uma toalha e cobriu seu corpo com alguns cobertores deitando-a sobre a cama.
—Desculpe por isso —ele disse para o lobo., mas ela deve ficar bem agora.
Kyssares colocou o navio em curso novamente e levou uma tigela de agua e outra de comida para o lobo que parecia faminto. Analisou mais uma vez a garota e o calor do seu corpo parecia estar retornando, seus lábios pareciam ressecados então com bastante calma fez com que bebesse um pouco d’água.
Já estava quase amanhecendo quando a Elfa surgiu.
—Bom dia —ela disse bocejando.
—Bom dia.
—Dormi mais do que de costume, desculpe por isso você parece bem cansado.
—Foi uma noite agitada, aconteceu uma coisa...
O Hobbit contou como havia resgatado a garota da agua omitindo alguns detalhes é obvio.
—Aproposito como meu quarto está ocupado vou deitar no seu hoje, tudo bem? — Ele disse descendo a escadinha sem esperar pela resposta dele.
—O que? —Ela demorou um pouco para entender, mas logo depois desceu as escadas correndo, chegou tarde demais infelizmente, o Hobbit já havia aberto a porta e o que viu foi assustador. O lugar era inabitável, restos de comida, roupas intimas espalhadas por toda parte, lençóis, toalhas, travesseiros jogados por toda parte. A cena surpreendente roubou todas as suas palavras, não conseguia pensar que tipo de animal selvagem teria uma toca assim.
—Eu posso explicar —disse a Elfa se aproximando.
—Duvido muito que possa.
—Eu só sou meio desorganizada só isso, não é nada demais além disso esse é meu espaço pessoal então o que acontece aí dentro só diz respeito a mim, é uma droga não ter como trancar essa porta.
—Um pouco desorganizada? Nem se tivéssemos passado por uma tempestade isso ficaria tão ruim como agora.
—E daí? Se vai dormir qualquer lugar serve.
—Qualquer lugar? —Ele parecia não muito convencido. —Eu vou me esforçar.
Tentando disfarçar a vergonha a Elfa subiu de novo ao convés resmungando.
O Hobbit estava mesmo cansado, mas não podia ir dormir daquela forma, assim mesmo desanimado ele começou a arrumar o quarto, a maior parte era bem fácil, difícil era decidir o que fazer com as roupas intimas que encontrava pelo chão. Ao terminar se deitou na cama e pode sentir profundamente o cheiro da Elfa novamente dessa vez tinha muito menos cheiro de flores esse era menos doce, mas ainda era o cheiro dela.
—Isso trará bons sonhos com certeza —disse ele antes de pegar no sono.
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