Algo maior que eu
2 Objetivos tem que ser maiores que nos
Carregando Mirlanda nas costas o Hobbit seguiu todo o complicado caminho de volta, pelo menos ele tinha certeza de não encontrar nenhum inimigo pela frente, os mercenários haviam feito um bom trabalho limpando a masmorra, ainda assim foi uma tarefa complicada. Quando finalmente sentiu o ar puro vislumbrou o céu da madrugada começando a clarear.
—Ficamos tanto tempo lá dentro que eu nem sabia mais se era dia ou noite.
Cuidadosamente ele tratou de arrumar um lugar confortável para deixar a Elfa descansar, fez uma pequena fogueira ali perto e se distanciou um pouco para caçar.
O céu já estava bem claro e o sol mesmo antes de surgir pintava o horizonte com as corres do amanhecer, foi quando Mirlanda acordou. O Hobbit se levantou rápido de onde estava preparando um ensopado e levou um cantil (recipiente para armazenar líquidos) até ela.
—Aqui, beba —ele disse levando o cantil até a boca dela.
A Elfa fez como o pequenino disse e bebeu da agua mesmo se sentindo incomodada com a situação.
—O que aconteceu? —Ela perguntou notando a dor pelo corpo todo.
—Bom, parece que o golem usou uma magia bem poderosa.
—O que, como, e os outros?
—Eles morreram... eu sinto muito, mas foi o que aconteceu.
Ela ficou em silencio por um momento e então com alguma dificuldade se levantou.
—Eu tenho que voltar.
—Não, você não tem.
—Eu tenho, tem uma coisa que eu...
—Aqui. —Ele jogou no chão perto dela uma bolsa. —Aí está tudo que havia naquele salão e tudo que consegui recolher de valor das coisas dos outros aventureiros.
Ainda sem acreditar a Elfa abriu a bolsa e a primeira coisa que viu foi a pedra que estava no peito do golem, isso já renderia muitas perguntas, mas ela continuou. Haviam também muitas peças de ouro e um pergaminho que ela prontamente quebrou o selo e abriu.
—É isso que estava procurando?
—É sim —ela respondeu com algum receio.
Como foi que ele conseguiu? Por que não abriu o pergaminho? Talvez seja tão ignorante que não se deu conta do quão valioso isso é.
—Pode ficar com o ouro —ela sugeriu afim de fazê-lo esquecer o pergaminho.
—Eu não quero, além do mais eu já fui pago.
Como assim não quer? Esse não é o comportamento de um mercenário, muito menos de um ladino, aqui deve ter pelo menos 900 peças de ouro quase o valor total que eu paguei para o bando.
—Posso saber quanto você recebeu?
Ele deu um largo sorriso assustador antes de responder.
—Aqui tem 10 peças de ouro. —Falou enquanto sacudia a algibeira (Pequena bolsa para guardar dinheiro).
—Tão pouco? Por que aceitou vir em uma masmorra dessas por tão pouco?
—Bom, em primeiro lugar eu nunca tive tanto ouro assim na vida, uma noite em uma estalagem barata custa uma peça de prata, com 3 de ouro consigo passar o mês todo, a comida costuma ser mais barata ainda, 10 peças de ouro podem parecer pouco mais é muito mais do que o salário de um trabalhador comum no mês. Estamos aqui só a 3 dias, eu consigo ver vantagem. Em segundo lugar quem pagaria um Hobbit mais eu isso.
Por um momento Mirlanda até se sentiu mal por ele, mas os caras que haviam lhe pago tão mal estavam mortos no fundo da masmorra então não haviam muito o que fazer.
—Mesmo assim é muito pouco, fique pelo menos com essa pedra, não sei como tirou ela do golem, mas deve valer pelo menos umas 500 peças de ouro. Ela pode armazenar mana (Energia usada para fazer magia) então vai ser fácil vender em uma escola de magia.
—Eu não quero, eu já fui pago, se quer fazer alguma coisa por mim, pode me dar outra corda, fui obrigado a cortar a minha.
—Uma corda, está falando sério?
—Claro que não é qualquer corda, essa é a fabulosa e incrível corda do vale de Igres tecida pelas majestosas e sagradas mãos da sacerdotisa Malena, ela é fácil de cortar, mas não arrebenta com o peso, foi meu presente de despedida do vilarejo.
—Quanto custa uma corda dessas? —Perguntou a Elfa curiosa depois de ouvir aquelas frases cheias de adjetivos.
—Pelo menos 20 peças de ouro.
Depois de quase cair no chão, a Elfa jogou para ele uma algibeira cheia.
—Eu já disse que não quero ouro. —Ele disse jogando de volta. —Sente-se aqui, vamos comer alguma coisa temos uma boa caminhada pela frente, coloquei algumas ervas que encontrei no bosque no ensopado, vai ajudar a curar seus ferimentos.
Enquanto comiam Mirlanda não podia deixar de pensar que estava sendo cuidada pelo pequenino, ainda não conseguia imaginar como foi que aquele corpo tão pequeno conseguiu carrega-la por todo o caminho de volta da masmorra e como foi que ele havia conseguido derrotar o golem que havia matado todo o resto. Algo não parecia certo e o incomodo só aumentava, um misto de desconforto pelo tratamento que estava recebendo e insegurança por estar vulnerável diante de um desconhecido que não queria ouro.
—Isso não está certo, tenho que te recompensar de alguma forma, nunca ouvi falar de um mercenário que não gosta de ouro, pode me explicar isso senhor Hobbit?
—É só algo que ouvi de um aventureiro aposentado. Segundo ele muitos aventureiros novos se aposentam quando tem sorte em uma aventura bem recompensada, ele disse que a chave para um amadurecimento saudável é viver com pouco, assim cada dia que vier vai ser uma batalha pela sobrevivência é assim que se ganha experiência e força, sendo assim logo vou ter que ir atrás do meu sustento.
—Eu entendo mais ou menos, mesmo assim não me sinto bem com isso. —Apesar de entender o que ele havia dito, o estilo de vida do qual ele falava não fazia sentido algum para Mirlanda, para ela soava mais como devaneios de um velho que o jovem Hobbit que ainda não havia aprendido o suficiente sobre a vida acabou tomando para sí.
O Pequeno pensou um pouco, queria resolver a situação tanto quanto a Elfa.
—Sendo assim, envie algum presente para o orfanato no vale de Igres, eles vão apreciar mais que eu.
—Foi lá que você cresceu?
—Mais ou menos isso, de qualquer forma isso me deixa satisfeito.
—Tudo bem, isso resolve nossos assuntos.
Uma vez que estavam alimentados partiram na viagem de volta, era uma longa caminhada porem um caminho limpo, sem muitas dificuldades e sem perigos, fora os animais selvagens os aventureiros tinham quase que erradicado os possíveis inimigos naquela área.
No caminho o Hobbit contou com detalhes sobre a luta com o golem, como aquela arma se adaptava somando o poder de todos os inimigos da sala e como usou a força do oponente para vencer, no fim Mirlanda não estava completamente certa se acreditava ou não na história, parecia um feito um pouco incrível demais para um Hobbit, claro que ela não disse nada e o pequeno ficou satisfeito em ser ouvido e poder se gabar um pouco da vitória.
Já havia anoitecido quando avistaram a capital imponente com seu castelo no alto da montanha e as luzes da cidade em volta, grandioso para quaisquer olhos.
—Ainda vamos demorar umas 2 horas para chegar. —Comentou o Hobbit.
—Se eu não estivesse tão lenta, provavelmente já estaríamos lá. —A Elfa estava claramente desapontada consigo mesma, geralmente não era ela quem atrasava o grupo.
—Não tem problema você está machucada, na verdade eu também estou bem cansado já que não dormi na noite passada, tudo bem se descansarmos por um tempo aqui? —Era mesmo verdade que estava cansado, mas se estivesse sozinho teria continuado, acontece que se sentia meio culpado por que só depois que ela comentou ele foi notar o esforço que ela estava fazendo ate então.
Desculpa por isso. Ela só pensou.
—Claro, minhas pernas já não me aguentam.
Eles se sentaram debaixo de uma arvore e ficaram em silencio observando a cidade. Mirlanda não tinha intenção de dormir, mas assim que seu corpo relaxou sua mente acabou acompanhando e ela pegou no sono em tempo recorde, já o Hobbit esperava mesmo poder pelo menos cochilar, mas quando notou que a Elfa dormia desistiu da ideia já que alguém precisava estar acordado.
Mirlanda foi jogada bruscamente no chão, acordou com o Hobbit por cima dela.
—O que é isso? Saia de cima de mim.
—Quieta olhe isso. —Ele disse apontando ao lado.
Cravado no chão havia um virote (Munição de besta) dava para ver um liquido esverdeado escorrendo pela madeira, ficou claro que era veneno.
—Já é madrugada, tem alguém atrás daquela arvore, tivemos sorte.
Os dois se moveram para trás da arvore ficando fora da vista de quem quer que estivesse escondido a frente.
—Conseguiu encontrar Elfa? —Veio a voz detrás da arvore a frente, uma voz masculina e firme.
—Você conhece? —Perguntou o Hobbit.
—Deve ser um ladrão.
—Quem é essa criança com você? Não esperava conseguir te pegar desprevenida, deve agradecer a ele por ainda estar viva.
—Cala a boca, eu não tenho nada aqui para você!
Mais dois virotes atingiram o chão próximo deles e tiveram que se espremer ainda mais atrás da arvore.
—Até quando vai ficar aí? Não tem como correr nem se aproximar, vai fazer o que Elfa?
—Eu vou distrai-lo, você foge. —Mirlanda sugeriu.
—Até parece.
—Escuta, isso não é brincadeira, esse cara é perigoso, ele não luta com honra nem nada do tipo, se bem sei aquele veneno deve matar instantaneamente.
—Espera eu estou pensando, estamos em um campo, só tem algumas poucas arvores, eu preciso fazer uns cálculos, força, ângulo, tamanho da corda.
Mirlanda disse algumas palavras magicas e jogou na direção do suspeito alguns misseis mágicos que saltaram de seus dedos, alguns atingiram a arvore, mas claramente não eram muito fortes.
—Droga, como não me preparei antes, só consigo usar esses truques.
—Sabe alguma magia de fogo?
—Mãos flamejantes, não é muito forte, vai ser inútil, ainda mais por que ele está protegido.
—Eu tive uma ideia, consegue correr para trás daquela arvore?
A arvore estava a uns 8 metros ao lado.
—Acho que sim, mas e depois? Não tem cobertura para se aproximar.
—Eu vou te dar cobertura, quando eu disser lança os misseis mágicos de novo, conjura mãos flamejantes e espere meu sinal.
O Hobbit rasgou um pedaço da sua capa e improvisou rapidamente uma funda (suporte feito para arremessar bolinhas de chumbo) catou umas pedras no chão e encheu o pano com algumas.
—Vai! —Ele disse começando a rodar a funda improvisada.
A Elfa saiu do esconderijo correndo em direção a arvore, quando viu a figura sair de trás da arvore para atirar, tão bem se mostrou tornou a se esconder quando veio em sua direção inúmeras pedras em uma velocidade incrível, não chegou a ser atingido, mas foi o suficiente para a Elfa conseguir chegar em seu objetivo.
—Muito bom Elfa —disse o cara com as bestas (Espécie de pistola que dispara virotes com um pequeno arco e um arame tencionado, diferente do arco comum ela tem um suporte com um gatilho no centro). —Me avisaram para não me descuidar com você, mas acho que está em desvantagem aqui.
Mirlanda podia ver bem o que o Hobbit estava fazendo atrás da outra arvore, preparando uma corda, tirou da mochila uma garrafa de vinho feita de vidro.
—O que eu faço agora? —Ela perguntou aflita.
—Só mais um momento, já vai ficar pronto.
—Se me der o que eu quero posso considerar deixar seu amiguinho ir Elfa, o que me diz, vamos negociar?
—Os misseis Agora!
O mais rápido que pode a Elfa atirou novamente os misseis sem pretensão de acertar já que seu oponente tinha cobertura, também ainda não tinha conseguido entender o plano, mas resolveu confiar no pequeno já que não tinha muita opção. Os misseis não fizeram estrago nenhum, conforme ela havia previsto, mas fizeram com que o homem se mantivesse no lugar, o Hobbit saiu detrás da arvore rodando a corda com a garrafa amarrada na ponta como um vaqueiro rodando um laço, com muita precisão ele arremessou a garrafa usando a corda para fazer uma curva horizontal e calculando exatamente a distância exata que precisaria, usou a própria arvore onde o homem estava escondido para completar o arco que a corda fez e a garrafa explodiu no peito do homem.
—Que merda é essa, esse cheiro! —Resmungou o assassino.
—Agora! —Gritou o Hobbit, a Elfa já havia preparado a próxima magia e só precisou ganhar algum terreno até poder avistar o homem. Mesmo atordoado ele conseguiu se desviar da magia, que atingiu a arvore e instantaneamente uma enorme bola de fogo se acendeu atingindo o assassino e queimando-o, ele corria, se arrastava pelo chão gritando até não poder mais e morrer.
—Como você fez isso? —Ela perguntou se aproximando do Hobbit.
—Óleo de lamparina. Era minha última garrafa, que bom que funcionou.
—Digo, você não tinha visão do alvo, não tinha um ângulo claro, como você fez isso.
—Matemática, não é nada demais. Que pena que ele queimou desse jeito, eu estava com esperança de ficar com aquela besta de mão.
Enquanto o Hobbit resmungava por qualquer coisinha a Elfa Mirlanda ainda impressionada tentava imaginar diante de quem ela realmente estava, o homem morto no chão de uma forma tão simples era um assassino desleal e perigoso chamado Bernias, não haveria problema enfrenta-lo em uma situação normal, mas ele sempre dava um jeito de atacar suas vítimas desprevenidas e em situação de desvantagem como havia acabado de acontecer, mesmo assim aquele pequeno Hobbit havia acabado de supera-lo em seu próprio jogo. Quem afinal era ele?
—Qual o seu nome? —Ela perguntou.
—Finalmente você perguntou. Meu nome é Kyssares o primeiro Hobbit guerreiro nascido no reino de Siattes.
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