Algo maior que eu
3 Duas vidas com grandes diferenças
Notas iniciais
Ainda era madrugada quando finalmente os aventureiros chegaram aos grandes portões da capital de Siattes, lar dos heróis. Kyssares parou antes de atravessar a ponte.
— O que foi? — Mirlanda perguntou, notando o desconforto do hobbit. — Acha vergonhoso andar ao meu lado? — Era uma daquelas perguntas de auto engrandecimento. A elfa sabia muito bem que qualquer um desejaria a honra de andar ao seu lado.
— Estou certo que chamaria atenção, mas não é isso. Eu vou por outro caminho daqui em diante.
— Bom, se isso é tudo...
— Certo, então até mais.
Até que ela tinha uma ou duas coisas que queria dizer, mas não fazia ideia de como aproveitar as oportunidades, então acabou aceitando aquela despedida simples. Fez uma reverência e se pôs a caminhar deixando o pequeno para trás. Atravessou a ponte larga de pedra cruzando o rio até o portão.
— Bem-vinda de volta, senhorita Mirlanda — disseram os dois guardas no portão em coro. Nenhum deles aparentava ser um combatente habilidoso, faziam mais o papel de vigias. Trajavam armaduras simples, padrão do reino, e carregavam lanças, a arma mais eficiente contra cavalaria. Cada um deles tinha também uma pequena corneta, o instrumento mais importante daquele trabalho, o som peculiar era sinal de problemas e alertava quaisquer outros agentes do reino nas proximidades.
— Bom dia. Como anda o trabalho?
O guarda tomou um susto, não era todo dia que tinha a oportunidade de conversar com a elfa negra de Siattes.
— Manter a cidade protegida é uma honra que carregamos, senhorita. — Um deles respondeu prontamente, quase como um recruta responde ao capitão no exército.
— Faz muito tempo que as noites vêm carregadas de tranquilidade — disse o outro, escondendo um pouco melhor o nervosismo.
Enquanto o guarda contava, feliz da vida, uma porção de coisas sem muita relevância, a elfa fingia ouvir com atenção, enquanto seus olhos discretamente observavam os passos do hobbit. Ao invés de passar pelo portão, ele virou a direita, circulando a muralha por fora, ao lado do rio. A direção que seguiu chamou a atenção de Mirlanda, já que não havia outro portão por ali.
Kyssares caminhou por alguns minutos até um pequeno acampamento. Acendeu umas tochas amarradas nas árvores, o sol ainda demoraria umas horas para nascer. Não havia muita coisa por ali, uma tenda improvisada de madeira e couro, e um círculo de pedras com lenha para a fogueira, nada que valesse ser roubado, ou que doeria no bolso caso fosse.
— Lar doce lar. — Ele disse acendendo a fogueira.
Mal havia terminado de acender a fogueira, quando ouviu um estalar de graveto. Sacou sua faca e estava pronto para atirá-la, quando viu sair detrás de uma árvore a linda elfa Mirlanda.
— Maldição! É melhor no futuro não se aproximar furtivamente de um hobbit, isso seria uma ironia furada.
— Só queria ver onde vive caso… caso eu precisasse de você, quis dizer, dos seus trabalhos. Talvez eu precise contratar mais mercenários então queria ver onde você vive, eu já disse isso. — Ela não tinha mesmo uma boa desculpa para justificar sua curiosidade.
— Eu entendi. — Kyssares soou meio desconfiado.
— Então é isso. Você leva a sério essa coisa de viver no limite.
— Ah é, foram tempos difíceis, mas muito enriquecedor, sem dúvidas. Posso lhe oferecer uma bebida? Devo ter um pouco de café aqui em algum lugar.
— Não, eu já vou indo, agora que eu já vi o que queria, o que precisava — corrigiu. — , vou seguir meu caminho.
— Volte quando quiser.
Ela já estava de saída quando decidiu dizer mais uma coisa:
— Você não se sente isolado morando aqui, longe de todo mundo? Não sente falta das pessoas?
— Me pergunto se alguém sente a minha. De qualquer jeito, eu não tenho como sentir falta de algo que eu nunca tive. Talvez há muito tempo atrás — disse a última frase tão baixo que Mirlanda quase não pôde ouvir.
A elfa saiu sem dizer mais nada.
Ainda ia demorar um pouco para amanhecer, mesmo assim já havia bastante gente pelas ruas; comerciantes ajeitando suas bancas de frutas, bêbados voltando para casa após o fechamento das tavernas, guardas patrulhando, todos tratavam Mirlanda com respeito, alguns por admiração outros por medo. Enquanto passava por todos aqueles estranhos e recebia toda a atenção dos que cruzavam com ela, a garota não parava de pensar em uma porção de coisas que o hobbit havia dito e sem querer recalculava se aquela era mesmo a realidade que queria para si. Ela sabia que boa parte daquela atenção não era pelos seus feitos, ou pela sua força, mas devido a sua raça, ser a única elfa negra de Siattes ampliava sua visibilidade. A fama que tinha era maior do que a maioria dos aventureiros podia almejar, o que deveria ser motivo de orgulho, mas no momento era só desconfortável.
Ao chegar em sua mansão, foi recebida pelos seus servos que já estavam de pé mesmo tão cedo. Pediu que lhe preparasse um banho, tirou aquela armadura suja de sangue seco e suor e passou um bom tempo na banheira de pedras quentes. Seus ferimentos lavados, já não pareciam tão graves como a dor insinuava, sinal claro de que foram bem tratados. Ainda pensativa, ela vestiu uma camisola bem confortável e se deitou na cama enorme que já estava preparada, o cansaço era tanto que ela logo pegou no sono.
Mirlanda teve um sonho em que sentia paz em um campo de flores, como se toda sua realidade não existisse e estivesse em um mundo diferente do que conhecia. Onde espadas e arcos não eram necessários. Acordou já com a luz da tarde entrando pela janela ao chamado de Niara, sua serva humana.
— Senhorita, senhorita. Senhor Gael está aqui para vê-la.
— Tudo bem, eu já acordei. Faça que espere, eu já vou descer.
Gael, um cavaleiro renomado do reino, já havia trabalhado com Mirlanda antes e nos últimos meses haviam se tornado quase amigos. Mirlanda vestiu algo apropriado e desceu rapidamente até a sala principal, onde o cavaleiro aguardava.
— Boa tarde. — Ele disse com um sorriso.
— Sabia que ia aparecer, só não esperava que fosse tão cedo.
— Um guarda me contou que você havia voltado. Fiquei ansioso para ouvir as novidades.
Mirlanda caminhou até a estante em um dos cantos da sala e se serviu de uma taça de vinho, encheu outra taça e entregou na mão de Gael.
— Eu não deveria, já que estou de serviço, mas quem é que trabalha totalmente sóbrio hoje em dia? — O cavaleiro costumava ser bem sério sobre as regras de trabalho, para honrar a armadura branca que vestia. Sua posição havia sido alcançada com muito esforço, era um humano na casa dos trinta anos e para alguém tão jovem seu posto era motivo de orgulho. Só concordou em beber naquele momento porque precisava mesmo se dar bem com a elfa negra, já que ela era um nome importante para Siattes e não faria igual caso houvesse mais alguém por perto.
— Era só exploração simples — disse Milanda se sentando.
— Exploração simples? Nunca tem nada de simples no que você faz. Para começar, como encontrou uma masmorra tão perto do castelo? Achei que os aventureiros já houvessem explorado essa área.
— Veio aqui me interrogar? — Ela parecia irritada.
— Claro que não, só fiquei curioso, curioso e preocupado, se me permite. Disseram que parecia ferida e que nenhum dos que partiram com você voltou. Deve ter sido perigoso.
— Eu me descuidei, só isso. Eles também não eram muito espertos. Talvez eu devesse ter ido sozinha.
— Essa deve ter sido a primeira vez, lembro que costumava ficar bem concentrada durante as missões. Você se descuidar é algo novo para mim.
— Tudo é novo para você. Eu entro em cavernas desde antes de você nascer. Acha que estou ficando desleixada?
— Eu não disse isso. — Se explicou balançando as mãos na defensiva.
— Tudo bem, talvez eu esteja mesmo. Toda essa mordomia e conforto pode estar matando meu espírito.
— Você acha? Eu não acho que é algo com o que precise se preocupar.
— Tanto faz, é só uma coisa que está na minha cabeça. A propósito, já ouviu o nome Kyssares?
— Kyssares, não, acho que não. Quem é?
— O aventureiro que sobreviveu a exploração, o único além de mim.
— Que homem de sorte.
— Não foi sorte, eu tive sorte, de alguma forma ele... ele. — Mirlanda estava com dificuldade para escolher as palavras certas. Tomou o resto do vinho na taça e tratou de enchê-la novamente. — Ele me ajudou.
— Pela coroa do rei. — Gael arregalou os olhos e abriu um sorriso. — Que coisa mais rara, agora vejo por que está tão inquieta. Eu preciso conhecer o digníssimo, todo poderoso Kyssares, exijo que me apresente este homem valoroso que ajudou a rainha da noite, dama da escuridão...
— Já chega! — Ela ficou visivelmente perturbada. Gael sabia como brincar com o ego da garota.
— Isso sim é uma tremenda novidade, já era tempo de um homem fazer você passar por isso. — Ele deu um sorriso cínico antes de continuar. — É assim que começam os romances, só espero que não seja um daqueles velhotes, piolhos de taverna.
— Hoje você está mesmo se esforçando para me irritar. Se não tem mais nada a tratar comigo, tenho assuntos a resolver.
— Foi um prazer te ver tão bem. Não se esqueça, quando tiver algum tempo quero conhecer este cavalheiro que perturba sua mente. — Dito isso, Gael se retirou.
Mirlanda caminhou pela mansão admirando tudo que havia conquistado com sua força; cada tapeçaria e obra de arte, a maioria retirada de castelos amaldiçoados ou fortalezas de bruxos. Outros itens foram comprados em terras tão distantes, que nem sonhava em visitar novamente. De alguma forma, ela sentia que nada daquilo tinha valor algum. Voltando a si, precisava resolver logo os assuntos pendentes.
Vestiu uma bela armadura, não uma feita para batalha, uma loriga de escamas bem ornamentada com prata e detalhes em ouro, só queria uma que escondesse bem os ferimentos que ainda estavam se curando. Partiu para a cidade acompanhada por Niara.
Primeiro encomendou sacos de grãos e batatas no mercador mais próximo, comprou mais do que precisaria para a mansão por pelo menos 6 meses. Pagou uma taxa para que fosse entregue no vale de Igres, conforme Kyssares havia solicitado como pagamento. A parte mais complicada foi encontrar a corda que ele queria, teve que ir em diversos lugares e teve de pagar quase o dobro do preço que ele havia mencionado. Niara não entendia muito bem o que sua senhoria fazia e não costumava questionar, mas ficou ainda mais confusa com o pedido dela, estavam na entrada da cidade, no portão leste.
— Se caminhar naquela direção por uns 15 minutos, vai encontrar um pequeno acampamento. Entregue essa corda ao hobbit que vive lá.
— Entregar a corda? — Niara ainda era uma menina, estava para fazer 15 anos, as vezes custava a entender as coisas e não era boa em interagir com desconhecidos. — O que devo dizer?
— Diz que eu que mandei.
— Só isso, senhorita?
— Espera, é melhor não. Diga a ele que eu solicito sua presença, encaminhe-o até à.… espera, isso pode parecer estranho. — Mirlanda ficou pensativa por um momento.
— Quer oferecer a ele um trabalho, senhorita?
— Isso, diga a ele que tenho uma proposta para um trabalho. Um bem mal pago, do jeito que ele gosta.
— Mas senhorita... — A menina ficou ainda mais confusa.
— É só uma piada, não precisa dizer isso.
Niara até tentou rir, era a primeira vez que ouvia a elfa fazer uma piada, mesmo que não tivesse entendido, rir era o certo a fazer para incentivar seu bom humor. Mirlanda ficou com a corda, pensou que seria melhor entregar pessoalmente.
Kyssares teve um dia cheio, reabasteceu os mantimentos, pagou algumas dívidas e agora estava lavando roupa no rio. Já havia acabado de lavar sua única camisa e se preparava para tirar as calças. Estava preocupado de ter que passar a noite só com a roupa de baixo, talvez tivesse que fazer uma fogueira maior, caso fosse uma noite fria. Bem no meio de suas preocupações triviais, Niara se aproximou.
— Com licença. — Ela disse bem envergonhada.
Kyssares já estava com a calça abaixada quando ouviu a voz fina da menina e tratou logo de subi-la. Se virou com um sorriso no rosto ignorando o que havia acabado de acontecer.
— Pois não. — Ele firmou a voz.
Niara vestia um uniforme elegante; vestido branco apertado na cintura por um corselete preto, assim como as luvas, mostrava claramente que trabalhava em uma casa grande. Impecável como seu uniforme, também era seu cabelo preto, preso acima da cabeça e sua pele branca e sem marcas, muito diferente dos aldeões, aventureiros e comerciantes de Siattes.
— Perdoe a intromissão. — Niara estava surpresa de não ser uma criança e sim um homem pequeno a sua frente, mas como havia aprendido desde que começara a trabalhar na mansão, teve todo o cuidado para a impressão não transparecer.
— Tudo bem, isso não foi nada constrangedor. Em que posso ajudar?
— Minha senhora deseja vê-lo, ela tem uma proposta de trabalho.
— Sua senhora?
— Perdão, devia ter me explicado antes. Meu nome é Niara, trabalho para senhorita Mirlanda.
— Eu devia ter imaginado. Como ela se atreve a enviar um servo até meu muquifo? Ela deve estar tramando alguma coisa.
— Perdão, mas se me der sua resposta, gostaria de voltar agora.
— Tudo bem. — Ele disse torcendo a blusa molhada que acabara de lavar. — Diz para ela o seguinte: Não envie servos até mim, você sabe como me encontrar, se precisa falar comigo venha pessoalmente! — Forçou a voz para parecer bem decidido e másculo. — Agora se me der licença, estou envolvido em algo bem importante aqui.
Ele voltou aos seus afazeres, bateu algumas vezes a camisa nas pedras e já ia até uma árvore para pendura-la, quando notou que a menina ainda estava lá, no mesmo lugar.
— Quer que eu repita? — A pergunta era sincera, pensou que talvez tivesse dito rápido demais para uma criança decorar.
— Não é isso. — Ela ainda soava bem insegura. — É que não posso voltar até minha senhora com uma resposta tão rude. — Aí de repente encontrou alguma confiança.
Kyssares ficou impressionado com a coragem repentina da garotinha e até deu um sorriso antes de responder.
— Eu só estava brincando, pode usar as palavras que quiser, só transmita a mensagem.
Niara sentiu um profundo desconforto por ter se exaltado, então só fez uma reverência e se retirou.
Kyssares não tinha certeza se havia agido corretamente em recusar um trabalho daquela forma. Parando para pensar, havia sido impulsivo. De alguma forma, lhe incomodava o fato da elfa ter mandado uma serva só algumas horas depois de ter lutado ao seu lado. Só podia imaginar que o contato tão repentino, devia estar relacionado com o ataque na floresta.
Niara se apressou no caminho de volta e para sua surpresa, encontrou Mirlanda não muito longe do portão da cidade. A elfa parecia tensa à primeira vista, parecia querer se esconder, mas logo veio ao encontro da menina.
— Onde ele está?
— Bem, o cavalheiro respeitosamente declinou.
— Como!? — Ela levantou a voz um pouco mais do que gostaria e acabou atraindo ainda mais atenção do que de costume. — Ele recusou? — Ela baixou o tom notando os olhares em volta.
— Mas ele disse que apreciaria muito uma visita da senhorita, embora se me permite, eu acho que seria uma honra grande demais para a maioria dos cavalheiros do reino.
— Aquele moleque, aparentemente sempre faz o que quer. Que seja, não percebe que grande oportunidade estou lhe dando. Não tenho por que insistir em abrir os olhos de um tolo. Niara, pode voltar a mansão, ainda tenho alguns assuntos a tratar, mas logo estarei de volta.
— Não prefere que eu lhe acompanhe senhorita?
— Não é necessário, são só arranjos para minha próxima expedição.
— Quer que eu leve isso comigo? — disse apontando para a corda nas mãos da elfa. — Para que não precise carregar por aí.
— Não, tudo bem. Eu acho que eu vou devolver e pegar o ouro de volta.
— Se quiser posso fazer isso, fica no caminho de volta e eu...
— Não será necessário. Acho que é realmente de qualidade, talvez eu fique com ela. Vou pedir para um amigo avaliar.
Mirlanda não costumava agir daquela forma, tentava desesperadamente não deixar transparecer toda aquela perturbação que sentia e acabava evidenciando-a ainda mais. Claro que Niara notou que havia algo estranho, então resolveu não se intrometer. Fez uma reverência e pegou o caminho de volta até a mansão. Já a elfa, essa só esperou a serva sair da vista e foi logo fazer uma visita desaforada ao hobbit, largado às margens do rio, do lado de fora da cidade.
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