Alexis
1 Capítulo 1 - Evan
Notas iniciais
— Lexi! Acorda, vai se atrasar para a aula. — Falou meu pai puxando meu pé. Bufei irritada e levantei.
— Será que você sabe o que é despertador? — Disse irritada. Ele havia me acordado dez minutos antes do horário habitual que eu acordo.
— Não duvido que você retirou o alarme do seu celular pra não ter que ir pra escola. — Ele falou rindo.
Dei um sorriso falso e fechei a porta do quarto. Andei praticamente me arrastando até o banheiro que havia em meu quarto. Tirei a blusona e os shorts que eu estava usando e me enfiei de baixo da água gelada. Meu corpo sofria alguns espasmos por conta da água fazendo com que eu desse alguns pulinhos engraçados. Fechei os olhos absorvendo meus pensamentos malucos. Eu não precisava ter uma crise de ansiedade logo pela manhã.
Sai do banho me enrolando na toalha. Vesti meu uniforme de sempre e andei até minha penteadeira. Eu estava horrível. Passei corretivo em minhas olheiras e rímel em meus cílios. É, eu já estava melhor. Penteei meu cabelo e tentei dar um sorriso. — Que mais pareceu um sorriso de assassina.
Desci as escadas e andei até a cozinha.
— Já tem café pronto? — perguntei olhando para a cafeteira. Café era a única coisa que descia pela minha garganta de manhã.
— Bom dia, Alexa. — Provocou meu pai.
— É. — Respondi sem dar importância. De manhã meu humor é horrível; — Mãe, já tem café?
Meu relacionamento com meus pais é bom. É baseado em provocações, brincadeiras e sorrisos. Eu brigava mais com o meu pai por algumas bobagens, mas minha mãe é uma amiga. Somos inseparáveis.
— Tem, Lexi. Já servi em uma xícara pra você. — Ela falou apontando para a mesa.
— Valeu. — Sorri.
E sim, eu tenho muitos apelidos. Lexa, Lexi, Lexis, Alexa, Alex, ou o meu nome mesmo que é Alexis. Qualquer um pra mim tá bom.
— Já ta pronta, Alexa? — perguntou meu pai. Dei um longo suspiro e tentei sorrir.
— Sim. — Afirmei terminando de tomar o café.
Meus pais são bem chatos quando se trata de liberdade. Meu pai me leva para a escola e na maioria das vezes vai me buscar também. Ele na verdade não gosta disso, mas minha mãe o obriga a agir assim. Mas ela é mais liberal em alguns outros pontos. Às vezes me deixa sair, já me deixou fazer tatuagens, colorir o cabelo, pôr piercing — que não durou um mês — e é bem companheira. Mas eu sinto falta de liberdade, de poder sair com amigos homens ou mulheres, voltar da escola com amigos, curtir algum evento ou passeio com os amigos sem ter meus pais me supervisionando o tempo todo, e muitas outras coisas. Eu passo a maior parte do tempo enfiada em meu quarto, mal saio de casa.
Eu entendo que eles querem apenas me proteger, mas desse jeito eles acabam não me deixando viver. Não entendem que um dia eu vou ter a minha vida. Eles querem decidir o que eu quero e não quero.
…
— Oi amiga! — Falou minha amiga Eve levemente animada.
— Oi. — respondi afundando minha cabeça entre meus braços. Eu estava morrendo de sono, não sabia se aguentava a primeira aula.
Ela riu, mas logo em seguida bufou.
— Você é chata, só sabe ficar nesse mundo de trevas! — Brincou Eve.
Ri vagando meus olhos pela sala.
— A Mel vai vir hoje? — perguntei curiosa. Mel é nossa outra amiga, a mais animada de todas nós.
— Não sei, cara. Ela disse que vinha.
Concordei com a cabeça virando de frente para o professor que já estava na sala.
— Bom dia futuros universitários! — exclamou feliz.
E pelo o que eu vi ele era o único ali que estava feliz mesmo.
— Bom dia. — disse a turma em uníssono. Todos estavam desanimados por culpa do sono.
Ele riu pegando uma prancheta. Arqueei as sobrancelhas curiosa.
— Bem, hoje vamos ter uma aula diferente. Na verdade, durante um mês iremos ter aula no estilo de hoje. — explicou o professor sentando. — vocês irão trabalhar em dupla em um trabalho de sociologia.
Sorri animada para Eve, que sorriu de volta para mim. Mas e a Mel?
Todos os alunos ali presentes ficaram animados já indo para o lado do amigo.
— Não, não! Entenderam errado. — Disse o professor. Todos os alunos o olharam confusos. — Será sim em dupla! Mas não irá ser com o amigo.
A maioria dos alunos fizeram um ‘’ah” de reprovação. Bufei irritada. Tinha que ter uma palhaçada nessa história toda.
— Turma… SILÊNCIO! É justamente sobre isso. Interação entre alunos, essa turma é lotada e vocês mal conversam entre si, todos já tem sua roda de amigos. Vocês precisam aprender a se comunicar, ou não irão estar preparados para a vida lá fora. — explicou.
É uma boa ideia, o único problema é que eu e as meninas odiamos quase todos os alunos dessa turma. Estou fodida.
Abaixei a cabeça inconformada.
— Isso é uma puta de uma palhaçada! — Eve reclamou irada.
Rolei os olhos.
— Queridos alunos, eu não preciso da aprovação de vocês, está no meu programa de aula e assim que vai ser! Agora vamos as duplas.
O professor já havia formado praticamente todas as duplas. Faltando apenas cinco serem formadas.
— Mmm… Mellissa Fitch e Eve Martinez. — Informou o professor. O olhei puta da vida, depois virei para olhar Eve.
Eve pulava de alegria.
— Sua maldita sortuda! Isso não é justo, vocês. ..Nós somos amigas! Vou falar pro professor agora mesmo! — Falei revoltada.
— Alexa! Cala a boca, palhaça. Para de inveja porque eu e a Mel estamos juntas. E, aliás, quem é Mellissa Fitch mesmo? Desconheço. — Provocou Eve.
Semicerrei os olhos. Eu estava a matando mentalmente. Eu queria matar o professor isso sim!
Cruzei os braços já esperando o pior.
— Alexis Campbell e...Evan Hills. — Eu sou azarada mesmo. Logo o amigo dos meus ex amigos? Eu devo ter jogado pedra na cruz.
Virei para olhar o garoto que me olhou de volta. Nenhum dos dois esboçou uma reação sequer.
Depois de dois minutos o professor havia terminado de formar as duplas. Algumas pessoas da turma queriam degolar o professor, outras demonstravam animação com o trabalho, havia também os que estavam ligando o foda-se. E havia eu, que ainda não tinha processado quase nada direito.
— Enfim, no fim do mês quero um relatório sobre suas opiniões sobre interação na sociedade e tudo mais. Acho que já entenderam o que eu quis dizer, podem se juntar agora, debater e também se conhecer. — Concluiu sorrindo.
Suspirei de saco cheio.
Mel chegou correndo no meio da aula e sentou- se entre nós
— Oi! O que eu perdi? — ela perguntou ofegante.
Levantei irritada e sai andando. Ouvi Eve gargalhar, mas dei de ombros.
— Oi. Acho que agora tenho que sentar aqui. — falei tentando ao máximo parecer simpática.
Simpatia não é o meu forte, além de que eu sou tímida.
— Oi. — Evan falou sorrindo.
Evan é visto como um dos garotos nerd da sala. Ele realmente é inteligente, mas não é tudo isso. Ele só começou a estudar de verdade há um ano, ele mais faltava do que vinha para a aula, faltava pra jogar e dormir em casa. Ligava o foda-se por odiar boa parte da turma.
Eu não o julgo por ser assim. Se eu pudesse faria o mesmo, eu só não concordo com a turma o colocando num pedestal como se ele fosse tudo isso. O novo Einstein.
Já havíamos saído “juntos” antes. Vivíamos saindo até um mês atras quando eu ainda falava com meus outros amigos, nós vivíamos saindo em grupo. Eve, Mel, eu, Bianca — uma outra amiga que havia saído da escola — Pedro, Jorge, James, Luca e o Evan. Eu nunca havia tido um contato de verdade com Evan, apenas saíamos com os nossos amigos, mas nunca havíamos conversado. — Aliás, ele estudava comigo há anos. — Enfim, esses meus ex amigos pararam de falar comigo e com as meninas assim que Bianca saiu da escola. Não entendi isso até agora, mas foda-se. Eu não ligo mesmo.
Evan é bonito. Cabelo encaracolado e escuro, olhos castanhos bem claros, tinha um físico normal. Nem gordo e nem muito magro. — Não idolatro garoto entupido de bomba pra parecer musculoso; — pele clara, e é maior que eu. — acho que é porque eu sou baixa mesmo — E é bem palhaço com os amigos.
— Então...Tem alguma ideia? — perguntei mordendo meu lápis.
— Na verdade, não. Acho que temos que tentar ter essa “interação” pra poder ter ideias. — explicou olhando para meus lábios. Revirei os olhos.
E ei, eu havia sentido um pouco de sarcasmo na parte do interação. Ou eu só sou doida mesmo?
— Ótimo. — ironizei.
Eu não lido muito bem com novas amizades, novas pessoas entrando em minha vida. Talvez porque eu sou fechada demais e tenho medo de me aproximar de alguém e me machucar. Então eu sou meio difícil de lidar. Eve tentou muito antes de conseguir ficarmos amigas, eu era muito mais calada do que sou hoje em dia.
— Ok… — Falou Evan. Não havia assunto.
— É... A gente tem que continuar o resto da aula fingindo que estamos nos dando bem. — Disse olhando para Mel e Eve que pareciam estar super animadas. Bufei irritada começando a rabiscar meu caderno.
— Vocês se afastaram dos meninos, né? — Comentou Evan observando meus rabiscos.
— Eles que se afastaram da gente primeiro, a gente só fez um favor se afastando completamente. — expliquei enquanto desenhava um olho.
— Legal o desenho. — Hills elogiou sorrindo. — Eles estavam falando de vocês ontem, que era legal quando saiam juntos. Não entendi o porquê de eles terem mudado depois que a Bianca e o Luca saíram, mas acho que tem alguma coisa a ver com o Peter;
Rolei os olhos.
— Eu já desconfiava. Na verdade, antes da Bianca e o Luca saírem da escola eles já estavam ficando estranhos com a gente. Foi só começarem a se aproximar do Peter. Esse garoto é insuportável. — falei irritada.
— Relaxa. Amigos vão e vem. — Evan falou tentando me confortar.
— Eu não tô nem aí pra eles, a Mel que tá chateada.
Ele abriu e fechou a boca, mas não falou nada, apenas deu um meio sorriso e voltou a fitar meus rabiscos.
O sinal da próxima aula tocou avisando que podíamos voltar aos nossos lugares.
— Então acho que continuamos na próxima aula! — Sorri indo embora.
— Acho que sim. — Agradeci mentalmente pelo fim da aula antes de arrastar minha cadeira até o lugar onde eu estava sentada.
— Oi! — Exclamei sorridente para as duas loucas.
— E aí como foi ser a best do Evan? — Provocou Mel.
— Cala a boca, ah, ele disse que os meninos falaram que sentem falta de quando saíamos em grupo! — Informei me sentando ao lado das duas.
— Eles que se fodam. — Eve falou dando de ombros.
— Só falsidade, amiga. — Disse Mel me abraçando. Sorri abraçando a garota de volta.
…
— Então, Alex, seu pai vai vir te buscar ou você vai com a gente? — Perguntou Eve.
— Ele vem me buscar. — contei rolando os olhos.
— Isso que dá ser o bebêzinho, a mais nova de nós. — Eve falou rindo.
— Vai se foder! Eu tenho dezesseis, e daí? Chata pra caralho. Problema seu se você tem dezoito, e que bom que a Mel tem dezessete! E outra, você fala assim como se eles saíssem comigo de mãos dadas por aí.
— Não liga pra ela, Alexis. — Mel sorriu de lado e me abraçou tentando me acalmar.
Meu pai buzinou em frente a escola avisando que já era hora de ir.
— Tchau ridícula, tchau Mel. — Me despedi mostrando o dedo do meio para Eve que só fez rir. Evan estava em frente ao carro do meu pai, o olhei e sorri tímida. Ele sorriu de volta dando um adeus com a mão.
Eve vivia me provocando em relação aos meus pais e a superproteção deles, eu sempre rebatia suas provocações, mas às vezes — quase sempre — ficava chateada com a situação toda. Não é como se eu já não me sentisse sufocada o suficiente por eles e ainda tinha que ser sufocada por ela.
Odeio minha vida.
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