Alessa
1 Hospedeira (1x01)
Notas iniciais
Capítulo Um: Hospedeira

'' A porta da frente estava arrombada quando os policiais entraram. Vizinhos narram ter escudado gritos desesperados, que foi o que os motivou a ligar para as autoridades, que infelizmente, ao chegarem à cena do crime, não encontraram os responsáveis pelo ato grotesco que chocou a população local'’. — A voz da repórter, levemente abafada pelo som de trovões ao fundo, parecia revelar certo desconforto. Era uma mulher bonita, de cerca de vinte anos. Vestia uma capa de chuva amarela e ao fundo era possível enxergar as luzes dos veículos policiais piscando timidamente. – '' A casa, de acordo com o relato das autoridades, parecia ter sido palco de algum tipo de ritual maligno no qual os corpos do casal que ali vivia foram encontrados já sem vida. O filho mais velho, de sete anos, continua desaparecido enquanto a filha mais nova, de três, estava na escola e foi encaminhada pelo conselho tutelar a um orfanato local ‘’.
— Alessa, o que está assistindo? — Andresa Carvalho desceu as escadas que levavam até a cozinha, interceptando a filha que estava focada num vídeo em seu celular.
— Não é nada. – Mentiu, baixando o volume rapidamente.
— Meu amor, eu sou sua mãe. Você não pode me enganar. Está vendo aquele velho noticiário, não é?
— Sim... – Confessou timidamente. Alessa era uma jovem bonita, negra, de olhos verdes e cabelos escuros que desciam até pouco acima da cintura, quase sempre presos em um rabo de cavalo. – É que já se passou mais um ano... E eu só queria entender o que aconteceu.
Andresa abraçou a filha, juntando suas mãos firmemente as dela ao desvencilhar-se. Encarou-a com um misto de compaixão e preocupação.
— Eu sei que é muito difícil para você lidar com isso, querida. Eu mesma ainda tenho arrepios quando me lembro de ter assistido a história no jornal. Foi difícil convencer seu pai a não escondermos a verdade de você. Mas o que está no passado, lá deve ficar. O Dr. Estevão já não conversou sobre isso com você tantas vezes? Não é culpa sua e não há nada que possamos fazer, infelizmente. A polícia já tentou descobrir as respostas para o caso tantas vezes, e falharam em todas.
— Eu fico pensando no meu irmão. Ele nunca foi encontrado. Será que está por aí? Será que está bem? Se eles fizeram aquilo com meus pais biológicos, imagino o que teria acontecido com Daniel.
— Eu entendo, de verdade. – Andresa suspirou após outro abraço. – Você sempre fica assim quando chegamos nessa época do ano. Quer que eu te leve lá amanhã? Vou sair do serviço mais cedo.
— Você faria isso por mim? – Alessa sorriu, sentindo o calor do gesto afetivo de sua mãe adotiva.
— Mas é claro. Eu faria tudo por você meu bem. – Deu um beijo na bochecha da filha. – Eu sei que a vida pode ser cruel, mas olhe o lado bom: Foi no meio dessa tragédia que te conhecemos, e ninguém poderia ter deixado nossa vida mais feliz. Al, você é um presente. Nunca se esqueça disso. Agora termine de se arrumar e já para a escola! Eu não quero saber de mais atrasos.
Alessa terminou o café da manhã e saiu da cozinha depois de tentar em vão afugentar uma grande mariposa que estava na parede. Tomou um banho apressado e esperou na sala de estar até que a vã escolar chegou. Após o curto trajeto entre sua residência e a escola, abriu o guarda-chuva e entrou as pressas no edifício escolar. Era uma manhã tempestuosa de quinta-feira, e a entrada do Colégio Campos Miranda estava literalmente encharcada graças aos alunos que depositavam seus guarda-chuvas molhados nos cabides fixados na parede do pátio de acesso. A garota seguiu o mais rápido que pôde, tentando não escorregar até que chegou à sala de aula, onde felizmente o professor do primeiro horário ainda não estava presente. Seguiu até os fundos, até seus dois melhores amigos: Ester e Vitor.
— Oi pessoal. – Alessa sorriu. – Tudo bem com vocês?
— Mas é claro. – Vitor sorriu animado. Era um garoto magricela de quinze anos. Tinha cabelos arrepiados, castanhos como seus olhos. Seus dentes da frente eram grandes, e o nariz fino e arrebitado. Não era feio, mas um pouco desengonçado. Alessa sempre dizia que ficaria mais bonito se não fosse tão descuidado com a própria aparência. – Hoje é o grande dia. – Anunciou o garoto, agora sussurrando como se estivesse numa conspiração.
— Ah, me poupe! Você acha mesmo que aquela porcaria velha vai funcionar?! – Ester franziu o cenho. Era uma garota simplesmente estonteante, muito semelhante à maioria das patricinhas que se via nos filmes e séries de televisão, muito embora seu caráter fosse excelente e sua popularidade questionável. Seus cabelos eram loiros e lhe caiam pouco abaixo dos ombros como cascatas onduladas. Seus olhos eram de um belo azul, levemente escuro. – Eu já te disse milhões de vezes e vou repetir: Essas coisas não existem.
Na última sexta-feira os garotos haviam descoberto uma velha tábua Ouija nos achados e perdidos da escola. O lugar era uma pequena sala de aula abandonada onde os funcionários do colégio amontoavam em caixas todo tipo de tralha desaparecida, carteiras quebradas e objetos que não tinham mais serventia, como uma velha televisão que ficava perto da porta. Desde então, andaram esperando a oportunidade perfeita para usar a tábua, que de acordo com o que sabiam servia para se comunicar com os espíritos de pessoas que já morreram.
— Acham que é uma boa ideia? – Alessa estava apreensiva com a situação. — Eu odeio qualquer coisa ligada a filmes de terror, fantasmas e tudo mais. Se um demônio ou algo do tipo aparecer pra mim vocês vão ser culpados pelo meu ataque cardíaco.
— Nem se preocupa Al, essas porcarias não funcionam.
— Você vai ver se não funciona Ester! – Vitor bradou ressentido. Era um grande fã de tudo ligado ao paranormal, e se sentia pessoalmente atacado pelos céticos.
No horário de educação física, quando todos os alunos estavam indo para a quadra após a professora fazer a chamada, os três deram meia-volta e se esgueiraram pelos corredores até a sala dos achados e perdidos. A educação física era com todas as turmas do primeiro ano, portanto seria difícil darem falta deles uma fez que a lista de presença já havia sido assinada. Abrindo a porta da sala, sentiram o cheiro nada agradável e a atmosfera abafada do lugar, que ficava constantemente fechado. Após se fecharem em seu interior e acenderem a luz fraca, Vitor vagou pelas caixas até encontrar a velha tábua e o ponteiro, colocando-os no chão. Sentaram-se ao redor do jogo e seguindo as instruções do garoto, fizeram o passo a passo para começar. Passaram-se alguns minutos, mas o ponteiro sequer deixou seu posto inicial.
— Eu falei que não ia funcionar. – Ester anunciou, com ar de vitoriosa.
— Vai ver não tem nenhum espírito por perto. – Alessa sorriu, tentando animar Vitor, apesar de estar internamente grata por não ter dado certo.
— Shh! Calem a boca. Vocês não podem demonstrar falta de respeito, se não... – O garoto foi interrompido em seu discurso, as atenções voltadas ao tabuleiro, que começou a andar em direção as letras.
— Haha. Muito engraçado Vitor, agora pode parar de empurrar.
— Eu não estou empurrando. – Protestou, mas a tábua já havia parado. – Uma de vocês deve ter deixado o dedo escorregar. – Desanimado ao ver que o movimento cessara, desistiu. – Deve estar quebrada.
Os garotos levantaram-se desanimados e saíram, esquecendo-se de guardar o objeto. Na metade do caminho, Alessa se lembrou do feito e retornou sozinha para guardar a velha tábua. Abaixando-se para pegá-la, assim que tocou o ponteiro este se moveu para a esquerda rapidamente. Curiosa e um pouco em estado de choque, Alessa tornou a tocá-lo, o coração batendo fortemente enquanto tentava lutar contra o medo constrangedor que começou a sentir. O ponteiro se pôs a andar mais uma vez, dando pequenos intervalos de segundos enquanto sua lente estava parada em algumas letras, que a garota fazia questão de repetir em voz alta para formar a mensagem em sua mente. Por fim, após a última letra, o ponteiro seguiu de uma vez para a borda esquerda do tabuleiro, deixando-o. Alessa, tremendo levemente, levantou-se ciente de que o ponteiro havia formado a palavra: A-N-I-Q-U-I-L-A-D-O-R-A.
Saiu apressada para buscar os amigos, pedindo insistentemente que a acompanhassem. Quando tornaram a entrar na sala, mandou que tocassem o ponteiro, mas nada aconteceu. Alessa começou a se perguntar se estava imaginando coisas.
— Eu juro, eu vi se mover! – Insistiu quando os amigos a acusaram de ter pregado uma boa peça.
— Aham. Você pode discutir mais sobre isso quando o papai Noel for te visitar no natal. – Ester revirou os olhos. – Foi engraçado, amiga. Eu admito. Mas já deu; Chega de insistir nisso.
— Eu acreditei quando nos contou Al, mas... Porque ele não se moveu quando estávamos aqui? – Vitor parecia consternado com a ideia de que talvez a amiga fosse mais merecedora do que ele, que lutou sem sucesso a vida inteira para ter o menor sinal de demonstração paranormal em seu caminho. – Você sequer queria participar. Pode ter sido coisa da sua cabeça. Você estava com medo, não estava?
— Tudo bem. Eu sei o que eu vi, mas vocês não precisam acreditar nisso. – Esbravejou, dando-se por vencida. – Agora chega desse assunto. Temos que voltar para a sala de aula, já que o sinal vai bater daqui a pouco.
Os três, imersos num clima ‘’levemente’’ tenso, seguiram então para a classe enquanto a sirene da escola soava, marcando o fim da educação física. Se tivessem voltado, mesmo que por alguns segundos, teriam visto que atrás destes o ponteiro, que havia voltado para a tábua, se movimentava formando um nome ao parar por cima das letras, na seguinte sequência: A-L-E-S-S-A.
...
No dia seguinte, a excitação com o tabuleiro já havia passado e os amigos não falavam mais sobre isso. Alessa estava empolgada, afinal era o dia da seleção do time feminino de futebol da escola, e ela iria participar pelo segundo ano consecutivo. Quem sabe dessa vez tivesse a sorte de ser escolhida.
Os testes de seleção estavam particularmente rigorosos naquele ano, mas Alessa procurava não se deixar desanimar. A treinadora do time se chamava Eneida Machado. Era uma mulher rígida, de cabelos ruivos e olhos verdes bem claros, abrigados atrás de óculos de lentes quadradas. Soou o apito, enquanto as garotas davam voltas correndo pela quadra. Depois que terminaram todos os exercícios, que envolviam flexões, abdominais, pontes e agachamentos, começaram a jogar.
— Muito bem. Vou dizer os nomes das garotas que entraram para o time. – A professora anunciou depois da partida. – Aquelas que não forem citadas, façam um favor e se retirem. Boa sorte no ano que vem, caso queiram tentar novamente.
Alessa aguardou com aflição enquanto a professora citava os nomes. Ela não os organizara em ordem alfabética, o que indicava que talvez ainda houvesse uma esperança para a garota. Estava para desistir quando a ruiva finalmente lhe chamou. Um grande sorriso se formou em sua face ao perceber que enfim havia conquistado seu objetivo.
— Os treinos serão na terça-feira durante o turno da tarde. Se faltarem mais de duas vezes sem justificativa, estarão fora do time. – Os olhos da mulher pousaram em Alessa, que se sentiu incomodada. A professora parecia dissecá-la, analisando cada aspecto de sua alma. — Espero de todas vocês força, dedicação e unidade. Ah, e comprometimento acima de tudo. Estão dispensadas. – O apito da docente marcou o término do processo seletivo.
De volta a casa, Alessa almoçou e trocou de roupa para sair. Foi com a mãe adotiva até o cemitério onde os pais biológicos foram enterrados, conforme costumava fazer sempre que seu aniversário se aproximava. Andresa não entrou com a filha; Achava importante que a garota tivesse seu momento de privacidade com a memória de seus verdadeiros progenitores. Esperou no carro, abrindo um livro para fazer o tempo passar mais depressa. Nenhuma das duas notou a grande mariposa que descansava no para-brisa.
Diante das lápides, Alessa se sentou num pequeno banco de madeira próximo, observando os túmulos com melancolia. Chovera um pouco enquanto estava na escola, então o ar carregava aquele característico cheiro de terra molhada. Respirou fundo, imersa nos próprios pensamentos.
— Ah, papai, mamãe. Mais um ano se passou. Daqui há pouco tempo vou ter dezesseis anos, e nada de encontrarmos o Dan. Eu sinto muito.
— Eu acho que eles teriam orgulho de você. – Uma voz conhecida soou, vindo por trás de Alessa. Quando a garota voltou-se para ver quem era, observou com curiosidade a professora de educação física, que agora usava uma blusa preta e calças jeans, bem diferentes do shortinho esportivo e da regata costumeira. Seus cabelos estavam soltos, também livres do habitual boné de uniforme. – Exceto quando mata minhas aulas com seus amigos.
— Professora Eneida? – Alessa levantou-se, surpresa. – O que faz por aqui?
— Vim visitar um falecido primo. – Fez um gesto vago com as mãos, como que indicando que o assunto não era importante. – Parabéns pela vaga no time hoje Alessa. Você fez por merecer.
— Obrigada professora. Eu me esforcei bastante.
— É... Deu pra ver. Sabe Alessa, acho que podemos esperar grandes coisas de você aqui em Belo Horizonte. Estou correta?
— Ah, deixa disso. Eu gosto de jogar futebol, mas nunca pensei em levar a coisa para o outro nível. É divertido competir e tudo mais, mas eu queria mesmo é me formar em medicina.
— Fico feliz em saber que tem um plano para o futuro, mas não era bem disso que eu estava falando. Bom, vamos dar tempo ao tempo. Estou de olho em você Alessa, todos nós estamos. Nossa esperança agora está em suas mãos.
— Obrigada, eu acho. – Respondeu levemente desconcertada. O ar sombrio e enigmático da professora começava a lhe soar incômodo. Decidiu que era melhor sair dali. – Agora se me dá licença, preciso ir, minha mãe está me esperando no carro. – Despediu-se da professora com um aceno. Foi até o túmulo dos progenitores falecidos, agradecendo-os e prometendo num sussurro, voltar assim que pudesse. Seguiu as pressas até a saída, tentando não pensar de mais no que levara Eneida a agir de modo tão estranho.
Naquela mesma noite, enquanto Alessa dormia, certa agitação se encontrava numa antiga catedral católica abandonada no centro de Belo Horizonte. O edifício fora fechado para uma reforma que nunca acontecera, e seu ar impetuoso era suficiente para que mesmo os arruaceiros não invadissem o lugar. É claro que isso se restringia aos arruaceiros humanos...
— Posso ver, meus irmãos. – A voz suave e quase poética soou pelo salão principal do templo. Seu portador era um rapaz alto, de cabelos brancos e olhos num intenso tom de vermelho sangue. Suas feições eram retorcidas, marcadas por fortes rugas de expressão. A mandíbula saliente revelava através de um sorrir maquiavélico, presas proeminentes.
Um cheiro ocre inundava o local, misturando-se a incenso que queimava. Ao redor da figura macabra, reuniam-se cerca de mais vinte outros presentes, cujas faces e corpos eram ocultos por túnicas negras em detalhes escarlates de longos capuzes que lhes mesclava junto a penumbra. A figura central retomou o discurso.
– Em minhas visões, fui informado pelo próprio anjo das trevas de que o espírito primordial da tempestade libertou-se mais uma vez, instalando-se em uma nova hospedeira, cuja alma deve estar se corrompendo neste exato instante. Isso é um perigo para nossos planos, não vou negar. Temos de nos preparar, pois não estou disposto a deixar que minha ascensão e nosso triunfo sejam revogados pelas mãos de quem quer que seja. Fiquem atentos, meus companheiros. Uma guerra está para começar.
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