Alessa
2 Filhos da Noite (1x02)
Notas iniciais
Capítulo Dois: Filhos da Noite

A ''Wild Night'' era uma boate nova que inaugurara na Savassi ainda naquele mês. Os festeiros, animados com o novo ponto de encontro, foram logo aproveitando o dia de abertura para conhecer o lugar. Nem um pouco decepcionados com a instalação luxuosa e confortável a um preço consideravelmente acessível, não tardaram a fazer a divulgação boca a boca que garantiu que o local permanecesse lotado todos os dias. Você poderia chegar lá numa noite de segunda-feira e veria a boate repleta de jovens adultos regando-se na dança e no álcool, tudo para irem trabalhar cheios de ressaca e sono no dia seguinte.
Raissa estava em seu segundo drinque, entediada. Sentada a mesa do bar, observava os presentes enquanto as luzes e a música se mantinham ao fundo, quase não notadas por ela. Sua atenção voltou-se então para um rapaz que aparentava ter cerca de vinte e um anos. Era bonito, mas vestia roupas antiquadas; Provavelmente um alternativo amante de bandas cafonas que para qualquer pessoa normal seriam no mínimo motivo de piada. Ela gostava de garotos assim... Exalavam uma virilidade doce que a atraía. Pelo visto, seu encarar foi notado; Ele agora seguia em sua direção.
— Oi gata. Tudo bem? – Perguntou. – Acha que seu namorado vai achar ruim se eu me sentar ao seu lado um pouco?
Ela teve de conter um riso. Adorava o modo como homens não podiam simplesmente perguntar se uma dama estava acompanhada. Não, eles sempre tinham de inferir que ela tinha alguém, como uma forma de se resguardar. Idiota, mas com um quê de fofura.
— Não tenho namorado. Mas sabe, acho que a gente podia fazer algo melhor do que só ficar sentado jogando conversa fora. – Ela sorriu. A julgar pela expressão confusa e excitada no rosto do rapaz, soube que seu objetivo havia sido facilmente alcançado. – Eu sei o que você quer e você provavelmente imagina o que eu quero... Então, que tal dar o fora daqui e apressar as coisas?
Foi o suficiente. O rapaz pegou-a pela mão, passando rapidamente junto dela pelos aglomerados de pessoas dançando na pista. Seguiram até um dos cantos do estabelecimento, mais escuro e deserto. Havia ali uma porta que indicava entrada proibida. Ela sorriu maliciosamente quando este o guiou para dentro de uma sala aos fundos, com nenhum móvel ou objeto além de materiais de limpeza e manutenção, como fios e ferramentas.
— Posso ao menos saber seu nome antes?
— Raissa. – Ela sorriu, aproximando seu corpo do dele. Podia sentir seu hálito quente invadindo seu espaço pessoal. – E o seu, qual é?
— Estevão. – Respondeu. O sorriso lascivo era nítido, brincando em sua boca. Parecia tão pervertido quanto doce. Tal doçura, todavia, logo se esvaiu quando Estevão, como alegara se chamar, forçou a mão contra a garganta de Raissa na tentativa de estrangulá-la. – Fique tranquila. – Começou a falar, quase sussurrando. – Aqui vai um segredinho: Eu adoro garotas bonitas, mas elas ficam ainda mais atraentes para mim quando estão mortas.
Estevão buscou na vítima o olhar de pavor que tanto lhe provocava os mais profundos desejos sexuais, mas nada encontrou. Onde deveria haver pânico, havia agora um risinho de escárnio. A mulher juntou as mãos às deste, forçando-o a se retirar de seu pescoço.
— E aqui vai o meu segredinho: Você já devia me enxergar como a mais atraente daqui. Afinal, eu estou morta.
As feições de Raissa se moldaram, dando lugar a fortes rugas de expressão, presas proeminentes destacadas num maxilar rígido. Seu hálito, outrora agridoce, agora era pútrido. Os olhos castanhos tingiram-se num vermelho sangue bem chamativo e fora do comum. Antes mesmo que Estevão pudesse gritar, agora era ele quem estava sendo estrangulado, só para depois de pouco tempo ter o pescoço quebrado num único gesto brusco da agressora.
Tendo o corpo desfalecido em seus braços, retirou um punhal da pequena bolsa que trazia consigo, deixando o rapaz ao chão. Abriu de sua faringe até o umbigo, deixando que sangue jorrasse. Banhando as próprias mãos no líquido quente e escarlate, Raissa lambeu-as como criança após comer salgadinhos. Em seguida, traçou um pentagrama no chão, junto a uma cruz invertida, usando a essência vital de Estevão como tinta.
— Ó minha senhora da noite, dedico a ti este humilde sacrifício, e ofereço a vida destilada aqui derramada ao meu nobre senhor criador. Peço que este sangue se junte ao de seus companheiros, para que possamos ser agraciados pelas bênçãos vindouras. Que este sangue alimente nosso líder, Dracaenae. – Dizendo tais palavras, estendeu as mãos aos céus. O pentagrama e a cruz desenhados começaram a ferver, e logo, junto ao corpo e todo resquício de sangue, desapareceram. Satisfeita, limpou-se e voltou para o interior da Wild Night.
...
Os gritos animados da torcida soavam enquanto Alessa corria pela quadra, na posse da bola, desviando-se das adversárias que tentavam tirar seu domínio a todo custo. Conseguiu seguir até uma distância do gol que julgou adequada e chutou. A bola zarpou, mas para seu azar atingiu a trave. O apito da professora Eneida marcou o fim do treino daquela sexta-feira.
— Você foi bem Alessa, mas precisa treinar mais a pontaria. – A capitã indicou enquanto as garotas se encaminhavam para os chuveiros.
Chegando em casa Alessa largou-se no sofá, atirando a mochila e os sapatos contra um canto da sala de estar. Seu pai estava sentado à mesa em que faziam as refeições, analisando alguns papéis e tomando notas. Tanto o Sr. Roberto quanto a Sra. Andresa eram advogados e tinham uma firma própria que gerenciavam com bom gosto. O sonho deles era que Alessa também cursasse direito para herdar o negócio da família, mas dado à aspiração que a garota nutria quanto à medicina, pararam de incentivá-la, pois acreditavam que a escolha profissional era individual e que não deveria ser manipulada de forma alguma.
— Alessa minha filha, como foi na aula hoje? – Perguntou, sem desviar o olhar da papelada. — E o treino de futebol?
— Foi tudo muito bem pai, obrigada. – Respondeu enquanto procurava pelo controle remoto que em geral ficava escondido nas quinas da mobília.
— A propósito, eu e sua mãe vamos ter que viajar a negócios para a cidade vizinha neste fim de semana. Vamos sair amanhã bem cedo e só voltaremos no domingo à noite; Estamos envolvidos no caso de um ricaço que está prestes a ir pra cadeia por fundos não declarados. – Revirou o olhar, naturalmente irritado com a burrice costumeira de seus clientes. – Você já é grande o suficiente para ficar sozinha, mas sua mãe acha que talvez seja uma boa ideia convidar a Ester para passar a noite do sábado e te fazer companhia. A escolha é sua.
— Então eu posso convidar amigos? – Perguntou, animada, virando-se no sofá para encarar o pai.
— Apenas a Ester. Sem garotos, sem festas. Só uma amiga para passar a noite.
— Tudo bem. – Suspirou. – Vou ligar pra ela mais tarde e ver se ela vai poder vir.
— Vamos deixar cem reais, para comprarem alguma coisa. Quero no mínimo trinta reais de troco. O excesso é para o caso de alguma emergência.
Como era de se esperar, Ester aceitou o convite. A loira chegou à residência da família Carvalho pouco depois dos pais de Alessa terem saído com o carro. Cumprimentou a amiga com um abraço e entrou, indo até a cozinha para guardar o pote de sorvete que trouxera. Frequentadora habitual da casa, não precisou que lhe mostrassem o caminho até o freezer.
— E então, que vamos fazer? Podíamos aproveitar pra dar um trato no seu cabelo. E nessas unhas! O futebol está acabando com você.
— Tudo bem, tudo bem. Vamos ter o momento de beleza. Mas antes eu quero saber de uma coisa.
— Que foi? – Ester ergueu uma sobrancelha, na defensiva graças ao tom da amiga.
— Eu te vi se esgueirando pelos corredores quando estava indo para o treino. Você sempre vai embora quando a aula acaba. O que estava fazendo na escola?
Ester corou, visivelmente constrangida. Mas ao mesmo tempo em que o fez, um sorriso sapeca brincou em seu rosto. Apesar de ser uma ótima amiga e de querer sempre ajudar as pessoas, a garota nunca fora bobinha, tampouco flor que se cheire. Se um dia resolvesse revelar muitos dos segredos que guardava, boa parte envolvendo-a, muita gente iria ou para a cadeia ou para o cemitério, decorrente da polêmica que tais informações poderiam gerar. Tendo apenas dezesseis anos, Ester era uma excelente manipuladora. E pior, na maioria dos casos, ela pelo menos achava que sabia exatamente o que fazia, como se tivesse tudo calculado.
— Antes de eu falar, você tem que jurar que não vai contar pra ninguém. Nem mesmo para o Vitor.
— Tudo bem, eu juro. – Alessa ergueu a mão, dramática.
— Eu fiquei até mais tarde naquele dia e em alguns outros por ter marcado algumas aulas particulares com o professor Luis na biblioteca. Isso é tudo o que vai arrancar de mim. – Sorriu. – Você me conhece, tire suas próprias conclusões.
— Ester! – Alessa repreendeu a amiga em tom de censura. – Você sabe que isso é errado. Você só tem dezesseis anos e ele é um professor. Isso é doentio! Se alguém ficasse sabendo...
— Mas ninguém vai saber. – Encarou a amiga, séria. – Além do mais, estou prestes a fazer dezessete anos e o professor só tem vinte e um. Ele não é tão velho quanto parece. E afinal de contas, quem nunca quebrou as regras?
— Eu não apoio isso.
— Não pedi seu apoio. – Deu de ombros. – Você é quem me perguntou. Agora chega de cuidar da minha vida e vamos tratar desse seu cabelo que está horrível.
Ester apressou a amiga pelas escadas, rumando ao quarto. Já era noite quando terminaram a seção de beleza, que envolveu arrumação de cabelo, unhas e até mesmo máscara facial. Sem mais preocupar com a aparência, decidiram fazer o clássico das noites do pijama: Assistir a um filme de terror antes de dormir. A loira tinha uma grande coleção de Blu-rays, e trouxera alguns de seus títulos de horror mais recentes consigo.
Enquanto a amiga ajeitava a cama e ligava o aparelho, Alessa desceu até a cozinha para fazer pipoca e pegar o sorvete. Numa das colunas de sustentação, percebeu uma mariposa. Encabulada, perguntou-se se seria a mesma que vira há algum tempo. Não, provavelmente não. Mariposas eram comuns naquela época do ano, e talvez a cidade de Belo Horizonte estivesse passando por algum tipo de superpopulação. De toda forma, não era importante. Pipoca e sorvete prontos, só faltava uma coisa: A pizza que encomendaram por telefone. Afinal, quanto mais comida melhor.
Subiu para o quarto. Enquanto aguardavam o entregador, começaram o filme, devorando a pipoca e as taças de sorvete com cobertura de chocolate. Estavam entretidas, focadas em uma cena de suspense quando o som da campainha quase as fez jogar o alimento pela cama. Ester apanhou o dinheiro entregue pela amiga e desceu para atender a porta. Alessa pausou o filme, aguardando pela companheira.
Passaram-se poucos segundos depois que o ruído da amiga descendo as escadas deixou de ser ouvido, e um novo som se fez presente, arrepiando os pelos dos braços e pernas de Alessa. Ester dera um grito que claramente expressava pânico. Tornou a descer para o andar de baixo, agora correndo. Se fosse uma pegadinha a amiga iria lhe pagar caro... Com o susto, derramara o restante da pipoca todo no chão. Mas felizmente, ou infelizmente, constatou ao chegar à porta de entrada da casa, que a amiga não estava brincando. Parado bem na sua frente, sorrindo enquanto o braço imobilizava a vítima indefesa, uma estranha criatura encontrou os olhos vermelhos com os de Alessa.
Aproveitando-se da distração fornecida quando a besta parou para encarar a nova garota, Ester conseguiu se desvencilhar do braço forte da criatura. Correu rapidamente para o lado de Alessa, em estado de choque. Al, que buscou não deixar-se paralisar de medo, ainda que a tarefa fosse muito difícil, apanhou a mão da amiga e correu para a cozinha, a fim de encontrar uma faca ou qualquer coisa que fosse útil para se defenderem. A fera de face retorcida e presas intimidadoras pareceu se divertir com a cena, dando uma pequena vantagem para elas. Rumou lentamente de encontro as duas, ainda sorrindo.
Tão logo abriu a gaveta para procurar por facas, Alessa viu-se repelida pela mariposa, que voava descontroladamente pela sala. Bastou apenas piscar os olhos para que no lugar do inseto estivesse uma mulher ruiva, cujos olhos por detrás das lentes dos óculos demonstravam uma apreensão desmedida.
— Mas que porra está acontecendo aqui? – Alessa recuou, a pele desbotando conforme o espanto. Ester a essas alturas, tão logo viu a metamorfose, desmaiara; A emoção do momento fora muito forte para ela.
— Facas não vão adiantar nada contra aquela besta. – Eneida apanhou uma das cadeiras, lançando-a com força contra o chão. A cadeira estatelou, e os pés se partiram. Arrancou dois destes, que agora apresentavam irregulares pontas, repletas de farpas. – Você precisa acertar bem no coração. É assim que se mata vampiros. – Lançou um dos pedaços de madeira para Alessa, que mesmo desnorteada conseguiu apanhá-lo com facilidade.
— Eu... Eu não...
— Escute Alessa, você quer morrer? Quer que Ester morra? – A professora soou severa. – Eu não tenho a força para lutar contra esse tipo de criatura, mas posso tentar dar o meu melhor. Mesmo assim, vou precisar da sua ajuda. Deixe para pirar depois, tudo bem?
Em resposta, a jovem assentiu, tentando com dificuldade se recompor. Agarrou firme a arma improvisada quando viu o vampiro, se é que aquilo podia ser chamado de vampiro, adentrar o aposento. O agressor partiu contra Eneida, que tentou lutar, mas logo foi atirada contra o balcão, caindo inconsciente após bater com a cabeça.
— Pobre bruxa... Tão insignificante.
Quando aquele ser bizarro falou, Alessa teve de se segurar para não vomitar graças ao cheiro ruim provocado por seu bafo. Ele correu para a garota, que desviou por pouco de suas mãos. Passou por baixo do balcão para ganhar tempo, mas foi interceptada. O vampiro conseguiu prender seu pé, puxando-a para junto de si. Tentando chutá-lo com a perna livre, buscou sem sucesso de agarrar em qualquer objeto. Quando o vampiro a puxou pela blusa para que ficasse de pé, girou num gesto apressado e por um golpe de sorte o pedaço de madeira, cuja força ao segurar impediu-o de escapulir durante toda a luta, fixou-se ao peito da fera, que em poucos segundos se desfez em pó enquanto seu urro de dor era disperso pela noite.
— Sua primeira morte. – Eneida parecia admirada enquanto se recompunha, ajeitando as vestes. – Meus parabéns. É claro que foi sorte, mas mesmo assim, com um pouco mais de treino...
— O... O que é você? – Alessa estendeu o pedaço de madeira afiado na direção da ruiva. – O que era essa coisa, e como você entrou na minha casa?
— Eu vou te explicar tudo. Abaixe isso e fique calma. – Mesmo diante de toda a loucura, a professora parecia serena e calculista, como se avaliasse quais deveriam ser suas próximas ações.
— É melhor explicar mesmo, ou vou chamar a polícia.
— E vai dizer o que? Que um vampiro atrapalhou sua noite do pijama? Poupe a todos nós dessa idiotice. Você, loira. – Eneida apontou para Ester, que havia acordado mais ou menos naquele instante. Ela ainda meio zonza, a mão na testa, balançando a cabeça como se tentasse afastar algum pensamento ruim. – Pegue uma vassoura, temos que ajeitar essa bagunça.
— Eu... – Alessa queria argumentar, mas infelizmente a mulher estava certa. – Aquilo era realmente um... Vampiro?
— Sim, era um vampiro. Infelizmente esse tipo de praga está presente em todo o mundo. Você deu sorte, são criaturas mais fracas. Se um boitatá ou uma caipora tivesse te rastreado sem que você tivesse sido treinada... Bom, aí sim teríamos sérios problemas.
— Caiporas? Boitatá? Isso é coisa de folclore. Você não está sugerindo que...
— Meu Deus. – Ester permanecia parada, sem obedecer as ordens de Eneida. – Ainda não é dia das bruxas, na verdade estamos no Brasil, ninguém comemora isso. Eu... Eu tinha ido buscar a pizza, e então vi aquele... Monstro...
— Era um vampiro, menina tola. – Eneida explicou impacientemente.
— Mas, isso não existe. Quer dizer, quem já viu um vampiro por aí? Exceto é claro nos filmes. – Ester parecia tão relutante em acreditar naquilo quanto Alessa.
— A grande maioria daqueles que encontram seres sobrenaturais, não sobrevive para contar a história. Exceto é claro se já tiverem se acostumado com a existência deles, como índios, líderes de tribos africanas, bruxos, e por aí vai.
— Alguém mandou aquele vampiro até aqui? – Alessa perguntou apreensiva.
— Não, ele era muito despreparado pra estar seguindo ordens. Deve ser um filho da noite solitário, abandonado por seu criador. Vocês só deram o azar de um bater a porta. Sabe, todo esse mito de que eles não podem entrar sem ser convidados é uma baita de uma mentira. Mas é bom que isso tenha acontecido; O primeiro assassinato é como um batismo. Isso despertou sua força, Alessa.
— Minha força? ...
— Sim. Não tem um jeito fácil de dizer isso, então vou logo ao ponto: Sua alma agora não é mais uma alma pura, você a divide com um dos grandes espíritos que estão presentes na terra desde o início dos tempos. Esse espírito te concede a força e habilidade necessárias para lutar contra as forças malignas que espreitam na escuridão. Agora, se vai usar isso para o bem ou para o mal, é uma decisão sua... Seja o que escolher, haverá consequências.
— Está dizendo que eu estou predestinada a ser algum tipo de bruxa?
— Não, você não é uma bruxa. Você tem força física aprimorada, e pode enxergar os véus entre os mundos, mas isso não te torna uma bruxa. Nem tampouco você foi predestinada para alguma coisa. Não existe essa bobagem de ter sido escolhida.
— Perdão, eu não estou entendendo. – Ester interrompeu. – Era para estarmos lá em cima assistindo um filme e engordando alguns quilos que nos assombrariam no futuro. Descobrir que vampiros e coisas mágicas existem não estava nos planos da noite.
— Bom, se não queriam se envolver, não deveriam ter usado o tabuleiro.
O coração de ambas as jovens pareceu dar um salto. Entreolharam-se antes de tornar a encarar a professora de educação física.
— Você sabe do tabuleiro? – Alessa perguntou, um pouco sem graça. – Então, era isso o que queria dizer no cemitério. Era por isso que falou aquelas coisas estranhas! Agora tudo faz sentido. Na medida do possível, é claro.
— Exatamente. Ao usar a tábua Ouija, você despertou os poderes ancestrais que te consagraram com as habilidades que agora tem.
— Mas, porque eu? Podia ser a Ester, ou o Vitor.
— Seu amigo nunca ativaria os poderes. O dom da tempestade é apenas para mulheres. E isso não aconteceu com Ester porque provavelmente vocês usaram o tabuleiro juntos e depois por algum motivo, você o usou sozinha. Uma pessoa em companhia também não poderia ter ativado seu encanto.
— Eu voltei para guardá-lo. – Lembrou-se. – Quando peguei no ponteiro para recolhê-lo, ele se moveu. Eu contei para eles, mas não acreditaram em mim. – Encarou Ester com um olhar acusador. A loira deu de ombros, sem graça.
— Quando ele se moveu, o ponteiro escapou para fora do tabuleiro. Estou certa?
— Sim... Acho que sim.
— E foi nesse momento exato, Alessa, em que o espírito armazenado naquela tábua deixou-a para se fundir a sua alma, do mesmo modo que fez com garotas antes de você. Já era previsto que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, por isso eu a coloquei na sala dos achados e perdidos.
— Foi você quem fez isso comigo?
— Não. Você é que mexeu com algo que não te pertencia. Eu apenas o coloquei lá.
— Mas espera aí... Você era aquela mariposa! Faz dias que está rondando minha casa... Eu te vi aqui antes mesmo de usarmos o tabuleiro. Se eu não estava destinada a encontra-lo, o que estava fazendo me vigiando?
— A resposta é bem simples: Curiosidade. Seus pais foram assassinados de uma maneira grotesca, e graças as notícias da época, todo o mundo que estava vendo televisão, escutando rádio ou lendo algum jornal na época, sabe como aconteceu. Muitos acreditavam se tratar de algum assassino maluco... Mas pela forma como os encontraram, bem, obviamente se tratava de um ritual demoníaco. Achei que estando perto de você, poderia ter alguma pista do que levou seus pais a serem mortos.
— Meus pais foram mortos por demônios? – Alessa estava boquiaberta. Sua cabeça doía; Era muita informação para um curto período de tempo.
— Não necessariamente. Mas sem dúvidas foram mortos por alguém que buscava usar energias demoníacas para algum fim.
— E porque você colocou a tábua Ouija na escola? Você disse que queria que alguma garota a encontrasse. Por quê?
— Por ser a guardiã do espírito da tempestade. – A professora sorriu ao notar a cara de paisagem das garotas. – Vejam bem, tudo começou há muito tempo, na África. Um terrível demônio, conjurado por um trio de feiticeiros malignos, estava atacando vilarejos, assassinando seus habitantes e saqueando as aldeias. Uma mulher, após perder o filho para a terrível besta, clamou aos seus deuses para que os livrassem daquele terrível mal.
— Não vai me dizer que deuses também existem...
— Bom, existe uma força maior que rege o mundo, a força que impulsionou toda a criação. Sabemos disso. Mas também existem os deuses, que zelam pela humanidade. A fé é capaz de criar grandes coisas, garotas... Muitas personificações de diversos panteões, e criaturas das mais variadas culturas, se mesclam no plano da existência. Mas isso é assunto para outra hora. Posso continuar? — Esperou um pouco para que as duas garotas assimilassem as informações e retomou o discurso anterior. — Iansã, uma poderosa deusa, ouviu o pedido desesperado daquela mulher. Com seus poderes, guerreira como era, capturou um espírito primordial; Um dos primeiros seres que habitaram a terra. Esse espírito era literalmente uma tempestade viva. Aprisionou essa tempestade dentro da alma daquela mulher, dando-lhe a força para destruir seus inimigos.
— E como esse mesmo espírito chegou até aqui?
— Anos e anos de história. Ciente de que aquele demônio não era a única ameaça que a humanidade enfrentaria. Mas ao mesmo tempo, tamanho era o poder daquela mulher guerreira, que se um dia se corrompesse, poderia trazer desgraças infindáveis ao seu povo. Iansã, sábia como era, permitiu que a dádiva da tempestade passasse para outras garotas em todo mundo, dividindo o próprio espírito em fragmentos. Isso o enfraqueceu, de modo que as guerreiras ainda tinham a força para lutar, mas que não fossem mais invencíveis. Dessa forma propagou o bem por toda a terra. Esses fragmentos, antes que perguntem, foram selados em objetos específicos através de ritos. Quando uma portadora morre, deve-se escolher um objeto para conter aquela parte imortal de sua alma, pertencente à tempestade, que ficaria adormecida sob a posse de um guardião até que outra garota tivesse acesso.
— E essa garota sou eu. – Alessa sentou-se no chão, pensativa. Suspirou num misto de pesar e admiração. – Poxa... Isso é muita coisa. Você sempre pensa que talvez existam fantasmas, que talvez existam demônios, e você pode até temê-los, mas nunca os vê. E mesmo sem vê-los, acredita que sabe qual seria sua reação se isso acontecesse... Bem, agora que aconteceu, não é o tipo de reação que eu achei que eu teria.
— Já houve portadoras que ficaram más? – Ester, apesar de patricinha, também sempre nutrira uma sede por conhecimento. Talvez essa vontade de saber mais e mais, fosse o que havia impedido a loira de entrar em estado de choque, visto tudo que passaram. Eneida admirou-se com sua curiosidade.
— Sim, já tivemos algumas. Essas mulheres causaram grandes estragos. Geralmente apenas uma portadora consegue conter outra, visto que são muito fortes. E é difícil ter duas garotas assim próximas uma da outra, visto que os fragmentos foram bem dispersos pelo mundo. De toda forma, não é algo que iríamos querer, mas essa escolha não é nossa.
— E como guardiã, qual é o seu papel nisso? – Alessa encarou a professora. – Algo me diz que vai muito além de só vigiar a tábua até que ela possuísse alguém.
— Meu papel, é te treinar para ser uma grande aniquiladora. Mas só posso fazer isso se você jurar lealdade a Iansã, e decidir que não vai usar sua dádiva para fins malignos e egoístas. Se optar por este caminho, não perderá seus dons, mas seguirá sozinha.
— Bom... – Alessa se levantou, indo até a janela. Encarou a noite lá fora, as árvores balançando lentamente com o fraco soprar do vento. – Eu sei que sou uma boa pessoa. Não iria machucar ou prejudicar ninguém. Mas, eu não quero ser uma guerreira. Não foi o que planejei pra minha vida...
— Al. – Foi à vez de Ester se meter. – Você é basicamente uma super-heroína. Eneida pode dizer que qualquer uma poderia ter sido escolhida, mas você sabe que eu nunca acreditei em coincidências. Talvez isso seja um presente. Eu não abriria mão dele.
— Uma vez que sua alma foi rompida e que você lutou pela primeira vez, você ativou sua dádiva. – Eneida explicou. – Mas sim, é possível pedir a Iansã para quebrar o contrato e retirar o espírito de você. Outra garota será escolhida, e o trabalho do bem continuará. Você, e as pessoas que estiveram ligadas ao seu tempo para com esse propósito, no caso Ester, se esquecerão do que aconteceu e terão vidas normais. Iansã não criou suas guerreiras para ferir o livre arbítrio. Mas lembre-se: Uma vez que você aceita esse destino, aí sim não há mais volta. Compromissos com deuses não podem ser desfeitos.
— Isso tudo é muito... – Tornou a repetir, a enxaqueca aumentando. – Olha, eu sei que você tem boas intenções, mas foi uma noite complicada. Eu preciso pensar.
— Tudo bem, você pode pensar, mas eu sugiro que seja rápida. Até então os seres infernais não sabiam da sua existência. Mas agora, receio que não vai estar segura enquanto mantiver seus poderes sem o devido treinamento. Quanto antes abdicar os dons ou começar a treinar, melhor você estará.
— Mas, se eles ainda não sabiam, quem vai contar? Eles podem pressentir que tenho esse espírito primordial na minha alma?
— Não, não podem. Mas você caçou pela primeira vez hoje Alessa, ainda que por acidente. Vampiros são parte humana e parte demônios; Demônios podem ser banidos, mas nunca exterminados. Isso só acontecerá no fim dos tempos. A parte demoníaca daquela fera que você matou hoje retornará as profundezas e em breve a notícia de que uma filha da tempestade o aniquilou irá se espalhar. Alguns fugirão do seu caminho, outros podem querer te deter para concretizar seus planos maléficos. Seja como for, eles agora sabem quem é você.
— Tudo bem, eu entendo. Já está tarde... Temos que limpar essa bagunça. Eneida, você se importaria de ir embora? Eu prometo que vou pensar sobre o que aconteceu, mas por hoje, só quero um pouco de paz.
— Sim, de toda forma eu ia deixá-las sozinhas. Vocês devem ter muito a conversar, e pelo que parece você tem decisões importantes a tomar Alessa. Se precisar, basta chamar meu nome; Sou guardiã do seu fragmento. Pelo menos por enquanto, estamos conectadas. – Então, mais uma vez num piscar de olhos, Eneida era agora uma mariposa, que saiu voando pela janela, alcançando atitude na penumbra da noite.
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