Alessa

3 O Arauto (1x03)


Notas iniciais
Oi galera, tudo joia? Em tempos de eleições complicadas e de ENEM, o capítulo deu aquela famosa ''atrasada''. Peço perdão aos leitores, e desejo uma boa leitura!

Capítulo Três: O Arauto

O velho templo interditado exalava o cheiro costumeiro, que apesar de ser incomodo para os padrões da normalidade, em nada transtornava as criaturas que ali viviam. Reunidas em círculo, conforme faziam em suas reuniões, os vampiros contemplaram em silêncio fazendo uma breve reverência, a chegada de seu líder.

Passada a comoção levantada pela atmosfera de temor e respeito que nutriam por Dracaenae, uma das presentes se levantou. Tinha longos cabelos ruivos que chegavam até a altura da cintura. Suas feições distorcidas e presas proeminentes denunciavam logo que era uma exímia predadora. Pareceu se intimidar pelo aspecto severo do superior, lutando internamente para não desviar o olhar.

— Pois não, Helena. – Dracaenae soou levemente entretido, mas seu tom, com maior observação, denunciava uma crescente e impaciente fúria que buscava conter apenas para não dizimar mais da metade de seus seguidores.

— Meu mestre, eu fui agraciada por visões da grande mãe durante esta noite. – Confessou tímida, sua voz oscilando entre a fala comum e sussurros. Ela fora transformada recentemente pelo próprio Dracaenae, e sua pouca experiência era responsável pela falta de ajuste. Vivia em constante medo de quebrar alguma das regras e ser eliminada como consequência. Afinal, para o líder de um clã de filhos da noite, seus membros eram tanto seus filhos queridos quanto também eram descartáveis. Um adorável paradoxo que a jovem nunca conseguira compreender de fato

— Que informação interessante. – Dracaenae ponderou. Fez um gesto suave com as mãos e dois vampiros de aprimorado porte físico foram até Helena, prendendo-a. Ela não resistiu; Sabia o que aconteceria se tentasse se soltar. – Principalmente quando consideramos que há muito nossos queridos pais não mantém qualquer tipo de contato. Está ciente que a punição para o caso de estar mentindo é a morte, minha criança?

— Sim, eu sei. – Reforçou, passando convicção na voz manchada pelo medo. – Mas não estou mentindo. Lilith me visitou durante meu repouso na escuridão, por volta de três da manhã, no horário dos humanos. Ela confirmou seus dizeres sobre o espírito da tempestade. Ontem, ele matou um dos nossos e fez sua primeira vítima.

— Continue...

— A hospedeira ainda não decidiu se aceitará o seu destino e vestirá as obrigações de uma aniquiladora. Mas nossa mãe nos alertou para ainda assim termos cuidado; Uma vez que ela aceite, pode se tornar uma inimiga imbatível. Podemos aguardar para ver se irá renunciar, ou tomar as devidas providências.

— Estamos fracos para arriscar perder mais dos nossos. Esta garota não pode ser empecilho em nossos planos. Iremos matá-la, tenha aceitado ou não seu destino.

— Meu mestre... – Interrompeu ainda receosa. – Eu não me precipitaria se fosse você. Tem mais uma informação, que acredito, não deve passar despercebida.

— E qual seria? – Rosnou.

— A alma que o espírito corrompeu foi a de Alessa, a outra descendente dos Almeida.

As feições de Dracaenae se alteraram ao ouvir o relato. Pensativo, fez um gesto para que os vampiros soltassem a mensageira. Depois, deu ordens para que as camareiras do templo se aproximassem.

— Levem Helena para o harém. – Ordenou. – Tal como fiz com Raissa por sua dádiva, também a desposarei. Preparem-na, pois me deitarei com ela ainda esta noite.

Quando a vampira foi levada, outro servo se levantou, baixando o capuz de sua túnica. Era o sacerdote ritualístico do clã, designado pelo próprio Dracaenae para cumprir com os ritos tradicionais dos filhos da noite.

— Os presságios que esta jovem nos trouxe são agouros terríveis. – Pronunciou-se. – Meu senhor, com todo respeito, providências precisam ser tomadas.

— E eu as tomarei. – Respondeu tranquilo, como se discutisse algo sem muita importância, como a possibilidade de chuva durante a tarde. – Venha comigo, Arthur. Tenho uma coisa pra te mostrar.

Caminharam a passos largos para um dos corredores da catedral. Passaram por diversas portas até que pararam de frente para uma em específico. O líder retirou uma chave das vestes e a destrancou, passando pelo portal junto do companheiro. No centro da sala vazia, descansando em uma almofada velha, uma pequena caixa de madeira.

— Consegui isso de um demônio que me devia um favor. É um presente inestimável, e talvez a melhor ferramenta que podemos utilizar nesse momento.

— E o que estaria dentro desta caixa, meu senhor?

— A personificação do mal. Uma ferramenta ideal para destruir esse projeto de guerreira e aprisionar mais uma vez o espírito da tempestade no lugar de onde ele nunca deveria ter saído. Dentro desta caixa, meu bom Arthur, está o resultado de um escravo cuja morte foi tão cruel que corrompeu seu próprio espírito, transfigurando-o num demônio horrendo. Dentro dessa pequena caixinha, temos o diabo do gorro escarlate.

...

Eram duas horas da tarde da segunda-feira, e a maioria dos alunos do Colégio Campos Miranda já havia voltado para casa depois do turno da manhã. Com exceção do ginásio, onde o time de futebol feminino treinava, a escola parecia livre de alunos. Ester, esgueirando-se pelos corredores com cautela para não ser vista, havia falado aos pais que estaria participando do ‘’clube de xadrez’’ para conseguir crédito extra. Obviamente, era mentira.

Desviando-se de ocasionais funcionários que pudessem suspeitar de sua presença ali, seguiu até o laboratório de biologia, fechando a porta atrás de si tão logo quanto entrou. Sentado em sua poltrona costumeira, próximo do quadro, havia um homem alto, de cabelo loiro escuro, que sorriu discretamente para ela quando entrou. Ele estava usando camisa social, gravata e calças jeans levemente justas. Retribuindo o sorriso, a garota aproximou-se, depois de girar a chave para trancar o ambiente.

Fazia algum tempo, a escola vinha sendo palco daqueles encontros secretos promovidos entre Ester e o Sr. José, seu professor de biologia. O homem tinha cerca de trinta anos, e como acabou se envolvendo com uma aluna era uma história polêmica e complicada, que começou com troca de olhares sugestivos e se desenvolveu com uma série de atitudes inconsequentes.

— Desculpe o atraso. – A jovem sussurrou, fazendo menção de se sentar em seu colo. Entretanto, ele se levantou antes que ela pudesse fazê-lo. Seu semblante agora estava sério. – Aconteceu alguma coisa? – Ester perguntou, confusa.

— Ainda não. E é exatamente o que eu quero evitar.

— Não estou entendendo. – Franziu o cenho. – José, o que deu em você hoje?

— Eu sinto muito Ester. – Sua voz era rígida. – Nós não podemos mais continuar com isso. Tem muita coisa em jogo, e não quero nem pensar no que aconteceria se fôssemos pegos. Isso é loucura de mais, eu me deixei levar pelo momento, mas não dá mais para fingir que isso vai funcionar.

— Então você está terminando comigo. É isso? – Perguntou, lutando para manter a voz firme, sem indícios da tristeza e do desespero que começaram a invadi-la.

— Lamento, mas isso é um fim definitivo.

— E... O que eu devo fazer agora? – Era uma pergunta idiota. Ela sabia o que devia fazer, mas estava em estado de choque. Não esperava por aquilo. Podia parecer ingenuidade adolescente, mas ela vinha se afeiçoando a figura de José, e perdê-lo era doloroso.

— Acho que você devia ir embora. – Ele respondeu, caminhando até a prateleira de livros que mantinha na classe, dando as costas para ela. – Me perdoe Ester, mas meu emprego e minha vida pessoal são mais importantes do que alguns beijos.

— Alguns beijos?! – Retrucou. A tristeza agora dividia espaço com a raiva. – É isso que fui para você?

— O que achou? Pensou que nós fôssemos namorados ou algo assim? – José virou-se, surpreso. – Oh Ester, lamento muito por toda essa confusão, mas você confundiu as coisas. Veja bem; Isso tudo é muito impossível. Temos diferentes níveis de maturidade, e pensamentos... – Ele não precisou concluir sua fala, pois a garota já havia saído.

Irritada, sentindo o peso da humilhação em seus ombros, Ester disparou agora sem se importar em ser notada. Seguiu sem interrupções até o banheiro feminino, um andar abaixo, onde encarando o próprio reflexo no grande espelho, sem companhia alguma além da própria frustração, desatou a chorar.

Enquanto isso alheia à situação da melhor amiga, Alessa comemorava o gol da vitória, que marcava o fim do treino daquela tarde. Depois de tomar uma ducha rápida, esperou até que o ginásio ficasse vazio para se aproximar da treinadora, que já a esperava.

— Foi um bom jogo Alessa. – Elogiou. – Como era de se esperar, seu porte físico está se aprimorando, assim como sua resistência. Está mais rápida, concentrada. Reflexos dignos de uma guerreira.

— Quer falar isso baixo? – Sussurrou. – As pessoas não precisam saber dessa esquisitice de espíritos e criaturas das trevas.

— Perdão, mas acho que ninguém pode nos ouvir, considerando que estamos sozinhas. – Ponderou. – Mas bem, sem querer pressionar mas já pressionando, você tomou sua decisão?

— Olha Eneida, eu vou ser bem sincera com você. – Alessa suspirou. – Toda essa história de lutar contra o mal me apavora. Aquele vampiro, no fim de semana... Francamente, eu achei que iria morrer. Por um lado a ideia de ser um tipo de super-heroína e de ter um propósito maior na vida é muito tentadora. Por outro, não sei se iria gostar que situações como a da festa do pijama se tornassem uma rotina.

— É uma jornada de sacrifícios e de renuncias. O caminho mais fácil é a desistência, mas isso não significa que seja o melhor.

— Eu entendo. Ao contrário do que você disse, sobre qualquer uma poder se tornar herdeira dos poderes guardados naquela tabua, eu ainda acredito em destino, e isso me inclina a aceitar. Mas é uma decisão muito complexa, sabe?

— Sim, eu entendo. Muitas coisas são colocadas em jogo quando se decide vestir a capa de uma guerreira de Iansã.

— Exatamente. Eu poderia colocar meus amigos e família em risco. Poderia colocar a mim mesma em risco. Não sei, parece insensato.

— Olha, eu não quero influenciar na sua escolha Alessa. A decisão que você tomar é sua e de mais ninguém. Mas saiba de uma coisa: Se esquecer do que aconteceu e viver uma vida normal, não priva você e seus amigos de serem atacados pelo mal. Obviamente se tivermos uma nova aniquiladora ela irá defendê-los, ou na falta dela eu mesma tentarei proteger aqueles que precisarem, mas recusar não te torna imune aos riscos.

— Pensando por esse lado, você tem razão. Talvez seja mais fácil proteger as pessoas que eu amo se eu souber daquilo que pode prejudicá-las. Mas ainda assim isso não torna a escolha mais fácil.

— O fardo não é leve. Você pode carregá-lo até o final ou deixá-lo no meio do caminho e voltar para trás. Não vou te julgar se escolher abdicar da responsabilidade. Eu entendo que é uma tarefa árdua para uma adolescente, principalmente quando você tem toda uma vida pela frente.

— Por que você não aceita essa tarefa Eneida? Não seria mais fácil do que ficar vigiando a tábua até alguém pegar esse fragmento?

— Ah, quem dera fosse tão simples. Eu sou uma bruxa Alessa. É por isso que consigo me transfigurar em mariposa. E Iansã nunca permitiria que uma bruxa tivesse ainda mais poderes. Seria perigoso de mais, caso nos voltássemos para o lado das trevas. Não, a lei é clara: A portadora do espírito da tempestade deve ser uma garota humana e mortal.

— Eu vou aceitar. – Alessa decidiu, e Eneida teve de conter a expressão de surpresa devido a fala inusitada. – Algo mudou quando enfrentamos aquele vampiro. Sinto como se uma parte de mim tivesse morrido, e uma nova tivesse nascido. Eu não sou a mesma garota de antes, e seja isso bom ou não, acho que tenho de me acostumar. Tenho a impressão de que mesmo que eu desista e que minha memória seja apagada, não serei a mesma de antigamente. E não posso viver numa vida que não parece mais ser minha.

— Inspirador. – A ruiva admirou-se com o discurso. – E muito maturo, devo admitir. Mas bem, tem certeza disso?

— Absoluta. – Assentiu. – Eu aceito minha responsabilidade como a escolhida pelo espírito da tempestade.

Naquele momento, um trovão cortou os céus e começou a chover. Talvez um sinal divino de reconhecimento a fala de Alessa, talvez uma simples tempestade rotineira daquela época do ano. Ainda no banheiro, Ester secava as lágrimas que enfim haviam cessado quando a chuva começou. Jogando o papel no lixo, estava para sair quando ouviu um desesperado grito de socorro vindo do final do corredor. Ciente de que poderia ser alguém precisando de ajuda, não hesitou em correr para a fonte, diminuindo o passo antes de chegar ao seu destino, todavia, para ter certeza de que não pioraria as coisas aparecendo, ou de que era seguro continuar. Dando uma espiada rápida na sala da qual vinham os berros, encontrou uma garota amarrada numa cadeira, vendada, os cabelos castanhos caindo como cascatas sob as mãos amarradas.

— Fique calma, eu vou te ajudar. – Ester correu para a moça, tirando sua venda e desatando, com certa dificuldade, os fortes nós que a prendiam. – Meus deuses, quem fez isso com você?

— Eu não sei. – Disse, levantando-se enquanto esfregava os pulsos, doloridos pelas amarras. – Eu estava voltando da biblioteca, onde fico estudando na parte da tarde já que meus irmãos pequenos são muito barulhentos. Percebi que esqueci alguns cadernos aqui na sala e voltei para pegar, então senti um vento bem forte, provavelmente da chuva, e vi um vulto vermelho. Quando assustei estava aqui, presa, vendada e sozinha.

— Vento? Que estranho. – Refletiu, pensando involuntariamente na aparição do vampiro na casa de Alessa. Sentiu um arrepio na espinha. – Você consegue pelo menos imaginar quem teria feito isso?

— Talvez uma das patricinhas que jogam futebol, aquelas irmãs gêmeas, sabe? Andam pegando no meu pé faz um tempo. Eu não iria me surpreender se fossem elas.

— Entendi. – Ester não estava convencida. Achou melhor contar para Alessa sobre aquilo o quanto antes. Apesar do argumento das irmãs malvadas ser convincente, algo ali não cheirava bem. – Bom, acho melhor nós irmos saindo daqui. Vamos conversar com a professora Eneida, isso não pode ficar assim. Ela pode nos ajudar a achar o culpado.

— Eu não quero confusão com ninguém. – A garota apressou-se em dizer. Seu nome era Emília, e ela era a aluna mais estudiosa do primeiro ano. – Sério, se contarmos para um professor as provocações só vão aumentar. Por favor, não faça isso.

— Você não quer que eu conte? – Ester suspirou. – Tudo bem. Vamos lá pra fora então, vou ficar com você até seus pais virem te levar para casa. Eu ainda acho que isso não devia passar batido, mas já que não quer, vou guardar segredo. – Prometeu. Obviamente, estava mentindo.

Notas finais
E então, o que acharam? Espero que tenham gostado. Comentários, críticas, sugestões, feedback's em geral e quaisquer tipo de manifestação que julgarem necessários, podem e devem ser feitas nos reviews. Responderei a todos com muito carinho e atenção. Obrigado e até a próxima!