Além do rio

14 Tempestade


Domingo

[Cristina]

Eu estava ofegante, como se o ato de respirar fosse uma tarefa extremamente difícil. Minhas pernas se esforçavam ao máximo para correr, entretanto, era inútil. O lobisomem era extraordinariamente rápido e voraz. A cada determinada quantidade de tempo, eu olhava para trás e espiava aqueles dentes enormes que pareciam se multiplicar do nada. Gritar não funcionava, pois Wesley não estava lá. Ninguém estava lá, apenas eu e aquela criatura demoníaca.

Em certo momento, minhas pernas fraquejaram e caí, sem forças para me levantar. Embora eu não quisesse desistir de maneira alguma, já era tarde demais. Quando olhei para cima, as presas do lobo estavam tão perto que aceitei o meu triste fim e me encolhi o máximo possível, esperado o impacto. Contudo, algo ainda mais repentino aconteceu: acordei.

No entanto, era como se eu apenas houvesse mudado de pesadelo. Não conseguia me mexer, por mais que tentasse. Estava tudo muito escuro, mas quando finalmente adaptei meus olhos sonolentos, deparei-me com uma visão horrível e gritei o mais alto que pude. Logo acima de mim, havia uma mulher muito velha e horrorosa, com verrugas e um nariz enorme. Seus olhos, luminosos e sombrios me encararam com maldade e diversão. Gritei a ponto de sentir desconforto em minha garganta com tamanho esforço, mas o som não saía. Era como se a bruxa tampasse minha boca, ao mesmo tempo em que se apoiava contra meu corpo, para que eu não pudesse me levantar. A situação era desesperadora e horripilante.

Ao perceber que algo estava errado, Biscoito, que dormia aos meus pés, levantou-se imediatamente. Furioso, mostrou todos os dentes pontiagudos para a mulher e avançou em sua direção, mordendo-lhe as vestes e preparado para arrancar um pedaço da megera, caso conseguisse.

Com uma risada maligna e divertida, a velha levantou-se tão rápido quanto pude piscar e sumiu em um espectro. Pelo eco de sua voz, parecia estar adentrando cada vez mais a floresta, até que sumiu.

Trêmula, não consegui me mexer até que Biscoito começasse a lamber minhas bochechas. Sentei-me na cama e o abracei. Meu coração pulsava tão rápido que precisei de vários minutos para manter tudo sob controle.

—Obrigada, Biscoito. Tu foi incrível. –Depois, mais calma, analisei a situação. –Pisadeira, a bruxa responsável pelos pesadelos. É inofensiva, mas causar sonhos ruins já é uma monstruosidade imensa. Eu deveria ter imaginado que ela me visitaria depois de...

Olhei para a pequena mesa que ficava em meu quarto. Lá, estava a pequena cruz prateada que Dona Geraldina me dera e com o que eu havia derrotado o Lobisomem, com a ajuda de Wesley. Embora o índio houvesse a limpado, eu ainda não tinha tido coragem o bastante para tocá-la.

O lençol, assim como meu pijama, estava encharcado de suor. Depois de secar o rosto úmido com as mãos, arrumei meu cabelo completamente bagunçado em um coque. Fiz carinho em Biscoito até que o mesmo voltasse a dormir, porém eu não tive a mesma sorte. Não iria conseguir dormir de novo, principalmente por medo de ser atacada novamente pela Pisadeira. Se estivesse em casa, eu iria para o quarto dos meus pais, me encolheria entre eles e, assim, dormiria tranquilamente. Infelizmente, eles não estavam aqui... Contudo, eu sabia de alguém que estava.

Carregando o travesseiro por baixo de um dos braços, esgueirei-me até a cabana do índio. Ele fazia baixos barulhos com a boca enquanto dormia de bruços.

—Wesley! –Gritei, o que fez o índio pular de susto.

—Pelo amor de Deus, Cristina! –Sentou-se na rede. Depois, vendo que não havia nada fora do normal, aconchegou-se novamente. –O que tu quer?

—Eu não consigo dormir.

—Hum. –Fechou os olhos novamente. –Já tentou contar carneirinhos?

—Deixa eu dormir aqui? –Ignorei sua pergunta.

—O quê? Ahn... Tudo bem. Mas onde tu...

Sem sequer deixa-lo responder, sentei-me na rede, fazendo-a descer com o peso.

—Cris, você está louca?! Eu não faço a mínima ideia de quanto peso isso aguenta e...

—Fica quieto. –Exigi, acomodando-me ao seu lado. –Eu não sou tão pesada assim.

—Ah, é? E aquele açaí que tu andou tomando?

Sem responder, dei uma travesseirada em Wesley que riu e não disse mais nada. O calor que irradiava de seu corpo era aconchegante e me fez ficar sonolenta. Quando o índio segurou meus braços e pousou minha cabeça sobre seu peito, apoiando seu queixo na mesma, me senti a pessoa mais segura do mundo; mesmo na beira da Floresta Amazônica. Ficamos assim por alguns minutos.

—Cristina... –Ele parecia um tanto inseguro ao falar, mas não consegui prestar atenção. Estava com tanto sono que iria dormir a qualquer momento. –Cristina, eu acho que eu gosto...

Antes que Wesley pudesse completar a frase, adormeci.

☀☀☀

Ao amanhecer, acordei antes de Wesley. Seus braços estavam sobre mim, de uma maneira tão confortável que me forçou a dormir por mais alguns minutos. Quando ele acordou, levantamos juntos e decidimos tomar café na Vila.

Antes, voltei á minha cabana e alimentei Biscoito. Eu realmente esperei que Wesley tivesse ficado muito sonolento, pois a minha imagem após acordar era mais desagradável do que qualquer assombração. Por isso, tratei de me arrumar rapidamente.

Além dos cremes, protetor solar e repelente, também precisei colocar um curativo adesivo num belo arranhão que consegui durante a agitação da noite anterior. Os outros eram menores e insignificantes.

Escolhi uma bermuda confortável, blusa sem mangas e sandálias. Antes de sair, encarei o crucifixo de Geraldina e, com um pouco de hesitação, peguei-o. Assim como anteriormente, o deixei pendurado em meu pescoço. Refleti se deveria contar para ela do ocorrido, mas achei melhor não tocar no assunto.

Depois de tomar café da manhã com Wesley, ele resolveu ir ao mercado fazer compras, enquanto eu fui até a loja de doces procurar por algo para agradar meu estômago. O gosto de terra, depois que sua cara é mergulhada e arrastada no chão, permanece na memória.

Enquanto saía da loja saboreando um delicioso pão de mel, vi Otto caminhando ao longe. Ele sentou-se em um banco e ficou por ali. Decidi ir ao seu encontro.

—Otto! –Sentei-me ao seu lado. -Que bom te ver por aqui.

—É. –Sorriu, mas notei que sua voz estava estranha. O nariz vermelho parecia entupido, pois Otto fazia barulhos com ele, tentando descongestioná-lo. –Eu sempre estou por aqui.

Quando sorri, o rapaz virou-se para o lado e espirrou. Era possível escutar o som daquele espirro mesmo se estivesse longe.

—Você está bem?

—Mais ou menos. –Esfregou os olhos. –Acho que peguei uma gripe.

Eu queria permanecer séria e conversar sobre o assunto, oferecendo dicas que ele deveria seguir para melhorar. Mas não pude deixar de rir.

—Está gripado por causa do nosso banho de chuva?

As bochechas de Otto ficaram avermelhadas, assim como seu nariz.

—Há grandes chances de ter sido isso. –Riu. Mesmo gripado, seu riso era doce. –Isso é estranho. Eu nunca peguei uma gripe antes.

—Como assim? –Indaguei. Isso sim era estranho. Seria possível uma pessoa da idade daquele homem nunca ter pegado uma gripe?

—Também não sei. Acho que a sua presença me deixa mais humano. –Sorriu, olhando para baixo.

—Mais humano? O que quer dizer?

Imediatamente, Otto pôs seus olhos em mim. Parecia surpreso e preocupado.

—Eu quis dizer... –Coçou os cabelos curtos. –Eu quis dizer que tu me faz fazer coisas que eu não faria sozinho, tipo entrar na chuva e tal. Ahn... É uma gíria aqui da Amazônia.

—Ah, tudo bem. –Sorri. Ele parecia meio esquisito, mas descontei pelo fato de que o mesmo não estava em suas melhores condições. –Tu não acha melhor ir para casa?

—Não! –Apressou em dizer. –Quer dizer, eu gosto de ficar aqui. Tem mais ar puro e luz do sol. Ficar em casa não vai fazer com que eu me sinta melhor.

—Pensando bem, acho que tem razão. Tu se alimentou hoje? Parece meio pálido.

—Na verdade, não. Eu não estou com fome.

—Tu não pode ficar assim! Vamos dar um jeito nisso.

Encostei as costas de minha mão em sua testa e vi que estava quente. Peguei alguns lenços umedecidos que eu usava para tirar a maquiagem em minha bolsa e os passei pelo rosto de Otto, que mesmo doente era bonito. Ele observava atentamente cada gesto que eu fazia para limpá-lo.

Depois, fui até o restaurante e pedi para que colocassem a sopa que estavam servindo naquele dia em uma marmita. Voltando ao lugar onde estávamos, senti que o cheiro da comida estava divino, embora Otto estivesse impossibilitado de sentir cheiros para concordar. Com uma pequena colher, não hesitei em fazer o papel de enfermeira e o alimentei com cuidado e atenção até que ele não aguentasse mais. Cá entre nós, o obriguei a tomar mais algumas colheradas até que o alimento chegasse ao fim para evitar desperdícios. Também lhe entreguei minha garrafa de água para que se hidratasse corretamente e ofereci um comprimido que sempre carregava comigo.

—Obrigado, Cris. Acho que vou copiar a ideia dos senhores daqui e me deitar com um chapéu de palha perto de alguma árvore.

—Deveria mesmo! Só tome cuidado, Lucia me contou que o cavalo dela já comeu um desses chapéus.

—Sim, eu me lembro disso! –Riu com as lembranças. Depois, voltou a ficar sério. –É uma pena...

—O que é uma pena?

—Ah, tu não ficou sabendo? Sei que já sabe sobre a maldição, em que a cada ano alguém de uma cidade diferente é morto por uma besta. Bem... Esse ano está pior. Uma pessoa já foi atacada na Vila, mas além dela... O cavalo de Lucia foi cruelmente assassinado.

As palavras saíram da minha boca. Depois de me despedir e desejar melhoras para Otto, corri em direção à casa de Lucia. Tornado não estava lá, mas havia manchas no chão que pareciam ter sido tão difíceis de remover que ainda não saíram completamente. Quando bati palmas, a mãe de Lucia atendeu. Ela parecia desapontada e sem forças.

—Filha, tem uma visita. –Falou para dentro de casa. -Tu quer que ela vá até aí?

—Não. –Uma voz triste respondeu. –Eu quero sair um pouco deste lugar.

Alguns minutos depois, Lucia fechou o portão e eu a encarei. Os olhos vermelhos e inchados estavam murchos e sem brilho, assim como ela. O vestido, simples e caseiro, estava amassado. Abracei a garota e ficamos assim por longos minutos.

—Eu sinto muito. –Falei. –Ele parecia um bom cavalo.

—Mais do que um cavalo. –Soltou-se do abraço vagarosamente. –Ele era um amigo para mim. Havia sido um presente da fazendo de meu avô, de quando eu ainda era criança e aprendi a cavalgar.

Permaneci em silêncio. Sentamos na calçada e, por fim, ela continuou:

—Eu só espero que essa maldição acabe.

Abraçada aos meus joelhos, eu pensava se deveria dizer algo ou não, quando Lucia colocou as mãos em sua barriga, assustada. Depois, as mesmas foram até a boca e seus olhos se arregalaram. Rapidamente, ela correu para dentro de casa e pude ouvir que estava vomitando. Achei melhor esperar que ela voltasse. Eu também estaria assim, caso fosse o meu cavalo.

Quando Lucia sentou-se novamente ao meu lado, perguntei:

—Tu está se sentindo bem? Digo, fisicamente.

—Eu não sei. Estou sentindo isso à manhã toda, mas não acredito que seja por causa de Tornado. Quando cheguei, eles já tinham retirado o corpo... –Ao mencionar isso, seus olhos lacrimejaram e ela os secou.

Segurei seu braço, em apoio. Ela continuou.

—Eu não sei o que aconteceu... –Antes de completar sua frase, Lucia ficou petrificada. Pude sentir que até mesmo seu braço ficara mais tenso e rijo. –Cris, eu... Eu tenho que ir agora. Não me sinto muito bem. Depois no falamos, certo?

Eu estranhei o comportamento de Lucia, mas não poderia fazer nada. Além disso, ela estava de luto. Abracei a menina mais uma vez e esperei até que ela entrasse em casa para ir embora.

No caminho de volta, encontrei um índio fazendo compras.

—Tu ficou sabendo do cavalo de Lucia? –Fofoquei.

—Sim. Todos estavam comentando sobre isso no mercadinho. É, no mínimo, bizarro.

—Eu sei. Mas nós... –Antes de continuar, abaixei o volume de minha voz para um cochicho. –Nós matamos o Lobisomem. Como é possível que algo assim tenha acontecido?

—Eu não faço ideia. E, sinceramente, não sei se quero descobrir.

Pensei por algum tempo, mas concluí que eu não concordava com Wesley.

—Talvez tu não queira, mas eu vou descobrir o que está acontecendo.

O índio revirou os olhos e fez uma cara de quem estava impaciente. Suspirou.

—Cristina, eu sei que tu veio aqui em busca de inspiração, mas será que já não conseguiu o que queria? Tenho certeza de que seu livro vai render muito conteúdo. Agora as coisas estão ficando perigosas demais.

—Não! Estamos diante de um verdadeiro mistério. Eu não vou fugir sem antes descobrir tudo o que está acontecendo nesse lugar.

No caminho, as nuvens cobriram o sol e senti algumas gotas. Todas as pessoas se recolheram para algum lugar seguro e, por sorte, Wesley carregava um guarda-chuva com ele. Porém, isso não foi o bastante.

De repente, o vento parecia uivar com toda a velocidade com que soprava. As árvores dançavam e milhares de folhas voavam tão rápido que eu mal podia vê-las passando. Uma delas grudou no rosto de Wesley. Quando ouvi o estrondo de um trovão arrepiante, me virei para o índio, com a chuva tão grossa que parecia cortar minha pele, e tentei alertá-lo para sairmos dali imediatamente, embora eu precisasse gritar tanto que exigi uma força imensa de meus pulmões. O vento quase nos carregava e precisei me segurar muito firme em sua mão para não ser arrastada.

Quando nos recolhemos no restaurante, onde todos fechavam as portas e janelas para se protegerem da chuva monstruosa, perguntei a Wesley se aquilo era comum.

—Eu nunca vi uma chuva assim antes. Isso não é normal.

Ótimo. Agora eu só estava um trilhão de vezes mais preocupada.

A chuva continuou, embora bem mais fraca, durante algumas horas. Eu e Wesley ficamos conversando com as pessoas que também se abrigaram no restaurante. Ouvi muitas histórias sobre pescadores que pegaram peixes imensos e achava engraçado quando algum outro interrompia, falando que aquilo tudo era mentira e ele havia feito algo muito mais extraordinário.

Ao final da tarde, quando eu e o índio finalmente conseguimos voltar, passamos em frente à casa de Lucia. Notamos que ela estava na janela, observando o horizonte com um olhar perdido e pensativo. Quando ela nos avistou, veio correndo em nossa direção.

—Wesley, será que eu poderia falar com a Cristina por um minuto?

—Claro. Eu vou indo na frente e te espero perto do caminho de terra, Cris. Tchau, Lucia.

Concordei com a cabeça e assim que o índio foi embora com suas sacolas de compras, voltei-me para a garota.

—O que foi, Lucia? Está tudo bem?

—É que... É que eu... –Ela procurava, mas não parecia encontrar as palavras certas. Inquieta, finalmente deu um longo suspiro e olhou para os pés. Então, colocou as mãos em sua barriga. –Eu estou grávida.

Nesse momento, meus olhos devem ter ficado tão abertos que eu faria qualquer criança chorar de medo. Era eu quem não encontrava as palavras.

—Uau, Lucia! –Exclamei. –Isso é... Isso é... Parabéns!

—Obrigada. –Sorriu levemente. –Ainda é tudo muito novo e surreal para mim, mas estou fazendo o possível para me acostumar com a ideia. Meus pais quiseram me matar quando descobriram... Estou tentando acalmá-los. Sinto que vou gostar de ser mãe!

—Isso é ótimo, Lucia! –Peguei suas mãos e encarei os belos olhos de maneira compreensiva e acolhedora. –Tu vai ser uma mãe incrível.

Ela sorriu novamente e senti seu abraço caloroso.

☀☀☀

Caminhando de volta para as cabanas, Wesley estranhou o meu silêncio recatado.

—E então? –Puxou assunto.

—Lucia está grávida. –Falei “na lata”.

O índio, a princípio, ficou abismado; sem saber o que dizer.

—Meus parabéns pra ela. -Wesley tentou permanecer em silêncio e parecer desinteressado no assunto, porém sua curiosidade foi maior. -Quem é o pai?

—Eu não sei.

☀☀☀

Quando chegamos às cabanas, senti um vento fino e gélido. Encolhi meus braços e notei que eu estava tremendo e batendo os queixos contra minha vontade.

—A Amazônia é sempre tão fria assim? –Perguntei.

—N-Não. –Acho que Wesley nunca passou tanto frio em sua vida como naquele momento. –Pra falar a v-v-verdade, acho que nem n-n-no sul do país é tão f-f-frio assim.

Eu estava me sentindo como na vez em que passei as férias nos Estados Unidos da América com meus pais. E fomos durante o inverno do hemisfério norte.

De repente, ouvimos um barulho tão alto que chegava a ser ensurdecedor. O horrível som parecia um rugido que vinha de muito longe, em algum canto obscuro da floresta. Enquanto ele soava, milhares de pássaros fugiram e era como se a própria Terra tremesse. Fiquei com medo de perder o equilíbrio e me segurei no índio, que parecia desnorteado, sem saber o que estava acontecendo e o que fazer. Quando tudo acabou, alguns animais passaram correndo perto de nós e senti a temperatura voltando ao normal.

Wesley e eu nos encaramos. Era como se alguma coisa estivesse despertando. Alguma coisa maligna.

Notas finais
PS: A lenda da Pisadeira era usada para explicar a paralisia do sono, já que antigamente não existiam melhores explicações para esse fenômeno! Então as pessoas acreditavam que aquilo era causado por uma bruxa. PS²: Até hoje quando minha vó tem pesadelos, ela fala que é a Pisadeira