Além do rio
15 Problemas
Segunda
[Wesley]
O frio que eu sentira aquela tarde foi algo de outro mundo. Era como se a temperatura houvesse caído até zero em apenas alguns segundos, enquanto aquele urro demoníaco ecoava. O céu também estava estranhamente escuro e, por alguns instantes, pensei que fosse congelar.
Após nos recolhermos em minha cabana, Cristina pegou um caderno e realizou várias anotações. Ela as fazia pelo menos uma vez por dia e tratava de ler tudo o que havia escrito até então. Até que pareceu ter tomado uma decisão.
—Vamos para a floresta. –Disse ela, convicta.
—Está maluca? Depois de toda essa coisa estranha que aconteceu hoje? Nem ferrando.
—Wesley, nós precisamos descobrir o que está acontecendo. E se for alguma coisa perigosa?
—Se for alguma coisa perigosa, nós vamos embora. Até os animais sabem que a melhor coisa é fugir diante do perigo. O termo é sobrevivência.
—Eu não vou. –Ela parecia extremamente séria e decidida. –Cara, fala serio! Nós acabamos com o próprio Lobisomem. Imagina o que poderia ter acontecido se tivéssemos apenas fugido?
—Cris... –Olhei diretamente em seus olhos. –Aquele monstro quase nos matou.
—Quase. –Enfatizou a palavra. –Bem, eu estou indo. Com ou sem a sua ajuda.
Depois que Cristina guardou seu caderno na bolsa que carregava e saiu, pensei por alguns instantes. Sentado no chão, com as pernas cruzadas e encarando a parede de madeira, suspirei.
—Merda... –Falei comigo mesmo. –Eu não posso deixar que ela vá sozinha.
☀☀☀
Corri para alcançar Cristina, que já havia caminhado um bom pedaço com a mochila nas costas. Ela ficou feliz em me ver.
—Não aguentou ficar longe de mim, não é mesmo? –Provocou.
—Besteira. Só estava á fim de fazer uma caminhada. Sabe como é, exercício físico é bom para a circulação.
Cristina riu e bateu levemente eu meu ombro. Não pude deixar de notar que ela carregava algumas frutas consigo. Usava um vestido branco parecido com o qual havia chegado até aqui, porém esse era mais leve e folgado.
Após uma longa caminhada e várias picadas de mosquitos que pareciam mais carnívoros do que hematófagos, encontramos uma enorme árvore com folhas vermelhas. Ela era magnífica. Eu já sabia exatamente quem Cristina estava procurando.
—Nós viemos em paz.
—Cris... –Falei. –Isso não é nenhum tipo de filme alienígena.
Ela deu de ombros e logo notei que algo pareceu surgir perto de nós. Ao lado da árvore bonita, havia uma mangueira gigantesca, onde, entre seus galhos, um homem baixinho repousava tranquilamente em uma rede feita de um tecido simples e meio rasgado. Ele saboreava uma enorme manga madura que parecia muito suculenta. Porém, ver seus dentes verdes e pontiagudos morderem-na fazia com que eu engolisse toda a saliva que havia produzido ao olhar para a fruta.
—Ora, ora. –Disse ele, de olhos fechados e um dos braços repousando atrás da cabeça. –Se não são ambos os intrometidos que ficam a vagar pela floresta.
—Eu trouxe um presente. –Cristina abriu a sacola de frutas e a mostrou para o rapaz. Embora estivesse tentando agradá-lo, ela parecia não temê-lo de modo algum. Pra ser sincero, agora eu também já não tinha tanto medo quanto antes.
—Magnífico! –O curupira sorriu e olhou diretamente para as frutas. Seus olhos brilhavam como se houvesse fogo dentro dos mesmos, assim como em seus cabelos. Em menos de dez segundos, ele já havia levado todas as frutas para a rede e eu nem sequer percebi como ele fez para descer da árvore. –Podem continuar a se intrometer sempre que desejarem, crianças.
Eu e Cris nos entreolhamos. Ainda era muito estranho ser chamado de criança por um adolescente que parecia muito mais jovem do que nós. Finalmente, tomou a iniciativa.
—Curupira, o que foi aquele barulho que ouvimos mais cedo?
—É. –Concordei. –E aquela tempestade inexplicável.
Os olhos do garoto ficaram pesados. Já não tinha ânimo para degustar suas frutas. O braço pendeu pela rede e ele pensou por alguns segundos. Depois, simplesmente sumiu.
—Ei! –Cristina gritou. –Tu nos deve uma resposta.
—Qual é, cara! Nós trouxemos frutas.
Eu estava pronto para continuar minha argumentação, quando notei que ele deixara várias pegadas no solo úmido.
—Ah, ele foi por aqui.
Segui o rastro, mas logo fui interrompido por Cris.
—Não. –Apontou para a direção oposta. –Seus pés são trocados, lembra? Ele foi por ali.
Seguimos as pegadas e nos deparamos com uma outra árvore muito bonita. O Curupira, encostado ao seu tronco, estava sentado acima das raízes, pensativo. Ele esperou até que nos aproximássemos o suficiente.
—Aquilo, meus caros, foi um despertar. Um dos mais poderosos que já vi.
—Um despertar? De quem? –Perguntei, porém, pensei melhor e refiz a pergunta. –Ou... Do quê?
—Alguém que esteve dormindo por um bom tempo. –Ele parecia triste. –Nunca a minha pessoa foi capaz de derrota-la sozinha, sempre precisei de ajuda. Ademais, percebi que vocês destruíram meu aliado mais poderoso contra a ameaça que está por vir.
O olhar raivoso do Curupira penetrava diretamente nossas almas e entendi com precisão o que ele quis dizer: o Lobisomem o ajudara a derrotar essa coisa, o que quer que ela fosse. Contudo, agora ele estava morto graças a mim e Cristina. Tudo o que a garota conseguiu fazer foi abrir um sorriso amarelo de arrependimento, como se quisesse disfarçar e tirar a culpa de cima de si. Para nossa sorte, o garoto voltou a olhar para baixo, desolado.
—Por outro lado, não culpo vocês. Ele era extremamente perigoso. –Ouvi Cristina suspirar aliviada e devo ter feito o mesmo. O garoto também emitiu seu próprio longo e cansado suspiro. –Todavia, agora não sei o que deve ser feito. Tudo o que desejo é proteger a floresta e todas as minhas belas e nobres criaturas. –Um pássaro pousou em sua mão e ele sorriu de um jeito bondoso, acariciando suas penas. –Porém, talvez este seja meu destino final.
Quando o pássaro voou, o deixando triste e solitário, Cristina se aproximou.
—Isso não pode acontecer! Tu está aqui a não sei quantos séculos. Essa floresta só não foi dizimada ainda por sua causa.
—Além disso, — Completei. –É você quem impede que todas essas... Ahn... Lendas... Permaneçam aqui, embora gostem de visitar outras regiões de vez em quando. Imagine a bagunça que isso vai virar se tu partir.
—Eu compreendo perfeitamente a gravidade da situação. É certo que sem ajuda não conseguirei vencer... No entanto, desaparecerei a garantir que, pelo menos por alguns anos, tudo ficará sob controle.
—Não! –Cristina não aceitava as informações que lhe eram dadas. –Há dezenas de criaturas místicas nesse lugar. É impossível que nenhuma delas possa te ajudar. Mas, primeiro, precisamos saber com quem estamos lidando.
—Oh, estou certo de que vós já ouvistes falar sobre ela. Todos a conhecem. Estamos a falar da bruxa mais demoníaca e poderosa da floresta que desperta de seu profundo sono a cada sete anos: Cuca.
Como se apenas a pronuncia desse nome já irradiasse poder, senti um arrepio intenso percorrer minha pele. Era como se tivesse voltado e chover e meu pensamento me prendesse em uma dimensão à parte. Uma dimensão onde eu era apenas uma criança encolhida e apavorada, ouvindo ao longe uma canção que petrificava minhas pernas e acelerava com intensidade meu pequeno coração.
Só despertei quando Cristina segurou meu ombro.
—Ok. –Disse Cristina. –Então eu e Wesley vamos te ajudar.
—Sim, nós vamos... –Eu estava pronto para concordar, até que me dei conta sobre o que ela estava falando: se infiltrar na floresta para enfrentar um demônio que provavelmente iria nos matar tão fácil quanto eu matava os mosquitos que pousavam em minhas pernas. –Peraí! Nós vamos?!
—Vamos. –Seu olhar foi ainda mais feroz e autoritário que o do Curupira.
—Nós vamos. –Cedi.
—Onde está essa tal de Cuca?
—Isso é muito generoso da parte de vocês, meros humanos. Contudo, infelizmente não faço a menor ideia de onde está aquela criatura abominável. Ela sabe se esconder muito bem.
Cristina pareceu desapontada. Até que ele olhou em nossos olhos e, para a minha tristeza, continuou.
—Entretanto, eu conheço alguém que certamente sabe. Ele é a criatura mais bem informada de todo o país e adora espionar. É uma verdadeira lástima, apenas, que ele nunca me leve a sério ou me acuda nos momentos sombrios e de desespero. Talvez vocês devam procura-lo, quem sabe assim ele mude de ideia.
—E de quem estamos falando, exatamente?
—Vós o conheceis muitíssimo bem. É um malandro que adora pular por aí.
☀☀☀
Minhas pernas já estavam cansadas de andar quando pedi a Cristina para que fizéssemos uma pausa. Uma chuva gélida e refrescante começou a molhar as folhas e a terra. Aproveitei para lavar o rosto e relaxar por um momento. A garota, no entanto, parecia muito ansiosa para seguirmos em frente. Ela pegou uma barrinha de cereal em sua mochila e a comeu com mordidas fortes e olhar distante. Sentei ao seu lado, embaixo de uma folha enorme que nos protegia da água.
Esperamos até que a chuva passasse, o que não demorou muito tempo, e decidimos continuar a viagem. Meus pés afundavam na lama, então procurei me apoiar em galhos e troncos. Cristina fez o mesmo.
Durante o trajeto, ouvimos muitos barulhos vindos de trás de árvores e arbustos. Mas sempre que olhávamos, na esperança de ser o maldito Saci, era sempre algo banal como uma anta, capivara ou pássaro. Eu já estava começando a ficar cansado e impaciente. Quando meu estômago roncou de fome, Cristina me ofereceu uma barrinha e um sanduíche saudável que preparou em algum momento antes de irmos para a floresta. Mesmo assim, eu já não sabia se valia a pena continuar.
—Cris... –Falei, ficando para trás enquanto ela continuava andando com a mesma determinação de sempre. –Eu não sei se vamos conseguir. Já nos afastamos muito do rio. Tipo, muito mesmo. Talvez ele nem esteja aqui, pra variar.
—Nós temos que encontra-lo. Ele não pode ter ido tão longe.
—Na verdade... –Corrigi. –Pode sim. Caramba, Cris, ele é o Saci! Esse cara faz o que quer.
—Bem, nunca vamos saber se não continuarmos procurando. –Cris, me ignorando completamente, continuou andando e não tive outra opção senão ir atrás dela.
Estava no meio de uma corridinha para alcança-la quando senti o vento bagunçando com força meus cabelos. Também precisei tampar os olhos com um dos braços para que nenhum cisco os invadisse, já que muitas folhas e pequenos galhos voavam em torno de mim e de Cristina.
—Argh! Mas que caralho! –Cristina gritou e me aproximei dela. –Um maldito cisco entrou no meu olho.
—Porque não tampou os olhos igual eu fiz, Srta. Inteligência?
—Cala a boca e me ajuda, imbecil!
Segurei o rosto de Cristina e me aproximei, numa tentativa de enxergar o que havia entrado em seu olho, que estava muito vermelho, lacrimejando e com uma aparência horrível.
—Se tu não ficasse fechando o olho toda hora, talvez eu conseguisse ver o cisco.
—Tu só diz isso porque não é o teu olho que está ardendo!
Impaciente, aproximei-me ainda mais do rosto de Cristina e tentei olhar mais de perto o que estava acontecendo, tentado fazer com que a garota parasse de se debater. No entanto, senti algo estranho ao me aproximar tanto e acabei a encarando por alguns instantes. Por algum motivo, ela também se esqueceu do cisco e começou a prestar atenção em meus olhos. Uma sensação estranha percorreu do meu estômago até a minha garganta e decidi mudar meu olhar de direção. E foi aí que me dei conta de que o vento continuava a soprar, mais forte do que nunca. Inclusive, algo inusitado aparecera.
Próximo a nós, um redemoinho girava tão rápido que fiquei com medo de ser puxado para ele. Temendo que isso também acontecesse com Cris, segurei seu braço. Porém, o redemoinho foi perdendo velocidade rapidamente, até que tudo o que consegui enxergar foi um vulto rodando e emitindo um som estranho. Logo, percebi que o som tratava-se de uma risada e o vulto finalmente parou de girar, assobiando tão alto que incomodava os ouvidos.
—Ora, se não é o jovem casalzinho briguento. –Riu.
—Saci! –Com um pulo, Cristina se aproximou da criatura.
—Estávamos te procurando.
—É, o Saci sabe. –Falou com desdém. –Tava observando o senhorzinho e a sinhazinha há muito. Só quis deixar as crianças cansadinhas até elas brigarem. É engraçado por demais.
—Não achei graça. –Não havia nenhum espelho no momento para que eu pudesse comprovar, mas eu podia jurar que estava de cara fechada.
—Wesley! Não seja rude. –Cris repreendeu-me e depois voltou a falar com o Saci. –Senhor Saci, gostaríamos de pedir sua ajuda. O Curupira nos falou sobre a Cuca e imaginamos que tu sabe onde ela está.
—Hum. É, o Saci sabe. Aquela coisa dos infernos é mais barulhenta do que parece, principalmente quando a bicha tá braba. Só não entendo pra que diabos é que alguém ia querer chegar perto daquilo...
—Sabe mesmo? –Os olhos de Cris brilharam. –E pode nos levar até ela?
—Posso.
Cristina, com um largo sorriso, estufou o peito de entusiasmo e agitação. Estava mais determinada do que nunca a encontrar a Cuca, até que o Saci continuou a falar.
—Mas não quero.
—O quê?! –Falei. –Tu só pode estar tirando com a nossa cara. Queremos ajudar! Quer dizer... –Reformulei o que dizia. –Eu não queria, mas não posso abandonar o barco agora que estamos tão perto.
—Por favor! –Implorou ela. –Nós podemos fazer o que você quiser em troca.
O Saci, que antes parecia entediado, parecia ter encontrado um motivo para viver. Sorriu maliciosamente e encostou-se a um tronco de árvore, nos encarando, pensativo.
—Agora vocês falaram a língua do Saci. Falaram, sim! E como falaram. –Acariciou o queixo e logo seu rosto se iluminou. –Já sei! Se quiserem que o Saci conte onde está a bruxa caduca Cuca, ele conta. Mas pra isso os dois vão precisar passar por um desafio.
—Um desafio? –Perguntei. –Por que não nos mostra onde ela está de uma vez por todas?
—E perder toda a diversão, rapazola? Nem vêm!
Cristina parecia tão descontente quando eu, porém, seguiu em frente com a conversa.
—Tudo bem. Diga o que é para fazer.
—Os dois estão vendo o meu cachimbo?
Procuramos por alguns instantes, porém, o objeto estranhamente não estava lá. Cris e eu nos entreolhamos, mas fomos interrompidos por ele.
—Não, vocês não estão. E sabem por quê? –Ele parecia impaciente e furioso. -Porque o infeliz de um caçador deu um tiro que quase acertou o Saci. Embora eu tenha escapado, meu precioso cachimbo foi parar no rio. Com fumo e tudo!
—E porque você mesmo não pega? –Perguntou ela. Tive vontade de fazer a mesma pergunta.
—Bem, eu... –Ele parecia constrangido. –O Saci não gosta muito de água...
—É verdade... –Sussurrou Cris, de modo que só nós dois escutássemos. –A lenda diz que o Saci não entra na água. Não me pergunte, eu também não entendo.
—Então, — Continuou ele, agora com seu ar de superioridade recuperado. –os dois vão pegar o cachimbo pro Saci. E em troca, euzinho levo os dois até a Cuca.
Cristina não esperou nem dois segundos. Agarrou meu braço e me puxou para o caminho oposto ao que estávamos seguindo.
—Vamos voltar para o rio!
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