Além do rio
6 Assassinato
Notas iniciais
[Cristina]
Depois daquela desventura pela floresta estranha e assustadora, fiquei pensando durante o dia inteiro sobre as coisas que aconteceram mais cedo. Com Wesley também não foi muito diferente. Acredito que com ele tenha sido até mesmo pior, já que nunca acreditara nessas coisas sobrenaturais.
Ainda estávamos perplexos e sem palavras. Tudo o que eu sabia era que eu voltaria para aquela floresta a qualquer custo. E dessa vez, não iria voltar para trás e sair correndo e gritando. Eu precisava ver quem ou o que estava se divertindo tanto conosco.
Apenas por muita insistência dele, fui para o rio tomar um banho. No começo, admito que fiquei com um pouco de medo de colocar meus pés naquela água e ser arrastada para um novo redemoinho ou de ser espiada pelos olhos de um espírito da floresta. Mas, felizmente, nada disso aconteceu.
As margens eram bem tranquilas e não tinha perigo algum de que eu fosse puxada pela correnteza (contanto que eu não resolvesse nadar para o fundo do rio). Joguei a água fria pelo corpo, de modo que minha pele se arrepiasse completamente. Não era nada mal tomar um banho gelado no calor. Tentei relaxar o máximo possível e colocar os pensamentos em ordem, mas era um pouco difícil ao lembrar de que aquela floresta estava logo ali, bem do outro lado do rio.
Quando voltei, o índio estava sentado na varanda. Descascava uma laranja, pensativo e lento, quando ouvimos um barulho que foi ficando mais alto e familiar. Era o trote de um cavalo.
Logo, uma visita inesperada apareceu entre as cabanas. Lucia, que estava montada em seu cavalo Tornado, olhou para mim com uma expressão assustada e ansiosa.
—Você está procurando por histórias estranhas, não está? –Perguntou.
Assenti, hesitante. Sabia que, qualquer que fosse o motivo que trouxera Lucia, não era nada bom.
—Você precisa ver isso.
☀☀☀
Lucia nos acompanhou até a Vila, onde uma multidão de pessoas formava uma roda. A região para onde fomos era um pouco afastada, onde só havia mato e algumas plantações. Aproximamo-nos, embora a garota tenha preferido ficar para trás.
Minhas mãos estavam suando e eu andava devagar, com medo do que estava prestes a ver. Embora meu cérebro estivesse ignorando as pessoas ao meu redor, percebi que todas estavam horrorizadas e algumas acudiam senhoras que passavam mal. Minha garganta estava seca, no entanto eu não sentia sede. O clima estava pesado. Também notei que todos estavam lá: Lucia, Dona Geraldina, que parecia rezar fervorosamente segurando seu crucifixo envolto pelo terço e Seu Antônio, que estudava a cena com os olhos vidrados e uma das mãos cobrindo sua boca, com o punho fechado e usava a outra para coçar a testa. Também vi Honorato, mas não quis me aproximar do rapaz.
Quando finalmente cheguei ao círculo, abri espaço por entre algumas pessoas e me deparei com o motivo de tanta tensão e cochichos no ambiente. Cobri minha boca com as mãos.
Bem diante de mim, havia o corpo irreconhecível de um homem adulto. Suas roupas estavam rasgadas em locais que pareciam ter sangrado intensamente há algumas horas e machas secas cobriam a terra próxima ao local em que seu corpo descansava. Os cortes em suas vestes, que também alcançaram partes profundas da carne pareciam marcas de garras.
Apesar de tudo, o que mais me impressionou foi o fato de que seu peito havia sido brutalmente aberto, como se algo grande e muito forte houvesse puxado sua carne, que agora juntava mosquitos. O coração dele havia sido retirado e era terrível pensar na maneira como isso aconteceu.
Aquilo era monstruoso.
[Wesley]
Olhando por cima do ombro de Cristina, pude ver o que causara tanto espanto e horror nos moradores da vila.
O corpo violado fazia meu estômago se contorcer como uma minhoca preparada para ir ao anzol e virar comida de peixe. Aquilo não parecia ser obra de um psicopata, mas sim, de algum animal feroz e muito grande. As garras o denunciavam e também o buraco no peito parecia ter sido resultado de uma grande mordida.
Meu pomo de adão se mexeu quando engoli saliva. Nem mesmo os ataques de onça pintada, que aconteceram há muitos anos atrás, foram tão ferozes. Principalmente porque elas estavam passando por uma escassez de comida graças ao desmatamento de seu habitat e foram obrigadas a procurar cabritos e bezerros nos sítios, fato que levou as mesmas a atacarem muitos donos de gado para se defenderem.
Aquilo parecia bem maior do que uma onça.
Ouvi alguns cochichos, falavam sobre a maldição. Todos os anos uma morte estranha acontecia nos arredores da região, cada vez em uma cidade diferente e todos eles pareciam ter sido fruto do ataque de uma criatura que nunca foi encontrada. Dessa vez, no sétimo ano, o ataque foi em nossa cidade. Eu não acreditava na maldição, mas com tudo o que estava acontecendo, já não podia duvidar de absolutamente mais nada.
Só depois de algum tempo reconheci que a vítima era o dono de um bar, onde muitas pessoas gostavam de passar as tardes conversando e jogando baralho. Eu não o conhecia muito bem, já que não consumia bebidas alcoólicas, mas sempre o encontrava por aí, desde que eu era criança. Uma vez ele chutou de volta uma bola de futebol que deixei cair sem querer em sua calçada. Meu pai costumava cumprimenta-lo com um aceno.
Cristina, que estava chocada com a cena, aproximou-se de Dona Geraldina e a consolou. A senhora estava muito assustada e nervosa. Isso era totalmente compreensível, lembrando que seu marido foi uma das vítimas daqueles felinos pintados no passado.
Lucia, que observava de longe, notou o quanto Cristina tentava se esforçar para acalmar a senhora e desceu do cavalo, caminhando até elas. A menina as envolveu em um abraço, o que pareceu tranquilizar um pouco Geraldina.
De vez em quando, eu notava que Honorato lançava olhares para Cristina. Alguma coisa naquele cara me intrigava. Ele era conhecido por todos da vila, mas ao mesmo tempo um completo estranho. Apesar de simpático, era a pessoa mais misteriosa que eu já conheci. Ninguém sabia onde ele morava ou quem era sua família e ele alegava que todos estavam em uma casa afastada não muito longe dali e que sempre voltava ao pôr-do-sol para passar a noite com a família. E, de fato, ninguém nunca o viu depois que o sol já estava escondido.
Além disso, sua proximidade com Cristina começava a me irritar. Ela estava aqui com um propósito (louco, mas ainda sim era um propósito) e não iria perder tempo com alguém como ele. Mas por que diabos eu me incomodava com isso?
Contudo, o que mais me intrigava eram os acontecimentos na floresta. Embora todos sempre tenham elogiado minha coragem (ou burrice, como no dia em que capturei uma cobra perigosa quando tinha 11 anos), minha mente não conseguia ignorar as imagens do que ocorrera naquela manhã. Foi de fato assustador.
Meus avós eram cheios de tradição e superstições. Se ainda estivessem vivos, talvez conseguissem explicar o que era aquela coisa que nos atacou. Agora era impossível não acreditar. Nada daquilo poderia ter sido feito como um truque de mágica. Aquilo foi... sobrenatural. Apesar de todos os anos em que frequentei aquele lugar, ele agora era sinistro.
Eu sabia que Cristina iria fazer de tudo para voltar até a floresta e eu iria fazer o mesmo. Não poderia deixar de lado e simplesmente viver sem encontrar as respostas. E pode apostar que eu as encontraria, nem que fosse necessário procurar por cada centímetro daquela mata.
[Cristina]
As mãos de Geraldina estavam trêmulas enquanto eu as segurava. A mulher estava assustada e Lucia veio nos ajudar, acolhendo-nos em um abraço quente e confortável. Eu realmente estava precisando daquilo.
Policiais de outra cidade chegaram e dispensaram os curiosos, que estavam em clima de luto e, principalmente, medo. As portas deveriam ficar muito bem trancadas a partir de agora.
Lucia nos convidou para ir até a casa dela, que ficava bem perto dali. Eu chamei Wesley tocando em seu braço. Ele estava distraído enquanto olhava para o corpo, provavelmente estudando-o e pensando no que poderia ter ocasionado uma morte tão horrenda.
Como a vila era bem pequena, não andamos muito e, ao chegar na casa de Lucia, ela nos ofereceu copos de água com um pouco de açúcar para acalmar os nervos.
—Sentem-se aqui no sofá. –Disse a garota. –Eu vou conferir se todas as janelas estão fechadas.
Wesley foi ao banheiro, precisava lavar o rosto.
Eu tentava me acalmar, mas era impossível. As imagens do assassinato se misturavam com as da floresta e o terror foi tomando conta de mim. O que eu estava pensando quando fui alugar uma casa bem no meio da floresta, longe de tudo e de todos? Aquela criatura poderia aparecer no meio da noite e me destroçar, assim como fez àquele pobre homem. Poderia fazer Wesley virar picadinho bem na minha frente. E se ela nos atacasse hoje? Ou amanhã?
Meus olhos se encharcaram. As lágrimas começavam a rolar por meu rosto, até que senti as mãos caridosas de Geraldina em minhas bochechas. Embora estivesse assustada, ela ignorou suas emoções para me ajudar.
—Uma moça bonita como você não deveria chorar. –Secou minhas lágrimas.
Sorri, mesmo que não estivesse contente. Sequei meu rosto com as costas da minha mão e tentei disfarçar as emoções que teimavam em voltar. Por fim, relaxei os ombros e confessei o que estava sentindo.
—Eu estou com medo, Geraldina. Estou com medo de voltar para aquela floresta e ser atacada por essa... Essa coisa...
Ela segurou minhas mãos e olhou em meus olhos.
—Eu entendo como é se sentir apavorada. Ficar com o receio de que algo também vai acontecer com você, mas, acredite em mim, viver com medo é ainda pior do que enfrenta-los.
—Mas... –Sequei as lágrimas que haviam caído enquanto ela falava. –Mas e se aquilo aparecer na minha cabana? E se me atacar?
—É preciso ter fé. –Ela me olhou por alguns segundos e retirou sua corrente com o crucifixo. O colocou ao redor do meu pescoço. –Quando se tem fé, nada é impossível.
Estudei a cruz, observando seus detalhes. Era de prata, muito antiga e bonita. E ela estava me entregando como presente.
—Geraldina, eu não posso aceitar isso! É sua. –Eu estava retirando-a quando a mão da senhora me impediu.
—Não se preocupe comigo, há outros crucifixos que eu posso usar. Além disso, tenho meu terço. –Ergueu uma das mãos onde o objeto estava entrelaçado nos dedos, mostrando-o.
Embora eu houvesse crescido sem religião alguma, fiquei muito agradecida pelo gesto de Geraldina. Ela parecia uma daquelas tias que se importam com todos, como se fossem seus próprios filhos.
—Obrigada. –Meu agradecimento foi sincero e as lágrimas já não desciam.
Peguei o copo de água com açúcar que Lucia deixara na mesa de centro e tomei um gole, lembrando-me com mais calma dos acontecimentos na floresta.
Eu precisava voltar para lá.
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