Além do rio

7 Brincalhão


Quarta-Feira

[Cristina]

Não, eu não havia viajado durante tantas horas para voltar para casa de mãos vazias, justo agora que estava tão perto de conseguir algo.

Durante a noite, tive vários pesadelos dos quais já não me lembrava de manhã, mas sabia que acordar tinha sido um verdadeiro alívio. Era impossível negar que eu estava com medo de que a criatura que assassinou o homem da vila viesse atrás de mim no meio da noite. Contudo, para a minha felicidade, nada aconteceu.

Por sorte, Biscoito ficou ao meu lado. Mesmo que fosse um cão pequeno, eu me sentia segura quando ele estava comigo. Ele era um verdadeiro companheiro e, quando eu não conseguia dormir –como no começo daquela noite, por exemplo- também era um ótimo bichinho de pelúcia.

No entanto, a noite repleta de sonhos ruins não foi muito longa. Acordei bem cedo e, depois de alimentar o pequeno e lhe deixar uma vasilha de água fresca, assisti o sol nascer por entre as folhas enquanto tomava um chá que eu mesma fizera.

Quando Wesley acordou, seus cabelos estavam bagunçados de um jeito bonitinho. Dessa vez, usava uma camisa verde água e seus olhos ficavam ainda menores pelo sono. Ele se aproximou de mim, sentando-se no tronco caído em que eu estava. Admirou a mata, pensativo. Só falou depois de algum tempo.

—Tu quer voltar, não quer?

Concordei com a cabeça. Enfiei a mão no bolso e de lá tirei o dente pontudo e verde. Ele brilhava com a luz do sol que se fortalecia conforme os minutos passavam.

—Tu não precisa me acompanhar se não quiser. –Falei. No fundo, eu sabia que aquela loucura era apenas minha e eu não tinha o direito de fazer com que outras pessoas participassem. Elas poderiam acabar se machucando no final e a culpa cairia sobre mim.

—Querendo ou não, nós estamos nisso juntos agora. –Disse ele. –Todo esse mistério está me intrigando. Vamos descobrir o que está por trás de tudo isso.

Enquanto o observava, sorri gentilmente. Seu cabelo ainda estava bagunçado e percebi suas bochechas corarem quando eu os arrumei.

—Vamos lá, índio. –Me levantei. –Você precisa tomar um bom café da manhã. Está na hora de caçarmos um monstro.

☀☀☀

A árvore de raízes grandes continuava igual. Não havia nenhum sinal de dentes, pegadas ou qualquer outra coisa de pudesse nos dar uma pista. Eu pensava que seria uma boa ideia voltar para a vila e comprar algumas frutas para uma nova oferenda. Mas, dessa vez, esperaríamos até que viessem pegá-la.

Enquanto Wesley estudava o local, retirei uma garrafa de água que estava na minha mochila e tomei alguns goles. O vento surgiu de repente, bagunçando meus cabelos soltos. As folhas, por outro lado, flutuavam pelo ar, em uma espécie de dança mística.

Deixei a garrafa no chão e me aproximei do tronco da árvore, retirando uma lupa da mochila para verificar se realmente não estava deixando nenhuma pista passar em branco. Mas tudo parecia perfeitamente normal.

Quando me virei, guardando o objeto, notei que a garrafa não estava mais lá.

—Da próxima vez eu trago uma garrafa de água para você também. –Ironizei. –Não precisa roubar a minha. É só pedir.

—Do que você está falando? –Wesley ainda observava o local, procurando por alguma coisa interessante.

—Não se faça de desentendido. Minha garrafa de água, oras.

—O quê? Eu não estou com ela.

Por um minuto, realmente acreditei que aquilo fosse verdade, afinal, sua voz parecia muito confiante. Olhei de volta para o local em que eu havia deixado o objeto para ver se tudo não passara de um desentendido, mas eu não havia me enganado: não tinha garrafa nenhuma ali. Quando voltei-me para ele, percebi que a garrafa estava em cima de um galho de árvore, ao seu lado. Talvez fosse o estresse causado por tudo o que havia acontecido até então, mas não consegui me controlar.

—Tu acha isso engraçado? –Briguei, indo até ele e finalmente guardando a água. –Estamos em algo muito sério aqui. Se vai ficar de brincadeirinhas, é melhor ir embora. Eu dou conta disso sozinha.

—Você está louca? Eu só estou tentando ajudar, não fiz nada de mais.

—Você não me engana. Pode parar com essa atuação fajuta pra cima de mim! Eu estava errada quando pensei que pudéssemos trabalhar juntos.

—Epa, pode parar com isso. Eu não vim até aqui para ser insultado.

—E você acha que eu estou gostando disso tudo? Não passa de um idiota tentando chamar a atenção.

—Qual é o teu problema? Tu é só uma patricinha que veio com o dinheiro dos pais e com uma ideia insana achando que tudo vai ser do seu jeito. Já estou até o tucupi contigo!

—Pode parar com essas gírias que tu sabe que eu não entendo nada!

—Isso é problema seu.

Eu estava pronta para responder, quando vi o brilho surpreso em seus olhos, enquanto me encarava. Eu sabia que os meus estavam exatamente iguais, enquanto sentia meu corpo se arrepiar de medo. Ficamos mais parados do que estátuas, se é que isso é possível.

Uma gargalhada aguda estava muito próxima de nós, a mesma que eu ouvira antes. Quando nossos pescoços finalmente decidiram cooperar para que olhássemos para o lado, não sabíamos o que dizer. Eu sabia que sua garganta estava seca, assim como a minha.

No grosso galho de uma árvore, lá estava ele, deitado e encostado ao tronco enquanto quase chorava de rir. Ele era um homem alto e forte, porém muito magro. A pele escura brilhava com o sol, graças ao pouco de suor que lustrava seu corpo. Mas, o que mais prendeu minha atenção foram os detalhes que qualquer um reconheceria no exato momento em que pousasse os olhos sobre aquela figura: Ele usava uma touca vermelha e shorts da mesma cor, feitos de algum tecido muito simples. Além de segurar um cachimbo nas mãos marcadas por cicatrizes e o detalhe mais notável: possuía apenas uma perna.

—O casal é engraçado por demais! –Disse ele, em meio aos risos. –Me mato de rir com cês dois.

Minhas pernas tremiam em uma mistura de medo e fascínio. Só consegui sussurrar, para mim mesma, a única coisa que flutuava em minha cabeça.

—Saci Pererê!

—É, esse é um dos meus nomes. He-he. –Deu uma tragada em seu cachimbo e desapareceu. Quando piscamos, ele já estava no chão, encostado tranquilamente no tronco de outra árvore. –E eu conheço o senhorzinho. –Apontou com o cachimbo para Wesley. –Vi muito esse curumim, desde que era um filhotinho, brincando de manja-esconde por aí. Já é quase sangue do meu sangue.

O índio sentiu vontade de falar algo, mas as palavras simplesmente não saiam, mesmo que ele abrisse a boca.

—Já, a dama... –Ele sumiu e reapareceu de novo, dessa vez, um pouco mais perto de mim. –Cê é nova por essas bandas. A floresta gosta de se divertir com os novatos, principalmente uma sinhazinha da cidade grande feito você. Mas fica tranquila, já simpatizamos com a sua graça.

Quando ele falou isso, pensei ter entendido exatamente sobre o que estava se referindo.

—A oferenda. –Falei. –Você...

—Ah, não. –Apareceu no alto de outra árvore. Era difícil acompanha-lo, já que não parava quieto um minuto sequer. –Não foi o Saci que pegou, prefiro fumo. Penso que tenha sido o meu painho.

O Saci tinha um pai? E ele também morava na floresta? Eu me surpreendia cada vez mais.

—Seu pai?

—Bom, eu o considero um pai. Foi ele quem me transformou no que o Saci é hoje. Aliás, é o mais velho habitante desse lugar. Perdendo apenas para algumas velhas caducas da vila. –Riu de sua piada.

—Você... –Wesley finalmente conseguiu reunir algumas palavras, mesmo que ainda estivesse surpreso demais para falar. -Sempre esteve aqui?

—Bem antes de você pensar em nascer, menino. –Tragou mais algumas vezes e soltou fumaça pela boca. A fumaça embranquecida e um tanto cinzenta era hipnotizante e parecia ganhar formas de animais que saiam correndo e se dispersavam pelo ar.

—Desculpe a curiosidade, mas... –Eu estava começando a me familiarizar com o Saci e não iria perder a oportunidade de fazer algumas perguntas. –O que aconteceu com a sua perna?

—Briga de capoeira. O Saci costumava ser muito bom nisso, mas às vezes a sorte pode ser traiçoeira, entende?

Logo, um novo assunto surgiu em meu cérebro. Eu estava com medo de perguntar, mas agora nada – nem eu mesma – iria me impedir. Eu precisava descobrir o que estava acontecendo naquele lugar.

—Tu teve alguma coisa a ver com o assassinato?

—Não. –Tragou mais uma vez. –Posso ser conhecido como demônio e bicho ruim por extrapolar nas pegadinhas, mas o Saci não é assassino, não senhora.

—E tu tem alguma ideia de quem ou o quê...

—Anjo, vossa mercê faz muitas perguntas. –Interrompeu. –Era mais divertido quando a senhorinha estava tremendo de medo.

Uma leve brisa circulou repentinamente por mim e senti meus cabelos soltos. Quando passei a mão por eles, gritei ao perceber que estavam trançados. O Saci voltou a gargalhar, do alto de uma árvore.

Entretanto, a partir de agora eu me recusava a ficar com medo. Ele era apenas um engraçadinho de uma perna só.

—Isso não é nem um pouco divertido. –Gritei, desmanchando as tranças que estavam bem amarradas. Até demais.

—Diga por você, pitanguinha. –Riu relaxando ao encostar-se à árvore. Levou o cachimbo aos lábios novamente.

De repente, lembrei-me de algo. Peguei minha câmera rapidamente e tirei uma foto do Saci, mas quando fui checar ele não havia aparecido. Como se fosse invisível.

—Tu se acha muito esperta, hein? –O Saci riu. –Saci não aparece em fotos, menina. Cê não vai conseguir tirar foto de nenhum de nós daqui da floresta.

A tristeza ficou estampada em meu rosto. Mas eu não podia deixar que isso me abalasse.

—Eu ainda quero saber mais algumas coisas e...

—Perguntas chatas de novo? –Fez uma careta de tédio e sentou-se. –Se eu soubesse, o Saci nunca teria aparecido para vosmicê. É mais divertido assustar os velhinhos do sítio, eles têm mais medo. E por falar nisso, talvez eu deva ir para lá mesmo. Parece que compraram uns porcos novos. Não vejo a hora de fazê-los saírem correndo por aí que nem abestados.

—Espere, não vá agora!

Mais uma vez, ele sumiu. Agora apenas ouvi sua voz ecoando pela floresta.

—Os dois já apostaram corrida montados em porcos? É muito divertido! As crianças deveriam experimentar qualquer dia desses.

—Tu não pode nos abandonar agora! –Pedi. –Ainda temos muito para conversar. Por favor, volte! –Só então parei para analisar o que ele havia falado. -E eu já não sou mais criança.

Tudo o que ouvi foi um demorado e cantado “Adeus” ecoado pelas árvores, como se estivesse vindo de todos os lugares. Ele não retornou depois disso.

☀☀☀

Embora tenhamos passado o resto do dia na floresta, Wesley e eu não voltamos a encontrar o Saci.

O índio não conversava. Para ele o choque havia sido dezenas de vezes maior, pois havia passado uma vida inteira naquela floresta e nunca viu nem um sinal sequer do malandro, quem eu tinha certeza absoluta que também era o dono daquele assobio que me causara frio no estômago.

Agora eu estava mais motivada do que nunca. Precisava encontra-lo novamente e, principalmente, descobrir que outros segredos aquela floresta escondia.

☀☀☀

[Geraldina]

Mais um belo dia de confissão. Alguns fiéis acabavam de sair da igreja quando cheguei e logo me encontrei com o padre para uma longa e rotineira conversa.

Contei ao padre sobre meus medos que ganharam força com o ataque na Vila e também sobre as terríveis lembranças da morte de meu marido, mas, com o tempo, consegui me acalmar e focar em outras coisas.

Voltei ao assunto que mais me intrigava: Desejava ficar com outra pessoa, porém, sentia-me culpada. Em certo momento, o padre despôs-se a falar como um verdadeiro amigo. Ele possuía tamanha bondade em sua alma que não gostava nem de ver quaisquer sinais de dúvida e tristeza nas outras pessoas. Então decidiu tomar um rumo mais pessoal para a conversa.

—Geraldina, você tem um coração grande. É uma mulher muito bonita, também. Enfrente seus medos, eles são apenas um obstáculo que atrapalha a sua felicidade e a sua fé.

O elogio sincero me envergonhou um pouco, porém, de uma maneira boa. Olhei para baixo, sorrindo discretamente. Não havia sensação melhor do que a de receber um apoio e incentivo como aquele. Eu me encorajava cada vez mais a tomar uma atitude.

—Obrigada, padre.