Além do rio
1 A cabana da floresta
Notas iniciais
Divirtam-se
Domingo
[Cristina]
Arrependi-me amargamente por não ter dado ouvidos à minha mãe antes de partir para o aeroporto.
O caminho fica ainda mais longo e cansativo quando se carrega uma penca de malas; sem contar a mochila, bolsa e uma gaiola de viagem para cães. Eu sabia que deveria ter levado apenas metade, como foi avisado. Mas tudo parecia importante.
—Eu sei que você quer sair, Biscoito. –Falei com meu cãozinho. Estava levando o animal apenas por que meus pais disseram que eu não deveria ficar sozinha, então, Biscoito foi uma solução fajuta. –Mas eu estou com as mãos meio ocupadas agora. Aguente mais um pouco, estamos quase chegando.
O cachorro emitiu um grunhido, como se estivesse protestando. Suas orelhas brancas voltaram-se para baixo e ele encostou o queixo em uma das patas enquanto deitava-se.
Depois de mais alguns passos, finalmente parei. Deixei tudo o que carregava no chão e estiquei as costas que doíam, embora eu fosse jovem. Tudo o que desejava naquele momento era uma boa massagem.
—Prontinho, Biscoito. –Abri a gaiola do pequeno, que se espreguiçou. –Vamos esperar aqui na frente dessa feira. E chega de reclamar, seu bobão.
Os frutos frescos que estavam sendo vendidos na feira tinham uma boa aparência. Abri a bolsa procurando a carteira, o que não foi fácil, pela grande quantidade de objetos. Alguns eram desnecessários, mas eu tentava não pensar nisso para evitar arrependimentos. Demorei alguns minutos para encontrar. Peguei também a sacola de pano que estava dobrada dentro de uma mala.
Comprei bananas, ameixas, manga, cupuaçu, metade de um mamão e castanhas. Contudo, ao invés de comê-las, coloquei-as na sacola. Estava preparada para adicionar mais um pouco de peso à pilha de coisas e assim o fiz.
—Dá uma boa salada de frutas. –Sugeriu o vendedor. –E um prato muito bonito.
—Certamente! –Concordei. –Mas elas não são para mim.
—Entendo. –O simpático homem tinha seus trinta e poucos anos. Usava blusa xadrez e os cabelos de cor castanha, que chegavam aos ombros, eram bagunçados, mas de uma maneira bonita. Tinha sobrancelhas grossas e olhos castanhos cercados por olheiras profundas. A barba estava por fazer e seus braços eram peludos. Não era bonito, mas também não era feio. Observador, de cara já havia notado que eu era “carne nova no pedaço”. –Volte sempre que quiser, recebemos muitas frutas fresquinhas no começo da semana.
—Muito obrigada. –Agradeci. –Pode ter certeza de que voltarei.
Depois, prendi os cabelos longos, castanhos e levemente cacheados em um rabo de cavalo para amenizar o calor e observei o local: Era uma vila muito simples e pequena, longe da cidade grande. Iria demorar um pouco até me acostumar com o lugar, depois de uma vida inteira morando na capital agitada do Rio de Janeiro.
Mas viajei para o norte do país -até a Amazônia, mais precisamente- por um bom motivo.
Coloquei os óculos escuros em cima da cabeça enquanto desamassava a barra do curto vestido branco de renda, mas percebi que, do outro lado da rua, um rapaz me observava. Geralmente, eu tinha repulsa por olhares vindos de desconhecidos, mas esse se tratava de alguém diferente. As roupas e o jeito simples deixavam sua beleza com um ar único e tive vontade de conhece-lo melhor. Desviei o olhar e o homem voltou a conversar com os outros que estavam ali perto, descansando na calçada em frente a um bar.
Tentei tirá-lo de foco. Não era para isso que eu estava ali.
Uma mulher que passeava tranquilamente por ali cumprimentou o vendedor de frutas.
—Boa tarde, Toninho!
—Boas tardes, Dona Geraldina! Tudo bem com a senhora?
—Na medida do possível. –Gargalhou e reparou na garota com a sacola de frutas ali perto. Eu.
—Quanta bagagem! –Exclamou. Parecia ser da região. –É uma turista? Não recebemos muitos por aqui.
—Sim, eu sou. –Sorri, exibindo os dentes esbranquiçados entre os lábios cheios, enquanto arrumava os fios soltos em minha cabeça. –Estou esperando o dono da cabana que aluguei vir me buscar. Parece que fica perto daqui, mas não sei a direção. –Retirei o celular do bolso e mostrei uma foto.
—Ah, eu conheço esse lugar! Fica bem próximo daqui, perto do rio, só é preciso caminhar um pouco. Mas... –Ela abaixou o tom da voz. –Desculpa me intrometer, mas a moça não iria ficar melhor em uma pousada? Essa cabana está no meio do mato. Não é perigoso?
—É por isso mesmo que eu a escolhi. –Esclareci. –Estou aqui para uma pesquisa e quero ficar o mais próximo possível da floresta.
—Bom, já que é assim... Boa sorte com essa tal de pesquisa.
Biscoito se aproximou da senhora, que se abaixou e acariciou o pescoço do animal. Ela usava um vestido preto e um colar com uma cruz no pescoço, além de segurar um terço. Seus cabelos, com algumas poucas raízes brancas, caíam pelo rosto bondoso e bronzeado pelo sol, até chegarem aos ombros. Parecia estar na casa dos quarenta.
—Obrigada. –Desde o momento em que a conheci, gostei da mulher. Ela parecia ser uma boa pessoa. –Sou Cristina.
—Geraldina; prazer. –Cumprimentou. –Eu a levaria para a cabana eu mesma, mas tenho um compromisso agora. –Sorriu largamente, deixando seu rosto com pequenas marcas de rugas. –Está na hora da missa.
Olhei adiante e notei a presença de uma bonita capela. Era tão antiga quanto as casas da vila, mas agradável aos olhos.
—Claro, não precisa se incomodar comigo. Cheguei um pouco antes do planejado, mas vou ficar até dar hora.
—De jeito nenhum, as visitas não podem ficar esperando desse jeito. Venha, vou chamar um conhecido para te acompanhar. –Virou-se para outro lado da rua e chamou o homem que conversava com os mais velhos na calçada. Era o moço com quem eu havia trocado olhares brevemente.
—Olá, Dona Geraldina. –Sorriu, simpático. Depois, voltou-se para mim e me estudou com os olhos. –Olá, senhorita.
—Oi. –Eu estava tímida, fato. Não queria pensar sobre isso no momento, mas achei o rapaz muito atraente: alto, com os cabelos bem curtos, pele bronzeada, olhos castanhos cor de mel, quase verdes, e regata que deixava os músculos aparecendo. Também não queria admitir para mim mesma, mas olhar para ele me deixava com pensamentos que deveria expulsar imediatamente da cabeça.
—Sou Honorato. Norato, se preferir.
—Gostaria de acompanhar a moça até aquela cabana da floresta? –Perguntou Geraldina.
—Claro, será um prazer.
Se fosse qualquer outra pessoa, aquela teria sido uma frase com uma pitada de interesse por traz. Porém, senti que Norato não tinha segundas intenções. Por um segundo, cheguei a pensar “que pena”, mas logo me recompus. No que eu estava pensando?
—Esse moço vale ouro! –Dona Geraldina apertou o braço do homem. –Sempre anda pela vila durante o dia ajudando quem precisa e conversando com o povo. Desde as crianças até o velhinhos gostam da companhia desse anjo.
—Vou ficar mal acostumado com tantos elogios. –Seu sorriso foi puro e gentil.
—Não se acanhe, mocinho! –Riu. –Mas chega de papo. Não posso me atrasar, a igreja está ficando cheia. Tchauzinho pra vocês. Espero ver você de novo, Cris!
Despedimo-nos e Norato se ofereceu para carregar algumas malas, contudo, ao se curvar para pegá-las se assustou com o rosnado de Biscoito. O cão estava recuado e com os dentes a mostra, até que avançou, latindo e fazendo com que o homem se afastasse rapidamente.
—Biscoito! O que deu em você? Merda... –Senti minhas bochechas queimarem de vergonha. Peguei o cachorro e o carreguei. Depois me virei para Norato. –Você está bem?
—Sim, ele não me mordeu. –Massageava suas mãos. –Mas achei que ia perder um dedo. –Brincou.
—Eu não sei o que aconteceu. Biscoito sempre foi muito dócil.
—Talvez seja resultado da viagem. Alguns animais ficam muito estressados. –Abaixou-se para pegar a bagagem. –Vamos para a cabana, assim vocês podem descansar. –Levantou-se. –Mas deixe essa fera longe de mim.
—Um cara como você não deveria estar acostumado com onças e coisas do tipo? –Brinquei.
—Onças não são nada comparadas a esse monstro.
Não consegui evitar o riso e ele retribuiu.
Andamos lado a lado por um longo caminho de terra, conversando. Quando ficávamos em silêncio por algum tempo, eu notava que o olhar de Honorato ficava distante e pesado, como se escondesse algo sério.
Na mata, as únicas coisas que ouvíamos eram o canto dos pássaros, o som dos outros animais e o barulho do rio, que estava calmo e tranquilizador. Embora notasse o forte cheiro de terra, apreciei o ar puro.
—Está entregue. –Deixou as malas na varanda da pequena cabana de madeira, coberta por mato e folhagem.
—Obrigada pela ajuda. –Me sentia mais confortável com ele agora que havíamos passado um tempo juntos. –Já sei quem chamar caso apareça uma onça ou um porco selvagem.
—Celulares não funcionam aqui, mas pode me chamar na vila sempre que quiser.
Com um leve e bonito sorriso que não mostrava os dentes, ele levou os dedos para a cabeça e os apontou para mim fazendo um aceno. Estava indo embora quando me apressei em falar:
—Posso te chamar de Otto?
—Claro, Cris.
Sorri e o observei caminhar pela mata, na direção do caminho de terra, até que o barulho de seus passos sumisse.
[Honorato]
A garota que conheci na Vila era muito bonita.
Os velhos do bar, que eram meus conhecidos, colocavam a conversa à fora. Embora eu gostasse de prestar atenção no que diziam, não conseguia tirar os olhos da moça que se destacava naquela cidadezinha pacata.
Só despertei quando ouvi meu nome ser chamado por Dona Geraldina, uma mulher muito simpática. Eu adorava ajuda-la com as compras e ela era certamente uma companhia agradável. Também tinha um jardim bem cuidado e às vezes eu aparava a grama para ajuda-la.
Sempre gostei de ver o sorriso estampado no rosto das pessoas. Essa era a melhor recompensa que alguém poderia ganhar. Eu gostava de conversar com os moradores da região, ajudar os velhinhos e contar histórias para as crianças. Suas gargalhadas eram uma coisa linda de se ver.
E o sorriso de Cristina era de tirar o fôlego.
Quando fui para o outro lado da rua, pude admirar a moça mais de perto. Meus olhos estudavam o jeito como seus cabelos se encostavam nas costas nuas do vestido e como sua pele deveria ser macia. O vestido de renda branco valorizava suas curvas de um jeito delicado que chamou minha atenção quando ela surgiu do outro lado da rua.
Eu queria me aproximar dela. Criar um laço de amizade ou algo a mais. Não... Logo repreendi esse pensamento. Só o laço de amizade já estava de bom tamanho. Além disso, ela não iria querer nada com alguém como eu.
Quando andamos pela estrada de terra, senti sua transparência. Falou sobre sua casa, os pais e como a professora de português da quarta série contava sobre a vez que viajara para a Amazônia. Ela não era do tipo que esconde segredos ou quem é de verdade. Gostei disso. Eu queria ser tão expressivo quanto ela e falar sobre quem realmente sou, mas não posso.
Algumas coisas devem ser mantidas em segredo.
[Cristina]
Observei a casinha por algum tempo, estudando seus detalhes. Era toda feita de madeira, cercada por diversas árvores e coberta de mato. Soltei Biscoito, que já estava normal. Mas ao invés de uma cabana, havia duas, uma de frente para a outra e o espaço entre elas era bem limpo, embora ainda fosse terra e mato.
De repente, o som dos demais pássaros pareceu sumir perto do assobio que emanou pelo ar. Não foi longo, mas claro e gélido, acompanhado do eco proporcionado pelo local. Com a pele arrepiada, juntei os braços ao peito e olhei para o alto as árvores, procurando pela origem do barulho. Senti um frio na barriga, que logo passou, junto com o assobio.
O canto dos pássaros voltou a dominar o local e a ganhar minha atenção. Logo deixei o assobio misterioso de lado. Não conhecia o canto de nenhuma das aves dali e sabia que o de algumas era bem peculiar, então ignorei. Talvez fosse apenas algum bicho dando as boas-vindas.
Quando falei que estava levando a sério a ideia de viajar para a Floresta Amazônica e encontrei essa cabana pela internet, meus pais a alugaram e contrataram o dono como guia turístico, serviço que ele costumava prestar.
Sabia que deveria colocar as malas para dentro, desfazê-las e esperar que o proprietário do local viesse para apresentar a floresta, já que eu não conhecia nada e se perder numa mata como aquela era ridiculamente fácil.
Todavia, impaciente e louca para dar início à minha aventura, abri caminho por entre as enormes folhas e decidi explorar o local por conta própria.
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