Notas iniciais
Só queria falar que esse é o meu capítulo favorito Espero que gostem!

Ouvi o som de pequenos galhos se quebrando e folhas sendo amassadas enquanto eu caminhava pela mata verde. Estava ansiosa para conhecer o novo local.

O tranquilo e agradável som do rio ficava cada vez mais próximo e logo vi as belas águas brilhando com a luz do sol que atravessa as copas das árvores. Admirei o belo cenário, até que percebi algo: não estava sozinha. Havia alguém dentro do rio.

Sem pensar duas vezes, me escondi atrás de uma árvore, mas não conseguia enxergar quem estava lá. Sem muitas opções, subi pelo tronco, como gostava de fazer nos parques quando era criança. Sentei-me em um galho, tomando o cuidado de ficar atrás das folhas para que minha presença não fosse notada.

Espiei entre as folhas, tentando descobrir quem ou o que estava lá. Quando finalmente encontrei o responsável pela minha curiosidade, levei uma surpresa tão grande que precisei me segurar nos galhos da árvore para não cair.

Um homem se banhava nas margens do rio, que parecia ser muito fundo caso alguém se atravesse a nadar mais adiante. Mas, o que me surpreendeu mesmo foi o fato de que não era apenas um homem, mas sim, um índio.

—Não acredito... Um índio! –Sussurrei para mim mesma. -Um índio de verdade!

Mal conseguia conter o entusiasmo por estar tão perto de uma figura como essa, até que, inconscientemente, comecei a prestar atenção em outros detalhes.

O índio jogava água em seu rosto firme e com ar selvagem e as gotas caíam até o corpo muito bem definido que estava mergulhado até o tórax. Já dava para notar seu porte atlético que foi muito bem estudado pelos meus olhos. Sua pele era avermelhada, cor de terra, e os lábios bem desenhados e corados. Ele parecia ter saído de uma fotografia ou filme.

Enquanto voltava para a margem, passou a mão pelos curtos cabelos lisos e muito negros que brilhavam sob a luz do sol, para retirar o excesso de água. Desse ângulo, pude notar os detalhes de sua face: As sobrancelhas grossas eram os únicos pelos de seu rosto e lhe davam uma feição séria e focada.

Senti minhas bochechas corarem por algum motivo enquanto assistia a cena, até que, despertei-me de meu transe quando me dei conta de que ele estava se aproximando. Embora meus malditos olhos teimassem em não mudar de direção, sabia que deveria sair dali o mais rápido possível.

O que eu tinha na cabeça? Fui para a Amazônia em busca de mitos. Saci Pererê, Curupira, Iara... Aceitava até mesmo encontrar a Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo. Mas um índio...? Não. Decididamente não estava ali para encontrar um indígena.

Quando o desespero por ele estar cada vez mais perto bateu, me arrependi de ter ficado com tanta pressa. Acabei descendo mais rápido do que planejava e caí direto no chão ao perder o equilíbrio.

Por sorte, o galho em que eu estava não era muito alto, mas mesmo assim a queda não havia sido nada amigável. Gemi com a dor que sentia nas costas pela pancada. Uma de minhas pernas havia sido levemente rasgada com a casca da árvore e ficou com pequenas linhas de sangue. O ferimento foi bem leve, depois que parei para verificar, mas a sensação era horrível.

Fechei os olhos por alguns instantes e praguejei, mas logo os abri quando me lembrei de que o indígena ainda estava lá. E pior, ele acabara de perceber que havia alguém lhe fazendo companhia.

Levantei-me rapidamente quando vi que o índio estava vindo em minha direção. Peguei meus óculos de sol caídos no chão e tentei correr, mas aquela perna machucada doía pra porra. Ademais, o maldito era rápido e tinha um tecido enrolado na cintura, que não fiz questão de reparar. Havia assuntos mais importantes no momento, como sobreviver e não virar ensopado de Cristina, por exemplo.

—Moça, está tudo bem? –Falou ele, desentendido da situação.

—E-Eu vim em paz, ok?! –Virei-me para o índio. Embora estivesse surpresa por ele falar o típico português e não alguma língua indígena, eu estava apavora e gaguejando. Pensei que ele poderia se tratar de um selvagem canibal e que talvez houvesse um arco e flecha por ali que me passou despercebido. –Me... Me desculpe por interromper, não foi minha intenção.

—Você...

—Eu já pedi desculpas, só me deixe ir. Por favor. –Sem deixar com que ele falasse, eu dava passos de mansinho, até sair correndo de volta para cabana com as feridas dificultando o caminho.

Quando finalmente cheguei, entrei o mais rápido possível na cabana que estava mais próxima e fechei a porta, sentando no chão enquanto tentava recuperar o fôlego. Sem esperar muito, me levantei e fui para o outro lado do cômodo, onde havia uma cadeira feita com troncos de árvores amarrados com cordas. Apoiei minha perna em cima do objeto e examinei a pele suja e dolorida com uma careta.

—Droga, droga, droga.

Meus olhos se arregalaram de susto quando a porta se abriu. Apoiei-me na parede tentando me equilibrar e meus óculos de sol caíram. Infelizmente, não carregava nenhum tipo de arma comigo naquele momento.

—Fique longe de mim! –Gritei. –Eu não fiz nada pra você. Por que está me seguindo?! Vá embora!

O índio se aproximou e eu já estava em posição de ataque, mas o homem caminhou em outra direção, com familiaridade.

—Eu moro aqui.

Ele deixou uma toalha em cima do balcão de madeira e pegou algumas frutinhas que estavam em uma cesta. Depois, sentou-se em uma cadeira em frente à mesa e colocou uma das pequenas frutas na boca, mastigando-a.

—O que?... –Não conseguia emitir palavras. Estava alarmada e confusa. Só então notei que ele usava uma camiseta normal e bermuda. O tecido que outrora cobria seu quadril e que agora estava no balcão era apenas uma toalha comum.

—Espere aí... Então quer dizer que você é o meu guia?

—Boa observação. –Falou me encarando e comendo mais algumas frutinhas. Eu sabia que ele estava apenas debochando de mim, mas não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Ele continuava sério. –E você é a moça que alugou. –Afirmou.

Ainda assimilando a situação, suspirei aliviada e senti meu corpo relaxar.

—Você pode se aproximar, sabia? Eu não mordo.

Sem maiores alternativas, puxei a cadeira até a mesa e me sentei. As franjas úmidas e bem cortadas caiam sobre a testa do homem. Com a proximidade, vi que seus pequenos olhos eram tão escuros quanto uma jabuticaba. Era ainda mais difícil parar de observá-lo do que quando ele estava longe, embora eu não conseguisse mais pensar em besteiras depois daquele susto.

—Cristina, não? –Perguntou. –Eu já estava indo te buscar, mas acho que não preciso mais me incomodar com isso. Teus pais avisaram que você estava chegando ao local marcado.

—Sim, Cristina Albuquerque. Eles me bancaram. Mas... –Logo, meu medo se transformou em pura curiosidade e admiração, como ocorrera no rio. –Eu não sabia que o dono era um índio!

Ele ergueu uma das sobrancelhas.

—É um pouco estranho porque você não está usando penas e nenhuma tinta pelo corpo, mas ainda é incrível! Nem acredito que fala português, e não tupi-guarani. Mas e aí, como é o teu nome?

—Wesley. –Respondeu, sério como sempre.

—Wesley? –Me levantei e falei mais alto do que pretendia. –Que raio de nome é Wesley?

—O que tu esperava?

—Ubirajara, talvez? –Respondeu. -Taiguará? Papa-Capim? Macunaíma? Sei lá, qualquer coisa desse tipo.

Ele lançou um olhar de dúvida e indignação.

—Tudo bem, vou te chamar só de Índio mesmo.

Pela primeira vez, um sorriso discreto e divertido se formou nos lábios do homem, embora seu olhar continuasse o mesmo.

—Onde está teu arco e flecha? –Meus olhos brilhavam.

—Eu não tenho nenhum.

—Que espécie de índio você é?!

—Na verdade, meus ascendentes eram índios. Eu cresci na vila e visitava meus parentes indígenas frequentemente, sempre fui apegado a essa cultura. Mas não sou um índio.

—Então você é um falso índio.

Wesley riu.

—É, pode-se dizer que sim. –Ele percebeu que a minha perna estava riscada e mudou o tom. –Precisamos dar um jeito nisso.

—Ervas medicinais?

—O quê? Não. –Levantou-se e foi até uma pequena caixa. –Embora eu já tenha visto algumas, tenho remédios guardados para situações como essa.

—Ah... Certo. –Não posso negar que aquilo foi um pouco decepcionante.

—Você teve uma longa viagem. –Agachou-se e limpou o ferimento com cuidado. –Deve estar brocada de fome. Vou preparar algo assim que terminar aqui.

—Vamos pescar?

Wesley lançou um olhar de estranheza e depois voltou para os machucados.

—Eu compro a comida na vila. Às vezes almoço fora também.

—Mas você é um índio!

—Cristina, eu não sou um índio! –Levantou-se, guardando os medicamentos de volta na caixa.

—Você parece um índio.

Wesley suspirou. Depois de estudar minha expressão, teve uma ideia.

—Tudo bem. Se quiser peixe, nós faremos peixe. Mas você terá que limpá-lo.

—Limpar?

—É. Tu sabe... Abrir o peixe, retirar as tripas, olhos, escamas...

—Que nojo! –Exclamei fazendo uma careta e apertando o estômago. –Quer saber? Não estou mais com fome.

Ele riu e ofereceu algumas das frutinhas das quais estava comendo. Aceitei e não pude deixar de notar como ele ficava bem mais amigável quando sorria.

—E então... –Puxei papo. –O que tu faz da vida? Trabalha com pescaria? Artesanato?

Wesley estava aprendendo a ter paciência, mas ainda tinha bons motivos para me ver como uma maluca da cidade grande. Eu não ligava para isso.

—Eu fiz faculdade, bicho. –Disse ele calmamente. Ficou em silêncio até receber meu olhar surpreso pelo qual esperava. –Sou biólogo.

De toda a conversa que tivemos, essa foi a parte que mais me intrigou. Não sabia se era porque o imaginava como um verdadeiro índio selvagem, ou por ele não aparentar ter idade de quem já terminou a faculdade. Talvez ambos.

—E eu moro aqui para manter mais contato com a natureza e facilitar as pesquisas que faço. –Continuou. –Além de ser um guia para outros estudiosos que se interessam por essa região, como você.

—E você ainda se considera um índio?

Wesley não conseguiu evitar o riso. Desviou o olhar e logo depois voltou para a conversa.

—Mas e você? É uma bióloga também?

—Oh, não. Eu sou uma escritora. Quero escrever um livro sobre essa região com relatos reais e mostrar a verdade sobre as criaturas daqui. Também estou procurando por inspiração.

—Isso é interessante. –A curiosidade despertou-se em seu interior. –Que tipo de criaturas? Onças? Répteis?

—Não, nada disso... –Abri um sorriso. –Estou aqui para encontrar os mitos do folclore e provar que eles são reais.

Nesse momento, Wesley tentou encontrar indícios de que eu estivesse brincando, mas permaneci séria.

Ele entendeu a mensagem.

[Wesley]

Alguns dizem que anjos caem do céu, mas o que aconteceu comigo naquela tarde foi um tanto quanto inusitado.

A moça caiu da árvore com um estrondo e quase derrubei minha toalha. Fiquei um tanto assustado e tentei me aproximar para ajuda-la, mas ela saiu correndo.

Logo suspeitei que aquela se tratava da mulher que alugou minha cabana. Tentei perguntar se ela era a Cristina por quem eu esperava, mas a louca não quis saber de conversa.

Um índio? Fala sério, estamos no século XXI.

Não queria assustá-la mais do que o necessário, então apenas entrei casualmente em minha cabana.

Ela parecia uma pessoa interessante e bem espontânea. Era mais nova e tinha um olhar curioso. Não me importei em limpar seus machucados.

Pensei que seria apenas uma pessoa reservada com quem eu conversaria apenas durante as pequenas idas até a floresta, lhe explicando o caminho e sobre o que ela iria estudar e pesquisar. Contudo, eu estava realmente começando a gostar de sua companhia, embora ela fosse um tanto animada e imprevisível demais.

Quando a garota disse que estava em busca das lendas folclóricas, encarei aquilo como apenas mais uma de suas brincadeiras, mas ela estava séria demais. Não era necessário conhece-la há muito tempo para entender que havia dito a verdade.

Nesse momento, eu tive certeza de que aquela mulher era mais maluca do que parecia.

Notas finais
Eaí, o que acharam do Macuna... ahn... Wesley?