Além do Tempo
15 O Passado e o Presente - Capítulo 15
Notas iniciais

Além do Tempo — Capítulo 15
— Aí tinha o Seiya e o Shiryu, a gente brincava bastante, mas eles eram bem pequenos e daí eles já estavam bem maiores que eu. — Hyoga contava a Camus sobre as coisas que vivera longe do pai elfo.
Camus ouvia a tudo com atenção enquanto despia o filho, sempre analisando seu corpo com atenção verificando se havia algum sinal de ferimento ou algo do gênero.
— Tinha a mamãe, ela cuidava de nós. — Comentou Hyoga que não havia parado de falar desde que reencontrou seu pai.
— Quem? — Camus perguntou interrompendo o filho pela primeira vez.
— A mamãe. — Repetiu o menino.
— Hyoga você sabe que não tem nenhuma mãe, não sabe? — Perguntou Camus com certa aflição trocando olhares com seus primos Mu e Shaka.
Girando os grandes olhos azuis o pequeno respondeu. — Eu sei que ela não é minha mãe de verdade, eu só tenho dois pais: O senhor e o Milo.
Camus olhou para Shaka confuso pensando que o primo contara a verdade ao filho, mas Shaka fez sinal de que não tinha nada a ver com aquela descoberta.
— Como sabe sobre o Milo, filho? — Camus perguntou incerto.
O menino olhou para o pai e respondeu com a sinceridade e inocência das crianças. — Não sei, eu senti, eu achei que era o senhor que estava chegando, mas quando eu vi era ele, mas pai por que ele não sabe que é meu pai também? — Hyoga perguntou confuso.
— Porque ele não é como nós, ele é um mortal meu filho. — Camus revelou sem maiores detalhes, mas o astuto Hyoga não ficaria sem respostas, não desta vez.
— O que é “mortal” papai? — Olhando fixo para o pai com seus olhos curiosos.
Camus trocou olhares com seus primos pensando sobre a resposta que daria àquela pergunta, ainda tendo que levar em consideração a pouca idade do filho para entender e absorver tal resposta.
Encarando os olhos azuis e brilhantes do filho, que tanto lembrava o pai mortal, Camus começou. — Filho, somos elfos, todos nós aqui, eu, você, Mu e Shaka nós temos a vida eterna, o que isso quer dizer? — Camus perguntou didático.
— Não sei. — O menino respondeu sincero e inocente.
— Quer dizer que não envelhecemos, não como os mortais, nosso corpo será sempre saudável, um elfo ancião, que é raro de se ver não sofre as mazelas da idade avançada que um mortal sofre, essa é a nossa essência. — Explicava Camus.
— Papai, por que é raro ver um elfo ancião? — O menino perguntou como sempre curioso.
— Porque a grande maioria dos elfos opta se juntar ao cosmo em um determinado momento de sua vida. Contribuindo assim com o equilíbrio do universo. — Camus respondia sempre bem didático.
— É o que é “mortal” papai? — Perguntou novamente o menino Hyoga.
— Os humanos, como seu pai Milo, têm uma alma eterna, mas seu corpo perece de tempos em tempo. — Camus falou com suavidade torcendo para que Hyoga não assimilasse o que de fato suas palavras significavam.
— Eu não quero que o corpo do pai Milo pereça. — O menino falou já com os olhos úmidos e Camus percebeu que seu filho além de sagaz e muito inteligente, tinha o raciocínio rápido.
Camus abraçou o filho acariciando seus cabelos. — Não vamos pensar sobre isso agora.
— Isso mesmo, nosso o Rei Albáfica vai servir um banquete esta noite em sua homenagem Hyoga, e todos vão estar felizes. — Mu foi quem falou cobrindo Hyoga com um tecido branco de linho.
O menino já estava nu no colo do pai, Camus seguiu com ele até a margem do rio que cortava Ville Rosálie.
Lá chegando pai e filho ficaram nus e entraram no rio.
Shaka e Mu sabiam que aquele ritual era necessário para que Camus e Hyoga repusessem suas energias vitais que estavam todas desestabilizadas após todo esse tempo separados.
Uma forte luz brilhou em torno dos dois, os cisnes dançavam a sua volta assim como os peixes pulavam toda vida contida no lago regozijava em comunhão aos elfos.
....
Milo estava reunido com os amigos no quarto que os elfos os acomodaram.
— Aqui foi tudo calmo, conseguimos chegar sem maiores problemas. — Comentou Aldebaran sentado na confortável cama do quarto cedido pelos elfos.
— Nós tivemos alguns imprevistos, teve um momento que eu realmente achei que não iríamos conseguir. — Contou Milo ainda sem conseguir entender o seu súbito mal-estar durante a batalha contra os orcs. — Não fosse os elfos terem nos ajudado acho que não estaríamos aqui neste momento.
— Nossa! Eles deveriam ter nos levado nesta missão de resgate! Hunf. — Reclamou Máscara da Morte e Aldebaran concordou com a cabeça.
Milo estava sentado na janela reparou que uma forte luz brilhava não muito longe dali.
— O que é aquilo? — Perguntou o loiro encantado com aquele brilho que lhe transmitia uma sensação de casa, de família. Seus pensamentos logo foram tomados pela lembrança do pequeno Hyoga e de seu elfo Camus.
— Que luz lindíssima e que sensação de paz ela transmite. — Foi Aldebaran quem falou se aproximando de Milo da janela.
Máscara da Morte sentiu seus olhos lacrimejarem, pois, sua mente foi tomada de lembranças de sua amada Helena e seus belos filhos.
Aldebaran ao notar a melancolia do amigo procurou mudar de assunto e tirar o foco da bela luz que brilhava próximo ao lago. — Então onde está o Aioria?
Milo foi tirado dos seus devaneios e olhou para o amigo sem entender sobre o que ele falava.
— Pergunto do nosso amigo Aioria, o safado chegou com você, mas eu não o vi desde então. — Repetiu o gigante.
— Muito provavelmente ele vai ficar com o elfo dele, aquele safado! Queria eu poder estar com Camus, mas ele foge de mim como as ovelhas fogem dos lobos. — Lamentou Milo.
— Claro que ele foge de você! Basta você olhar para o pobre com essa sua cara de cão sarnento faminto, pra ele se assustar. — Máscara da Morte comentou sorrindo, sendo seguindo por Aldebaran e Milo se limitou a olhá-los com desdém e se virar novamente para ver a luz brilhante.
Os amigos se calaram quando ouviram batidas na porta.
— Pois não, senhoritas? — Perguntou Aldebaran ao abrir a porta e dar de encontro com duas belas elfas.
— Boa noite senhores, Sua Majestade, o Rei Albáfica os convida para o banquete que será oferecido logo mais em homenagem a vocês nobres guerreiros e a chegada do pequeno Príncipe Hyoga. — Sofie anunciou educadamente trazendo um belo sorriso no rosto.
— Aceitem essas vestes, um presente do nosso Rei. — Alice ofereceu deixando as roupas em cima das camas assim como alguns adereços.
As moças fizeram uma reverência e deixaram o local.
— Um banquete! — Exclamou Aldebaran esperançoso em provar as iguarias elfas.
Milo pensou apenas na possibilidade de poder reencontrar Camus e Hyoga e seu coração se encheu de alegria.
— Esses elfos devem achar que somos mendigos, nos mandaram roupas novas. — Resmungou Máscara da Morte olhando para as roupas com desdém.
— Na realidade eles devem estar querendo que você tome um banho e tire essa sua catinga. — Brincou Milo. — Mas, falando sério, como está seu ferimento?
— O elfo do Aioria me curou, não sinto nada. — Respondeu o amigo.
Milo assentiu e respondeu. — Que bom.
— Sim, vamos à sala de banho, se tem uma coisa que eu reparei desde que cheguei aqui é que os elfos são todos muito elegantes e asseados e eu não quero fazer feio no banquete do Rei, afinal, meu pequeno vai estar lá. — Aldebaran falou abrindo a porta do quarto que dava para uma grande e bela sala de banhos, toda em mármore branco e decorada com rosas vermelhas uma grande piscina de água quente os esperava.
A água saía da terra já quente
— Uau que lugar lindo! — Milo deixou escapar assim que chegou ao recinto.
— Você não viu nada meu amigo, acho que Ville Rosálie é o lugar mais lindo em que eu já estive. — Comentou Aldebaran tirando a roupa e entrando na piscina de águas claras.
Milo o acompanhou também tirando as roupas que usava, não podia negar que estava precisando de um bom banho, os elfos trouxeram frutas, pães e chás para que comessem durante o dia, ainda era cedo, Milo pretendia dormir para estar completamente disposto logo mais.
Máscara da Morte foi o último a se juntar a eles, hora reclamando da água quente, hora reclamando das frutas, das vestes, do clima.
— Máscara, acho que a idade finalmente te alcançou, você está parecendo um velho ranzinza! — Comentou Milo em tom de brincadeira fazendo o amigo reclamar mais ainda e Aldebaran cair na risada.
*-*-*-*
Aioria estava se banhando na grande banheira de mármore branco, relaxando o corpo se deixando levar pelo delicioso perfume das rosas.
Shaka o havia conduzido até aquele aposento, Aioria não questionou, por mais que gostasse da companhia dos seus amigos dividir o leito com Shaka era um sonho do qual ele jamais abriria mão, seus sentimentos pelo elfo eram inexplicavelmente fortes, era como um reencontro de almas. Assim que viu Shaka naquela arena a mercê dos leões, não pensou em nada, apenas em salvar a vida daquele ser maravilhoso, e nem ao menos sabia que se tratava de um elfo.
Aioria sabia que tinha suas responsabilidades com Gale, não podia deixar seu reino à mercê das investidas Radamanthys, afinal foi para isso que eles foram investigar o tirano.
O Rei tirano obtinha seus poderes dos elfos, principalmente do Príncipe elfo Camus, o elfo que ganhou o coração de seu primo, e amigo, Milo.
Mas, e agora? Sem o elfo os poderes de Radamanthys continuariam os mesmos?
O loiro estava perdido em seus pensamentos e divagações quando se sobressaltou ao ouvir a voz calma e tranquila de seu amor.
— Uma moeda de ouro pelos seus pensamentos.
Aioria sorriu para Shaka antes de responder. — Estava pensando por onde andaria o amor da minha vida, que me abandonou nesta enorme banheira sozinho.
— Eu não o abandonei nesta banheira, eu o deixei no quarto. — Shaka respondeu sem se dar conta da maneira jocosa que Aioria se queixou.
— Estou apenas brincando, vamos me faça companhia, aqui está tão frio sem você. — Aioria pediu com a voz rouca.
— Essas águas são aquecidas, não pode estar frio aí dentro... — Shaka voltou a falar, mas, foi interrompido por Aioria.
— Meu amor apenas venha ficar comigo.
Apesar de tentar manter sua postura seria Shaka analisou com cobiça o corpo do jovem amante que lhe estendia a mão, sem pudores quanto ao seu corpo nu, Shaka despiu-se e, segurando na mão de Aioria, entrou na banheira, que na realidade era uma pequena piscina, menor que aquela do quarto dos amigos, mas tão charmosa e aconchegante quanto.
— Aqui é bem melhor que aquela pequena banheira daquela estalagem. — Comentou Aioria ao abraçar Shaka, o jovem mortal já sentia a sua ereção despertar.
Shaka o olhou nos olhos estudando o rosto tão amado, havia esperado tanto tempo para tê-lo de volta que realmente não importava o lugar, a única coisa que importava era estar junto a Aioria novamente.
Os dois então se beijaram lentamente como se reconhecessem um ao outro, a textura dos lábios, o cheiro, o gosto do beijo, o toque da pele.
— Shaka, como é possível?
— Como é possível o quê, Aioria?
— Como é possível que eu sinta como se tivesse esperado por você a minha vida toda, vida essa que só começou a fazer sentido depois que te encontrei? — Perguntou o guerreiro de Gale enquanto beijava o pescoço alvo do elfo loiro.
— Estou esperando por você há tempos, meu querido. — Shaka respondeu tomando a boca do loiro sem que este tivesse tempo de pensar nas palavras que foram ditas.
E os dois se amaram ali na piscina, Aioria investia de encontro ao corpo de Shaka que o abraçava beijando seu pescoço, o leonino podia jurar que o corpo de Shaka estava brilhando enquanto faziam amor.
A cada nova investida, Aioria sentia suas forças voltando, seu cansaço pelos dias de batalhas e de estrada pareciam ter deixado seu corpo, estar com Shaka era sublime.
Shaka por sua vez mantinha seus olhos fechados concentrado no prazer que o ex-guardião lhe dava, e estar entre os seus o revigorava e como elfo da vida, da cura seus poderes emanavam do seu corpo.
— Hnng... Aioria eu não...eu vou... Aioria! — Shaka gemeu.
Aioria então aumentou o ritmo das estocadas fazendo o loiro de cabelos longos o olhar, ele disse ofegante. — Vamos meu amor, juntos! Venha para mim...
Do calmo, tranquilo e ponderado Shaka nada restou naquele momento, pois o loiro gemeu alto e junto com seu orgasmo, Shaka liberou grande quantidade de energia que se juntou a atmosfera já agradável do lugar fortalecendo as árvores, flores, pássaros e todos os seres vivos que ali se encontravam.
Aioria teve o orgasmo no mesmo instante, mas mesmo durante os espasmos de seu corpo sentiu a energia de Shaka o invadir.
— Por Atena, Shaka! O que foi isso? — Aioria perguntou quando seu coração finalmente se acalmou.
— Foi meu amor e minha felicidade por estar aqui com você, isso é tão grande que não consigo guardar só pra mim. — Declarou Shaka, o que Aioria achou ser apenas um galanteio, mas que era literalmente verdade, a felicidade de Shaka transbordava vida para todo o local.
...
Após se amarem os dois amantes ficaram abraçados apreciando a presença um do outro, foi Aioria quem quebrou o silêncio. — Shaka por que demorou tanto a voltar?
— Eu estava com Camus e Hyoga, os estava ajudando nos rituais da purificação. — Respondeu Shaka.
— Rituais de purificação? — Questionou Aioria curioso.
— Sim, o menino passou muito tempo longe do pai, dos da nossa espécie, Camus restabeleceu sua energia, e eu estava lá para ajudá-los. Vi Hyoga nascer não imagina como sofri durante esse tempo que ele esteve desaparecido, a culpa me corroía a alma. — Contou Shaka.
— Por que se sentia culpado, meu amor?
Shaka olhou Aioria não nos olhos, mas não respondeu, preferiu mudar de assunto. — Vamos temos que nos arrumar não é de bom tom se atrasar para o banquete do Rei.
*-*-*-*
O grande baquete seria servido com total sintonia a natureza, aliás, como tudo em Ville Rosálie, o banquete se daria nos jardins a céu aberto, ao menos era o que os guerreiros mortais achavam, mas uma poderosa magia protegia o céu para que a chuva, se houvesse, não caísse sobre eles.
Uma grande mesa de carvalho rústica estava localizada no centro do grande jardim, rodeadas de outras mesas menores, belas flores perfumavam o ambiente em volta assim como alguns arranjos adornavam as mesas, não havia pratos de louça ou porcelana, apenas grandes folhas verdes onde seriam servidas as comidas.
Milo e seus amigos chegaram ao local e foram recebidos por Misty. — Boa noite, jovens guerreiros, o Rei Albáfica manda dizer que é uma honra tê-los para o jantar.
Logo o belo elfo os encaminhou para a mesa central mostrando a cada um o seu lugar, vinho foi colocado em seus copos de madeira cujos adornos foram detalhadamente talhados à mão pelos elfos.
— Parece que fomos os primeiros a chegar. — Comentou Aldebaran.
— Não se preocupem, vocês chegaram exatamente no horário vejam, Shaka está se juntando a nós com seu escolhido. — Comentou Misty sorrindo para deixar os visitantes a vontade.
Aldebaran e Máscara da Morte sorriram maliciosos quando viram o amigo chegando todo garboso ao lado de Shaka.
Os guerreiros vestiam as roupas presenteadas pelos elfos, tecido macio e confortável que em nada de comparava as roupas que usavam até então.
— Aioria, você está parecendo um príncipe. — Comentou Máscara.
O leonino sorriu convencido e respondeu: — Todos nós estamos com cara de nobres, quem diria que até vocês que tem cara de cães sem donos ficariam apresentáveis?
Aldebaran riu do comentário do amigo, mas seu coração batia em falso no seu peito à espera de ver o se pequeno elfo Mu aparecia.
Shaka estava incrivelmente belo, com os longos e gloriosos cabelos loiros brilhantes, ele vestia-se como os elfos da floresta, túnica longa verde com adornos em pratas nos braços e nos cabelos.
Uma leve música começou a soar no ambiente, Milo procurou com os olhos para saber de onde vinha o som e avistou um jovem de cabelos ruivos acobreados que tocava lindamente sua harpa.
Era uma música estranhamente familiar para o loiro, apesar de ter certeza que nunca a ouvira antes.
As mesas laterais estavam sendo preenchidas com alguns elfos, entre eles o jovem guerreiro Argol, que os salvara na floresta quando estavam prestes a serem devorados pelos orcs, e o jovem Isaak que os acompanhou durante a viagem.
Milo olhava em volta à procura do seu ruivo ou do pequeno Hyoga, ansioso nem que fosse apenas para ver o ruivo, seu sentimento era tão forte e verdadeiro que Milo se contentaria em apenas admirar o belo elfo ruivo.
Alguns minutos se passaram até que Milo finalmente notou que alguns elfos se agitavam curiosos, logo surgiu Camus, trajando vestes azul celeste, ele vinha segurando a mão do filho que também trajava azul, Hyoga que olhava tudo com seus olhos vivos, sorrindo para o pai, Mu os acompanhava sorrindo também, o jovem elfo era só alegria, pétalas de rosas caíam por cima deles, Milo percebeu que Camus continha o filho para que o menino não corresse para brincar com as pétalas que pousavam ao chão, o loiro sorriu com a cena, todos se levantaram para recepcionar pai e filho.
Camus sabia que ficaria na mesa central, onde estava Milo, seu coração batia acelerado, pois sabia que encontraria o ex-guardião, o homem que amava, mas sua mente ainda estava confusa por não saber o que fazer.
Se aproximar de Milo seria colocar a vida do ex-guardião em risco novamente, contudo não viver esse amor era se condenar a uma existência infeliz, “quanto tempo aguentaria uma existência infeliz?” — pensava o elfo, por Hyoga teria que suportar muito tempo até que pudesse se juntar ao cosmo.
Ao entrar no salão os olhos de Camus se cravaram em Milo, como se somente o loiro estivesse naquele local, como um imã os olhos de Milo também foram de encontro aos vermelhos do elfo.
Ao ver Milo o pequeno Hyoga finalmente conseguiu se soltar da mão do pai elfo e correr de encontro ao seu pai mortal. — Milo!
— Hyoga! — Camus tentou chamar, mas não teve sucesso, Mu sorriu mais abertamente ao ver a alegria do menino e olhou para o primo elfo sinalizando que ele havia perdido a batalha.
Milo abriu mais o sorriso e se abaixou para pegar o menino o suspendendo e girando com ele para cima, Hyoga sorria quando Milo o segurou no colo, o menino elfo o abraçou forte.
Com exceção de Milo e seus amigos de batalhas, todos os presentes naquela comemoração sabiam que o mortal também era pai de Hyoga, por este motivo não houve alarde nem estranheza pelo ocorrido.
— Pelo Divino, Hyoga! Tenha modos! — Camus foi de encontro a Milo que estava com o pequeno nos braços.
Os dois se olharam mais uma vez, seus corações batiam acelerados.
Milo quebrou o gelo. — Tudo bem, não brigue com o menino. — Pediu entregando Hyoga ao ruivo.
Camus olhou para o loiro sem saber como agir e muito menos o que fazer, então apenas concordou com a cabeça, pegou o filho nos braços e foi sentar-se com Hyoga no lugar que estava reservado para eles, que por obra do destino, ou de Afrodite, ficava em frente ao loiro.
— Hyoga, tenha modos, logo o Rei estará entre nós e você não pode se comportar dessa forma meu filho. — Camus falou ao pé de ouvido com seu filho.
— Mas eu também sou... — O menino iria dizer que também era filho de Milo e que por isso podia ir ter com seu outro pai sem problemas, mas Camus o impediu de continuar colocando o dedo próximo a boca do menino para que ele se calasse, ou poderia acabar falando demais.
— Hyoga, sem contestações, sim? — O ruivo falou e o pequeno apenas abaixou os olhos fazendo bico.
Milo sorria abobalhado olhando para os dois.
— Ei, pare de babar, você está perecendo um bobo. — Máscara da Morte falou para Milo que só então voltou a perceber os amigos próximos a ele.
— Tirando você, que é um rabugento da pior espécie, todos nós estamos com cara de bobos. — Devolveu Milo, olhando para os amigos Aldebaran que sorria como um matuto todo envergonhado para o jovem Mu e Aioria que não conseguia desviar o olhar de seu elfo altivo Shaka.
Máscara girou os olhos quando o som da harpa de Mime foi interrompido e Misty anunciou a chegada do Rei Albáfica e de seu filho Afrodite.
Todos os presentes se curvaram em respeito ao Rei e seu filho, o príncipe Afrodite, até mesmo o pequeno Hyoga que imitou o gesto de seus pais.
Os guerreiros de Gale, que ainda não tinham tido a oportunidade de ver o Rei Albáfica pessoalmente e ficaram admirados com a beleza daquele ser, mas somente aquele que desconhecia o amor verdadeiro caía de amores pelo belo e majestoso elfo, o que não era o caso de nenhum dos mortais presentes.
O Rei Albáfica sorriu ao perceber que os mortais o olhavam admirados, mas contidos, prova de que o amor que carregavam em dentro de si era verdadeiro.
— Quero desejar boas-vindas a todos! — Começou o Rei ao chegar à cabeceira da mesa principal, — Aos amigos valorosos que trouxeram nossos preciosos Mu, Shaka, Camus e o nosso maior tesouro, pequeno príncipe Hyoga, um brinde a todos.
Todos os presentes levantaram seus copos fazendo um brinde os mortais Milo, Aioria, Aldebaran e Máscara da Morte, que ficaram sem graça com a homenagem.
— Quero agradecer também ao nosso valoroso Argol e seus soldados, pois sei que foram de grande ajuda na empreitada de guiá-los em segurança até aqui e a Isaak que cumpriu seu dever de proteger a criança élfica durante todo este tempo. — Argol fez uma reverência e Misty o aplaudia orgulhoso, já Isaak sorriu totalmente encabulado. — Por Favor, sentem-se, e que comecem a servir. — Ordenou o Rei e logo alguns elfos traziam vinhos, frutas e pães para as mesas.
— Eu sabia que a comida élfica seria somente isso, frutas e pães! Nada de cordeiros, porcos, javali... — Comentou Máscara da Morte entre Milo e Aldebaran que o cutucaram, um de cada lado, o amigo resmungão estava cometendo uma enorme gafe, elfos jamais comeriam animais, nem os abateriam para satisfazer os convidados mortais.
— Tenha modos seu velhote mal-educado. — Cochichou Aldebaran.
— Velhote é a... — Máscara decidiu se calar assim que seus olhos pousaram nos azuis de Afrodite, eram tão límpidos quanto as águas claras das piscinas élficas e o encarava com curiosidade.
Camus tentava disfarçar, mas seu olhar sempre encontrava o de Milo, Hyoga estava muito alegre e admirado com tudo aquilo, afinal apesar de ser um elfo de nobre linhagem, Hyoga nunca esteve com outros da sua espécie, com exceção de seu pai Camus e seus primos Shaka e Mu, e é claro seu guardião Isaak, mas toda sua curta vida ele passou ou vagando pela floresta, ou na pequena cabana com Natassia e os dois amigos, tudo naquele lugar mágico era novo e atraente.
— Nossa quanta comida! — O menino Hyoga deixou escapar em sua espontaneidade de criança. — Papai, olha morangos, eu adoro morangos!
— Hyoga! — Começou Camus para tentar corrigir o filho, mas logo foi cortado.
— Pode comê-los à vontade, meu querido. — Afrodite foi quem respondeu sorrindo. — Sofie, morangos para o nosso pequeno Príncipe.
Camus não sabia como se portar, pois há muito não via o filho e não queria ser severo com ele, não naquele momento onde a saudade ainda não havia sido extirpada do seu coração.
Todos estavam deliciados com o pequeno elfo que era o centro das atenções.
— Shaka, é muito bom ver que você assumiu seu amor pelo mortal. — Comentou o Rei Albáfica.
— Senhor Albáfica, não podia negar isso ao meu coração, não depois de tudo. — Shaka respondeu com humildade, mas deixando Aioria em alerta com o "depois de tudo".
— Você faz bem, meu querido, não devemos rejeitar o amor, não quando ele é verdadeiro. — O Rei disse já olhando para Camus que a abaixou a cabeça. — Fugir do amor só nos traz sofrimentos.
— Mas há de se ter responsabilidade para não ferir os inocentes. — Respondeu Camus triste.
— Há de se dar a oportunidade de escolha ao ser amado, meu jovem sobrinho. No amor nada pode ser decidido sozinho. — Respondeu o Rei. — Pois o amor não vive só.
E olhando para todos que prestavam atenção a conversa o Rei esclareceu. — Muitos são contra o relacionamento entre um mortal e um elfo, alegando que a vida mortal é demasiadamente curta se comparado a vida élfica, mas isso não é verdade.
Camus olhou atento para o tio assim como os demais interessados naquele assunto.
— A alma mortal é eterna, o corpo não. — Continuou o Rei Albáfica. — Os elfos possuem um corpo imortal no sentido de não perecermos das mesmas mazelas que os mortais.
O assunto foi se prolongando durante o jantar onde Albáfica explicava a todos as diferenças entre os mortais e os elfos.
Quando todos estavam satisfeitos Albáfica chamou os mortais para ter com ele em outro local, então caminharam um pouco pelos terrenos de Ville Rosálie até que chegaram a uma fogueira.
...
Após o jantar Camus se retirou com seu filho nos braços, o ruivo foi com o menino para a margem do lago, um local bonito e tranquilo onde ele poderia pensar nas palavras do seu tio.
Shaka e Mu também se retiraram dando ao rei a privacidade solicitada.
...
O Rei e os guerreiros se sentaram em volta da fogueira, todos sempre muito atentos as palavras do Rei.
— Meus caros, alguns de vocês tem as almas mais antigas que muitos elfos aqui. — Falava o Rei Albáfica. — Mas as lembranças, suas memórias são esquecidas quando suas almas voltam a encarnar.
Este instante Dohko chegou para se juntar a eles, os rapazes olharam surpresos, todos imaginando de onde conheciam aquele homem?
— Desculpe senhor, mas de onde nos conhecemos? — Perguntou Milo.
— Também tenho a impressão de que o conheço, acaso já nos lutamos em alguma batalha contra o tirano Radamanthys? — Aldebaran perguntou a Dohko.
— Ah, meus amigos, logo tudo será esclarecido. — Dohko respondeu aos rapazes.
— Há um motivo pelo qual os mortais tem sua memória apagada sempre que voltam à terra. — Albáfica explicou.
— Qual é o motivo? — Quis saber Aldebaran.
— O remorso, muitos, ou melhor, a grande maioria dos mortais reencarnados cometeram crimes em outras vidas e muitas vezes eles reencarnam para poder quitar tal débito com o Divino, com o universo. — Explicou pacientemente o Rei Albáfica, olhando para Máscara da Morte que se sentia estranhamente desconfortável com aquela conversa. — Vocês gostariam que o véu do esquecimento fosse tirado dos olhos de vocês?
A pergunta foi feita calmante, contudo todos sentiram o coração acelerar perante aquela pergunta.
Albáfica pegou um graveto do chão e começou a desenhar na terra aguardando a resposta dos rapazes.
De todos o único que sentiu medo foi Máscara da Morte, um medo insano, uma vontade de correr, de fugir dali, mas ele não saiu do lugar.
— Sim, por favor, majestade tire essa venda dos meus olhos, pois sinto aqui em meu peito que vivi outra vida, por favor me faça lembrar. — Foi Milo quem pediu, mas seus amigos concordaram.
— Lembrem-se eu só retiro o véu do esquecimento, as consequências são responsabilidade de vocês! — Avisou o Rei antes de começar a desenhar no chão e falar algumas palavras em élfico, palavras que eram incompreensíveis para os rapazes que olhavam fixamente para o que Albáfica desenhava.
Naquele momento imagens apareciam na terra e para cada um deles em suas mentes lembranças começavam a surgir assombrosamente.
Milo se viu em outras vidas, sempre como guerreiro, ajudando as pessoas, protegendo famílias, mas a que a mais chamou sua atenção foi a última que se passou no norte com Dohko recebendo treinamento para ser guardião, Aioria, Aldebaran e Máscara da Morte eram guardiões assim como ele, as lutas, as técnicas, todas as lembranças vinham nos mínimos detalhes, a noite do solstício, Camus dançando para ele, o momento mágico em que se amaram pela primeira vez, a forma apaixonada que se amaram depois e depois, o deslizamento do gelo, a morte da criança élfica, a perseguição pelo parente da criança, sua resignação em aceitar a punição dos elfos, sua morte pela afiada espada do elfo enfurecido, o grito de Camus foi a última coisa que se lembrou.
Quando Milo saiu do transe estava confuso, olhou para os amigos que também pareciam ter acabado de levar uma paulada na cabeça.
— O Camus... Eu e ele... Majestade me conte o que houve com Camus depois que parti, por favor, eu imploro! — Milo implorou tremendo.
Aioria que sabia que a vida de Milo esta interligada a sua, olhou para o Rei e pediu: — Nos deixe saber o que houve depois que partimos.
— Dohko, esclareça as dúvidas que os outros dois tenham e quanto a vocês venham comigo. — Ordenou o Rei a Dohko se referindo a Máscara da Morte e Aldebaran, e chamando Milo e Aioria, Albáfica se levantou e saiu sendo seguido pelos dois guerreiros.
Andaram pelos floridos terrenos de Ville Rosálie até que o Rei parou próximo a uma bacia de áqgua feita em mármore branco onde cintilava um líquido brilhante.
— Aqui temos o que se passou com eles, pegamos suas lembranças narradas e guardamos aqui, basta que vocês se inclinem e olhem fixamente para o fundo da bacia.
Milo e Aioria se olharam tensos, mas abaixaram os olhos para o líquido cristalino e logo imagens começaram a se formar.
Ali eles viram Shurt bater em Camus enquanto este chorava abraçado ao corpo morto de Milo, viram Hilda desferindo um golpe fatal em Aioria, Degel chegando, Camus sendo confinado num esquife de gelo, com surpresa Milo viu Mu dizer a Shaka que Camus estava esperando uma vida, viram o dia a dia de Shaka e Mu enquanto Camus estava confinado no gelo.
Foi com lágrimas nos olhos que Milo viu Camus exausto na tenda já com o pequeno Hyoga nos braços.
O nascimento de Hyoga foi propositalmente escondido, pois mesmo a lembrança da luz e energia empenhada no parte seria capaz de cegar qualquer mortal.
Os guardiões tiveram acesso apenas nas coisas que ocorrem em Delmare, nada do que aconteceu a Camus, Mu, Shaka e o pequeno Hyoga na viagem até Ville Rosálie foi mostrado, uma vez que nem mesmo os elfos haviam conseguido tal informação com precisão.
Assim que ergueram as cabeças da bacia ainda atônitos, Milo olhou para o Rei e perguntou, já sabendo a resposta.
— O Hyoga é meu filho? Meu filho em outra vida?
— Hyoga é fruto da sua energia vital com a de Camus, ele não foi seu filho em outra vida, ele É seu filho para sempre, pois foi feito com a energia vital pertencente a sua alma, a sua essência. Tudo isso agraciado pelo Divino na noite do solstício de inverno, as noites dos solstícios são mágicas para nós elfos. — Explicava o Rei Albáfica. — Nascimento de novos elfos é raro principalmente os que são concebidos pelas energias dos cosmos. Hyoga é muito importante para nós.
Os olhos de Milo estavam marejados, ele olhou para o Rei em súplica, Albáfica sorriu e falou. — Vá meu rapaz, vá reencontrar sua família.
Não precisou falar duas vezes, pois Milo saiu em disparada em busca de Camus e Hyoga.
Aioria olhou para o amigo que já ia longe e depois voltou seu olhar para o Rei.
— Vá meu querido, vá ficar com seu amado Shaka, ele passou por coisas demais esperando seu retorno, não o deixe esperar mais. — Albáfica falou para um sorridente Aioria que também saiu em disparada.
— Aqui é Ville Rosálie, o amor impera no meu reino, aqui o amor sempre estará em primeiro lugar. — O Rei falou sozinho, quando sentiu a presença de alguém, uma energia forte poderosa, mas que ele conhecia muito bem. — Você aqui?
*-*-*-*
— Vocês estão bem? Com tudo que descobriram, não é fácil reviver o que fizemos em outras vidas. — Dohko perguntou como um sábio que era.
Aldebaran estava tranquilo, mas Máscara da Morte estava inconsolável, chorava sem parar, um choro silencioso daqueles que a gente não tem dúvidas da dor que é verdadeira.
— Aldebaran, meu querido, você me parece bem, pode me dar licença para eu ter com o nosso amigo Carlo. — Dohko pediu e Aldebaran não o olhou com surpresa, pois se agora se lembrava do amigo das outras vidas e sabia o motivo de seu pranto.
— Claro mestre, Dohko, farei o que me pede. — Disse o gigante antes de deixar os dois a sós.
— Eu sou um monstro, mestre Dohko, um monstro, matei todas aquelas pessoas, foi por isso que nesta vida eu... Foi por isso que eu perdi Helena e meus filhos daquela forma? Para sentir a dor que causei a outros? — Perguntou Carlo aos prantos.
— Meu caro, o universo sabe de todos os nossos acertos e falhas o Divino nos quer puros, como vamos ser puros com dívidas? — Respondeu Dohko.
— Mas eles eram inocentes, eu era o culpado, eu é quem deveria ter morrido. — Tornou o ex-guardião em tom de revolta.
— O Divino não é injusto, o universo jamais permitiria que algo acontecesse aos seus sem que eles também tivessem seus débitos. — Explicou Dohko paciente.
— O que está falando, eram crianças!
— Assim como você, cheio de débitos, já foi um dia meu caro, seus filhos e esposa tiveram a chance de resgatar débitos do passado, não carregue mais este ódio em seu coração, você fez um juramento há muitos anos, traiu este juramento. Está disposto a voltar a ser um guardião, um homem de bem? — Perguntou o Mestre dos guardiões.
— Você me aceitaria de volta?
— De braços abertos, meu caro.
Os dois se abraçaram, mestre e pupilo que não se viam há séculos, mas que após a retirada do véu tinham a sensação de que se despediram há apenas alguns dias.
*-*-*-*-*
Camus olhava para o horizonte sentado em uma pedra em frente ao lago com Hyoga lhe mostrando como já conseguia congelar algumas folhas que estavam caídas no chão.
— Olha papai! É gelo eu que fiz! — O menino dizia empolgado para mostrar ao pai as coisas que já sabia fazer.
— Meus parabéns, Hyoga, você já está muito esperto! — Camus dizia ao filho realmente encantado com o desenvolvimento da criança, mas com o seu coração apertado sem saber como se portar com Milo.
“Como posso dizer a verdade? Como posso colocar sua vida em risco novamente?" — Esses pensamentos martelavam em sua mente, quando o ruivo percebeu que Milo se aproximava.
Instintivamente o elfo se levantou e pegou o filhos nos braços o menino olhou para o lado que Milo vinha e sorriu.
Quando Milo chegou até eles, Camus soube pelo seu olhar que seu Milo estava de volta.
Milo olhou nos olhos do ruivo com a saudade latejando em seu peito, depois olhou para o menino que sorria e esticava os pequenos braços para que o pai mortal o pegasse no colo.
Milo assim o fez, apertou o menino nos braços com lágrimas nos olhos e olhando para o ruivo sorriu, — Nosso filho!
Camus estava imóvel, dos olhos caíam lágrimas que o elfo não saberia dizer que eram de felicidade ou saudade, um misto de emoções explodiam em seu peito, apenas respondeu. — Nosso filho.
Os dois se abraçam com Hyoga entre eles, Milo não pôde se conter e tomou os lábios do seu elfo, num beijo repleto de saudade.
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