Além do Olhar

8 A Calmaria antes da Tempestade


O sábado nasceu ensolarado, como se o destino estivesse dando uma trégua para Kyara e David. O chá com a Vovó Adelaide foi um sucesso absoluto; David, com sua calma e intelecto, conquistou a matriarca em minutos, provando que a classe não vem do sobrenome, mas da alma.


​Após o encontro com Adelaide, David e Kyara decidiram estender o dia. Foram a um parque, caminharam descalços na grama e conversaram sobre tudo — desde os planos de Kyara para o futuro até as cicatrizes que o divórcio de David havia deixado. Pela primeira vez, não havia o peso da faculdade ou o julgamento da família. Eram apenas duas pessoas conectadas pelo respeito e por algo mais forte que começava a florescer.

​O sol já se punha quando David estacionou o carro da vovó Adelaide em frente à casa da idosa para deixar Kyara. O silêncio dentro do veículo tornou-se denso, carregado de eletricidade.

​— Obrigado pelo dia de hoje, Kyara — David disse, a voz baixa e rouca. — Eu precisava disso mais do que imaginava.

​Kyara o olhou, a luz do crepúsculo realçando o dourado de seus olhos e a pele retinta dele.

— Eu também, David. Com você, eu sinto que não preciso ser a "boneca" de ninguém.

​Ela se aproximou para um beijo no rosto, mas David virou o rosto no último segundo. O toque foi suave no início, um roçar de lábios hesitante que logo se transformou em algo intenso. Foi um beijo de entrega, de quem estava cansado de lutar contra o que sentia. As mãos de David envolveram o rosto de Kyara com uma urgência contida, enquanto ela se perdia no calor dele.

​— Vá para dentro — ele sussurrou contra os lábios dela, com um sorriso sereno, mas o olhar em chamas. — Antes que eu decida não te deixar ir.

​O Confronto nas Sombras

​David dirigiu de volta para seu apartamento sentindo-se flutuar. Mas a realidade o atingiu como um soco assim que ele encostou o carro na guia. Parado junto à entrada do prédio, encostado em um sedã preto luxuoso, estava o Dr. Arthur pai.

​Assim que David desceu, o homem se desencostou do carro. O rosto dele era uma máscara de ódio.

​— Você deve estar se sentindo muito vitorioso, não é, Sinclair? — o Dr. Arthur cuspiu as palavras. — Beijando a minha filha, usando a cabeça daquela velha gaga da minha mãe...

​David fechou a porta do carro e caminhou até o homem, mantendo sua postura de titânio.

— Dr. Arthur, já está tarde. Sugiro que o senhor vá para casa cuidar da sua família em vez de vigiar a vida de um homem livre.

​— Livre? — Arthur deu um passo à frente, apontando o dedo no peito de David. — Você não tem ideia do poder que eu tenho nesta cidade. Eu conheço o reitor, conheço os conselhos de ética, conheço cada porta que pode se fechar para você.

​David não recuou um milímetro. Sua expressão era de um desprezo calmo.

— O senhor está me ameaçando? Por causa da felicidade da sua própria filha?

​— Eu estou te dando um aviso! — o Dr. Arthur gritou, a voz ecoando na rua deserta. — Afaste-se da Kyara agora. Se você tocar nela de novo, se você continuar alimentando essas ideias ridículas na cabeça dela, eu vou fazer a sua vida desmoronar. Eu vou tirar sua licença, vou acabar com a sua reputação e vou garantir que você não consiga emprego nem como faxineiro de academia nesta cidade.

​David deu um sorriso gélido, inclinando-se levemente para ficar na altura dos olhos do médico.

— O senhor pode tentar destruir minha carreira, doutor. Mas o senhor nunca vai conseguir comprar o que eu e a Kyara temos: verdade. E quanto mais o senhor tenta nos separar, mais nos une. Agora, saia da frente da minha porta antes que eu chame a polícia por assédio.

​O Dr. Arthur estremeceu de raiva, os olhos injetados.

— Você foi avisado, Sinclair. Quando você perder tudo, não diga que eu não avisei.

​O carro de luxo arrancou cantando pneu, deixando David sozinho sob a luz amarelada do poste. Ele olhou para as próprias mãos, que ainda guardavam o perfume de Kyara. Ele sabia que a guerra tinha acabado de começar, mas, pela primeira vez, ele tinha algo pelo qual valia a pena lutar até o fim.