Além do Olhar

9 O Sacrifício do Silêncio


A atmosfera na faculdade naquela segunda-feira estava carregada. Kyara não havia pregado o olho, as palavras de David sobre a ameaça do pai ecoavam como uma sentença. Quando ela entrou na sala de materiais esportivos e encontrou David, a expressão dele confirmou tudo.


​David fechou a porta e, sem rodeios, relatou o encontro da noite anterior.

— Ele foi ao meu prédio, Kyara. Me ameaçou de todas as formas possíveis. Disse que ia tirar minha licença, acabar com a minha carreira... — David passava a mão pelo rosto, a serenidade habitual abalada.

​Kyara sentiu o chão sumir. Ela conhecia o poder destrutivo do pai. Sabia que ele não blefava.

— Ele vai fazer isso, David. Ele é capaz de coisas horríveis para manter o controle.

​Ela olhou para David, para o homem que lutou tanto para chegar onde estava, superando o racismo e um divórcio, para agora ver tudo ruir por causa do sobrenome dela. O amor que sentia por ele se transformou em um instinto de proteção doloroso.

​— David... a gente não pode continuar — ela disse, a voz num fio, mas decidida.

​David parou e a encarou, incrédulo.

— O quê? Você está cedendo? Depois de tudo o que disse no cinema? Depois do que vivemos na casa da sua avó?

​— Eu estou te salvando! — ela gritou, as lágrimas transbordando. — Eu não posso deixar você perder a sua vida por minha causa. Você ama dar aula, David. Se meu pai te destruir, eu nunca vou me perdoar. Acabou. Vamos fingir que nada aconteceu.

​— Você está sendo covarde, Kyara! — David explodiu, a voz ecoando na sala. — Você acha que minha carreira vale mais do que a minha dignidade? Do que o que a gente sente? Eu não sou um projeto seu que você pode "salvar" abrindo mão de mim!

​— É o meu sobrenome que é a arma, David! Eu não vou ver você no fundo do poço por causa dos Stanford! — Ela deu um passo atrás, o coração em pedaços. — Esquece o beijo. Esquece tudo. Acabou!

​Ela saiu correndo, ignorando o grito de David chamando seu nome. A briga foi feia, amarga, deixando feridas que pareciam incuráveis.

​O Confronto Final com o Dr. Arthur

​Cega de fúria, Kyara não foi para a aula. Ela dirigiu o carro da avó direto para o consultório particular do pai. Entrou passando por cima da secretária e escancarou a porta da sala dele.

​— VOCÊ CONSEGUIU! — ela gritou, batendo as mãos na mesa de carvalho. — Sinta-se orgulhoso, Dr. Arthur Stanford! Você destruiu a única coisa real que eu tive em anos!

​O pai dela, sentado calmamente em sua cadeira de couro, apenas ajeitou os óculos.

— Do que você está falando, Kyara?

​— Eu terminei com ele! Afastei o David para que você não destruísse a vida dele! — Ela cuspia as palavras, o rosto vermelho de ódio. — Você é um monstro, pai. Um racista, pequeno e miserável que usa o poder para esmagar as pessoas. Você ganhou, está satisfeito? Eu o odeio com todas as minhas forças! Eu prefiro ser órfã a carregar o seu sangue!

​Arthur pai não se abalou. Um sorriso lento e vitorioso surgiu em seus lábios.

— Um dia você vai me agradecer, Kyara. Eu fiz o que era necessário para limpar o seu caminho. O tempo cura essas paixonites por gente sem nível.

​Kyara sentiu nojo. Ela deu as costas e saiu, deixando para trás o homem que ela chamava de pai, mas que agora era apenas um estranho cruel.

​O Porto Seguro em Estilhaços

​Ao chegar na casa de Adelaide, Kyara desabou nos degraus da entrada. A avó correu para acudi-la. Entre soluços desesperados, Kyara contou sobre a ameaça ao emprego de David, a decisão de terminar para protegê-lo e o sorriso cínico do pai ao saber da notícia.

​Adelaide ficou estática, a mão no peito, o rosto pálido de choque.

— Ele fez isso... no meu nome? Usando o prestígio que eu ajudei a construir para ameaçar um homem de bem?

​— Ele destruiu tudo, vó. O David me odeia agora, ele acha que eu sou uma covarde... e talvez eu seja. Mas eu não podia deixar ele perder tudo.

​Adelaide apertou os ombros da neta, os olhos brilhando com uma chama de justiça que Kyara nunca vira antes.

— Escute bem, Kyara. Seu pai acha que é o dono desta cidade, mas ele esqueceu que eu ainda sou a dona do patrimônio que sustenta aquele hospital e aquele sobrenome. Ele mexeu com a pessoa errada. E ele mexeu com a felicidade da minha neta.

​A vovó se levantou, pegando o telefone. O jogo estava prestes a mudar, mas a ferida entre David e Kyara ainda sangrava, profunda e fria.