Além das Quadras

35 Arco III – 35. Há muito tempo


Notas iniciais
Olar amores e amoras, como cês tão? Feliz Natal atrasado e Feliz Ano Novo adiantado haha Quero dizer que estamos na reta final da história e espero que vocês gostem! E que me acompanhe nos próximos projetos que pretendo escrever ♥ Boa leitura meus anjus Ghost Kisses ~Marceline

Capítulo 35: Há muito tempo

Era estranho pensar em como chegaram até aquele momento.

Ainda mais estranho era o fato de morar com a pessoa que estava ficando. Poderia dizer isso, não é? Que depois de todo o drama, todos os problemas, todas as lágrimas… Eles estavam finalmente juntos. Mas estavam mesmo?

Essa era a dúvida recorrente da cabeça de Henry. Depois de tudo o que tinha acontecido entre ele e Erick, pensar que chegaria a ultrapassar a linha da amizade parecia algo surreal, mas estava acontecendo.

Após Erick beijá-lo e praticamente se declarar para Henry, a relação entre eles ficou… Mais quente. Já faziam tudo juntos mesmo, já pareciam um casal, só que não se beijavam. E bom, agora se beijavam. E com bastante frequência.

Era de se impressionar como Erick agia naturalmente, como se fizessem aquilo há muito tempo. Assim que acordavam, ele lhe dava um beijo de bom dia. Sempre que podia, roubava um beijo ou outro dos lábios de Henry, lhe lançando aquele sorriso avassalador que paralisava algumas batidas do coração de Henry.

Algumas vezes era agarrado no meio do corredor. Com um sorriso e um ar provocador, Erick simplesmente tomava a boca de Henry, que não reclamava nem um pouco, como se fosse sua. Não iam dormir antes de se pegarem na cama de um dos dois e acabarem rindo por um ou outro cair por conta do móvel ser pequeno.

Eles não conversavam sobre aquela relação que estavam tendo, por mais que Henry quisesse esclarecer algumas coisas. Permitiu deixar as coisas fluírem naturalmente e ele tinha que admitir que estava fluindo melhor do que esperava.

Tudo parecia um sonho e Henry tinha medo de que fosse acordar a qualquer momento e se deparar com a realidade. Mas isso nunca aconteceu, pois todos os dias, sem exceção, Erick estava lá, ao seu lado, lhe dando beijos, abraços e carinhos. Não podia pedir uma sensação melhor do que se sentir amado daquela forma e poder retribuir, por mais que se segurasse um pouco com suas atitudes algumas vezes.

Às vezes ele se pegava pensando em Chris. Não de maneira afetiva, mas de maneira culpada. Mesmo depois de meses após o término, ainda se martirizava por machucar o outro e sentia-se mal por estar tão feliz ao lado de Erick, coisa que, agora percebia, não era com Chris.

Por mais clichê que fosse, Henry sabia que o problema não era o ex, mas, sim, ele próprio. Sabia que nunca amaria Chris como amava Erick. Jamais amaria uma pessoa que não fosse Erick e ele tinha certeza disso só agora.

— Quando você soube? – Erick perguntou de repente.

Estavam jogados na cama de Henry, Erick lendo um livro enquanto Henry jogava Hollow Knight em seu Nintendo Switch. Estavam em um emaranhado de pernas e braços, mas de um jeito confortável em que sentiam a presença do outro perfeitamente. Henry tirou os olhos do jogo, olhando para Erick.

— Soube o quê? – perguntou realmente sem entender a pergunta.

Erick se endireitou na cama, apoiando as costas na parede. Em consequência, Henry se ajeitou também, ficando apoiado na cabeceira da cama. Seus joelhos se tocavam, formando um calor entre as peles.

— Que… – Erick fechou o livro e fez uma careta. – Gostava de mim.

Aquilo pegou Henry de surpresa. Nunca tinha verbalizado aquilo, mas aparentemente estava claro. Achava que estava claro desde o momento que se beijaram pela primeira vez. Certas coisas não precisavam ser ditas para serem sabidas.

— Pode parecer idiota, mas depois do acidente. – respondeu Henry, dando de ombros, mas sentia-se um pouco desconfortável de revelar algo tão íntimo, ainda mais para a pessoa que era o alvo de seus sentimentos.

— Quando você rompeu os ligamentos naquele treino quando tínhamos uns 13/14 anos? – ele franziu o cenho, um tanto incrédulo.

As bochechas de Henry ficaram automaticamente vermelhas, pensando que fazia muito tempo desde que aquilo tinha acontecido e que mantinha o sentimento intacto esse tempo todo, vacilando um pouco depois da crise na amizade deles.

— Eu sei que é muito tempo – Henry confessou, sem encará-lo. – Mas eu não tive muita escolha… Cara, você cuidou de mim como ninguém. Ficou comigo quando eu tive que engessar, me ajudou na escola a subir os degraus para as salas. Você tava 100% do seu tempo cuidando de mim, do meu lado, sem soltar minha mão em nenhum momento.

Henry deu uma pausa, respirando fundo e percebendo que o outro o encarava intensamente.

— Eu fui te vendo com outros olhos — continuou, voltando seus olhos pros botões do videogame. – E fui percebendo que, antes disso, você também cuidava de mim… Sempre cuidou… Eu me apaixonei por você quando percebi que queria te fazer sentir cuidado e amado do mesmo modo que você fez comigo esse tempo todo.

Um silêncio se instalou entre eles. Henry não sabia se queria olhar para Erick ou se continuar fingindo demência, mas, quando o silêncio durou mais do que esperado, ele finalmente levantou os olhos, vendo lágrimas descendo pelo rosto de Erick.

— Ah, meu Deus – ele disse um pouco alarmado, sentando-se ao lado de Erick e pegando sua mão. – O que houve? Eu disse algo ruim? Não deveria…

— Não – Erick fungou, passando o dorso da mão pelos olhos. – Só to pensando o quão babaca, idiota e otário eu fui com você…

Henry quis falar que ele não tinha sido, mas estaria mentindo. Algumas vezes, aquelas situações passadas tomavam seus sonhos. A dor e a angústia de reviver aqueles momentos eram grandes apesar de já estarem distantes.

— Eu também não fui a melhor pessoa do mundo com você – ele disse, apertando um pouco a mão de Erick. – Eu…

— Não, cara – Erick o interrompeu e fungou mais uma vez. – Nem se compara… Eu fiquei tão assustado quando fui percebendo que eu sentia ciúmes de você com outras pessoas, que queria você só pra mim… Sonhos… Enfim. Eu nunca tinha sentido nada assim e estava sentindo pelo meu melhor amigo. Isso me fez surtar. Eu não me conhecia mais, não sabia o que eu realmente era. Precisava de respostas… Elas vieram, mas…

Ele parou, engolindo a seco. Henry ficou calado, apenas olhando para ele, esperando que ele continuasse.

— Meu pai me fez acreditar que você era culpado de tudo de ruim que estava acontecendo comigo. Por eu ser gay e estar apanhando dele. Me fez acreditar que o sofrimento da minha mãe e irmã era culpa minha… E eu acreditei. – mais lágrimas escorreram, mas ele não se importou em limpá-las. – Por um momento eu quis te machucar como eu estava sendo machucado pelo meu pai. Ele entrou na minha cabeça, me fez sentir raiva de você e de mim mesmo por ser assim. Ele fez coisas horríveis… Eu me sentia um monstro, uma aberração, como ele dizia.

Os cílios de Erick estavam molhados e Henry não conteve sua mão quando ela foi até o rosto do outro, limpando as lágrimas que escorriam. Depois de um tempo ele percebeu que estava chorando também, mas aquilo não importava naquele momento.

— Eu tive Amanda e Danilo como meus portos seguros quando Nathy foi embora – ele confessou. – Eles me ajudaram a lidar com tudo isso e também a me fazer perceber que não tinha nada de errado comigo, que quem era o monstro da história era meu pai e não eu.

Por um instante, Henry sentiu-se idiota por ter tanto ciúmes de Danilo. Acabou ficando agradecido pelo garoto estar lá quando ele mesmo não podia.

Então uma avalanche de coisas vieram. Erick contou das surras que levava. Contou do dia que fugiu com a mãe para casa de Danilo. O dia em que quase morrera pelas mãos do pai embriagado. Henry ouvia tudo aquilo horrorizado.

Uma corda estava em seu coração e a cada situação que Erick contava, ele era cada vez mais esmagado. Sentia a dor do outro, sentia o sofrimento em sua voz ao revelar aquilo tudo. Henry sempre quis saber o que tinha acontecido e agora entendia o motivo de ser tão doloroso para o outro contar.

Reviver coisas ruins era desastroso para a mente.

Quando Erick finalmente terminou de revelar seu passado, Henry apenas envolveu seus braços no dorso do outro, abraçando-o fortemente. Não queria que ele saísse dali nunca mais. Queria congelar aquele momento.

— Eu te perdoo por tudo – ele sussurrou – E quero que você me perdoe também.

Erick apenas balançou a cabeça, encaixando o rosto na curva do pescoço de Henry e se permitindo chorar. Henry percebeu o quanto o outro estava se segurando para não cair em lágrimas profundas. Ele o acolheu como pode, o abraçando e beijando seus cachos loiros.

— Vai ficar tudo bem, viu? – ele disse pegando nos dois lados do rosto de Erick. – Eu jamais vou deixar aquele homem encostar em você novamente.

Erick parecia uma criança, com os olhos brilhando pelas lágrimas, o rosto avermelhado pelo choro. Mas seu olhar era de agradecimento e não de tristeza. Henry selou os lábios deles, segurando o rosto de Erick firmemente, como se ele pudesse escapar a qualquer momento.

O gosto de Erick já estava gravado na boca de Henry, mas dessa vez foi um beijo mais salgado por conta das lágrimas de ambos. Suas línguas se entrelaçaram com ternura, devagar. Henry sempre se perdia quando beijava Erick, então não notou o momento em que sentou-se no colo do outro.

Erick apertou sua cintura enquanto os dedos de Henry se emaranhavam nos cachos alheios. Ele sentia perfeitamente as batidas rápidas de seu coração contra o peito do outro, que também tinha o coração acelerado. Puxando os cabelos da nuca de Erick, Henry aprofundou ainda mais o beijo, sentindo um arrepio na coluna sempre que ele apertava sua pele.

Também não percebeu quando deitou o outro, ficando por cima e beijando Erick com mais intensidade, mais paixão e mais desejo. Era inebriante o que Erick fazia com seus sentimentos e seus sentidos. Era tudo diferente de tudo o que já tinha experimentado, por mais que Erick não fosse experiente.

Ele não beijava mal, de forma alguma, só era diferente. Calmo, contido. Como se tivesse medo de errar ou coisa parecida. Henry já havia dado algumas dicas de como ele gostava de ser beijado e Erick anotou mentalmente com perfeição, colocando em prática. Erick sempre aprendera rápido certas coisas e aquilo não podia ser diferente.

As mãos grandes e calejadas pelos treinos apertavam as coxas de Henry de um jeito completamente diferente. Sentia a cautela, mas também o desejo nos apertões, assim como o carinho que era feito com o dedão quando sua mão relaxava.

Eles se separaram, fazendo Henry vislumbrar o rosto corado e sexy de Erick, que abriu um sorriso fofo e charmoso que só ele conseguia dar. Henry revirou os olhos com um sorriso, querendo socar a cara de Erick por ser tão fofo.

— Um dia você vai me matar com esses seus sorrisos – comentou Henry, sorrindo também.

Erick franziu o cenho.

— Por quê? O que eu fiz?

— Nasceu.

Erick mostrou a língua pra Henry, mas estava claramente envergonhado. Henry não demorou muito para se abaixar e selar novamente os lábios num selinho.

— Você é muito fofo! – ele exclamou, apertando o rosto de Erick com vontade.

— O senhor está muito exaltado – brincou Erick com um sorriso.

— Shiu. Aceita que dói menos.

Então, num movimento rápido, Henry era quem estava embaixo, sendo preso pelas mãos por um Erick com uma cara de predador prestes a pegar sua presa. Henry não se importava nem um pouco de ser a presa de Erick.

O beijo intenso veio e com ele, a vontade de transar. Henry tentava se controlar ao máximo, mas tinha vezes que Erick simplesmente o provocava sem sequer perceber. Não precisava de muito para que Henry tivesse vontade de foder, mas com Erick era tão intenso que, qualquer coisa que ele fizesse, Henry já imaginava coisas impuras. O que mais lhe matava era ver o outro cozinhando. Ele ficava tão sexy que era demais para seu coração.

A boca de Erick desceu pelo seu queixo, com beijos suaves até chegar em seu pescoço. Henry tentou não se contorcer de nervoso, mas foi impossível quando os lábios molhados tocaram a pele sensível.

— Sente nervosinho? – perguntou Erick de um jeitinho provocador.

— Cala a boca – Henry conseguiu sussurrar.

Erick sorriu e atacou o pescoço de Henry, tirando-lhe um gemido de prazer. Ele já estava tão duro que iria explodir se não fizesse alguma coisa. Então ele pegou o pescoço de Erick apertando e puxando seu rosto para que sua boca ficasse na orelha do outro.

— Eu quero você – ele sussurrou, fazendo Erick se arrepiar.

— Quer? – devolveu o outro, baixinho, sensual.

— Sim… Dentro de mim.

Erick se afastou tão rapidamente que Henry se assustou com o peso do outro sentando em cima de si. Dava para ver claramente a tensão dele, principalmente o modo assustado como ele encarava Henry.

— Eu disse alguma coisa errada? – ele perguntou, franzindo o cenho.

Erick piscou algumas vezes.

— Desculpa – ele disse, meio estagnado, como se tivesse visto um fantasma e paralisado – Eu não… Não posso…

— Ei, tá tudo bem – disse Henry, tentando se sentar da melhor forma possível.

Ele se apoiou numa mão e acariciou o rostinho assustado de Erick, obrigando-o a encará-lo.

— Tá tudo bem, viu? – ele disse suavemente – Não precisamos fazer isso agora. Quando você estiver pronto e tudo mais…

Erick apenas assentiu, ainda um pouco em choque. Henry não entendeu muito bem o que tinha acontecido, mas não iria de forma alguma forçar alguma coisa por mais que estivesse excitado.

— Vem cá – Henry estendeu a mão para Erick, que a pegou se deixando ser puxado pelo outro.

Eles se acomodaram de forma que Erick ficasse deitado no peito de Henry, que acariciava os cachos loiros de forma automática. Deveria ser uma cena engraçada, levando em conta que eles tinham mais de 20 centímetros de diferença de altura, mas nenhum dos dois parecia se importar, muito menos Erick, que estava lindamente aconchegado no corpo do outro.

— Desculpa – ele resmungou contra a pele de Henry.

— Tá tudo bem, Erick – disse, apertando o outro contra si – E quero que saiba que você pode contar comigo pra qualquer coisa, okay?

A única resposta foi um balançar de cabeça antes de caírem num silêncio profundo.

— Seu coração tá acelerado – comentou Erick após alguns minutos.

— Shiiiiu, vai dormir vai – retrucou Henry sentindo as bochechas ficarem vermelhas.

— Para! Você tá nervoso?

— Não.

— Chateado?

— Não.

— Então o quê?

— Nada.

— Me conta.

— Deixa de ser insistente!

— Você sabe que eu sou. Me conta.

— Não.

— Por favooooor.

— Você me deixa assim, idiota! – Henry disse sem pensar e se arrependeu imediatamente quando Erick levantou de seu peito, lhe encarando surpreso.

— Deixo? – perguntou, ainda incrédulo.

Henry revirou os olhos.

— Desde sempre – confessou virando o rosto – Agora para de ser chato.

Um sorrisinho se formava nos lábios de Erick, que continuava encarando Henry, mas dessa vez com um ar divertido.

— Por que tá me olhando assim? – perguntou Henry quando viu que o outro não iria parar de encará-lo – Tá me assustando, cara.

— Nada… – respondeu abrindo um sorriso – Eu só fico feliz em ficar olhando pra você.

Henry pensou que não pudesse morrer de vergonha, mas Erick conseguia fazer aquilo com maestria. Ele virou o rosto, com as bochechas vermelhas e sentiu um beijo estalar em sua bochecha.

— Não fica assim, só to sendo sincero. – Erick disse e puxou o rosto de Henry para que eles pudessem se olhar.

— Eu sei – murmurou, tentando não fazer contato visual. – Só é… Novo pra mim.

Erick franziu o cenho.

— Você não tinha isso com Christian? – perguntou, com um tom meio amargo.

— Sim, mas é diferente – respondeu Henry e acabou deixando a verdade sair pelos seus lábios. – Eu sempre imaginei como seria estar assim com você. Sempre quis isso. E agora que estamos assim, parece como um sonho. Só é surreal pensar que você corresponde aos meus sentimentos.

Erick piscou algumas vezes, ficando em silêncio. Henry começou a ficar nervoso, imaginando que não deveria ter dito nada daquilo. Mas não tinha como voltar atrás e no fundo ele queria que Erick soubesse a verdade.

— Essa é a verdade – disse Henry depois de um tempo, tentando quebrar o silêncio. – Agora pode dizer que isso foi um surto coletivo e que você na verdade não gosta de mim e que se enganou.

— Por que eu diria isso?

Henry deu de ombros.

— Não sei, tô esperando o pior

— Pois não espere. Eu jamais te deixaria – disse Erick convicto. – Eu gosto de você. Quer queira ou não.

— Eu quero – Henry deixou escapar, fazendo um sorriso brotar nos lábios de Erick.

— Então estamos entendidos. – e deu um beijo na boca do outro, iniciando mais um beijo viciante que só Erick conseguia dar.

Henry, definitivamente, poderia se acostumar com isso.

[...]

O clima de jogo sempre deixou Henry nervoso, porém aquele era um dos jogos mais importantes para o time, o que deixava tudo mais tenso.

Estava no banco. Sua perna não parava quieta de tanto nervosismo. Mesmo que não estivesse em quadra, era difícil controlar a ansiedade quando muita coisa estava em jogo. Erick estava ao seu lado, também apreensivo, e mesmo assim Henry não conseguia relaxar.

Era a final do Campeonato Paulista. O primeiro set não tinha acabado muito bem para o time, ficando 25 a 15. O técnico estava louco, gritando para os jogadores em quadra e não sendo tão simpático assim quando tinha um intervalo ou pausa.

Estava no meio do segundo set quando o técnico, aparentemente sem esperanças, fez algo que deixou todos chocados e apreensivos.

— Erick, você vai entrar.

Henry olhou para Erick, que tinha os olhos um tanto arregalados de surpresa. Nunca tinham jogado um jogo assim, pra valer, exceto na fase de pontos quando já estavam classificados e os jogos já não valiam tanto. Dando um sorriso encorajador ao outro e um aperto no ombro, Henry assistiu Erick levantando e entrando em quadra na posição de levantador.

Agora as coisas ficaram mais tensas ainda. Ele não conseguia tirar os olhos de Erick, preocupado com o bem estar do outro e também com seu desempenho. Era raro vê-lo naquela situação e Henry estava amando cada segundo. Cada vez que a bola tocava os dedos de Erick, ela parecia apenas flutuar na direção certa, fazendo com que os pontos fossem marcados.

Henry se pegou deslumbrado com a facilidade e a graciosidade que Erick tinha dentro de quadra. O esporte era um tanto bruto, com cortadas fortes e saques viajando a quilômetros por hora. Mas Erick fazia parecer que estava numa dança fluida e delicada, se movimentando nas horas certas e realizando levantamentos maravilhosos.

Os gritos se intensificavam a cada ponto que eles marcavam. A torcida ia à loucura quando Erick levantava e deixava os outros jogadores brilharem com seus ataques. Não estava sendo tão fácil, dava para ver na expressão deles, mas também dava para perceber o quanto ficaram mais leves a pequena diferença de pontos.

A perna de Henry batia rapidamente no chão e ele apenas não conseguia controlá-la. Seu coração estava tão acelerado, como se ele próprio estivesse dentro de quadra. Mordia a toalha limpa que estava em seu colo, tentando se controlar em gritar e xingar a cada vez que a equipe adversária marcava um ponto.

Um pedido de tempo foi feito pelo técnico da outra equipe e Henry se pôs de pé rapidamente, com uma garrafa na mão entregando a Erick. Suor escorria de sua testa e seus músculos brilhavam, a respiração ofegante e o sorriso agradecido completavam o pacote irresistível que era Erick Moreira.

O técnico deu algumas instruções, elogiou Erick e após alguns minutos eles voltaram para a quadra. Henry reprimiu a vontade de avançar e dar um beijo de boa sorte em Erick, deixando que o outro lhe entregasse a garrafa e saísse de perto sem ser tocado.

Henry seguia atentamente a bola, praguejando para si mesmo que os colegas conseguissem marcar mais e mais pontos. Depois de alguns minutos, o placar estava empatado e a equipe deles precisava apenas de dois pontos para conseguir ganhar aquele set.

Foi o levantamento do líbero que fez com que o central conseguisse marcar um dos pontos e foi o saque de Erick que fez com que tivesse a vitória daquele set.

— Você tá indo muito bem – disse Henry quando o intervalo foi feito. – Sério… Eu to tipo, uau.

— Errei um levantamento importante – Erick fez careta.

— Não seja negativo! Ganhamos esse set por sua causa.

— Foi esforço do time todo…

Henry revirou os olhos e deu língua pra ele.

— Cala a boca e aceita o elogio!

Erick soltou uma risada e encarou Henry intensamente.

— Queria que você estivesse na quadra comigo.

Aquilo fez o coração de Henry derreter imediatamente.

— Também queria estar lá – confessou, enrolando a toalha na mão. – Mas você não precisa de mim. Você vai ganhar esse jogo pra gente.

— Eu preciso de você a todo momento – sussurrou Erick, fazendo o coração de Henry acelerar ainda mais. – Você que me motiva a continuar.

— Não seja idiota

— To falando sério! Sem você aqui, provavelmente eu não conseguiria.

Henry piscou algumas vezes, sentindo o impacto das palavras em seu coração mole.

— Se a gente ganhar, terá acesso livre a beijos durante o resto da vida. – brincou Henry rindo.

— E se a gente perder? – Erick perguntou sério, como se tivesse realmente levado a sério a proposta.

— O acesso não será tão livre assim.

Uma expressão de determinação tomou conta de Erick no momento que ele foi chamado para voltar a quadra.

— Vou ganhar esse acesso livre custe o que custar! – ele disse convicto antes de virar para entrar em quadra.

Henry soltou uma risada, não acreditando que ele tinha realmente levado a sério aquilo. Mas era fato que aquilo tinha motivado o outro a dar o melhor de si e Henry gostava de ser uma espécie de musa inspiradora para o garoto que amava.

Os próximos sets foram desesperadores. O terceiro foi ganho com certa facilidade por eles, mas o quarto e o quinto foram realmente disputados. Infelizmente, o time adversário ganhara por pouco o quarto set, fazendo com que tivessem que dar tudo de si no quinto e último.

O set decisivo. Aquele que determinaria se seriam campeões ou ficariam com o segundo lugar. Henry sempre achou que o segundo lugar era o pior de todos, pois sempre estava sempre a um passo do primeiro, só precisava de um bom desempenho.

Cada ponto marcado era uma comemoração e cada erro do time deles era uma mordida que Henry dava em seu dedo para conter a frustração. E foi assim durante os quase 30 minutos que duraram o último set.

— Eu não posso olhar – murmurou Henry cobrindo os olhos quando o ponteiro ia sacar, mas rapidamente tirou as mãos, vendo a bola ser recepcionada pelo líbero adversário.

A bola ficou pouco tempo no ar, o time adversário marcando e faltando um ponto para fecharem a partida. Henry nunca se sentiu tão tenso. Nem quando jogou na seleção brasileira sub-17.

Tudo a seguir foi muito rápido. Num piscar de olhos a torcida estava gritando em comemoração, assim como os reservas do time. Henry ficou estagnado por alguns segundos antes de se tocar que tinham vencido.

Quando se deu por si, estava correndo para junto ao time, que tinha colocado Erick para cima, como se ele fosse um herói. Henry estava com o coração a mil, principalmente por ver o rosto de Erick exalando extrema felicidade. Sentia-se bem vendo que o outro estava feliz.

Erick o olhou, sorrindo como se não houvesse amanhã e formando um “obrigado” com os lábios. Henry não soube muito bem o motivo, mas sorriu de volta mesmo assim.

Os minutos seguintes serviram para o time tirar fotos, receber as medalhas, o troféu do campeonato e socializar com os torcedores. Henry perdeu a conta de quantas pessoas pediram para tirar foto com Erick, que aceitava com um sorriso no rosto. Precisando de um momento para descansar o coração, Henry decidiu ir para o vestiário. Teriam bastante tempo para comemorar juntos.

Os outros reservas também estavam lá, sorrindo e cantando animados. Fazia bastante tempo que o time não ganhava um campeonato paulista. Agora estavam todos ansiosos para a próxima etapa: a SuperLiga.

Henry nunca pensou que pudesse chegar tão longe. Era incrível pensar que todo aquele pessimismo e negativismo que tinha fora de certa forma superado. Pensara tantas vezes em desistir… Mas a promessa que fizera para Erick sempre esteve em sua mente, sempre lhe incentivando a continuar, não deixando que ele desistisse.

Conversou por algum tempo com os colegas, mas logo se afastou para sentar-se um pouco. Tirou o cubo da mochila que estava no escaninho e ficou montando e desmontando por algum tempo. Aquilo o ajudaria a relaxar, uma vez que seu coração continuava acelerado.

Não demorou muito para que os titulares finalmente chegassem, fazendo uma nova algazarra e comemoração começar. Ele estava um pouco distante, apenas ouvindo os meninos comemorarem e gritarem. A aparição de Erick lhe deu um leve susto.

— Ah, você me achou – ele disse um tanto sem graça.

Mas Erick não disse nada, apenas venceu a distância entre eles, tomando seu rosto nas mãos e lhe tascando um beijo animado. Henry se assustou, mas acabou correspondendo. Não por muito tempo, pois um “eita caralho” vindo de trás deles fez com que eles se separassem.

Eles se voltaram para um dos colegas, que estava ali perto. Ele apenas pediu desculpas e saiu de perto.

Os dois se entreolharam com a pergunta no ar: será que ele viu? Henry chegou a conclusão que sim, mas tinha para si que o outro não faria nada com aquela informação, além de não parecer uma pessoa homofóbica.

– Deixa isso para lá – Henry ouviu-se dizer. Logo ele, que dificilmente deixava as coisas pra lá. – Vamos comemorar! Hoje é seu dia de estrela.

Erick lhe olhava um tanto quanto preocupado, mas após algumas palavras de Henry, seu semblante relaxou e ele sorriu, dando um beijo na bochecha do outro.

— Quero um tipo de comemoração que só você pode me dar – a voz soou baixa e provocativa, fazendo um arrepio percorrer pelo corpo de Henry.

— O que você quiser.

Notas finais
Nos vemos nos próximos capítulos! Até lá Ghost Kisses ~Marceline