Além da vida

2 Bella- Regressão


Cinco anos se passaram desde aquela noite, e nossa busca por respostas foi um labirinto sem fim. Edward e eu tínhamos procurado todos os especialistas possíveis. Psicólogos, neurologistas, qualquer um que pudesse nos dar uma explicação para as lembranças cada vez mais vívidas e precisas de Renesmee. No início, todos diziam que era uma coincidência, que talvez fossem histórias contadas ao longo dos anos, misturadas com a imaginação de uma criança. Mas, conforme Nessie crescia, suas memórias de Eva se tornavam cada vez mais detalhadas, tão reais quanto as que ela mesma tinha vivido. E a ciência não tinha resposta para nós.

Edward, sempre cético, começou a expandir seus horizontes. Ele pesquisava em fóruns obscuros, lia sobre vidas passadas, reencarnações, e até teorias envolvendo extra-terrestres. A princípio, eu pensei que ele estivesse enlouquecendo, mas com o tempo, comecei a considerar a possibilidade de que estávamos lidando com algo além da nossa compreensão.

Foi assim que encontramos Nahuel.

Nahuel era um especialista em regressão, e sua reputação o precedia. Ele ajudava pessoas a reviverem memórias de vidas passadas, mas no caso de Renesmee, ele ficou fascinado. O que ele via em Nessie não era apenas uma vida passada emergindo, mas duas vidas coexistindo de forma perturbadora. Para Nahuel, Renesmee não apenas tinha memórias da tia, ela *vivia* a vida de Eva de certa forma. E hoje, estávamos na terceira sessão com ele, enquanto Edward e eu assistíamos de uma sala ao lado, ansiosos.

— Feche os olhos, Renesmee — disse Nahuel, com sua voz baixa e calma. — Deixe-se levar para um lugar seguro. Um lugar onde você se sente confortável.

Eu observei através do vidro da sala de observação. Edward estava ao meu lado, sua postura rígida, mas seus olhos fixos em Nahuel e Renesmee. Nessie relaxou, seu corpo afundando levemente na cadeira.

— Eu… vejo a praia — Renesmee começou a dizer, sua voz baixa, quase como um sussurro. — O mar está calmo, e eu estou… com ele.

Nahuel inclinou-se ligeiramente para a frente, mantendo a voz suave e tranquilizadora.

— Com quem você está, Renesmee?

— Com Jacob — ela respondeu, seu tom era de pura nostalgia. — Estamos caminhando descalços pela areia. Ele está me contando sobre… uma lenda de lobos dos habitantes de La Push. Eu posso, sentir o vento no rosto. Eu posso sentir a brisa também. É tão real… tão reconfortante.

Meu coração apertou no peito. Edward e eu trocamos um olhar silencioso. Jacob. Mesmo após todos esses anos, lá estava ele, como uma sombra na vida da nossa filha.

— O que você sente quando está com Jacob? — Nahuel perguntou, com cuidado.

— Eu me sinto... em casa. Ele cuida de mim. Eu confio nele. — Ela fez uma pausa, franzindo a testa, como se estivesse tentando se lembrar de algo mais. — Mas também... é estranho. Porque eu sei que não sou eu. Não sou *eu* que ele ama. Ele está com Eva.

Nahuel deu um leve aceno de cabeça, mantendo a calma diante do que Nessie dizia.

— Muito bem, Renesmee. Agora, lentamente, volte para o presente. Conte até três e, quando abrir os olhos, estará aqui, segura, comigo.

Ela fez o que ele pediu, abrindo os olhos devagar. Nahuel sorriu para ela, um sorriso acolhedor e protetor.

— Muito bem, você foi ótima, Nessie. Agora pode descansar um pouco enquanto converso com seus pais.

Ele se levantou e veio até nós, com um olhar sério e compenetrado.

— Vocês viram e ouviram — começou, e nós assentimos. — A questão com Renesmee não é apenas uma memória de uma vida passada. Ela está revivendo, e essas memórias estão se tornando mais fortes conforme ela amadurece. O que me preocupa é que, conforme ela chega à vida adulta, essas emoções que pertenciam a Eva vão se mesclar ainda mais com quem Nessie é agora. E, inevitavelmente, ela vai sentir os mesmos sentimentos que Eva tinha por Jacob.

Edward ficou tenso ao ouvir o nome de Jacob novamente.

— O que você está dizendo? — ele perguntou, a voz mais dura do que o normal. — Que Nessie… vai se apaixonar por Jacob?

Nahuel fez uma pausa antes de responder.

— Não estou dizendo que será algo exato, mas os sentimentos de Eva por Jacob eram muito profundos. E esses sentimentos podem se confundir com os de Renesmee. Ela vai ter que lidar com a confusão de não saber o que realmente pertence a ela e o que pertence a Eva. Isso pode ser devastador, emocionalmente falando.

Minha cabeça girava. O simples pensamento de Renesmee se aproximando de Jacob, de qualquer forma que fosse, me deixava angustiada. Edward parecia tão perturbado quanto eu.

— O que podemos fazer? — perguntei, sentindo o desespero crescer. — Como podemos proteger nossa filha disso?

Nahuel suspirou.

— Vocês precisam estar lá para ela, prepará-la para o que está por vir. Mas, mais importante, vocês precisam aceitar que esses sentimentos podem surgir. O encontro com Jacob, quando acontecer, será decisivo. Ele vai mexer com ela de maneiras que ela talvez não entenda. E vocês dois precisam estar prontos para apoiá-la, não importa o que ela sinta.

Edward passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado. Eu, por outro lado, só conseguia pensar em como proteger minha filha dessa tempestade emocional que se aproximava.

— Então é inevitável? — perguntei, com a voz quase falhando.

— Não posso dizer com certeza, mas é muito provável que, conforme Renesmee cresça, essas memórias se tornem mais intensas, mais difíceis de separar do presente. E Jacob, sendo parte tão importante do passado de Eva, será um gatilho para tudo isso. Vocês precisam estar preparados.

Eu olhei para Edward, sentindo o peso de tudo aquilo. O que tínhamos temido por tantos anos estava se tornando realidade, e não havia como fugir disso. O encontro com Jacob parecia inevitável. E quando acontecesse, tudo mudaria para sempre.

Após a conversa perturbadora com Nahuel, eu me senti vazia. Cada palavra dele ecoava na minha mente, como uma tempestade prestes a desabar sobre nós. O peso das memórias de Eva em Nessie, e o encontro inevitável com Jacob, me deixava à beira do desespero. Precisávamos de respostas, mas, acima de tudo, precisávamos proteger nossa filha.

Subi as escadas lentamente, indo até o quarto de Renesmee, tentando processar tudo. Ao abrir a porta, encontrei-a sentada à sua mesa, concentrada, os olhos focados no papel à sua frente. O quarto estava uma bagunça, com papéis rabiscados e rasgados espalhados pelo chão.

— Nessie? — chamei, hesitante, tentando esconder a ansiedade na minha voz. — O que você está fazendo?

Ela ergueu os olhos por um breve momento e sorriu, satisfeita.

— Finalmente consegui, mãe — disse, segurando uma folha com cuidado, como se fosse um tesouro. — Demorei, mas consegui.

Caminhei lentamente até ela, observando o emaranhado de papéis ao redor. Meu coração acelerou sem que eu soubesse o motivo, como se meu instinto já soubesse o que estava por vir. Nessie estendeu a folha para mim, seus olhos brilhando de orgulho, enquanto eu pegava o papel com dedos trêmulos.

Quando olhei para o desenho, minha respiração parou. Era Jacob. O rosto de Jacob, desenhado com uma precisão assustadora. Seus traços fortes, seus olhos profundos, até o leve sorriso que ele costumava exibir. Cada detalhe estava ali, como se ela o conhecesse intimamente.

— Nessie... — minha voz saiu quase como um sussurro, meu corpo congelado diante daquela revelação.

Nesse momento, Edward entrou no quarto. Ele percebeu meu nervosismo imediatamente e veio até mim, com uma expressão preocupada.

— Bella? O que foi?

Eu entreguei a folha a ele sem dizer uma palavra, ainda atordoada pelo que via. Edward pegou o desenho e, para minha surpresa, sorriu.

— Isso está impressionante, Nessie — ele disse, genuinamente surpreso com o talento dela. — Quem é esse?

Nessie bufou, revirando os olhos de uma forma tão típica de uma adolescente.

— É o Jacob, pai. Meu melhor amigo, claro. Quando é que a gente vai voltar pra Seattle, afinal? Eu quero vê-lo de novo.

A pergunta dela ecoou no ar, deixando tanto Edward quanto eu em silêncio. Eu olhei para Edward, tentando encontrar alguma orientação em seus olhos, mas ele também parecia incerto. O que Nahuel havia dito se tornava realidade a cada segundo. Nessie falava de Jacob com uma familiaridade desconcertante, como se realmente o conhecesse de antes, de outra vida. Ela o desenhou com uma perfeição que não fazia sentido para alguém que, até onde sabíamos, nunca o tinha visto. E agora, ela falava dele como se ele fosse parte essencial de sua vida.

— A gente ainda vai decidir sobre a viagem, querida — Edward disse, sua voz calma, mas com um leve tremor que só eu poderia perceber.

— Mas por que não podemos ir logo? — Nessie insistiu, largando o lápis sobre a mesa e cruzando os braços. — Quero ver o Jake. Sinto falta dele.

Cada palavra dela era uma punhalada. O que faríamos agora? Como impedir o inevitável encontro entre Renesmee e Jacob, sabendo o que ele representava para ela?