Decidi deixar o assunto entre mim e a Naomi morrer um pouco. Esperava que, se ignorasse o que havia acontecido, ela ia acabar por vir falar comigo, para me dizer o que se passava. Eu não queria forçá-la a falar, por mais que estivesse preocupada. No entanto, daquela vez, reparei que quanto mais deixava a situação andar, mais o humor dela piorava. Ao entrar na aula, notei que a Naomi ainda não tinha chegado. Não era costume ela chegar atrasada, por isso fiquei com mais certezas que se passava mesmo algo.

— Bom dia. — disseram os meus dois professores favoritos, que formavam um lindo casal.

— Todos trouxeram os materiais necessários para hoje? — questionou a mulher, a mesma professora extremamente querida e simpática, que nos havia ensinado geometria descritiva nos anos anteriores.

— Posso entrar? — disse a Naomi, abrindo ligeiramente a porta.

— Podes, mas como foste a última a chegar, vais-me fazer um favor! — respondeu o outro professor, sempre descontraído e brincalhão.

— Desculpe o atraso... O que precisa que eu faça?

— Vai à sala de arrumos, ao pé da sala onde vos costumo dar as aulas de desenho. Preciso que me vás buscar o esferovite que lá deixei!

Depois de pousar a sua mochila, a Naomi saiu novamente do local onde tínhamos oficina das artes. Ao olhar para ela, reparei que parecia um pouco enervada. Entretanto, a aula seguiu o seu rumo, sem mais interrupções. E, assim que acabou, dirigi-me a ela no intervalo, na tentativa de ter uma conversa.

— Bom dia, Naomi. Estás bem?

— Sim e tu?

— Também, só estou preocupada contigo…

— Porquê?

— Tens andado a evitar-me desde que não fui ter contigo no outro dia. Passa-se algo?

— Não se passa nada.

— Porque é que querias falar comigo? Era algo importante?

— Não.

— E não podes falar agora? Eu tentei falar contigo na segunda-feira, mas aconteceu aquilo da massa do bolo e depois ignoravas-me completamente… — a Naomi não respondeu, o que me fez continuar a falar — Desculpa, eu estava ocupada no sábado… Se eu pudesse, dizia-te para vires também, mas disseste que não podias sair de casa. E para além do facto de ter sido importante aquilo que fui fazer no sábado, eu ir ter contigo a pé era também um pouco longe…

— Não interessa… Eu não me devia ter chateado só por isso.

— Não faz mal, Naomi. Eu percebo que tenhas ficado assim. Para compensar, vamos lá fora comer algo, ok? Eu pago.

Saímos da sala e fomos até ao bar da escola, onde encontramos o Hikari a comer uma maçã.

— Hikari! — chamei — Como te correu a aula?

— Correu bem. — ele sorriu — Tive português agora.

— Akaluri, queres alguma coisa? — perguntou a Naomi — Eu pago, como pedido de desculpa.

— Eu disse que ia ser eu a pagar!

— Mas tu não fizeste nada de mal, Akaluri... Não tens culpa de não poder vir de imediato quando te chamo, ainda por cima se não era nada urgente e já estavas ocupada. Eu é que agi mal...

Era estranho ver a Naomi tão introspetiva sobre a sua atitude e comportamento. Normalmente, ela era muito defensiva e arranjava sempre justificações para qualquer coisa. Obviamente, eu compreendia perfeitamente o seu lado e o porquê dela ter ficado amuada, mas também concordava com o que ela acabara de dizer, embora não achasse que eu tivesse agido da melhor forma que podia. Realmente, notava-se que todos estávamos a amadurecer um pouco mais, com o passar dos anos...

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Nos dias seguintes, concentrei-me em melhorar a minha relação com a Naomi e em aproximar-me da Sara; estava a gostar bastante de a conhecer. Rapidamente, as três tornámo-nos mais próximas, tanto pelas horas que partilhávamos na escola e no trabalho, quanto pelas saídas que fazíamos juntas.

No entanto, quando pensava que tudo estava a correr bem, uma noite, adormeci tranquilamente no meu quarto e tive um pesadelo. Pela primeira vez, sonhei com a rapariga demoníaca com quem tinha lutado semanas atrás. No sonho, encontrava-me numa paisagem sombria e nebulosa. À minha frente, surgiu a Hyuna, cercada por uma espécie de aura negra. De repente, ela avançou na minha direção, levitando levemente sobre o chão com uma grande rapidez. O seu olhar intenso fez-me sentir calafrios. Porém, em vez de acontecer um confronto direto entre nós, o sonho transformou-se em numa série de imagens fragmentadas e distorcidas: um gato, uma árvore, um rapaz... No meio de toda aquela confusão, estava ela, com ar de quem sabia algo mais sobre o assunto; com ar de quem escondia algum segredo. O sonho foi tão vívido que acordei sobressaltada, com receio de a encontrar novamente. Sentia uma mistura de curiosidade e medo, pois ainda havia muito que desejava descobrir sobre ela. O que poderia tudo aquilo significar?

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— Sabem do novo rapaz que entrou na escola? — perguntou o Hikari.

— Um novo rapaz?! Quem?! — questionou a Naomi — Ele é giro?! Em que turma ele está?!

— Acho que foi para uma das turmas de ciências… Pelos vistos, ele só está aqui desde ontem; ouvi pessoas a comentar isso hoje. Se não me engano, ele veio da capital.

— Eu não conheço praticamente ninguém aqui na escola, por isso também não me interessa muito... — respondi, continuando a comer a minha torrada.

— Vá, Akaluri! Vamos conhecê-lo! Ainda por cima ele morava na capital e há muitas coisas que lhe gostava de perguntar sobre isso.

— Mas tu já foste lá tantas vezes!

— Não importa! Vamos!

A Naomi puxou-me pelo braço, mas logo ouvimos o toque para o início da aula.

— Parece que não é hoje que vamos ver o tal rapaz. — afirmei, rindo.

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A Naomi deu um grande suspiro, que quase parecia ter sido ouvido por toda a gente na cantina.

— Esta comida é horrível!

— Eu até gosto… — disse a Sara.

— Olhem ali! — exclamou a Naomi, apontando para um rapaz de cabelo vermelho.

— É ele mesmo. — disse o Hikari — O novo aluno.

— A sério?! Parece que tive sorte! Akaluri, convidamo-lo pra comer connosco?

— Talvez ele já tenha combinado comer com alguém.

— Só estás a arranjar desculpas. — com o tabuleiro nas mãos, o rapaz passou por nós, sentando-se na mesa em frente, sozinho — Estás a ver?! Aposto que ele ainda nem conseguiu fazer amizades!

— Naomi, se quiseres, vai falar com ele… Eu não tenho nada a ver com isso.

— Só vou se fores comigo.

— Mas eu não me sinto à vontade…

— Ok. Sara, vens?

— Pode ser!

— Obrigada. — elas foram as duas em direção a ele e sentaram-se nas cadeiras à sua frente.

Acabei por ficar a almoçar só com o Hikari, que estava sentado face a mim.

— Akaluri… Antes de mais, desculpa por ser repentino e por não te ter dito nada antes. É difícil para mim dizer-te isto, mas… Infelizmente, eu acho que só voltei para aqui temporariamente, não devo ficar no norte mais do que este ano letivo.

— Como assim? Tu ainda só chegaste há um tempo…

— Isso foi apenas porque a minha avó teve que vir para o hospital daqui. Ela precisava de uns tratamentos específicos. Não deve durar assim tanto tempo, se tudo correr bem...

De repente, senti uma dor atravessar o meu peito. O Hikari era alguém demasiado importante para mim; não sei como iria suportar mais uma despedida da sua parte. Lembranças da última vez que ele partiu vieram à tona, e qualquer apetite que eu tinha desapareceu num instante. Com as mãos que tremiam ligeiramente, larguei o garfo sobre o tabuleiro e escondi-as entre as minhas pernas, tentando acalmar-me. Respirei fundo... não podia deixar que o Hikari percebesse como me sentia realmente; seria egoísta.

— N-não há nenhuma forma que possas ficar aqui?

— Receio que não...

— Tens a certeza? Nem podes ficar na casa de alguém? Nem na minha? Eu podia falar com a minha mãe e...

— Akaluri. — interrompeu o Hikari, fazendo-me sair da espiral de nervos e cair em mim novamente — Não me parece provável, de todo…

— Ok… — suspirei — Vamos então aproveitar o tempo que ainda temos.

— Sim. — ele sorriu, um pouco forçadamente.

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Finalmente, o fim da última aula havia chegado. Desde o almoço, a minha mente não conseguia fugir do meu estranho sonho com a Hyuna e da ideia de que o Hikari teria que ir embora novamente. Tinha passado tanto tempo sem ele e, logo quando havia voltado, tinha que partir outra vez... Não estava a gostar da forma que me estava a sentir, então decidi arrumar as coisas o mais rápido possível e despedir-me das minhas amigas. Queria apenas ir para casa e passar algum tempo sozinha, longe de tudo, para processar as coisas.

Coloquei os auriculares nos ouvidos e liguei a minha playlist no telemóvel, enquanto saía da escola. Caminhei rapidamente, concentrando-me na música, para afastar os pensamentos que me incomodavam. Assim que cheguei a casa, percebi que estava sozinha, o que me deu uma sensação de alívio – finalmente, poderia tomar um banho longo e sem pressa, tudo o que estava a precisar naquele momento. Ao entrar no quarto, atirei a mochila para o chão e abri ligeiramente a janela, permitindo que algum ar fresco entrasse. Com um suspiro profundo, deixei-me cair de costas na cama, sobre os meus lençóis rosa pastel, e fiquei a olhar para o teto por alguns segundos. Pouco depois, levantei-me e fui pegar na roupa para vestir, a seguir do banho. No entanto, assim que entrei dentro da casa de banho, ouvi um barulho vindo do outro lado da parede. Inicialmente, pensei que estaria só a imaginar coisas, mas decidi confirmar. Voltei então ao quarto e, ao abrir repentinamente a porta, fiquei chocada ao ver um rapaz de cabelo encarnado vibrante sentado na minha cama. As pontas do seu cabelo eram erguidas e um pouco espigadas, em ângulos naturais. Com ombros largos e uma presença extremamente marcante, o rapaz vestia umas calças de ganga com rasgos, uma simples t-shirt preta e um casaco cinzento de capucho, coincidentemente parecido ao meu. O seu estilo despreocupado em conjunto com a postura relaxada que adotava ali sentado, como se nada fosse, criavam uma imagem completamente oposta à tensão que eu sentia ao vê-lo. Não sabia bem como deveria reagir naquela situação.

— Ora boas, Akaluri.

— És o rapaz novo na escola, certo?

— Sou eu, mesmo.

— O que estás aqui a fazer? Como é que tu…

Com um movimento lento, ele bateu duas vezes na minha cama somente com a palma da mão, como se estivesse a chamar um animal de estimação. Aquele gesto fez com que eu me sentisse não só ofendida, mas também ainda mais irritada pela sua intrusão na minha casa, sobretudo, no meu quarto.

— Vem cá. — disse ele — Só quero mostrar-te uma coisa.

Fiquei um tempo parada a pensar se seria mesmo sensato da minha parte aproximar-me. No entanto, eu sabia que, se fosse necessário, poderia transformar-me e dar-lhe uma lição, caso ele tentasse algo. Com isso em mente, acabei por sentar-me ao seu lado.

— O que é? – perguntei friamente.

Ele inclinou-se, aproximando o rosto do meu, e sussurrou-me ao ouvido:

— Deixaste cair isto.

O rapaz estendeu a mão diante de mim, revelando nela o meu cartão da escola. Naquele simples instante, já estava tudo explicado: como ele sabia o meu nome e como ele tinha ido lá parar.

— Ah... Obrigada, acho eu...? — peguei no cartão e levantei-me da cama — Era só isto? Para quê tanta coisa? E porque é que me seguiste e entraste pelo meu quarto? Eu nem te conheço!

— Oh! Pois claro, desculpa. O meu nome é Ryuu. Eu só te segui porque te tentei chamar várias vezes e tu não ouvias. Estavas a ouvir música.

— Podias ter-me simplesmente tocado no ombro... não sei... como uma pessoa normal faria.

— Eu pensei nisso, mas depois concluí que dessa forma ia perder toda a piada.

— Huh?! E achas que isto tem piada?!

— Podia ter mais, mas ver-te assim irritada já alegra o meu dia. — gozou o Ryuu — Para além disso, eu também te queria conhecer e sabia que se eu te apenas entregasse o cartão na rua, tu não me ias querer dar mais conversa, de certeza.

— E achas que agora quero dar-te conversa depois disto? Foste muito estranho...

— Mas já estás neste momento a conversar comigo, não estás?

— Bom ponto. — comentei — Só espero que não faças este tipo de coisa mais vezes. Já agora, como é que conseguiste entrar? Eu fechei a porta de casa à chave assim que entrei e não vi ninguém atrás de mim.

— Tens uma grande árvore mesmo ao lado da tua varanda, então foi fácil…

— Tu subiste a árvore?!

— Digamos que não é o meu forte, mas consegui desenrascar-me. Ainda bem que abriste a janela! Hahah!

— Pois, claro… Bem, obrigada, mas agora já podes ir embora. Não quero que alguém chegue e que isto se torne num grande mal-entendido.

— Tudo bem.

— Anda, eu levo-te à entrada, para não te atirares da varanda.

— Não é preciso, eu vou pela varanda mesmo.

— Nem penses! Podes magoar-te.

Ele riu.

— Claro que não! — ele dirigiu-se até à varanda — Vemo-nos na escola! Bye!

— Bye…

O Ryuu atirou-se e caiu de pés no chão, acabando depois por me acenar, para se despedir. Eu acenei também, enquanto olhava para ele a correr, à distância. Achei tudo aquilo muito inabitual, mas, sendo que havia conhecido a Hyuna e visto tudo o que vi naquele dia, já pouco me impressionava àquele ponto. Quando pensei que finalmente podia tomar um duche descansada, ouvi a porta da entrada a abrir-se.

— Cheguei! — disse a minha mãe.

Desci rapidamente as escadas para a cumprimentar e, logo em seguida, subi-as novamente para tomar um duche rápido enquanto a minha mãe preparava o jantar. Vesti uma roupa confortável e, pouco depois, ouvi o telemóvel a tocar. O ecrã mostrava um número desconhecido, mas, mesmo assim, decidi atender.

— O MEU CÃO DESAPARECEU!

— RYUU?!

— Sim, sou eu.

— COMO É QUE TU TENS O MEU NÚMERO?!

— NÃO IMPORTA! AJUDA-ME!

— QUÊ?! COMO?!

— Não sei… Vem ter comigo, por favor!

— Achas que eu posso?! — questionei ironicamente.

— Tenta! O meu cão pode estar em qualquer lugar… Ele conhecia bem o sítio onde morávamos, mas agora, como me mudei para aqui, ele não consegue desenrascar-se sozinho a vaguear…

Após refletir durante um momento se devia mesmo ir ajudá-lo depois do que ele fez, decidi que talvez aquela não fosse a melhor situação para guardar rancor. Afinal, um animal estava desaparecido, por isso a causa era mais importante do que as chatices. Decidi então oferecer a minha ajuda, pensando que talvez pudéssemos virar amigos de forma correta, depois de tudo.

— Encontramo-nos no parque. — desliguei.

No momento a seguir, liguei para a Manaka, porque, ao contrário de mim, ela era capaz de convencer a minha mãe a deixar-me ir, livrando-me de possíveis sarilhos.

— Sim? — disse ela.

— Olá, Manaka, posso pedir-te um favor?

— Que favor?

— Preciso que faças com que a minha mãe me deixe ir agora ao parque. Um cão desapareceu e um rapaz pediu-me ajuda para o encontrar.

— Um cão? E esse tal rapaz não seria o Ryuu, por acaso?

— Conheces o Ryuu? Como?

— Conheci-o no mês passado, pela net. Ele começou conversa comigo porque sabia que eu era daqui e que estudei ciências no mesmo secundário que vocês, então queria perguntar como são aqui as coisas, para quando ele se mudasse. Ontem ele foi ao café!

— A sério?!

— Sim! Pensei que sabias… Mas, sendo esse o caso, vou convencer a tua mãe.

Depois de desligar a chamada, preparei as coisas para o dia seguinte de escola, dando assim algum tempo para a Manaka fazer o que lhe havia pedido. Quando ouvi que a chamada dela com a minha mãe tinha terminado, peguei num casaco fino e perguntei-lhe se podia sair. Com a permissão dela, saí de casa e fui a correr até ao parque. Lá, avistei o Ryuu, que estava de costas a olhar de um lado para o outro, segurando um pequeno saco de papel.

— Akaluri?! — ele olhou para trás — Pensei que nunca mais vinhas!

— O que tens nesse saco?

— Frango de churrasco!

— Huh?! Porquê?!

— Eu ainda não jantei e o meu cão também gosta de frango, por isso é dois em um!

— Ah, ok… — respondi, tentando esconder a minha incompreensão.

— WOLFO!

— Ele chama-se Wolfo? — eu ri — Qual é a sua raça? Um husky?

— É um shiba inu.

Separámo-nos e começámos a procurar pelos arredores. O céu estava a escurecer rapidamente até que, ao longe, comecei a ouvir o ganido de um cão. O som era fraco, mas distinto, e parecia vir de uma direção específica. Sentia-me frustrada ao pensar que, se pudesse transformar-me, não só conseguiria ouvir e ver com muito mais clareza, como também localizaria a origem daquele som com maior rapidez.

— Sangue?! — o Ryuu veio a correr até mim — Cheira-me a sangue.

— A sério?

— Sim, mas não muito... Apenas sinto uma ligeira impressão.

— De onde achas que vem?

Ficámos em silêncio, tentando concentrar-nos em captar o som novamente e a identificar de onde vinha o cheiro. No entanto, não obtivemos nenhum resultado. De repente, ambos ouvimos um outro som: patas de um cão a andar pela relva do parque, cada vez mais próximas.

— WOLFO!

Apesar do sangue nas suas pernas, o cão ladrava de forma amigável, abanando a cauda e correndo alegremente em direção ao seu dono. Porém, atrás dele, notámos a presença de uma pessoa: alguém com roupas ensanguentadas e a levitar, em vez de caminhar. Menos exaltada do que na nossa primeira reunião, conseguia observar melhor a sua aparência. A Hyuna vestia uma camisola lilás, ligeiramente larga, com uma cruz invertida ao peito e tachas prateadas nos ombros. Ela usava uns curtos calções pretos de barra desfiada e botas negras até às coxas, fixadas por ligas. As luvas sem dedos e as suas unhas pintadas de preto, juntamente com pequenas pedras preciosas em fio que decoravam os seus chifres, acentuavam ainda mais detalhadamente o charme do seu estilo gótico pastel.

— Hyuna?! O que estás aqui a fazer? Foste tu que magoaste o Wolfo?!

Ela soltou um pequeno riso sarcástico, enquanto olhava para nós.

— Wolfo? Que nome estúpido para um cão.

— Responde-me… Foste tu?

— Tem cuidado com a tua insistência. Lembro-te que da última vez não te correu lá muito bem.

Ao ser relembrada do sucedido, coloquei a mão por cima do meu braço antes magoado.

— Desta vez é diferente.

— Achas que podes dizer isso, mesmo com esse gajo ridículo ao pé de ti? Antes, com aqueles dois vampiros, ainda tinhas uma chance.

— Não importa.

— Se tu o dizes…

Ela deu um grande suspiro enquanto pousava os pés no chão, estalando depois o pescoço.

— Quem é esta? – perguntou o Ryuu.

— É a Hyuna. Parece que ela gosta de magoar outras pessoas só porque sim e, pelos vistos, até magoa animais.

— Achas que foi ela que fez isto?

— Quem mais pode ter sido?! Ela tem sangue na roupa!

— Vou f*der-lhe a cara de uma maneira...

— Tenham calma! – ela riu, como forma de gozo — Eu chego para ambos.

— Ryuu, eu acho melhor não te envolveres nisto.

— Porquê?! É o meu cão.

— Não quero que te magoes, muito menos por minha causa.

— Mas eu sou mais forte do que tu, Akaluri.

— Sai do parque e cuida do Wolfo, por favor... Ele precisa de ti.

— Já se decidiram? – perguntou a Hyuna – Tenho mais que fazer do que estar aqui à espera.

O Ryuu correu em direção à saída do parque, seguido pelo seu cão. Assim que os perdi de vista, transformei-me, num ápice.

— Acabaste de fazer uma coisa muito estúpida, Akaluri. Ele deu-te oportunidade de fugir! Lembro-me que da última vez só escapaste graças ao teu amigo humano; não terás a mesma sorte agora.

— Eu sou capaz de lutar sozinha.

Avancei rapidamente em direção a ela. Num impulso, usei as minhas unhas, agora extremamente afiadas, para lhe arranhar o rosto com força. A sensação do rasgar da sua pele fê-la recuar, quase de imediato. A Hyuna passava a mão pelos quatro recentes arranhões que ganhara nas maçãs do rosto, cortes que já faziam cair algum sangue.

— F*da-se, isto arde.

Após ver a sua expressão irritada, eu atirei-me para cima dela, deitando-a ao chão e prendendo-a pelos braços. Como da última vez, ela conseguiu novamente empurrar-me com força e trocar de lugar comigo. Preparando-me para a dor que ia sentir no braço, eu olhei para os seus olhos com determinação, mas a minha visão começou a deteriorar, assim que o fiz. Via tudo cada vez mais escuro, até finalmente ter ficado envolvida numa grande escuridão, conseguindo apenas ver uns meros reflexos de luz. Deixando de sentir o seu peso por cima de mim, eu levantei-me e esfreguei os olhos. Não conseguia ver quase nada.

— O que é que…

— Como te sentes agora? – perguntou ela.

Sentindo-me confusa e desorientada, tentei guiar-me pelo som das suas palavras, mas não estava a dar resultado. O som fazia eco dentro da minha cabeça, impedindo-me de descobrir a sua origem. Naquela altura, só podia confiar no meu tato e nos pequenos reflexos de luz que conseguia ver no meio de toda aquela escuridão. Concentrei-me o melhor que pude ao olhar à minha volta, tentando lembrar-me como era aquele parque que tanto gostava, para conseguir saber onde estavam as coisas. A seguir, olhei para a frente e reparei que, mesmo ao pé de mim, havia um pequeno brilho, que pensei ser reflexo do poste de eletricidade que sabia que estava avariado há algum tempo. Pensando que talvez a Hyuna pudesse estar lá perto, agarrei-me a ele com uma mão e rodei até sentir que lhe tinha dado um pontapé. Depois, subi para cima do poste e sentei-me, reparando que a minha visão voltara ao normal, como antes. Olhei então para a Hyuna, que vi que estava sentada no chão, com a mão pousada em cima da sua barriga.

— E tu, como te sentes agora? – perguntei, ironicamente.

A Hyuna levantou-se e levitou até mim. Ela empurrou-me, mas caí no chão de pé, com a maior agilidade. Sem perder nem mais um segundo, ela agarrou a minha cauda branca e puxou-a bruscamente, arrastando-me de volta até ao poste. Ela usou a sua cauda negra para invocar uma corda mágica, forte e resistente, que rapidamente me prendeu. A sua magia negra assegurava que eu me mantivesse imóvel, sem qualquer possibilidade de escapar ou de a romper.

— Divertimo-nos novamente outro dia.

A Hyuna foi embora, enquanto eu me tentava soltar. Pouco tempo depois, apanhei um susto quando senti a corda que me prendia a rasgar-se atrás de mim.

— Em que alhada te foste meter...

Olhei para trás e vi um rapaz de cabelo cinzento, com dentes afiados, uma cauda de tubarão e uma barbatana dorsal, acompanhado por um shiba, com uma coleira vermelha.

— Ryuu? Tu também és…?

— Yup; tal como tu e ela.

— Mas o teu cabelo… Porque é que ele está cinzento? Não era vermelho?

— Oh! História engraçada! Eu nasci com o cabelo assim, cinzento, mas não gostava muito da cor, então decidi pintá-lo de vermelho. Daí, um dia transformei-me e o meu cabelo voltou a ficar cinzento, mas era só quando me transformava! Assim, o meu cabelo é vermelho numa forma, porque o pinto, e cinzento noutra.

— Wow! Eu não sabia disso... mas como rasgaste a corda tão facilmente?

— Tenho os dentes bem fortes. – ele sorriu, para me mostrar os seus dentes afiados, o que era um pouco aterrorizante — Aliás, a corda estava bastante fácil de rasgar. Até me admira como não te conseguiste soltar sozinha, depois de todo aquele espetáculo que assisti.

— Estavas a ver? Eu disse para ires embora!

— Estava curioso. Para além disso, eu reparei que afinal o meu cão não estava magoado, então o sangue só podia ser de outra pessoa.

— Como assim?

— Não sei! Era só sujo, o sangue não vinha de nenhuma ferida, nem da sua boca; eu examinei-o bem.

— Espera… Então isso quer dizer que nós estamos aqui à conversa enquanto alguém está coberto de sangue no outro lado do parque?!

Depois de nos destransformarmos, corremos em direção ao local de onde haviam vindo a Hyuna e o Wolfo. Ao chegarmos, deparámo-nos com um cenário perturbador: um homem estava deitado no chão, inconsciente e coberto de sangue.

— Ah, deve ter sido este sangue do qual senti o cheiro.

— TEMOS QUE LIGAR PARA AS URGÊNCIAS, RÁPIDO! — gritei, enquanto tapava os olhos.

— Não, nem penses. Esse homem está morto. Se ligamos para as urgências ainda pensam que fomos nós que o matámos e estamos a tentar disfarçar… Sendo seres meios-mágicos, é melhor mantermo-nos o mais afastados possível deste tipo de conflito; é melhor irmos embora.

— Mas não o podemos deixar aqui assim!

O Ryuu agarrou-me pelo braço e guiou-me rapidamente para fora do parque. O choque do que acabáramos de testemunhar deixou-me extremamente nervosa e enjoada; sentia todo o meu corpo a tremer. Só queria voltar para casa o quanto antes.

— Queres comer? Aposto que nem jantaste nada antes de chegares aqui. Já é um pouco tarde.

Ele estendeu-me um pequeno frasco com gel desinfetante, depois de o ter usado nas próprias mãos. Após passá-lo também pelas minhas, o Ryuu abriu o tal saco com carne, ao mesmo tempo que o cão quase saltava de emoção ao sentir o cheiro delicioso do frango de churrasco. Ainda com as mãos a tremer e sem nenhum apetite, peguei numa coxa de frango e comecei a comê-la devagar, tentando esquecer o enjoo que sentia. Enquanto mastigava, esforçava-me para desviar a mente do que tinha acontecido, procurando temas de conversa, para nos distrair.

— Aquela corda era muito forte no início... só que tu rasgaste-a com tanta facilidade. Ao ver-te fazê-lo, tentei rasgá-la de novo e consegui fazê-lo facilmente, sendo que antes não conseguia sequer fazer nada.

— Que estranho… — comentou o Ryuu, comendo uma asa de frango.

— Tenho uma suposição sobre como funcionam os poderes dela, mais ou menos… Não deve ser algo permanente, ou seja, quanto mais longe ela está, menos intenso se tornam os seus poderes. Por isso, a corda foi enfraquecendo à medida que ela se foi afastando de mim, acho.

— Hm… Parece-me bem pensado.

— Tenho que saber se é mesmo isso…

Depois de me despedir do Ryuu, voltei logo para casa. Depois de tudo o que tinha acontecido, eu só me queria distrair e poder descansar minimamente, por isso tentava dormir, mas, por mais que estivesse cansada, não conseguia. Decidi então voltar a pegar na pena que tinha guardado há uns tempos, para finalmente desenhar algo inspirado nela, enquanto ouvia música. Desenhei um pequeno agapornis preto e azul com aguarelas e, no final, acabei por adormecer na minha secretária.