Já passavam semanas desde a minha ida ao parque de diversões com o Hikari. No entanto, ao invés dessa experiência nos aproximar, acabou por nos deixar mais distantes, por uma razão que não entendia. Aos poucos, estava a deixar de pensar tanto na situação dele se ir embora de volta para a capital, então deixei de referir o assunto tão regularmente. Enquanto isso, estava já a sair pelo portão da escola.

— Akaluri! – exclamou o Ryuu, aproximando-se de mim – Vamos para o café?

- Hoje vais trabalhar um pouco também?

- Sim. Já faz algum tempo que não meto lá os pés, tenho tido muitos testes.

- Eu entendo, mas fazes bem em ir hoje!

- Reparei que alteraste a tua foto de perfil há uns dias atrás. – ele sorriu — Está muito bonita! É uma sensação um pouco estranha, ver-te a usar uma foto e não um desenho teu.

- Normalmente nunca tenho fotos minhas que ache bonitas… Mas aquela foi tirada numa máquina fotográfica, então acho que deve ser por isso que tudo parece mais lindo.

- Não te enganes. Não é uma máquina fotográfica que te faz magicamente ficar bonita! Uma boa fotografia só realça o que já é bonito em si.

Senti-me ligeiramente embaraçada com o elogio do Ryuu e fiquei sem saber como reagir. No entanto, eu entendia o que ele queria dizer com aquilo. Gostava de ter aqueles pequenos momentos com o Ryuu que mais ninguém conhecia. Sabia que ele não falava daquela forma mais séria para qualquer pessoa, pois ele era mais visto pelo resto dos meus amigos como alguém sobretudo brincalhão e engraçado. De certa forma, era como se ele me desse exclusivamente a mim a capacidade de conhecer além disso. Juntos, íamos seguindo caminho pela rua até ao café, enquanto conversávamos sobre outras coisas parecidas com o tema anterior. Mais tarde, acabamos por nos cruzar com o Yusuke, por coincidência.

- Olá! – cumprimentei, timidamente – O que estás aqui a fazer?

- Hi, hi! Estou a passear um pouco, apenas. – respondeu ele, ajeitando a sua franja — Afinal, eu moro aqui perto.

- Ah! Já agora, Ryuu, este é o Yusuke.

- Prazer. – disseram eles em coro.

- Nós conhecemo-nos na casa assombrada, quando fui ao parque de diversões com o Hikari.

- A isso é que eu chamo uma maneira assustadora de se conhecer alguém! – brincou o Ryuu.

- Bem, realmente foi mesmo uma experiência assustadora para ti conheceres-me, Akaluri. — respondeu o Yusuke, rindo.

- Foi ele que tirou a tal foto que estou a usar no meu perfil! — falei, para o Ryuu.

- Oh. Tens talento!

- Nós vamos agora trabalhar. — disse — Se quiseres, podes aproveitar para ir connosco e assim lanchas algo!

- Vocês os dois trabalham onde?

- Numa espécie de maid café. – respondi.

- Ah, que giro! O tal que foi renovado há algum tempo? Nunca fui lá.

- Então hoje é a tua oportunidade. – acrescentou o Ryuu.

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- Aqui está! — afirmei, animada, pousando um batido de café em frente ao Yusuke — Bem, agora tenho que ir atender mais pedidos. Se precisares de algo, podes sempre chamar! Bom proveito!

O Yusuke precipitou-se a provar a bebida. Pela sua reação, concluí que tinha gostado do batido feito por mim, o que me fez ficar contente.

– Achas que te posso perguntar umas coisas antes de ires?

- Sim, claro, desde que seja rápido…

- Trabalhas cá há muito tempo?

- Eu não trabalho aqui oficialmente, sou apenas uma ajudante até ao final deste ano letivo, por causa das mudanças todas que estão a haver aqui. Isso significa que não tenho um salário fixo e posso definir o meu horário semanal como entender; foi um acordo que fizemos.

- Então tu trabalhas as horas que queres e não recebes nenhum pagamento?

- Mais ou menos… É assim; eu não tenho que vir sempre aqui. A minha única obrigação é cumprir as horas que me foram destinadas por semana. Como eu as distribuo pelos dias, eu é que decido, tal como os outros ajudantes. E, como pagamento, juntam-se todas as gorjetas que recebemos até ao fim do mês e dividimo-las apenas entre nós. É por isso que também tentamos incentivá-las ao máximo.

- Ah, já entendi. — respondeu o Yusuke, ajeitando a parte lateral do seu cabelo – Não quero fazer-te perder mais tempo com perguntas, só estava curioso… Mas obrigado. Boa sorte com os pedidos!

Com isso, eu saí da beira dele e dirigi-me ao balcão. Continuei a trabalhar durante algum tempo no café, atendendo pedidos. Mais tarde, a Manaka pediu-me para ficar encarregue dos pagamentos ao pé da caixa registadora, onde também estava o Ryuu.

- Então, como está a correr o trabalho para ti hoje? – perguntou ele.

- Bem, acho eu. Todos os clientes estão a ser simpáticos até agora.

- Há pouco estava aqui uma mulher que quase me pôs os nervos em franja…

- A sério? O que aconteceu?

- Ela estava a falar comigo de forma desagradável. A mulher tentou usar o seu cartão de desconto, mas estava expirado. Quando lhe disse isso, ela começou praticamente a insultar-me, como se a culpa fosse minha. E nem sequer era nenhum desconto grande!

- Que chatice… Ninguém merece levar com um cliente assim depois de um dia atarefado.

Ao longe, vi o chefe caminhar em direção a nós. Eu e o Ryuu olhamos um para o outro discretamente, demonstrando o nosso receio.

- Ryuu, tu sabes tocar guitarra, certo? – perguntou ele.

- Sim, sei. Porquê?

- É que, às vezes, as pessoas pensam que os instrumentos do palco estão apenas lá para decoração. Não há quase ninguém que vem cá tocar nada, quase só cantam, com instrumental nas colunas.

- Oh. E o que posso eu fazer para melhorar isso?

- Podias ir tocar para lá. Anuncias o que vais fazer, pegas na guitarra acústica e a Akaluri pode cantar, para te acompanhar na música, por exemplo. Assim, talvez possamos encorajar duetos ou pequenas bandas amadoras para virem cá um pouco, ao invés de pensarem que isto é apenas um simples karaoke. No entanto, Akaluri, se não te sentires confortável, posso escolher outra pessoa para cantar.

- Eu acho que a Naomi canta muito melhor… — comentei — Mas ela não está aqui hoje.

- Eu prefiro mesmo que sejas tu a acompanhar-me. – afirmou o Ryuu — Sinto-me mais confortável contigo.

- Oh… Então eu vou. É para fazer isto agora?

- Sim, é. — respondeu o chefe — Posso contar convosco?

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[Yusuke P.O.V]

Ter alguém que conhecia a servir-me à mesa num café fazia-me sentir um pouco estranho, mas era bem engraçado. Porém, o meu batido de café estava quase a acabar. Arrependia-me um pouco de não ter pedido um maior, nem nada para comer que pudesse servir de acompanhamento. Nesse sentido, procurava a Akaluri com o olhar, na esperança que ela entendesse que precisava de algo. Assim que a encontrei, reparei que ela estava a subir ao pequeno palco, juntamente com o Ryuu. Parecia um pouco nervosa, agarrando o microfone com ambas as mãos. O Ryuu pegou então na guitarra acústica e sentou-se num banco a seu lado. Depois de fazer contacto visual com a Akaluri, ele começou delicadamente a tocar. Uma calma melodia encheu o café, onde se reparava que as pessoas faziam cada vez mais silêncio ao som da guitarra, concentrando-se naquilo que ouviam. Entretanto, a Akaluri começou a cantar. Vinda de pequenas colunas, a sua doce voz ecoava pelo café, acrescentando um tom ainda mais suavizante à melodia que se estava a ouvir da guitarra. Foi uma ótima escolha de música. Tudo aquilo me fazia pensar nos tempos em que tocava piano na minha infância, mas já fazia bastante tempo que não tocava em nenhum instrumento, porque não me costumava trazer boas memórias. Talvez fosse um obstáculo a ultrapassar, um dia. Como não tinha nenhum instrumento em casa, por falta de dinheiro, pensei que se passasse algum tempo no pequeno palco do café, podia ser uma oportunidade para eu refinar a minha habilidade enferrujada; mas tinha receio de pedir tal coisa.

Assim que a atuação acabou, houve um pequeno mas caloroso aplauso de todas as pessoas presentes no café. Os olhos da Akaluri encheram-se de felicidade assim que ela entendeu que as pessoas tinham gostado, embora se visse que ela estava embaraçada e tensa, ainda segurando no microfone com as duas mãos. Ambos se levantaram e saíram do palco, ficando depois a falar um bocado a sós, num canto do café. Reparei que o Ryuu acariciou a cabeça da Akaluri, sorrindo bastante, como se estivesse a dar-lhe os parabéns. Quanto mais olhava para eles, mais me perguntava se havia alguma coisa entre os dois. Talvez pudessem sentir algo um pelo outro...

- Yusuke! – exclamou ela, dirigindo-se até mim.

- Estiveram ótimos! Gostei muito da vossa atuação. Não sabia que cantavas, Akaluri…

- Obrigada… E, bem… Eu não canto a sério, nem costumo treinar... É apenas algo que até gosto de fazer de longe a longe, para me ajudar a descontrair um pouco… Mas sozinha! Claro que com o público dos clientes estava muito nervosa, mas já não foi a primeira vez… Já agora, estava bom o batido?

- Não precisas de estar tão nervosa! — ri, ao ouvir a trapalhada de frases da Akaluri — Sim, bastante! Até me arrependi de não ter pedido nada para comer também. O que recomendas?

- Eu recomendo crepe, obviamente! – ela entregou-me um panfleto com todas as opções de crepes — É uma das nossas especialidades, assim como as omeletes, quando é para o almoço ou jantar.

Fiquei algum tempo a olhar para cada uma das alternativas, mas era muito difícil decidir. No entanto, não resisti em pedir a crepe de frutos vermelhos e chocolate, assim que a vi.

- Gostavas de ir visitar o sítio onde trabalho também? – perguntei, depois de fazer o novo pedido.

- Claro, porque não? Onde trabalhas?

- Mais logo vais descobrir…

- Oh! Fazes o turno da noite?

- Sim. Se não tiveres nada que fazer depois do trabalho, até podias vir comigo hoje. Dá para jantarmos lá antes do meu turno começar e depois tu divertes-te um pouco enquanto eu trabalho, se quiseres.

- Jantar e divertir-me no mesmo sítio?! Quero mesmo saber o que é!

- Não é nada de extraordinário, mas espero que gostes! Achas que podes ir?

- Sim, claro. – ela sorriu — Fica combinado.

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[Akaluri P.O.V.]

Depois de mudar de roupa, cruzei-me com o Ryuu, que estava parado ao pé da porta do pequeno balneário dos funcionários, de onde saí.

- Pensei que já tinhas ido embora sem te despedires, Ryuu!

- Estava aqui à tua espera… Vamos?

- Ah, pois! O Yusuke convidou-me há pouco para ir visitar o local onde ele trabalha, também; mas queres vir connosco?

- Oh, não sabia. E, ele não me convidou a mim particularmente, por isso não sei se seria boa ideia juntar-me.

- Não acho que tenha mal, mas posso perguntar-lhe. Ele faz o turno da noite, então íamos jantar e depois ele disse que dá para se ficar por lá…

- Onde é que ele trabalha?

- Não sei; ele quis deixar surpresa.

- Hm… — o Ryuu passou a mão pelo queixo – Eu tenho que ir estudar biologia hoje, não convinha muito sair assim à noite. Estava a pensar em passar pela casa da Manaka, para ela me ajudar.

- A Manaka ajuda-te com os estudos?

- Sim. Como ela já está na universidade, já estudou tudo o que estou a estudar agora. Ela diz que ajudar-me também é útil para ela, porque assim pode fazer revisões para o curso de biologia.

- Está bem… Então escuso de perguntar ao Yusuke, certo?

- Sim, eu não vou, mas espero que te divirtas! Até à próxima!

O Ryuu foi-se embora, com o passo ligeiramente apressado. Depois de ligar à minha mãe, pedindo-lhe permissão para jantar fora, eu também saí do café, encontrando-me com o Yusuke. Para passar algum tempo até termos fome suficiente para comer, decidimos ir a pé ao invés de apanharmos o autocarro, que seria rápido demais. Surpreendentemente, o Yusuke tinha um excelente sentido de orientação.

- Então, Akaluri, o que tens na mente?

- Ah, nada demais. Estou a pensar nas minhas escolhas para o ensino superior, mais uma vez...

- Depois daqueles teus desenhos que tenho visto, consigo mesmo imaginar-te a fazer ilustrações como profissão. Tens muito jeito para isso e adoras usar diferentes materiais, talvez devesses seguir essa via, mas não sou ninguém para falar!

- Oh, obrigada pelo incentivo! Mas tu também escolheste artes como curso no secundário, não foi? Aposto que também deves saber desenhar muito bem! Gostava de ver os teus desenhos.

- Eu sei desenhar, sim, mas não tão bem como tu, visto que não me concentrei tanto nisso. Aliás, eu faço mais rabiscos do que coisas propriamente terminadas, porque não tenho sempre tempo ou paciência para acabar… Mas costumo ter sempre algum material simples e um pequeno caderno comigo, caso me sinta inspirado no momento, como canetas ou lápis de grafite.

- Isso é muito bom! Tenho que começar a fazer isso também… Mas, se não foste para a universidade por falta de meios, não podias ter acesso ao ensino superior com uma bolsa de estudos, por exemplo?

- Infelizmente, uma bolsa pode nem sempre cobrir todos o gastos, mas eu tenho andado a poupar o máximo que consigo com o meu trabalho.

- Entendo. Mas, falando no assunto, o teu trabalho é relacionado com isso?

- Não. – o Yusuke riu – Por acaso, o meu trabalho não tem nada a ver com fotografia!

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- É aqui! – exclamou ele.

- Bowling? Agora o que estavas a dizer antes já faz sentido!

- Hmhm! Apesar de eu trabalhar mais na parte do bar... Vamos?

Nós entramos os dois naquele local com um ambiente escuro, iluminado por coloridas luzes néon. Não estava muita gente no local, apenas um pequeno grupo de pessoas que jogava, na pista mais afastada. O Yusuke foi então pousar as suas coisas num cacifo e voltou logo a seguir.

- Queres jogar uma partida antes que cheguem mais clientes? A seguir comemos algo e depois eu começo o meu turno, então podes ir para casa nessa altura… Assim não vais embora tarde.

- Eu não sei se me lembro do caminho de volta…Eu moro relativamente perto do centro comercial. Como se chega até lá?

- Não faz mal, tem uma paragem lá fora. Eu sei que o número 18 passa sempre por lá e vai direitinho ao centro comercial!

- Está bem. Obrigada, Yusuke!

- De nada. Então, vamos lá jogar?

Juntos, dirigimo-nos ao balcão onde se encontrava um dos seus colegas. Ele apresentou-nos, aproveitando para dizer que queria jogar uma partida rápida comigo, que felizmente, foi de graça. O seu colega tratou de colocar os nossos nomes no programa para ativar uma das pistas. Ao mesmo tempo, o Yusuke perguntou-me qual era o meu tamanho e foi buscar dois pares de calçado específico para Bowling, que ele limpou e desinfetou, mais uma vez. Na verdade, nunca tinha ido jogar Bowling com apenas uma pessoa a acompanhar-me; normalmente ia com os meus pais ou com um pequeno grupo de amigos. No entanto, o facto de ser o Yusuke a jogar comigo intimidava-me ligeiramente, visto que ele tinha muita mais experiência do que eu, especialmente por ser o seu local de trabalho.

- Costumas jogar ou precisas que eu peça para colocar as barras laterais?

- Eu acho que jogo bem o suficiente para não ter as barras, mas… Acho que nunca iria ganhar contra ti.

- Oh, não digas isso! Bowling não é só prática e técnica, por vezes também envolve um pouco de sorte, quem sabe...

- Bem, eu não sou boa em nenhum desses aspetos. – respondi, rindo.

- Não faz mal, estamos aqui apenas para fazer uma partida rápida e nos divertirmos, não é nenhuma competição. – ele sorriu — Qualquer coisa, eu posso ensinar-te ou dar-te conselhos, se precisares.

Eu e o Yusuke fomos em direção à nossa pista. Começamos então a jogar uma partida, a qual ele estava a ser bem melhor do que eu desde o início, como já era esperado. Eu não era propriamente uma má jogadora, mas ele tentava sempre dar-me alguns conselhos sobre como me posicionar e lançar a bola, quando via que eu estava a fazer alguma coisa de errado. Isso acabou por me ajudar um pouco. De repente, ele já estava no seu terceiro strike consecutivo, o que o fez acumular vários pontos.

- Tens uma excelente pontaria! – comentei.

- É normal… Eu já estou habituado a jogar. E também pratico tiro ao alvo, o que significa que estou constantemente a trabalhar na minha precisão.

- A sério? Wow! Tens jeito para tanta coisa…

- Eu gosto de experimentar coisas diferentes. Cada vez que começo a ter interesse em algo, tento fazê-lo. Agora, no caso do arco e flecha, quase nem foi uma escolha, mas mais uma obrigação.

- Como assim? Os teus pais obrigaram-te a aprender?

- Não, eu não tenho pais…

- Oh… — eu voltei a pousar a bola que tinha acabado de pegar para jogar — Desculpa se toquei num assunto frágil, Yusuke… Não precisas de falar sobre isso, se não quiseres.

- Não te preocupes, eu posso falar, se tiveres perguntas a fazer. Eu nunca conheci os meus pais, nem faço ideia de quem são, então já estou habituado a conversar sobre isto. Não é algo que me deixe especificamente triste, porque nunca tive contacto com eles, que me lembre.

- Mesmo assim, acho deveríamos mudar de assunto… É melhor se estas coisas vierem de ti naturalmente quando as quiseres contar, em vez de ser com perguntas minhas.

- Claro; como achares melhor. Mesmo assim, não me importo de falar contigo sobre o assunto, caso volte.

Eu e o Yusuke jogámos mais um pouco, até a partida acabar. Obviamente, foi ele que venceu. Com isso, conseguimos desviar a nossa conversa para outras coisas mais simples e agradáveis ao longo do jogo. Sentia-me contente por estar a conhecê-lo melhor aos poucos, mas mal podia esperar pelo dia em que decidíssemos contar mais coisas ainda sobre nós. Isso era sempre o que me fazia sentir mais próxima a alguém, e sempre foi das coisas que mais achava valiosas numa amizade, mas sabia qe cada coisa devia vir a seu tempo. Entretanto, os colegas de trabalho do Yusuke que acabaram o seu turno saíram, com a chegada dos próximos. Ele foi então colocar o seu pequeno avental azul-escuro, cujo tecido pousava sobre as suas calças pretas. De seguida, ele prendeu a sua franja negra para o lado, com um fino e discreto travessão preto. Embora contacto visual prolongado me pudesse deixar embaraçada, eu não conseguia deixar de olhar para a sua face, visto que era inabitual ela estar completamente descoberta. Ver os seus dois olhos castanhos fixados nos meus, dava-me a estranha sensação que ele tinha algum tipo de poder estranho sobre mim. O Yusuke achou a minha reação bastante engraçada e acabou por me apresentar a cada um dos seus colegas presentes, que pareciam animados por me conhecer. Mais tarde, um grupo de clientes acabou por chegar e foram atendidos por um dos tais colegas de trabalho. Enquanto isso, o Yusuke foi rapidamente para a parte do bar, seguido por mim. Ele começou então a preparar uns cachorros quentes e foi buscar umas bebidas ao frigorífico.

- Não sei se gostas muito disto, mas era o mais rápido para fazer, com o que temos disponível aqui. O meu turno começou e tenho medo que cheguem mais clientes e acabem por ficar com uma má impressão, por eu estar sempre a teu lado.

- Eu gosto de cachorros quentes. Na verdade, já faz algum tempo que não como um.

- Ótimo! Olha que estes te vão saber muito bem.

- Pareces muito confiante! – eu ri.

- Prova por ti mesma!

O Yusuke pousou um papel fino nas minhas mãos em concha e colocou por cima dele um dos cachorros quentes acabados de fazer. Estranhamente, ele não me pediu para escolher os molhos e apenas colocou o que lhe apeteceu; parecia que ele tinha adivinhado que eu não gostava muito de mostarda, mesmo sem eu o ter dito especificamente. Com isso, comecei então a comer.

- Hmm! Está mesmo bom!

- Obrigado. – ele sorriu – Estava um pouco ansioso para que provasses.

- A sério?

- Sim, é mais uma oportunidade para ser elogiado. — disse ele, brincando.

- Então só me trouxeste contigo para pescar elogios? — perguntei enquanto ria, juntando-me à sua brincadeira.

- Claro!

- Não era suposto concordares comigo!

- Estou só a brincar, Akaluri. Fico contente que gostes, agora tenho que por mãos à obra.

Fiquei subtilmente dececionada pelo nosso pequeno convívio ter de pausar tão rapidamente. Aparecendo do nada, mais um grupo de clientes acabara de chegar. As pessoas sentaram-se nas cadeiras do balcão, à espera de serem atendidas. Eu continuava a comer o meu cachorro quente enquanto observava o Yusuke a atender os clientes. Ele parecia sempre um bocado ansioso nas interações, mas sorria para todos e esforçava-se para entender bem o que pediam e fazer um bom e rápido serviço. Pouco a pouco, o local foi ficando cada vez mais cheio e todos os funcionários cada vez mais atarefados. A animação estava boa, mas eu não me sentia muito confortável estando sozinha no meio de tanta gente. Nesse sentido, acabei por me despedir do Yusuke de forma muito breve e fui esperar na paragem de autocarro.

Assim que cheguei a casa, a minha mãe perguntou-me todos os detalhes daquilo que estive a fazer fora, embora eu não tivesse chegado tarde. Logo que acabei de conversar com ela, fui então vestir o pijama e deitar-me na cama para descansar. Mandei uma mensagem ao Ryuu a perguntar como lhe tinham corrido os estudos, mas ele não me estava a responder. Aproveitei então para jogar um pouco na minha consola portátil enquanto esperava que o sono viesse, coisa que já não fazia há meses e sentia saudades.