Akaluri - Parte 1
10 A descoberta
Era sábado e eu estava em casa, sem nada específico para fazer. Aos sábados, tanto a minha mãe como o meu padrasto trabalhavam, por isso acabava por ficar sozinha e aproveitava sempre para estudar, desenhar, sair com amigos, entre outras coisas. Decidi então utilizar aquela manhã para aprender a cozinhar uma receita nova, que serviria igualmente como o meu almoço: pad thai . Não era algo muito entusiasmante, mas permitia-me ficar entretida e aprender algo novo, que me seria útil. Vesti-me e saí para ir ao centro comercial ao pé de minha casa, onde ficava o supermercado mais próximo. Assim que lá entrei, uma pequena papelaria que ficava ao pé da entrada despertou a minha atenção. “Descontos em material de desenho” era o que dizia no grande autocolante laranja e branco colado ao vidro da loja. Ao entrar, dirigi-me para a parte do tal material em desconto, para ver se havia alguma coisa que quisesse ou precisasse. Lá, cruzei-me inesperadamente com a Ichigo, que observava atentamente os blocos de desenho.
— Ichigo! — exclamei – Não esperava ver-te aqui! Está tudo bem?
— Oh… Olá Akaluri. Sim, está tudo bem… e contigo?
— Também… Vim aqui comprar ingredientes para fazer o meu almoço, mas acabei por ser atraída pelos descontos anunciados na papelaria.
— Eu vim de propósito ver se havia algum bloco que pudesse comprar, porque estou a precisar de um. Tive sorte de hoje estar com desconto…
Juntas, procuramos o bloco mais indicado para ela e acabamos por encontrar um a seu gosto.
— Não levas mais nada? – perguntei, ao sairmos da loja depois da compra.
— Só precisava disto.
Assim que saímos, perguntei se ela não queria almoçar comigo e assim passarmos a tarde juntas. No entanto, ela respondeu que já estava a espera de outras pessoas. Para não a deixar sozinha, fiquei a seu lado sentada num banco, ao pé da entrada do centro comercial.
— Chegamos! – exclamou o Yusuke – Também estás aqui, Akaluri?
— Que estranho… — comentou a Honoka.
— Vocês conhecem-se? – perguntei, ao mesmo tempo que a Ichigo.
Juntos, começamos a rir os quatro, daquela situação bastante estranha e engraçada; era uma boa coincidência. Eles acabaram por me convidar para passar o resto do dia com eles, então, acabei por desistir do meu objetivo inicial e não aprendi a fazer pad thai naquele dia. Depois de almoçarmos todos na restauração do centro comercial, decidimos passear pelas lojas, enquanto conversávamos.
— Que roupa linda… — ouvi a Ichigo murmurar, ao olhar para uma montra a seu lado.
— Porque não entramos nessa loja? — sugeri — Podes comprar alguma roupa que gostes.
— Não tenho dinheiro e também não me sinto bem quando me pagam coisas…
— Mas eu fiquei a dever-te uma, pelo desenho que me deste no café!
— A sério, Akaluri, não é preciso.
A Ichigo sempre havia sido bastante simpática comigo, desde o início. Eu não me sentia mal de todo por lhe pagar alguma coisa. Aliás, se era algo que a pudesse deixar minimamente com um sorriso, nada me impedia de lhe oferecer uma pequena prenda que ela gostasse. Coloquei então as mãos nos seus ombros empurrei-a devagar para dentro da loja.
— Anda, agora escolhe algo que gostes. — insisti.
Fomos andando os quatro pela loja, observando os produtos à nossa volta. Tinha diversas roupas, acessórios e até mesmo algum calçado. Discretamente, fixei os meus olhos num lindo vestido rosado, que me chamou à atenção. Era o mesmo que tinha visto no site da loja umas semanas antes; tinha hesitado pedi-lo à minha mãe no meu aniversário, mas não sabia muito bem em que ocasiões poderia usá-lo. De qualquer das formas, decidi não pensar muito naquilo, visto que não era uma necessidade. O importante era encontrar algo para oferecer à Ichigo, nem que fosse para lhe retribuir o gesto querido do desenho que ela me oferecera.
— Não gosto muito das coisas daqui… — comentou a Honoka.
Dava facilmente para notar que a indumentária daquela loja não combinava nada com o estilo da Honoka, visto que ela estava vestida com umas calças de ganga à boca-de-sino, uma camisola azul clara e um casaco comprido verde aspargo. No entanto, a Ichigo tinha um estilo diferente, que condizia um pouco com a loja, de roupa que era um pouco mais alternativa, diria eu.
— Eu gosto desta… — disse a Ichigo, mostrando-me uma gargantilha preta com uma argola em forma de coração.
— É muito gira e combina perfeitamente contigo! É essa que queres?
— Sim…
Fomos para a caixa pagar o artigo. A seguir, a Ichigo agradeceu-me pelo presente, dando-me ao mesmo tempo um curto e tímido abraço. Depois, saímos os quatro da loja.
— Notei que olhaste muito para um vestido, mas não o compraste. — comentou o Yusuke.
— Quem? — questionou a Honoka.
— A Akaluri.
— Ah, isso não foi nada… De qualquer das formas, não tinha dinheiro suficiente para o comprar.
— Era assim tão caro?
— Um pouco… Mas acho que o preço até era justo, para o vestido.
— Isso importa? — interrompeu a Honoka — Vamos ver outras coisas.
— A Honoka tem razão, vamos mudar de assunto. — concordei — Estava a pensar que podíamos estar todos juntos numa festa qualquer... E se fosse no ano novo? — perguntei.
— Por acaso, eu conheço um sítio com uma vista muito linda, em cima de uma grande colina. — sugeriu o Yusuke — Fica mesmo ao lado de um campismo onde podíamos alugar um bungalow.
— Nunca fiz algo desse género! Parece mesmo divertido…
— Então fica combinado!
— Olhem… — interrompeu a Ichigo — Não contem comigo para ir… Eu não posso pagar e, de qualquer das formas, é o único dia do ano que uso para visitar a minha mãe.
— Tu não vês a tua mãe frequentemente? – perguntei.
— Não… E só tenho dinheiro para ir visita-la no fim do ano e ficar lá a dormir.
— Isso deve ser mesmo difícil… Porque é que ela não te visita a ti?
— Ela não sabe onde moro e eu não quero que ela veja as condições em que vivo. Três pessoas num pequeno apartamento com apenas um quarto…
Enquanto caminhávamos, não pude evitar refletir sobre a Ichigo. A vida dela devia ser tudo menos simples. Apesar de reservada, ela sempre me pareceu ser uma pessoa genuína: responsável, dedicada e trabalhadora. À medida que andávamos pelo centro comercial, algo chamou a minha atenção. Ao passarmos por um café, avistei um rapaz alto e loiro, sentado sozinho. Ele vestia-se de forma casual, mas elegante. Embora a sua postura parecesse desinteressada, a sua presença era imponente e marcante, com um olhar frio e distante, que nunca passava despercebido. Reconheci-o de imediato.
— Aquele é o Ichiro? — perguntei.
— Ichiro? — repetiram o Yusuke e a Honoka, confusos.
— É um amigo meu. Acho que está ali no café... Preciso mesmo de falar com ele.
— Queres que te esperemos aqui? — sugeriu o Yusuke.
— Não, não... Podemos ir todos.
— Yu, olha! — exclamou a Honoka, apontando para outro café no lado oposto — Eles têm as minhas bolachas favoritas! Vens comigo comprar um saquinho?
— Claro. — respondeu o Yusuke, com um leve sorriso — Ichigo, podes ir com a Akaluri, enquanto nós vamos ao outro café?
Ela acenou com a cabeça, de forma a concordar. Fomos então ter com o Ichiro. Era uma oportunidade inesperada, pois não o via há algum tempo. Assim que nos aproximámos, ele notou-nos e ergueu o olhar.
— Olá… — cumprimentei, sentando-me à sua frente.
A Ichigo sentou-se ao meu lado, mas permaneceu em silêncio.
— Olá, Akaluri. Quem é ela?
— É uma amiga minha; a Ichigo. Estamos a passear com mais duas pessoas aqui no centro comercial. Quando te vi, achei que era um bom momento para falarmos. Há coisas que gostava de entender...
— Sim, eu percebo. Não respondi às tuas mensagens de propósito. Queria falar contigo cara a cara, para te explicar melhor as coisas.
— E então? — perguntei, sentindo um ligeiro nervosismo — O que aconteceu com o teu irmão?
— Desculpem… — interrompeu a Ichigo, educadamente — Vou só à casa de banho.
Ela saiu do café, provavelmente percebendo que o assunto era delicado e dando-nos algum espaço. O Ichiro respirou fundo, com o olhar perdido, antes de começar a falar.
— Quando conheci a Hyuna, ela chamava-se Violet. Era uma rapariga simpática que estava a namorar com o meu irmão gémeo, chamado Shinji. A nossa relação como irmãos nunca foi grande coisa. Ele sentia muita inveja de mim, por ter nascido sem poderes, e eu... bem, acho que nunca devo ter feito o suficiente para tentar melhorar as coisas entre nós. Quando ele começou a namorar com a Violet, parecia um pouco mais alegre, talvez por finalmente conseguir sentir-se superior a mim em algum sentido. Eu via isso como algo bom, pois ela parecia ajudá-lo a sentir-se melhor consigo próprio e a lidar com a nossa família, até que o nosso pai… destruiu tudo.
— O que ele fez?
— O meu pai sempre foi obcecado por estudar sobre... bem, seres mágicos e, claro, híbridos, como nós. Foi assim que ele conheceu a minha mãe. Ela era um ser mágico e desistiu de tudo para poder ficar com ele. Nós nascemos gémeos, mas só eu herdei características especiais... Às vezes, eu penso que até o nosso nascimento foi mais uma das suas experiências, em vez de termos nascido genuinamente por amor.
— Deve ter sido difícil crescer com esse sentimento...
— Foi, sim... mas tudo piorou quando ele conheceu outra mulher. Ela era tal como nós, híbrida. Eles casaram e o meu pai voltou aos seus "testes". Eventualmente, isso acabou por levar à sua morte... Eu admirava muito a minha madrasta... Quando ela partiu, foi como a última gota para a nossa família: tanto eu quanto o Shinji saímos de casa. Eu queria que ele viesse comigo, mas ele escolheu ir sozinho, talvez pela inveja ou orgulho. Pensei que a Violet ia conseguir fazê-lo ver as coisas e mudar de ideias, ou pelo menos ajudá-lo, mas enganei-me. Afinal, eu achava que ela era o seu apoio, mas isso também acabou mal.
— O que aconteceu entre os dois?
— Depois de algum tempo, ele suicidou-se... Nunca soube ao certo como tudo aconteceu, mas sinto que a Hyuna falhou com ele, de alguma forma. Eu tenho a certeza que ela o podia ter impedido...
— Ichiro… Se o Shinji estava a lutar com tanta coisa desde pequeno, talvez ele precisasse de outro tipo de ajuda, que a Hyuna não lhe conseguiria dar...
— Talvez, mas... ele precisava dela; e ela abandonou-o.
— Não achas que algo não está claro? — sugeri — Desde nascença, o teu irmão deve sempre ter-se sentido deslocado, mas, tal como disseste, ele sentia inveja e era orgulhoso. O Shinji sentia raiva por causa disso, em vez de melancolia… Será que o suicídio foi realmente o que aconteceu?
— O que estás a pensar?
— E se... em vez de desistir, ele tivesse ido procurar a sua ajuda? Talvez ele quisesse os seus poderes...
— Mas ninguém sabia que a Violet era como nós. Porque é que havia de lhe pedir isso? Parece-me lógico que ele se tenha suicidado, tendo em conta tudo o que aconteceu... Na altura, eu também tive de lidar com certos pensamentos intrusivos desse género, mas aguentei.
— Vocês não são iguais… São quase opostos até! Tu achas que ele não sabia sobre os poderes da Hyuna, mas e se soubesse? Eles namoravam, talvez ela lhe tenha dito ou ele tenha descoberto. Há uma forma de partilhar as suas características com alguém… e acho que entendes isso melhor do que ninguém, porque foi o que fizeste com a Manaka.
— Estás a tentar insinuar que afinal ele sabia de tudo? E que não se matou?
— Estou apenas a tentar dizer que há algo nesse cenário que não encaixa... Talvez tenha sido outra pessoa… ou até mesmo a Hyuna. Não porque o quisesse magoar, mas talvez por não ver outra escolha.
— A Hyuna, matá-lo...? — questionou ele — Porque ela faria isso ao próprio namorado?
— Talvez para protegê-lo de algo pior, ou porque temia o que ele poderia fazer com os poderes dela, não sei... Seja como for, isto é algo que só podemos esclarecer com ela.
— Se eu a vejo à minha frente...
— Se a vires à tua frente, por favor, fala com ela; sem violência. É o melhor que podes fazer. Seja o que for que aconteceu, tens de ter em consideração que também deve ter sido um fardo enorme para ela... afinal, o Shinji era o seu namorado.
O Ichiro assentiu, sem usar palavras para me responder. Talvez a minha hipótese o incomodasse, mas ele sabia que não era de todo algo impossível.
— Obrigada por confiares em mim para falares sobre isto, Ichiro. Sei que não deve ser fácil.
— Não tens de agradecer, Akaluri. Eu também quero saber a verdade, seja ela qual for...
— Voltamos! — exclamou o Yusuke, aparecendo atrás de mim com a Honoka — Onde está a Ichigo?
— Ela foi à casa de banho, mas acho estranho ainda não ter voltado... Vou ver como ela está. Esperem aqui por nós, por favor!
Deixando-os para trás, eu fui até à casa de banho mais próxima. Assim que lá cheguei, notei que a Ichigo se estava a observar ao espelho, após ter colocado a nova gargantilha que lhe tinha oferecido.
— Fica-te bem! — comentei.
— Obrigada por me teres oferecido a gargantilha e por teres sido simpática comigo até agora, mas eu…
De repente, a Ichigo agarrou o meu antebraço com alguma força.
— Ichigo!? — perguntei, espantada — O que se passa?
— Eu tenho que te dizer uma coisa… — respondeu ela.
— É algo importante?
— Sim… — ela largou o meu braço, notando que me estava a magoar ligeiramente — Só não quero que a tua atitude em relação a mim mude, depois disto… Apesar de poucas vezes estarmos juntas e falarmos muito mais por mensagens do que frente a frente… Tu tens sido como uma amiga para mim e eu não gostava de alterar isso.
— Sabes que me podes contar seja o que for…
— Eu… — ela suspirou — Contar não serve… A melhor forma de saberes é apenas mostrando…
A Ichigo pôs a mão no seu cabelo rosa, amarrando-o num dos lados. Depois de o puxar repentinamente para baixo, o cabelo caiu, revelando que era apenas uma peruca. O seu verdadeiro cabelo estava preso numa fina rede preta, que ela também retirou. Revelou-se então o seu verdadeiro longo cabelo, que era lilás escurecendo até às pontas.
— Mas...
— Percebes ou tenho ainda que tirar as minhas lentes vermelhas? Não me queria dar a esse trabalho.
— Hyuna? — perguntei, escondendo as minhas mãos que tremiam — Podes explicar isto tudo?
— Fiquei perturbada quando soube o tema que tu e o Ichiro iam discutir. Eu fiquei a ouvir-vos, escondida... E sim, há algo que não encaixa. O Shinji não se suicidou.
— Mas tu própria também me disseste que…
— Eu disse que ele morreu, não que se suicidou. E tens razão, fui mesmo eu que o fiz, pelo mesmo motivo que lhe disseste. Eu não lhe queria dar os meus poderes, para ele matar pessoas inocentes ou causar confusões. Eu sei que o meu poder é forte e ainda por cima consigo utilizar magia, capaz de fazer coisas que nem imaginas... Como de certeza já ouviste dizer, com um grande poder vem igualmente uma grande responsabilidade. Não posso partilhá-lo com ninguém, seja quem for... Principalmente se essa pessoa não estiver psicologicamente bem, tal como ele.
— E tu, achas que estás psicologicamente bem?
Ela não respondeu, voltando a pôr o cabelo na rede e a peruca rosa na cabeça.
— Depois do que aconteceu, eu mudei completamente a minha vida. Fugi de casa, levando apenas uma mala e a minha gata comigo, para não me sentir só. Deixei sozinha a minha mãe e os amigos que eu tinha, até arranjar novos, que agora são apenas a Honoka e o Yusuke. Eu contei-lhes a minha história e descobrimos que há certas coisas que temos em comum, por isso eles ajudaram-me e conseguimos arranjar um pequeno apartamento para morarmos os três juntos, porque antes eles estavam na rua, assim como eu.
— Eles também andam disfarçados com peruca e lentes?
— Não. Como eu fui a única que cometi um crime, fui a única que senti esta necessidade. Criei uma identidade falsa com o nome de Ichigo Takaya, de vinte anos, com cabelo rosa e olhos vermelhos, para mais ninguém me reconhecer.
— Quantos anos tens na verdade?
— Dezoito.
— Agora entendo algumas coisas, mas… e aquele senhor que estava no parque?
— O homem que viste morto no parque estava completamente drogado. Ele tinha uma personalidade extremamente violenta, o que o convenceu a maltratar o cão, assim que o viu por aí sozinho. Começou por lhe dar uns pequenos pontapés e, como resposta, o cão rosnou. Isso fez com que o homem começasse a ser mais agressivo e a aumentar a sua força, ele estava com uma vontade absurda de matar, infelizmente. Por sorte, eu estava lá perto e, assim que ele lhe deu um pontapé e estava pronto para continuar, eu entrei na sua mente.
— Como assim?
— Esse é o meu poder principal. Eu consigo tomar posse da mente de pessoas e controlá-las quando elas estão num estado frágil. Bêbedos, depressivos, pessoas traumatizadas e tudo isso… No entanto, o meu poder torna-se mais forte quanto mais perto eu estiver da pessoa. Neste caso, eu apenas troquei o alvo que ele tinha em mente, para que fosse ele próprio e não o cão.
— Então foi só para salvares o Wolfo que fizeste com que o homem se suicidasse? E foi para salvares todos outros seres como nós que tiveste que matar o Shinji?
— Sim. Eu não o conseguia fazer mudar de ideias. Podes crer que eu tentei... Eu amava o Shinji… aliás… eu ainda gosto dele, mesmo que o esteja lentamente a esquecer…
— Tu contaste-lhe que tens esses poderes?
— Não. — Ela suspirou — Ele descobriu quando eu estava a salvar uma gata vadia presa numa árvore bem alta... Eu precisei de usar os meus poderes para a salvar. Era de madrugada, então pensei que ninguém me ia ver, mas enganei-me…
— Como é que ele te viu?
— Não sei. No dia seguinte, quando lhe contei que salvei uma gata e lhe mostrei qual era, ele ficou de boca aberta. Assim que lhe perguntei qual era o choque, ele apenas respondeu mostrando-me um vídeo meu dessa noite… perguntando-me se era eu ou não. Eu queria negar, mas já lhe tinha contado a história e ele tinha um vídeo, então não havia nada que pudesse fazer. Mesmo assim, continuamos numa boa relação, então eu fui-lhe contando como os meus poderes funcionam e isso… Mas, aos poucos, ele começou a aproveitar-se de mim até que um dia simplesmente endoideceu. Ele ameaçou-me. Tinha-me mentido, dizendo que eliminou tudo, mas ainda tinha o vídeo bem guardado. Disse que se eu não partilhasse os meus poderes, ele publicava-o e mostrava à polícia, revelando a minha identidade…
— Eu julguei-te no início. Só foi hoje com a história do Ichiro e a tua que finalmente raciocinei…
— Eu entendo que tenhas pensado dessa forma. Eu imagino que não tenha tido uma primeira impressão boa contigo.
— Tu atiraste um rapaz pra nossa janela e ameaçaste matá-lo! O que querias que eu pensasse!?
— Ah, pois, o Hideki. Eu ainda o quero ver morto. Ele sabe quem sou por me ter andado a espiar depois do seu melhor amigo morrer, agora só lhe faltam as provas, é melhor ele desaparecer antes que algo lhe aconteça.
— Não é assim que se resolvem as coisas...
— Tu fazes ideia do que me custou esconder a minha identidade!? De tudo aquilo que sacrifiquei para o melhor de todos?
— Mas chegar ao ponto de matar alguém... Isso não justifica os teus atos.
— E eles!? Os humanos normais têm alguma justificação para o que nos fazem a nós e ao planeta!? Eu tenho os meus motivos para matar alguém e foi apenas coincidência que eles todos eram humanos, por acaso. Se fosse alguém como nós, eu também não hesitava em fazer o mesmo, pelas mesmas razões. Já viste algum ser como nós a ameaçar contar a identidade do outro? Claro que não! Nós tentamos proteger-nos uns aos outros e a nós próprios também. Os humanos, se conseguirem descobrir algo sobre nós, ganham fama, dinheiro, louvor e criam histórias, lendas e tudo mais. Enquanto que nós apenas sofremos durante toda a nossa vida para nos adaptarmos e somos mortos quando descobertos. Eu já sei que falar com os humanos não resulta; as pessoas são hipócritas. Traem, mentem, dizem coisas nas costas e fingem ser melhores pessoas do que aquilo que são na verdade.
— Eu entendo o que pensas, mas nem todos são assim…
— Tens sorte de poder dizer isso, é sinal que estás rodeada de boas pessoas. Não tens o mesmo azar que eu. Eu deixei a minha mãe sozinha, a pensar que eu estava morta ou desaparecida, quando na verdade estou aqui em carne e osso.
— Porque não voltas para casa?
— Agora!? Depois de todo desgosto e depressão que eu a fiz passar? Seria apenas vista como uma cobarde em frente a ela. Eu não sou uma boa filha, apenas fugi quando fui confrontada com problemas alheios. A minha mãe sempre foi ótima para mim, mas eu estraguei tudo quando fui embora. Ela deve ter-se sentido culpada, quando na verdade ela era a pessoa que mais se preocupava comigo. Ela já não me deve querer voltar a ver depois de toda a m*rda que fiz.
— Não penses dessa forma, eu tenho a certeza que a tua mãe te quer ver o quanto antes. Lá no fundo, ela deve ter esperança que ainda estejas viva e que voltes para…
— CALA-TE! — ela interrompeu com um grito, que me assustou — Eu já estou morta, a Violet Harmon já não existe.
— Existe. A Hyuna é apenas uma personalidade que usas para esconder quem és.
— Isso podia ter sido verdade no início, mas agora eu já não sou mais frágil. Eu cresci e vi a verdadeira realidade das coisas. Este mundo é um lixo e nada o vai mudar, cada um está aqui a lutar por si só e eu aprendi isso da maneira mais difícil. Eu só não quero que me odeies ou que tentes revelar a minha identidade a seja quem for. Não quero sequer pensar em como o resto dos meus dias seriam se eu tivesse que te matar a ti também.
— Depois de tudo o que me fizeste até agora achas que ainda me podes pedir algo assim?
— Eu prometo que desapareço da tua vida, desde que não reveles nada disto a ninguém. Por favor, não me obrigues a acabar contigo também.
— Hyuna… Não é através de ameaças que devias conseguir aquilo que queres. Eu sei que tens problemas, mas, depois de todas as nossas conversas por mensagens, de chamadas intermináveis e dos momentos que passamos juntas, achas que a Ichigo que eu conheci era completamente falsa? Bem… Claro que eu tenho uns sérios problemas para resolver com a Hyuna… Mas está tudo bem, tu sabes que eu gosto de ti e eu já te disse isso várias vezes, mesmo que, na verdade, o tenha dito à Ichigo. Que diferença isso faz? Eu aprendi que és uma pessoa única e especial e eu só quero que deixes a atuação de durona que tens. Não aguentes com tudo por cima dos ombros sozinha. Eu percebo que a tua atitude enquanto Hyuna não foi completamente verdadeira... Fizeste imensa porcaria injustificável e imperdoável, sim, e, sobretudo, nem sempre correta... mas nunca precisaste de fazer nada disso. Eu sei que, lá no fundo, tu também te sentes mal.
A Hyuna não respondeu, provavelmente estaria a repensar toda a sua vida inteira e os diferentes caminhos pelos quais ela poderia ter tentado ir.
— Agora já não posso fazer nada. — respondeu ela.
— Sobre o passado, não... mas porque não começas por esclarecer ao Hideki o que aconteceu exatamente?
— Porque ia dar-lhe ainda mais razão. Eu quero que isto permaneça um segredo, especialmente para ele e para o Ichiro… Mas o Hideki já passou dos limites… Foi exatamente pela razão dele me ter começado a perseguir a mim e ao Ichiro, que eu comecei a persegui-lo a ele também. O Hideki quer matá-lo por pensar que ele é o maior culpado disto tudo, então eu tenho que pôr um fim nisso.
— Hyuna...
— Não te peço ajuda, eu só quero que não interfiras. A tua amizade era algo que eu nem devia ter. Já arrisquei demasiado ao mostrar-te quem sou, mas era a única forma de fazer com que me entendesses.
— Mas, matar o Hideki…
— Akaluri, nem tudo se resolve com uma conversa, especialmente quando já houve violência metida no assunto desde o início. Não é agora que vou mudar tudo e fingir que sou um anjinho, porque eu sei que não sou.
— Continuo sem concordar com isso... Não o faças, pelo teu bem.
— Não quero saber. Agora vamos ter com os outros; já estamos a demorar muito tempo.
Ela segurou firmemente a minha mão, e juntas caminhamos até ao café. Ao chegarmos, avistamos Yusuke, Ichiro e Honoka, que já nos aguardavam, visivelmente à beira da impaciência. Sentamo-nos com eles, mas logo sentimos uma atmosfera ligeiramente desconfortável a pairar sobre a mesa. As conversas eram esparsas e forçadas e o ambiente tornou-se cada vez mais pesado. Como já era de esperar pela situação, todos decidimos, quase em uníssono, que era melhor irmos embora. Assim, deixamos o café, cada um perdido nos seus próprios pensamentos, sem saber muito bem como aquela saída tinha acabado por se desenrolar de forma tão estranha e completamente inesperada.
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