Akaluri - Parte 1

3 Assuntos de importância


— Aquela não é a Sara? — questionou a Manaka.

— Parece que sim… Estava a pensar nisso agora, mas parece que não era a única. — respondi — Devíamos ir ter com ela?

— Não sei… — disse o Hikari — Não achas que ela está ocupada?

— Ela está com aquele homem, talvez seja alguém da sua família. – assumiu o Ichiro.

— Vamos! — exclamou a Manaka — Pelo menos podemos informá-la sobre o que concluímos, em relação ao trabalho!

Enquanto nos íamos aproximando lentamente da Sara, na incerteza, reparamos que o homem que estava com ela lhe deu uma certa quantia de dinheiro e foi embora logo a seguir.

— Viram aquilo? — perguntei, com receio — O que acham que está a acontecer?

— No pior dos casos, ele talvez seja um sugar daddy . – comentou o Hikari.

— O que é isso? – perguntou a Manaka.

— Basicamente, é quando uma rapariga simplesmente passa tempo com um homem mais velho, algumas chegando, por vezes, até a dar o seu corpo, em troca de dinheiro ou coisas caras que queiram. Basicamente, como se estivesse a ser mimada, mas de forma um pouco... incomum.

— Quê?! Achas que a Sara era capaz de fazer isso?

— Manaka, eu não estou a assumir, mas nós não sabemos quase nada sobre a Sara.

— O melhor é irmos falar com ela. – concluiu o Ichiro.

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— Sugar daddy?! — a Sara riu — Eu nunca ouvi falar disso! Agradeço a honestidade, mas o que andam a pensar que eu faço?!

— Pois, bem me parecia que não! — falou a Manaka — Mas, então, o que foi aquilo?

— Querem mesmo saber?

— Só se te sentires confortável para nos contar. — acrescentei.

— Não tem problema, mas vamos conversar sobre isto noutro sítio…

Eu, a Manaka, o Hikari e o Ichiro seguimos a Sara, e fomos dar a algo que parecia ser um beco sem saída, onde havia uma grande tenda escura com pequenas estrelas prateadas cintilantes. Parecia que ela nos ia apresentar um culto, ou pior ainda, um esquema de pirâmide.

— O que é isto? – perguntou a Manaka.

— Aqui é onde fica a minha casa.

— A tua casa?! Moras numa tenda?!

— Não! — respondeu a Sara, rindo — Isso é o negócio da família, mas eu já falo sobre isso. Vamos entrar em minha casa; é já aqui atrás!

— Mas atrás não tem…

Interrompendo a fala do Hikari, a Sara tocou numa pedra específica do enorme muro que estava atrás da tenda, depois empurrando-a para o lado, revelando assim uma fechadura secreta.

— Aproximem-se desta parte do muro. – mandou a Sara.

Ela pegou numa chave dourada e brilhante da sua bolsa e, com ela, abriu essa mesma fechadura. Com isso, a parte do chão na qual estávamos todos em cima, rodou juntamente com o muro e encontramo-nos do outro lado, em cima de um pequeno caminho de pedra que levava à porta de entrada de uma mansão. Todos ficamos impressionados e um pouco confusos, mas seguimos a Sara sem hesitar. Ao entrar na casa, notei que ela tinha um elegante corredor num estilo neoclássico. Um fino tapete vermelho estendia-se pelo chão até à sala e alguns lindos quadros estavam pendurados na parede, assim como um grande espelho com uma moldura elaborada e alguns vasos de rosas no chão, do lado contrário à janela que o iluminava.

— Bem-vindos a minha casa! — disse a Sara, assim que chegamos à sala. — Podem sentar-se no sofá, que eu vou só lá cima, pousar as coisas.

A sala era espaçosa, com paredes altas e um chão de madeira. Havia um sofá branco em frente a uma mesa de vidro com velas vermelhas e uma TV. Atrás, uma longa mesa de jantar com um vaso de orquídeas brancas. Todo o espaço era iluminado por grandes janelas, com cortinas castanhas e brancas, tal como o vestido da Sara. Sentei-me juntamente com o Hikari, a Manaka e o Ichiro, que juntos cabíamos bem confortavelmente no sofá, sendo que este seria de, supostamente, apenas três lugares. De seguida, a Sara voltou e colocou-se à nossa frente.

— Sara... — disse a Manaka — Porque é que é preciso tanto esconderijo e não vives apenas numa casa normal?

— Esta casa já existe há gerações. Ela sempre serviu de abrigo e informações para seres como vocês, porque, no geral, eles costumam ser perseguidos e ter um mau destino, se forem descobertos... É por isso que ela é bem grande e que a nossa família sempre se esforçou muito no seu trabalho, tentando poupar o máximo possível para conseguir estar aqui e conseguimos abrigar ainda mais pessoas.

— Espera… — interrompi — Como é que tu sabes que nós somos…?

— Akaluri, eu não te estava a observar na aula só porque sim… Tens uma aura diferente das outras pessoas da turma e eu reparei logo. Quando eu olho para um humano comum, eu consigo ver um resumo de futuros acontecimentos na vida dessa pessoa... Consigo prever a vida de alguém no máximo até três anos futuros. Com seres como tu, assim como o Ichiro e a Manaka, eu não conseguia ver absolutamente nada. No entanto, eu sei que o Hikari vai tirar 18 no seu teste de história!

— C*ralho! Eu estudei tanto! — exclamou ele — Então isso quer dizer que és como eles?

— Não, eu não sou bem assim… Se fosse como eles, eu também seria capaz de me transformar, mas eu não tenho outra identidade a não ser esta. Eu sou filha de um meio-mágico natural, uma pessoa como a Akaluri ou o Ichiro, que já nasceu assim e que, mais tarde, se juntou com um humano. Ou seja, isso acabou por me fazer nascer como uma humana, quase normal, apenas com uma capacidade a mais!

— Mas como é que isso funcionaria para mim? Eu não nasci assim; mas fui transformada pelo Ichiro… — disse a Manaka.

— Isso significa que não tens o mesmo nível de capacidades que os naturais. És quase como eu, mas assim como eles, também te podes transformar. No entanto, se algum dia chegares a ter um filho com um humano normal, ele seria simplesmente um humano normal também! Por não teres descendência de nenhum ser mágico presente em ti, as características que o Ichiro te deu são só tuas e intransmissíveis.

— Ah, entendi… Mas como sabes tudo isso?

— Ora, para além da minha própria família e experiência, temos também imensos livros cá guardados com todas as informações que conseguimos descobrir, através do convívio com imensos seres como vocês ao longo das gerações... Mas bem, agora que já expliquei como sou, posso falar sobre o tal negócio que o Ichiro perguntou lá fora. Basicamente, eu e a minha mãe somos responsáveis por ele, porque somos nós que temos este tipo de poderes. Ela é uma bruxa, um ser meio-mágico. Diferente de mim, ela consegue ver o futuro não só dos humanos, mas também dos seres meio-mágicos. Ah! E consegue ver até dez anos para a frente! O homem com quem estive hoje, apenas queria saber algumas coisas sobre o seu futuro e pedir alguns conselhos… Depois pagou o serviço e foi embora!

— Então era isso! – exclamou o Hikari.

De repente, ouvi o meu telemóvel a tocar, dentro da minha bolsa.

— Desculpa, Sara... Onde posso ir atender esta chamada? – perguntei.

— Passa pelo corredor que está ali ao fundo e entra na primeira porta à esquerda. É a cozinha!

— Obrigada. Eu já volto, então…

Dirigi-me rapidamente para lá, enquanto o telemóvel ainda vibrava na minha mão. Era a Naomi que me estava a ligar.

— Akaluri! — exclamou ela, assim que atendi — Está tudo bem?

— Sim, e contigo?

— Também… Olha, eu não posso sair de casa, mas queria passar um tempo contigo. Podemos almoçar juntas e ver algum dorama?

— Não sei, Naomi… Estou numa situação um pouco complicada…

— Como assim?

— Eu não posso mesmo falar sobre isso, infelizmente.

— Ah ok... Até amanhã, então.

— Des… — ela desligou a chamada. — …culpa…

Fosse o que fosse que ela quisesse falar comigo na altura, assumi que não devesse ser assim tão urgente, devido ao facto de ela nem ter insistido sobre o assunto e começar a falar de doramas. Talvez só quisesse mesmo passar algum tempo comigo, mas já nos íamos ver dois dias depois, na escola e, eventualmente, no trabalho, então preferi não me preocupar demasiado com aquilo, naquele momento. Decidi então voltar para a sala de estar, onde reparei que já tinham acabado a conversa e apenas estavam à minha espera para sair.

— Acabei por perder a informação toda... — comentei.

— Ah, não te preocupes, não falei nada demais. O mais importante já expliquei no início. Quando saíste, apenas fiquei a responder às intermináveis questões da Manaka, a rapariga mais curiosa que alguma vez já conheci... Talvez até cusca demais!

— Hey! — reclamou a Manaka, rindo juntamente com a Sara.

— Tenho fome. — interrompeu o Hikari — Vamos a algum sítio almoçar? Eu conheço uma pizzaria muito barata aqui perto! O problema é que se não formos já, vai ter imensa fila…

— Pizza! – exclamei em coro com a Manaka.

Enquanto seguíamos caminho até à tal pizzaria, seguindo o Hikari, eu ia observando um pouco a Sara. Embora ainda achasse que ela tinha muitos segredos, decidi não investigar mais naquele momento. O que ela revelou, já esclarecia bastante sobre nós mesmos e sobre a nossa espécie. Ela parecia ser uma pessoa generosa e disposta a ajudar.

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— Hmm! Está tão boa! Pizza com ananás é definitivamente superior!

— Manaka, ananás é bom, mas... não na pizza…

— Já vai começar…

— Cala-te, Ichiro! A Akaluri é que não sabe apreciar as coisas boas que a pizza tem para nos oferecer. Cogumelos na pizza é que são realmente horríveis, não ananás! Tens noção que estás a comer fungos?!

De repente, a Manaka ficou paralisada a olhar para a Sara. Ouvindo uns pequenos risos vindo dela, olhei para ela também, tentando entender qual era o problema. Ela estava com a cabeça virada um bocado para baixo, o que fazia com que o seu cabelo ficasse a tapar-lhe mais de metade da sua cara, dando-lhe um ar ligeiramente assustador. Os seus baixos risos de tom maléfico iam aumentando o volume cada vez mais, até que a Sara ergueu uma fatia da sua pizza e exclamou:

— A minha pizza tem ananás e cogumelos!

— Oh não...! — dissemos eu e a Manaka, em coro — Não podes fazer isso!

Ela deu uma determinada mordida na pizza, com cara satisfeita. Como sempre, o Ichiro apenas ia acompanhando a diversão sem demonstrar muito interesse, quase sem mudar a sua expressão neutra. Entretanto, o Hikari ia participando connosco e, no fim, acabamos por ter um bom e divertido almoço de debate. No final, dividimos a conta e saímos da pizzaria, voltando ao nosso objetivo inicial: ir em direção ao centro da cidade para passear! E enquanto íamos conversando, eu tipicamente sugeri passarmos pelo meu parque favorito, mais uma vez. Parecia estar um bom tempo, então queria aproveitar para ver as magníficas plantas que lá havia, pois talvez me inspirasse para desenhar algo mais tarde.

Quando já caminhávamos durante algum tempo, avistei ao longe um rapaz, que parecia imerso no seu próprio mundo, vestido com roupas escuras que se ajustavam ao seu corpo de forma discreta, mas elegante. Ele segurava uma máquina fotográfica ao peito, um modelo vintage que parecia tão cuidadosamente escolhido quanto o seu próprio estilo. De tempos em tempos, ele levantava a camara ao rosto, para tirar fotografias. Os seus gestos eram precisos e quase até majestosos, como se cada clique fosse uma obra de arte em si. A sua pele era clara, quase pálida, contrastando fortemente com o tom negro intenso do seu cabelo, que caía em madeixas ligeiramente desarrumadas sobre a testa. A sua franja, um pouco longa e espessa, escondia-lhe o olho esquerdo, dando-lhe um ar misterioso e distante. Por um breve momento, senti que os nossos olhares se cruzaram, acidentalmente. Embaraçada por ter fixado um desconhecido, desviei o olhar para as lindas rosas em flor que estavam no solo, ao pé de mim.

— Estás muito calada, Akaluri. – comentou a Manaka.

— Oh, nem reparei! Estava apenas a observar aqui à volta…

— Gostas mesmo deste parque! Não importa o número de vezes venhas aqui, acabas sempre por te perder dentro da tua cabeça assim que chegas cá; especialmente ao ver as rosas, é claro.

Eu ri com o que a Manaka havia dito, mas, por acaso, ela não estava nada errada. Num ambiente daqueles, era fácil eu me concentrar noutro tipo de coisas que me deixassem um pouco "na lua", como se costuma dizer. Passado pouco tempo, dei por mim instintivamente à procura do mesmo rapaz, outra vez. No entanto, apenas o voltei a ver já de costas, dirigindo-se para outro sítio do parque. Parecia ser alguém tão interessante... Para onde se dirigia ele naquele momento?

Entretanto, já nos havíamos todos sentado nuns bancos do parque, enquando saboreávamos um delicioso Bubble Tea, comprado num stand mesmo ao pé. Olhando para o chão à procura de mais flores, reparei numa linda pena preta pousada mesmo em frente aos meus pés, a qual decidi pegar, para guardar por entre as páginas do meu sketchbook .

— Porque estás a guardar essa pena? – perguntou o Ichiro.

— Achei-a mesmo bonita… — disse, voltando a pegar nela — Nunca vi uma assim! Talvez me inspire, quem sabe.

— É mesmo gira! — comentou a Manaka – Depois quero ver o desenho que vais fazer!

— Claro! – eu ri – Eu depois mostro, quando desenhar algo.

De repente, a Sara pousou o copo de plástico vazio no colo, virando-se para nós.

— Olhem… — disse ela — Obrigada por passarem tempo comigo.

— Não tens que agradecer! – respondi. — Nós gostamos da tua companhia…

— Eu nunca tive pessoas assim a meu lado, com quem pudesse rir e divertir-me desta forma… — ela respirou fundo — Então, embora saiba que me tenha intrometido um pouco forçadamente, eu agradeço serem assim tão simpáticos, a sério.

— Oh, vá, não precisas de fazer esse discurso todo! — acrescentou o Hikari — Já somos praticamente amigos, só temos que nos conhecer melhor, mais nada! Vais ver que estaremos aqui para te fazer companhia e te ouvir, à vontade.

— Mas porque é que sentes essa necessidade de nos agradecer assim dessa forma, Sara?

— Sabem... A verdade é que, desde pequena, que toda a gente a minha volta me julgava e me achava estranha, porque eu conseguia sempre adivinhar as respostas a imensas perguntas e ganhar quase todos os jogos de sorte ou estratégia, contra alguém... E, mesmo quando tentava explicar, de alguma forma, maior parte das pessoas que tinham uma leve noção ou suspeitavam dos poderes que tinha, ainda se afastavam mais.... Eu apenas senti que talvez tivesse uma oportunidade de ser tua amiga, Akaluri. Quando descobri que também eras diferente, pensei que me ias compreender, melhor do que ninguém... mas vejo que, felizmente, nem tu estás sozinha nisso.

— Eu compreendo perfeitamente como te sentes... — respondi — No entanto, do meu lado, não é bem assim como pensas, só mais recentemente, assim como tu... De qualquer das formas, se precisares de algo, estou aqui, ok? Não tens que te preocupar com o passado.

A Sara abraçou-me com força, agradecendo-me mais uma vez. Eu realmente não achava que tinha feito grande coisa para merecer um agradecimento daquele tamanho, especialmente tendo em conta que só nos conhecíamos há pouquíssimo tempo. No entanto, entendia perfeitamente bem como ela se sentia e também tinha a leve sensação que, dali em diante, iríamos ter uma boa amizade.

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Passado uns dias, ao fim das aulas, saí da escola juntamente com a Naomi, a Sara e o Hikari, em direção ao café. Sentia-me um pouco nervosa, porque não sabia como ia correr o nosso primeiro dia no trabalho, mesmo que fossemos apenas ajudantes. No entanto, o facto de estar com amigos já me tirava muito receio. Quando chegámos, a Manaka apresentou o Hikari e a Sara aos colegas, porque, como eu e a Naomi éramos clientes regulares, toda a gente já nos conhecia no café.

— Então podemos já começar a decidir as coisas! – exclamou a Manaka, animada — A Naomi deu a ideia de termos o mesmo uniforme, mas de cores diferentes!

— Isso até é uma boa ideia... — comentou o Ren, que, sem contar connosco, era o mais novo empregado.

— Por enquanto, só temos dois uniformes diferentes: o masculino e o feminino… — disse a Diah, uma das cozinheiras — Não diferem muito uns dos outros, nem na cor. É tudo azul-escuro com um avental branco e luvas. Confesso que não os acho muito interessantes...

— Podíamos também fazer turnos na parte do karaoke! — sugeriu a Yuka, que costumava ficar ao balcão.

— Sim! — Concordou a Manaka.

— Para não ser injusto, podíamos também escolher uma hora específica, onde cada um de nós cantava uma vez, em dias diferentes. — disse o Kei, o outro habitual cozinheiro.

— Exato! — concordou a Yuka, ajeitando os seus óculos — E, se quisessem, os clientes podiam também usar o karaoke durante o resto do dia! Cada um pagava uma pequena quantia de dinheiro para ter um lugar. Talvez possa servir como uma forma de encorajamento, para aspirantes a cantoras poderem começar a mostrar o que valem!

— Ótimo! Estou a anotar tudo. Mais alguma sugestão? — perguntou a Manaka, sem obter qualquer resposta. — Ok, então assumo que seja tudo, por enquanto! Vou mostrar as ideias ao senhor Muranishi e falar com ele. Entretanto, organizem-se e comecem a trabalhar, que eu já vou também!

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Depois de nos organizarmos, acabei por ficar na cozinha juntamente com a Naomi, o Kei, a Yuka e a Diah. Cada um tinha coisas diferentes para fazer, naturalmente.

— Ah, pois é! — exclamei enquanto batia uns ovos — Desculpa por não ter podido estar contigo no sábado Naomi, mas eu…

— Eu sei que estiveste com a Sara e com os outros.

— Ah… Ela disse-te?

De repente alguém abriu a porta da cozinha.

— Akaluri! — chamou a Manaka — Precisamos de ti no karaoke!

— Eu? Cantar? Já?!

— Sim! Anda! O senhor Muranishi aceitou a ideia e disse que podíamos começar já!

— Não sei… A Naomi canta muito melhor que eu…

— Mas é por ordem alfabética, por isso começas tu! Outro dia será a Naomi.

Fiquei algum tempo a refletir se devia mesmo ir. Eu não queria estragar o ambiente do café com a minha voz, pois não achava que tinha grande jeito para cantar. Pior que isso, é que eu tinha um medo terrível de cantar (ou até mesmo só falar) em público, o que não facilitou a minha causa. Cada vez que me encontrava em palco, ficava nervosa e com o corpo a tremer. Mas, mesmo assim, achei que talvez fosse bom fazer um esforço… Achei que, se explicasse aos clientes, eles iam ter isso em consideração, aliás, era só uma forma de diversão e entretenimento... Não era muito de esperar por ninguém que uma simples ajudante empregada de café cantasse profissionalmente bem.

— Eu vou. — disse, embora insegura.

Pousei a taça com os ovos batidos e fui em direção à porta, mas algo me fez tropeçar no caminho. Para me apoiar, pousei rapidamente a mão na primeira mesa que alcancei enquanto caía, mas, com a minha falta de pontaria e grande azar acabei por pousar a mão precisamente na ponta de uma grande taça que acabou por saltar e virar em cima de mim, deixando-me toda peganhenta, coberta de uma deliciosa massa de chocolate para bolo.

— Bem… parece que hoje não vais ser mesmo tu a cantar afinal! — disse a Manaka, rindo.

— Pois… — suspirei, embora fosse de alívio.

— Vai a Diah, então... Enquanto isso, vai à casa de banho dos funcionários. Tem lá um chuveiro e umas mudas de roupa para este tipo de acidentes! Naomi, não te importas só de limpar o chão enquanto ela se vai trocar, por favor?

Depois de tomar um duche e me vestir novamente, fui para a cozinha, onde vi que a Sara tinha substituído o meu lugar.

— Para onde vou agora, Sara? – perguntei-lhe.

— A Manaka disse para ires servir às mesas.

Fui para perto do balcão, à espera que alguém quisesse fazer um pedido, ou que entrassem no café. Passado pouco tempo, notei que entrou uma rapariga encantadora, à qual me dirigi de imediato, levando-a para uma mesa disponível. Ela tinha longos cabelos rosa, cuja cor vibrante parecia diretamente saída de um livro de fantasia. Os seus lindos olhos arredondados, que cintilavam num tom vermelho suave, tinham um brilho quase mágico, tornando quase difícil acreditar que eram reais. Ela usava um estilo de roupa mais grunge , que adicionava um toque de realismo e rebeldia ao seu aspeto fantasioso.

— Boa tarde! – disse, com um sorriso — Já sabe qual vai ser o seu pedido?

— Hm… — respondeu, pensativa — Ainda não sei… Alguma sugestão?

— Não quer provar uma das nossas pequenas tartes de morango? São muito boas e acabaram de ser feitas agora!

— Pode ser. E um batido de baunilha também, por favor.

— É para já!

Fui fazer o tal batido no balcão e coloquei tudo num tabuleiro. Antes que pudesse entregá-lo, fui interrompida pela mão da Manaka, a tocar-me no ombro.

— Akaluri, essa rapariga parece ser uma de nós. Eu não consigo ler a mente dela.

— O facto de a tua capacidade ser limitada, ajuda mesmo para distinguir as pessoas…

— Sim… Mas tem cuidado! Não sei se ela tem capacidades como a minha. Vê se consegues arranjar uma desculpa para começarem uma conversa, pode ser? Qualquer coisa, mantém-me informada.

Quando cheguei à mesa, notei que ela estava entretida a escrever nas linhas de um pequeno caderno de argolas.

— Aqui está. — anunciei, pousando o que ela pedira.

— Obrigada.

Reparei que ela tinha uma voz bonita e característica, então pensei em sugerir-lhe o karaoke, para poder começar uma conversa com ela.

— Por acaso, não quer experimentar o nosso karaoke? É livre a partir das três até às seis da tarde! Apenas tem que fazer inscrição e…

— Não posso. — ela bebeu um pouco do batido e pegou novamente no seu lápis — Só vim lanchar rápido, na minha pausa. Tenho que ir trabalhar…

— É uma pena…- suspirei — Mas, bom apetite!

Sendo que não a queria incomodar e não me ocorria nenhuma outra ideia, dirigi-me novamente ao balcão para falar com a Manaka sobre a minha tentativa falhada de criar uma conversa.

— Então, Akaluri, conseguiste?

— Não… Ela também estava com pressa para ir trabalhar, então…

De repente, a Naomi apareceu com vários queques acabados de fazer, para colocar na vitrina do balcão.

— Naomi… — chamei, sendo totalmente ignorada.

Perguntei-me o que é que se podia passar com ela e porque é que ela me estava a tratar daquela maneira. Sentia-me completamente estúpida... Talvez devesse ter referido o assunto mais cedo na escola e não apenas lembrar-me de lhe dizer algo aleatoriamente na cozinha… Eu não sabia se ela estava bem, se calhar a Naomi precisava mesmo de falar comigo e não apenas passar um tempo entre amigas. Devia ter-lhe dado mais atenção e ter agido mais corretamente, como qualquer amiga teria feito no meu lugar.

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Maior parte dos nossos colegas foram embora, então, como já passava da hora, fechamos o café. Ao acabar o fecho, relembrei-me que a Naomi tinha saído com muita pressa, exatamente à hora de fim de trabalho… Ela não quis ficar nem mais um pouco para fechar o café connosco, nem para falarmos. Não sabia se ela andava ocupada ou se estava apenas chateada comigo… Olhei então a meu redor à procura do Hikari, que estava ao pé da saída, a conversar com o Ren.

— Hikari! — exclamei, agarrando-lhe o braço — Vamos?

— Está bem. — ele sorriu — Adeus, Ren!

— Xau, fica bem! – respondeu ele.

Fui caminhando de braço dado com o Hikari, até que ele perguntou:

— Então, Akaluri, tens pressa para ir a algum lado, é isso?

— Não particularmente, porquê?

— Vieste a correr ter comigo e a dizer para irmos embora, quase a puxar-me pelo braço…

— Ah, desculpa… — respondi, embaraçada — Eu estava a pensar em ir ter com a Naomi, mas não sei se ela está ocupada.

— Porque não lhe ligas ou mandas mensagem?

— Como não tenho a certeza se ela está só ocupada ou mesmo chateada comigo, não sei se seria boa ideia. Para além do mais, ela ignorou-me o dia todo, por isso duvido que me responda pelo telemóvel. Estava a pensar em ir até à casa dela, mas não queria ir sozinha até lá, é um pouco longe para ir a pé...

— Até gostava de ir contigo, mas acho que isso é um assunto a tratar entre vocês. Se não for nada demais, sempre podes contar-me tudo no final! — ele sorriu — Talvez esteja simplesmente a ser um mal-entendido. Às vezes, julgas este tipo de situações muito rápido, tens que ter mais calma e paciência.

— Isso é só porque tenho sempre medo de ter feito algo de errado... Prefiro concertar as coisas o quanto antes.

— Eu sei… Eu também era assim, ansioso. Só que, às vezes, é melhor deixar as coisas acalmarem um pouco primeiro.

— Tu mudaste em muitas coisas, Hikari. Desde que voltaste, reparei que cresceste tanto… — comentei, relembrando-me do quão caótico e impaciente ele era anteriormente — Mas continuas mais pequeno que eu em tamanho!

— Oh… — ele olhou para o lado, rindo.

— Vá, não te preocupes... Agora somos quase da mesma altura!

— Quase! — ele sorriu — Bem, vemo-nos na escola... mas agora vai para casa, está bem? Amanhã vais ter outra oportunidade para falar com a Naomi.

— Ok… Só espero que não seja nada mau.

Após hesitarmos um pouco em ir embora, o Hikari aproximou-se de mim e envolveu-me num abraço. Os seus braços, embora frios, eram surpreendentemente reconfortantes. Aquele forte abraço durou uns longos segundos, mas pareceu durar uma eternidade, como se a saudade que sentíamos um do outro nunca pudesse ser completamente saciada. Aquele pequeno, mas doce gesto de carinho vindo da sua parte, fez-me sentir um pouco mais sossegada em relação a tudo.

— Não penses muito nisso. — disse ele, deslizando lentamente as mãos pelos meus braços, enquanto se afastava — Agora vamos embora.

Voltando a aproximar-se de mim, ele inclinou-se e deu-me um pequeno beijo na bochecha, como despedida.

— Adeus… — murmurei, acenando enquanto ele ia embora.

Há muito tempo que não recebia um abraço assim do Hikari; alias, era raro eu receber assim um abraço tão genuíno de alguém. Senti que todo tempo que nos separou só me fez perceber melhor o valor que pequenos momentos como aquele podiam ter. Aquele abraço foi como um lembrete para mim, de como laços verdadeiros simplesmente não se desvanecem, independentemente do tempo ou da distância. Sentir novamente a sua presença, deixava-me profundamente feliz. O Hikari sempre foi alguém especial para mim, um amigo muito próximo, que estava presente na minha vida até antes de eu conhecer a Naomi. Questionava-me se era normal sentir-me tão à vontade e conectada com ele, mesmo depois de tanto tempo sem nos encontrarmos... Questionava-me também se, por acaso, ele sentiria o mesmo que eu.