Akaluri - Parte 1
7 Algumas revelações
Já tinha caído a noite no dia do meu aniversário, a 21 de outubro. Uma feliz coincidência fez com que a minha mãe e o meu padrasto fossem juntos numa viagem de negócios, durante dois dias. Eles partiram logo após o almoço, o que me deixou com a casa livre desde então. Aproveitei a oportunidade e organizei uma festa de pijama com os meus amigos: a Manaka, a Sara, a Naomi, o Hikari e o Ryuu, para celebrarmos juntos os meus 17 anos.
- Isso é mentira! — exclamou a Naomi, batendo com a mão no chão — Tens que responder a verdade, Hikari. Gostas da Akaluri ou não?
- É claro que eu gosto dela, mas não é da forma que estás a pensar…
- Naomi, deixa-o estar… Ele não está a mentir!
- Hmm… E como é tu que podes ter tanta certeza, Sara?
- Instintos. – respondeu ela, encolhendo os ombros.
- Vamos continuar a jogar! — insistiu a Manaka.
O Hikari pousou a mão na reluzente garrafa de vidro e girou-a, no final ficando com a abertura virada para a Sara.
- Escolho... verdade!
- Se tivesses que escolher um de nós para ser teu criado, quem seria e porquê? – perguntou ele.
- Mas que pergunta é essa?!
O Hikari desatou a rir, juntamente com a Sara.
- Hm… Talvez a Naomi.
- Eu?! — perguntou ela, espantada — Porquê?
- Bem... Tu sabes fazer muitas coisas diferentes! — explicou a Sara, sorrindo — Então até me dava jeito ter uma ajuda tua.
- Ah! Então é só porque te queres aproveitar de mim e das minhas habilidades! Que oportunista...
- Mas é claro! — exclamou a Sara, com um tom de brincadeira.
Daquela vez, foi ela a girar a garrafa de vidro que estava pousada no chão, acabando por ficar com a abertura virada para mim. Com um pouco de receio pelo sorriso malvado que a Sara fazia ao olhar para mim, deduzi que talvez ela tivesse uma pergunta embaraçosa em mente, então, achei melhor não escolher “verdade”. A Sara começou a olhar em volta, enquanto pensava em alguma ideia para a consequência.
- Quando o Ryuu chegar cá para a festa, desafio-te a fazê-lo pensar que queres estar a sós com ele aqui no quarto, para fazerem outra coisa, se é que me entendes... Mas depois, não fazes nada!
- Como assim?! — retorqui, já sentindo o rosto a aquecer com a sugestão.
- Tu é que escolheste consequência!
- E não tenho outras opções? Eu não quero enganá-lo assim… — repliquei, desconfortável com a ideia.
- Vá, não sejas desmancha prazeres! — comentou a Naomi — É só um jogo, depois podes explicar-lhe.
- Aposto que ele vai cair que nem um patinho! – acrescentou o Hikari.
- Hmm... Ok. Mas como esta consequência é só para mais tarde, vamos pelo menos continuar o jogo… – disse, hesitante, colocando a mão sobre a garrafa para a girar.
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De repente, ouvimos o som de ramos de árvore, que se mexiam lá fora.
- Ele vem pela varanda outra vez?!
- Como assim, outra vez?! – perguntou-me a Naomi, indignada.
- É uma longa história…
- Rápido, escondam-se todos! — exclamou ela, com um brilho nos olhos — Não te vais escapar da consequência, Akaluri!
Num instante, todos saíram do quarto, encostando-se à porta para poderem ouvir o que se passava. Depois, mesmo estando muito nervosa, abri a janela e estendi a mão para o Ryuu, que tinha acabado de subir a árvore. Ajudei-o a entrar no meu quarto.
- Happy birthday! – exclamou ele.
- Obrigada. – respondi, tentando controlar a voz — Pelos vistos sempre se pode julgar um peixe pela sua capacidade de subir árvores.
- Eu sou um peixe especial. – respondeu, piscando-me o olho — Desculpa só poder ter vindo agora, tinha estudos para adiantar, mas… Então? Estás aqui sozinha? Onde estão os outros?
- Eu pedi para eles irem para a sala, lá em baixo, porque... ahm... notei que estavas a chegar aqui... — as palavras saíam-me hesitantes, como se procurassem onde se esconder.
- Oh. Porquê?
- Porque eu… bem… como hoje é o meu aniversário... eu queria aproveitar para ter um momento mais... íntimo, contigo… Entendes? — as palavras quase já não saíam mais, e sentia as bochechas a arder.
- U-um momento intimo? Como assim?
- Vem comigo… — disse, segurando-lhe a mão e levando-o até à minha cama, onde nos sentámos lado a lado — Sabes, temos passado tanto tempo juntos e falado sobre tantas coisas... Tens-me ajudado imenso…
- Tu também estás sempre aqui para mim. — ele abraçou-me — Obrigado.
- E bem… então eu… acho que hoje podemos... dar um passo em frente. — disse, sentindo a minha voz tremer com o desconforto.
- Tens a certeza?
Eu acenei com a cabeça de modo a confirmar, visto que era inútil tentar falar mais alguma coisa, pois não iria conseguir. O Ryuu começou então a aproximar-se lentamente de mim, cerrando os olhos. Enquanto isso, eu baixei-me e peguei na garrafa que usamos para jogar, que estava ainda pousada no chão, para quebrar o momento.
- Acho que chegou a altura de dormires em minha casa.
- Huh?! Espera... Era só isso que me querias dizer? Eu pensei que tu estavas a sugerir que nós… — ele parou, atónito, enquanto ambos ouvíamos risos incontroláveis do outro lado da porta – Eles não estavam lá em baixo?
- Hm… A verdade é que…
- Não aguento mais! — exclamou a Naomi, perdida de riso, enquanto abria a porta — Não acredito que ele caiu assim! Isto foi tão estúpido! Nem a mim me estavas a convencer, Akaluri!
Todos entraram novamente no meu quarto, deixando o Ryuu ainda mais confuso.
- Mas o que…
- Não te preocupes! – interrompi apressadamente — Eu não queria ser má contigo ou enganar-te... E-era tudo uma consequência de um jogo e… Mas que ideia foi a tua, Sara?!
- Na verdade, eu pensei que ele nem ia acreditar e que no final só nos íamos rir da tua tentativa, mais nada!
Através da sua expressão entristecida, o Ryuu parecia-me desiludido e até ligeiramente embaraçado, o que me fez sentir ainda mais culpada.
- Desculpa, Ryuu… Espero que não leves a mal. Pelo menos agora juntas-te a nós, para festejar… — disse, abraçando-o.
- Pois… — respondeu ele, afastando-se um pouco — Confesso que não gostei muito, mas... Não faz mal, era só uma brincadeira.
- Olhem, e se fôssemos ver um filme e comer algo? — sugeriu a Naomi — Estou cheia de fome!
- Sim! — afirmou a Manaka.
Fomos todos para a cozinha, onde lá pegamos em pacotes de bolachas, batatas fritas, latas de bebida, gomas… Basicamente tudo aquilo que encontrávamos que fosse adequado para aquela pequena festa. No final, levamos tudo para a sala e começamos a petiscar aleatoriamente enquanto escolhíamos um filme.
- É desta que vamos mesmo engordar. — brincou o Hikari.
- Ainda bem que cada um de nós trouxe algo consigo, senão acabávamos com a comida toda da casa da Akaluri! – comentou a Sara.
De repente, ouvi um estranho barulho vindo de lá de fora.
- Mais ninguém ouviu isto? — disse, fazendo com que todos se calassem.
Durante uns segundos, ficaram todos em silêncio, onde apenas se conseguia ouvir ligeiramente a respiração de cada um. Estávamos imóveis, sentados no chão, com garrafas de bebida e taças de comida à nossa volta, mas, mesmo depois de algum tempo, continuava sem se ouvir nada de incomum.
- Só nos queres assustar.
- Porque é que eu faria isso, Naomi? Eu estou a falar a sério… Eu ouvi mesmo algo…
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- Akaluri. — ouvi uma voz a chamar.
- Quem me chamou? — perguntei.
Ainda sentados lado a lado, decidimos pausar o filme durante uns instantes.
- Acho que ninguém te chamou, Akaluri. — respondeu a Manaka.
- Hm… Eu tenho bem a impressão que sim…
Decidi simplesmente ignorar o que tinha ouvido e continuei a ver o filme, até acontecer outra vez o mesmo.
- Akaluri, vem.
- Parem de brincar comigo! – exclamei — Quem me está a chamar?
- Ninguém! — respondeu a Naomi.
O Hikari não conseguia conter o riso.
- Tu estás completamente maluca, Akaluri!
- Oh… — suspirei — Se calhar tenho sono ou assim…
- Akaluri, estou no jardim, vem. — ouvi novamente.
Daquela vez, decidi não dizer nada sobre ter ouvido mais uma vez a mesma voz. De facto, não me parecia ser a voz de ninguém que estava na sala, mas sim de outra pessoa, que já suspeitava quem fosse.
- Eu já volto. – afirmei.
Levantei-me e fui para a cozinha, onde havia uma porta que dava acesso ao jardim. Antes de sair, peguei numa navalha, por segurança.
- Finalmente.
- Eu sabia que eras tu Hyuna. — disse, um pouco enervada — Só tu podias conseguir falar assim na cabeça das pessoas. O que é que queres?
- Tem calma e pousa essa navalha. Eu não te vou fazer nada.
- Não quero saber se me vais fazer algo ou não! Já não achas mais que suficiente tudo aquilo que fizeste aos outros?! Tu quase mataste aquele rapaz quando o atiraste para o apartamento! E aquele homem no parque? Ele não apareceu morto sozinho!
- Eu tenho motivos para fazer o que faço.
- Será que tens mesmo? Pois eu não acho que qualquer motivo seja forte o suficiente para matar alguém.
- Que boa pessoa que és, muito engraçada. Vê-se que não passaste nem por metade daquilo que eu já passei.
- E então?! Isso não me impede de ter cabeça e pensar. Se dizes que tens motivos, então deve ser porque eles fizeram algo de mal e não simplesmente porque te apetece. Eu penso que quem pratica o mal merece ser prejudicado por isso, mas não acho que a morte seja um castigo válido ou justo.
- Parabéns pelas tuas palavras inspiradoras, mas eu não matei aquele homem no parque.
- Então o que estavas lá a fazer?!
- Ele suicidou-se e eu apenas estava lá a observar, por isso é que também fiquei suja.
- Como é que tu sabias que ele se ia suicidar? E porque é que irias querer assistir casualmente a uma coisa dessas?!
A Hyuna suspirou, mudando de assunto.
- Eu só vim aqui pedir para me deixares em paz. É chato que, quando quero fazer algo que tenha a ver com a minha vida, tu e os teus amigos acabam por se meter no meio.
- E porque é que havíamos de deixar uma pessoa como tu em paz?
- Exatamente porque sou perigosa e não acho que me deviam enervar, senão… — ela sorriu, e de repente, senti uma enorme dor de cabeça, deixando-me com tonturas, até eu cair no chão e a dor finalmente parar — Bem, deixo isto como um aviso.
- Não vais embora assim!
- E quem me impede?
- Eu. — levantei-me, a seguir transformando-me — Não quero que perturbes mais ninguém! Só quero que pares com isto.
- E o que vais fazer? — ela riu — Miar? Ou preferes arranhar-me, outra vez? Olha, é assim, eu só vim aqui para falar contigo, por isso não venhas com as tuas tretas de heroína e defensora da paz. Eu estou transformada, não para lutar contigo, mas porque tu ainda não sabes qual é a minha outra forma, contrariamente a mim, que sei bem quem tu és e tudo aquilo que fazes. Se eu quisesse, não era aqui que acabava contigo.
- Como é que posso ter a certeza que não estás a mentir?
- Eu sei que estudas artes visuais e andas na mesma escola que todos os teus amigos, menos a Manaka, que também andou lá antes, mas agora está na universidade, a estudar biologia. Todos vocês trabalham no mesmo maid café.
- Mas o que…
- Eu podia apanhar-te sozinha a qualquer altura, mas não vejo motivos para o fazer, sendo que nunca fizeste nada de mal. Como eu disse, apenas vim aqui dar um aviso e esclarecer umas coisas contigo.
- Fala.
- Eu apenas faço o que faço por motivos pessoais, nunca faria mal a alguém sem razão, por mais que não consigas acreditar nisso. Aquele rapazinho que já viste duas vezes, chama-se Hideki. Ele era o melhor amigo do irmão do Ichiro, aquele que o Hideki diz que se "suicidou por nossa culpa", ou seja, supostamente, por minha culpa e do Ichiro.
- O Ichiro tem um irmão?!
- Tinha. O irmão do Ichiro era o meu namorado.
- Então foi assim que vocês se conheceram.
- Podemos dizer que sim. — ela ficou em silêncio uns segundos — O irmão do Ichiro chamava-se Shinji e foi encontrado morto há dois anos atrás, ao lado do chafariz, no parque. A investigação do caso concluiu que foi um suicídio, sendo assim, o Hideki mandou as culpas para mim e para o Ichiro, como sendo os motivos principais do Shinji ter tomado essa decisão. Desde então, ele não para de nos incomodar e tentar magoar-nos.
- Eu nunca soube de nada disso…
- Talvez seja o momento de saberes.
- Se não foi por vossa culpa, como o Hideki pensa, então porque é que o Shinji se suicidou?!
- Não toques nela! — exclamou o Ryuu, enquanto corria para se pôr à minha frente, transformando-se — Vai embora.
- Que cavalheiro. Obrigada pela oportunidade! — disse a Hyuna, simplesmente indo-se embora.
- Fogo… — reclamei, deixando-me cair de joelhos na relva – Ela não me estava a fazer nada! E era agora que eu ia descobrir tudo… Porque é que fizeste isso?!
- Por acaso estás atenta quando temos conversas?! Ainda naquele dia quando fomos ao restaurante estávamos a falar sobre o facto de ela nos conseguir atacar com uma certa longitude, mas nós só podemos usar ataques físicos! Para de pensar que és a heroína que vai salvar toda a gente, isso não é a realidade. Tu não vais conseguir pará-la sozinha e sabes muito bem disso.
Ao ouvir o que ele disse, dei-me conta que era verdade. Eu não podia fazer nada contra a Hyuna, não era boa o suficiente, muito menos sem um plano. Nunca iria conseguir apanhá-la por mim mesma.
- Mas ela não ia fazer nada… — disse, suspirando.
- Desculpa se foi bruto ao falar. Eu sei que és sensível e ela sabe bem brincar com a mente das pessoas. Não é só porque ela não te atacou até agora, que significa que não o fosse fazer depois. Sabes lá se as coisas que ela te disse são verdade ou não! Afinal de contas, ela é um demónio. Vamos lá para dentro continuar a ver o filme e aproveitar o resto da noite em condições, sim?
Estava tudo muito bem estruturado para ser uma mentira, aliás, também era muito fácil confirmar a verdade: era só perguntar ao Ichiro. Sem dizer uma palavra, sentei-me e continuei a ver o filme com todos, não conseguindo tirar da minha cabeça o que a Hyuna tinha dito. Decidi então enviar uma mensagem ao Ichiro: "É verdade que tinhas um irmão?". Pouco depois, eu olhei para as horas e vi que já passava das três da manhã, por isso, ele era capaz de estar a dormir. Pensando que ele me ia responder muito provavelmente antes de eu acordar, pude continuar a ver o filme ligeiramente mais descansada, mas ainda a pensar no que tinha acontecido com a Hyuna.
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- Bom dia! — exclamaram o Hikari e a Sara, rindo — Já temos o pequeno-almoço pronto para todos!
- Não… deixem-me dormir mais um bocadinho… — disse a Manaka, cobrindo a cabeça com a manta.
- Eu estava a dormir tão bem… — reclamou a Naomi, deitada ao meu lado.
- Levantem-se ou as torradas vão ficar frias!
- Há coisas mais importantes que as torradas, Hikari… — respondeu a Naomi — Dormir é uma delas…
- Bem, eu confesso que tenho fome, por isso…
O Ryuu levantou-se e foi para a cozinha, seguido pela Sara e pelo Hikari.
- Esperem, eu vou também. – disse, levantando-me.
Enquanto tomava o pequeno-almoço, verifiquei se o Ichiro tinha respondido. Aí, reparei que tinha duas mensagens ainda não lidas: "Como é que tu sabes disso?" e "Foi a Hyuna?!", às quais eu respondi "Sim, foi ela que me contou. Mas não contou tudo, eu gostava de saber o que aconteceu exatamente, se me puderes contar. Porque é que o Shinji se suicidou?". Pousei então o telemóvel e continuei a comer, pensando no que ele ia responder. Enquanto isso, a Naomi e a Manaka ficaram a dormir o tempo todo que estivemos a comer.
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Já se tinham passado alguns dias, mas o Ichiro nunca mais me respondia às últimas mensagens e eu nunca tinha nenhuma oportunidade de poder falar com ele pessoalmente. Também não queria estar a incomodar a Manaka, por isso, fiquei apenas à espera de uma oportunidade para estar com ele e conversarmos sobre o assunto. Entretanto, o professor que nos ocupava durante a tarde não estava presente, o que nos permitiu ir embora mais cedo da escola, nesse dia. Como era já habitual, meti os auriculares nos ouvidos enquanto saía da escola, ouvindo música no caminho até casa. No entanto, sentia-me bastante insegura, com receio que algo acontecesse. O vento frio que passava entre os meus longos cabelos brancos e quase me congelava as bochechas só piorava a situação, fazendo o fim do dia parecer um pouco mais sinistro. O que mais me deixava naquele estado, era o facto de pensar que Hyuna podia aparecer a qualquer momento, diante de mim. Sempre me havia mostrado desafiante em relação a ela, mas, depois da última vez que nos encontramos, não deixava de pensar que ela sabia em que escola eu andava, onde eu morava e onde eu trabalhava, por isso, não existia qualquer lado em que me pudesse sentir segura e completamente livre dela, principalmente estando sozinha.
Entrei em casa para me deparar com a minha mãe na sala, discutindo com o meu padrasto. Eu não estava com nenhuma vontade de me envolver na discussão, então cumprimentei-os sem tirar os auriculares e segui rapidamente para o meu quarto. Ouvi-los discutir já era o meu frio prato do dia, por isso, quanto menos soubesse sobre o que estavam a falar, melhor para todos. Passado algum tempo, recebi uma chamada inesperada do Ryuu.
- Sim?
- Akaluri! Olha… Queres vir comigo lanchar algo ao pé do parque? Não tenho nada que fazer e preciso de passear o meu cão, ele está mesmo animado para sair!
- Ok. Passas por aqui ou vou direta lá ter?
- Vai ter ao parque, é mais rápido assim. Até já!
Depois dele desligar a chamada, preparei a minha pequena bolsa e vesti o meu casaco azul-marinho, seguindo caminho para o parque. Como o apartamento do Ryuu ficava mais perto do parque do que a minha casa, ele já estava lá quando cheguei.
- Olá, Ryuu.
- Akaluri! — ele abraçou-me com entusiasmo.
Fomos os dois para o café mais próximo, juntamente com o Wolfo. Lá, sentamo-nos na parte exterior e pedimos dois crepes de chocolate e um sumo diferente para cada um. Enquanto comíamos, comecei a pensar em algo para lhe perguntar e criar conversa, acabando por me lembrar que não sabia quase nada sobre o seu passado. As coisas que o Ryuu me tinha contado sobre ele eram apenas mínimas, talvez porque eu nunca tinha perguntado algo especificamente.
- Ryuu… Estava a pensar sobre ti e... Reparei agora que quase não sei nada sobre o teu passado.
- Oh! Estás curiosa, é? O que gostavas de saber?
- A tua vida... Moras com os teus pais, com os teus tios ou com os teus avós? Tens irmãos? Há quanto tempo tens o Wolfo? Como era a tua vida na capital, antes de vires para aqui?
- Calma, calma! — interrompeu-me o Ryuu — Eu não disse nada porque pensava que não tinhas interesse no meu passado, mas vejo que sim!
- Claro! Quer dizer… Eu acho que sabes mais coisas sobre mim do que eu sobre ti.
- Talvez, então eu vou contar. — o Ryuu respirou profundamente, com um ar um pouco sério — Meço 176 centímetros atualmente. O meu nome completo é Ryuu Kin, que me foi dado oficialmente no dia do meu nascimento, a cinco de maio de…
- Oh, mas isso eu já sei! — interrompi, rindo.
Depois do Ryuu também se rir um pouco com a sua brincadeira, continuou a falar sobre si.
- Quando morava na capital, eu vivia com os meus avós. Vim para aqui porque eles faleceram, então estou atualmente a morar sozinho, no apartamento de férias da minha tia, que está quase sempre no estrangeiro.
- Peço desculpa se te forcei a contar coisas difíceis, não sabia que a tua vida era assim…
- Não há problema! Apesar de querer, eu não tenho mesmo uma família presente que se preocupe ativamente comigo, mas isso não significa que eu esteja mal, especialmente com amigos como tu e os outros.
- Obrigada… Mas e então os teus pais?
- Eles não tinham condições para cuidar de mim, então deixaram-me nas mãos dos meus avós.
- Ah, entendo…
- É um pouco complicado, mas… Continuando… Eu já tenho o Wolfo há três anos. Mesmo ele sendo o cão dos meus avós, sempre fui eu que passei mais tempo com ele e lhe dei nome, então é claro que ele é mais chegado a mim.
- Que querido!
- Isto está muito bom! – exclamou o Ryuu, depois de engolir mais um pedaço de crepe – Mas, quando és tu a preparar lá no café, são melhores. Há mais algo que queiras perguntar sobre mim, já agora?
- Qual achas que é o teu pior defeito?
- Hm… Talvez seja o facto de eu ser facilmente iludido.
Eu ri um pouco, lembrando-me daquela situação constrangedora que tinha acontecido no meu aniversário, mas preferi ficar calada.
- E a tua melhor qualidade?
- Engraçado, suponho. — ele piscou-me o olho, sorrindo — Mas olha que até posso ser bem sensível ou emocional às vezes, mesmo que não pareça… Apesar de não saber se isso é bem uma qualidade ou um defeito.
- Disso eu não tinha a certeza sobre ti, mas eu também sou assim, por isso entendo.
- Eu reparei. — ele sorriu, fazendo-me festas na cabeça.
- O Wolfo está a teu lado! — disse, arranjando o cabelo ligeiramente despenteado — É a ele que tens que dar festas!
- Eu sei, mas tu também merecias, Akaluri.
Para não ter que responder, eu peguei no meu batido e comecei a beber pela palhinha. Depois de conversarmos mais um pouco e acabarmos de comer tudo, fomos para a caixa de pagamento.
- Boa tarde! Vão pagar em conjunto ou separados?
- Eu pago. — disse o Ryuu.
- Não! — retorqui.
- Então boa sorte em encontrares a tua carteira!
- Mas o que… — procurei na minha bolsa e vi que não estava lá a minha carteira. Olhei de longe para a nossa mesa, confirmando assim que ela também não estava lá. — És tu que a tens?
- Lembras-te quando te abracei no parque, para te cumprimentar? — ele sorriu, enquanto entregava uma nota à senhora.
- Isso foi jogo sujo! Eu pensei que tinha sido um abraço sincero!
- Eu não disse que não foi um abraço sincero, apenas aproveitei para te tirar a carteira, para depois ser eu a pagar com o meu dinheiro.
- Eu pago da próxima vez…
Depois de sairmos do café, começamos a ir de volta para as nossas casas, visto que o Ryuu ainda tinha uma grande quantidade de coisas para fazer, assim como eu. Despedimo-nos novamente com um breve abraço e ambos seguimos caminho, quando foi necessário nos separarmos. Assim que cheguei a casa, deitei-me na cama, refletindo sobre a vida do Ryuu. Não fazia ideia que era assim tão complicada e não conseguia imaginar o que ele devia ter passado sem os pais, principalmente no momento em que os seus avós faleceram, deixando-o sem companhia. "Ele parece-me ser alguém muito forte, mas deve sentir-se tão sozinho…" , pensei.
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