Akai
10 Capítulo 9: Paint It Red
Notas iniciais
- O subtítulo não foi uma piadinha com a música Paint It Black - R. Stones. MAS veio bem a calhar... auhauhuahuha. Foi dedicado ao B.B e todo o seu conflito pessoal.
- Cap. ficou grandinho! E no final tem um pequeno extra. Mas não se iludam! auhauhaauhau, eu apenas estava com saudades de Matt e Mello juntos.
O trio se instalou num pequeno apartamento em Winchester, camuflado entre os prédios e comércio do centro. Dois quartos, uma sala minúscula, cozinha com a lavanderia acoplada e banheiro; o trunfo de algo tão esquecido era justamente isso, ser esquecido entre tantos outros imóveis chamativos ao redor.
Light usou o programa de Matt para estabelecer comunicação com Watari e se protegerem contra ameaças externas, caso B. viesse tentar encontrá-los. “Angel’s wing” era o nome dado pelo seu criador ao sistema mais perfeito – e complicado – que Light já vira na vida. Assim como sugere o nome, ter as asas de um anjo o permitiria ir tão longe quanto um humano jamais imaginou. Demorado cerca de 15 dias somente para entrar no sistema, ainda era óbvio que Light não tinha conseguido usar 1\\\\10 daquela tecnologia e se lamentava por ter perdido alguns dados para o sistema de defesa do próprio programa.
Por trás daquele semblante desleixado, os goggles exagerados e principalmente escondidos atrás dos controles de seus inúmeros videogames, Mail Jeevas era um verdadeiro gênio da computação.
- Vamos começar com a operação de resgate... _o moreno pousou o lápis na mesa e releu seu próprio relatório.
- Por que Beyond ainda não entrou em contato conosco? _um Light distraído com seu mais novo e inseparável computador, perguntou por mera curiosidade ganhando um olhar de desaprovação do marido que esperava total atenção do mesmo.
- B não trabalha com o tempo, para ele não existe dia, meses, dadas ou idade. Logo, o que para nós parece ser muito, para ele nem tanto.
- Unf... estranho mundo louco _murmurou em resposta.
De alguma forma Light pegara uma antipatia absurda por Beyond, o fato dele ser tão diferente, suas manias desumanas, tudo aquilo que se intitulava loucura. Para ele, não passava de frescura, pura e ridícula frescura de alguém doente por atenção; em seu mundo normal, B.B era algo tão lúdico que chegava a dar vontade de espancá-lo para apagar aquele sorriso amarelo de seu rosto – era com essa expressão que o jovem detetive imaginava o moreno.
Sentiu seu estômago embrulhar só de pensar em entrar no “ninho”, quantas bizarrices mais iria encontrar? Como se sentiria ao ver o semblante exato do marido com toda sua ironia?
- Tudo o que sei sobre Beyond acaba aqui, temos que observá-lo de perto se quisermos mais informações... mas enfim, sem querer dar cheque mate antes de proteger o rei. Não vamos poder usar nada de isca para atrair sua atenção, Light querido, você terá que entrar em contato com Matt sem deixar nenhuma evidência.
- Não duvide da minha capacidade _disse confiante cruzando os braços na altura do peito.
O loiro não foi escalado para falar com Matt logo de cara, pois isso causaria certa mudança de comportamento do ruivo – maior do que se fosse com outra pessoa qualquer – o mais neutro para situações assim era Light. Depois de obter as informações, o trio iria começar a agir agora com o “espião ruivo” (outro nome colocado por Mello) ao lado deles. O plano seguia perfeito, se...
Se Matt estiver em condições de falar, é claro.
Essa ultima consideração tirou o loiro da sua – falsa – calmaria por diversas vezes, bateu o pé dizendo que seu amado era tão forte quanto qualquer pessoa, que estaria bem para ajudá-los. No fundo, só queria evitar pensar o quão ruim poderia estar sua saúde física e mental. Isso o deixava tão desesperado quanto qualquer outra coisa, Byond pagaria por cada gota de sangue e lágrimas derramada.
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Matt abriu os olhos lentamente, novamente aquela sensação de vazio, como se estivesse vivendo numa sexta-feira sem fim. Não via a luz do sol há dias, talvez meses, sem nada para guiar o tempo seu ritmo biológico ficou descontrolado; dormia em espaços desregulados de tempo, não sabia se estava se alimentando três vezes ao dia ou se os banhos eram diários. Era como viver numa caverna, isolado de tudo e de todos.
De todos não, Beyond lhe fazia companhia que ultimamente tinha se tornado mais uma presença do que uma companhia propriamente dita. Os castigos tinham cessado a um bom tempo, não ouve mais socos, cortes ou estupro. As pessoas estranhas que serviam como capangas também não estavam mais lá, tudo o que restara era B. passando de um cômodo para o outro como um vulto.
O ruivo se limitava a ficar entre a suíte e a cozinha, duas portas a frente no final do corredor. Além, tinham mais três cômodos: o quarto de B. (provavelmente outra suíte), a minúscula sala e outro cômodo fechado que o mesmo desconhecia. Uma casa bem pequena, com todas as paredes na cor bege, exceto a sala que possuía uma única parede pintada em azul; as janelas todas decoradas com cortinas, que Matt descobrira mais tarde estarem fechadas por resistentes ripas de madeira.
Obviamente o moreno tomara o cuidado necessário par que sua vítima não fugisse, mas toda aquela escuridão estava fazendo o ruivo ficar desesperado. Não tinha notícias do mundo! Deus, se caísse uma bomba atômica iria morrer sem saber o motivo.
Se sentindo enfadado pela falta de exercício físico – não que antes disso fizesse algum, mas pelo menos transava com frequência e saia para fazer compras – se levantou indo lentamente para a sala, suspirou ao acender a luz e encontrar nada além da parede azul. Sentou-se no chão e passou a mão, distraído, em seu ferimento no ombro – o único ainda não cicatrizado 100%. Se Beyond não tivesse uma arma de fogo, poderia escapar daquele lugar em breve, uma luta corpo a corpo não parecia algo tão difícil assim, a alimentação razoável e o descanso fez com que recuperasse suas forças novamente.
Alias, o moreno não aparecia para falar consigo fazia um tempo, permanecia trancado em seu quarto. Lá de dentro apenas o silencio.
Esse era com certeza o cárcere mais bizarro que já vira.
A falta de nicotina estava começando a afetá-lo, depois de passado o desespero dos primeiros dias preso – e agora descansado e sem castigos – coisas triviais vinham com mais intensidade. A garganta seca e sua irritação por não ter os tão desejados cigarros eram apenas alguns dos sintomas mais presentes; o gosto do tabaco era tão viciante quanto aqueles lábios finos que tanto amava.
- Mel... _levou os dedos, inconsciente, á boca.
- Falando sozinho, Jeevas?
A voz rouca de Beyond o fez sair de seus devaneios, virou para trás assustado. Não se acostumava com aqueles olhos vermelhos de maneira alguma.
- Beyond _pronunciou seu nome em bom tom de voz, sem medo.
- Eu quero... você.
Seus lábios repuxaram para o sorriso mais macabro que já vira na vida, com maestria, derrubou o ruivo no chão e prendeu seu pulso acima da cabeça – sua força era descomunal para um cara tão magro. Numa tentativa inútil de se soltar, Matt apenas provocou ainda mais a ira do moreno que passou agora a lamber seu pescoço e mordisca-lo delicadamente; como se fosse seu amado Mail Jeevas.
- Pare com isso...
Frustrado por não conseguir sair daquela situação, urrou e se debateu com todas as forças. A ira logo se transformou em desespero, seu corpo rejeitava aqueles toques frios, sentiu nojo, ânsia.
Mello era a única pessoa que podia lhe tocar daquela forma.
- Pare com isso! Pare com isso...
Mais uma vez deixou as lágrimas correrem, essa era a única coisa que fazia Matt ser Mail Jeevas, não media esforços e seu orgulho não fazia presente quando tentava impedir tal coisa. As esmeraldas brilhantes procuraram com desespero os olhos de Beyond, num pedido mudo de misericórdia.
E então ele parou, a mão que avançava em seu baixo ventre voltou a erguer no ar na altura de seu peito. Assustado, Matt apenas fez um abrir e fechar de boca sem nada conseguir dizer. Os olhos assustadores estavam opacos, sem emoção alguma, apenas o observava.
- Seus olhos... brilharam como duas joias raras _disse por fim de longos segundos, ainda na mesma posição de domínio _você odeia tanto assim que eu toque seu corpo?
- ...sim _engoliu seco, tentando ainda se soltar.
- Interessante... eu gostaria de saber qual a diferença de o que vocês intitulam de “sexo” e “amor”. Mas novamente... _suspirou.
O ruivo sentiu os dedos de B. se afrouxarem e então, num gesto inusitado, abraçou o homem acima de si o trazendo para mais perto de seu corpo.
- Beyond, eu já lhe disse que vou salvá-lo... se você acabar com meus medos, eu acabarei com os seus.
- ...seus medos? Você não parece ter algum.
Matt riu pelo nariz, afagou os cabelos maltratados de B.B como se fosse uma criança. Tudo em si estava estranho, os sentimentos, aquela criatura que parecia precisar tanto de ajuda, presa á um mundo louco. Parte daquelas ações era para conseguir se livrar do cárcere sem sofrer tantas lesões, mas... parte também era a vontade de descobrir mais e mais sobre seu estranho mundo louco – como se tivesse para sempre preso num mundo de maravilhas, sendo a própria Alice¹.
Mello, por que não vinha logo? Estava ficando com medo de sua própria sombra, medo de seu inconsciente insano tomar posse de seu corpo.
- ...Beyond? _só então percebeu que o garoto adormecera abraçado consigo, sua respiração pesada era a clara denuncia que há dias não fechara os olhos.
O deitou com delicadeza no tapete felpudo e apagou a luz, o deixando em sua privacidade. Alcançou o quarto do moreno e espiando por cima do ombro, resolveu adentrar o cômodo.
As paredes eram tão brancas quanto o resto da casa, podia-se ver o mofo crescendo no teto e o chão com piso de madeira desgastado. No local, apenas uma cama, inúmeros potes de geleia espalhados pelo chão e um espelho quebrado. Tudo isso seria ignorado, se não fosse pelo fato de ter sangue em boa parte do lençol branco posto tão cuidadosamente no colchão, era sangue fresco.
Seu coração acelerou consideravelmente ao ver o liquido rubi escorrendo pela beirada do móvel, a vontade de matar, de atirar como nos velhos tempos fez sua mão tremer. Uma vez assassino, sempre assassino. Respirou fundo e fechou os olhos mentalizando o loiro e seu pulso firme diante qualquer situação – matar não era mais uma opção para eles, depois do caso kira, prometeram um ao outro que sairiam daquele caminho tortuoso.
Os cacos de vidro serviram para causar os ferimentos, alguns deles ainda manchados de sangue. Atordoado, deixou o quarto e voltou para sala, agora prestando mais atenção no homem adormecido, algumas faixas estavam enroladas em seus pulsos e pescoço – então o sangue era dele, e ele se machucava por alguma razão.
- Masoquismo? _perguntou a si mesmo num tom baixo de voz.
A ideia pareceu lógica, mas não muito aceitável naquele caso. O moreno era autoritário e para ele, o mundo girava em torno de si e de seus desejos loucos, nada nem ninguém parecia chegar perto de sua sanidade. Se machucar não fazia seu tipo, simplesmente, pois era necessário estar ali para continuar a sustentar o universo que ele havia criado.
Cansado, Matt voltou para o quarto e abriu a cortina de linho azul, analisou pela 50º vez as ripas de madeira, presas pelo lado de fora. Nada passaria ali, nem ao menos um mínimo pedaço de papel – se tivesse algum é claro. Fechou os olhos, cansado de fazer nada, e sentou abaixo dela; mais uma vez desejou um cigarro, sentir a garganta arder com a fumaça tóxica...
De repente chegou aos seus ouvidos uma batida fraca na madeira, mesmo divagando, conseguiu distinguir as palavras “Londres”, “Help” e “Detetives”. Riu por alguns instantes achando que era coisa de sua cabeça, mas o código Morse fora repetido aguçando seus sentidos.
- Finalmente! _murmurou para si mesmo e se levantou, fechando antes a porta do quarto por precaução, encostando o ouvido na janela de madeira.
Esperou por mais alguma palavra, sem ouvir nada mais, bateu em resposta “Obrigado”.
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- Conseguimos! Vamos voltar _Light ordenou aos amigos que recuassem lentamente.
As câmeras eram três, uma no alto da porta da sala – dando vista para todo o cômodo, uma na varanda de trás e a última na porta da frente perto da campainha. As outras, Light não teve acesso, pois os fios estavam desconectados com as demais sendo implantadas internamente – se houverem outras é claro.
Mello fez bico ao ter que se retirar sem mandar uma mensagem a mais, as três palavras foram as únicas que L permitiu, mas ele sabia que o comportamento do ruivo não podia mudar aos olhos de B.
A casinha ficava isolada de outras, escondida em meio a um pequeno bosque, dos lados, árvores nativas, um barranco considerável ao leste e mais casas ao sul e norte. A Ferrari de Light ficara estacionada mais á frente, camuflada entre outros carros, poderiam ver as imagens enquanto cada um tirava suas próprias conclusões sobre Beyond. Não ficariam ali por mais de 20 minutos, o moreno poderia ter olheiros que o trio não conseguiu detectar; tudo poderia por a vida de Matt em risco.
Assim que voltaram ao carro, Light conectou tudo ao sistema de Matt e logo as imagens apareceram nítidas, o infravermelho fora ativado diante a escuridão do local. Mello mordeu os lábios ao ver Beyond deitado no tapete, aparentemente dormindo, onde estaria Matt? Se agarrou ao banco com força para não cometer a loucura de entrar lá a ponta pés e estragar todo o plano.
De volta ao apartamento, e agora com cinco horas de gravação, nada viram. O corpo inerte do moreno continuava sendo a única imagem. Ele não se movia, como uma pessoa normal em sua noite de sono, ao menos parecia respirar... talvez estivesse morto – pensaram em conjunto.
L se retirou para um banho e Light fora atrás, sabiam que Mello não tiraria os olhos daquele monitor enquanto vivo. Sentou no sofá da sala e ali ficou como se competisse com B para ver quem se movia primeiro, suas barras de chocolate ao leite esquecidas no canto da mesa, os olhos vidrados sem piscar por um mero segundo – a leitura corporal era simples: medo. Medo de não ver Matt passando em frente aquela maldita câmera, medo dele ter sofrido alguma injúria nos 10 minutos que ficaram longe das câmeras – tempo de volta da cabana ao carro.
Procurou espantar os maus pensamentos e voltou a respirar, ele tinha que convencer o L á entrar naquela cabana de resgatar o ruivo. Era humanamente impossível não falar sob tortura e ele não ia se importar em fazer o moreno contar tudo o que estava planejando. Na máfia – durante o caso kira – ficara especialista em torturas, nada escapa de seus sorrisos sádicos e o coração gelado, para ele os humanos não passavam de “outras pessoas” e assim, mataria, torturaria e ainda riria na cara de qualquer um que viesse lhe fazer mal. Esse era seu amor obsessivo por Matt, prometera ao ruivo que jamais voltaria a agir daquela maneira, mas sua promessa não teria sentido se o próprio Matt deixasse de existir, justo? Seus lábios repuxaram para um sorriso maldoso quando imaginou sua Glock na cabeça de Beyond, aqueles olhos vermelhos, agora brilhantes por lágrimas o mirando de baixo e implorando por perdão.
- Veja Matt... é isso que vai ganhar como “bem vindo de volta” _murmurou, os olhos azuis relampejaram um tom mais escuro por um mero segundo, denunciando sua ansiedade.
...
Se Mello não tivesse enxergado as horas no relógio da parede da frente, não ia perceber que a manhã já tinha chego – eram exatas 6:43 da manhã daquela sexta-feira fria. O sol ficou escondido por nuvens escuras e uma densa neblina; o ar gelado parecia combinar perfeitamente com o animo do pequeno apartamento 27.
- Vá descansar Mello _L puxou o notebook das mãos frias do loiro que resistiu por um momento, mas os olhos irritados do moreno assim como sua voz firme obrigou-o soltar.
- Eu preciso... vê-lo, mesmo que por um segundo L! _suplicou como uma criança, alcançou a manga da blusa de moletom do mesmo, mas o detetive se soltou com facilidade caminhando até o outro sofá, um pouco menor.
- Ele tira um print pra você _Light se pronunciou oferecendo um copo de café ao marido.
- ...tsc, vocês não entendem...
Mello deu um longo suspiro e abraçou o próprio corpo, num gesto de desespero e tristeza, não era apenas o medo de que algo acontecesse ao amado, mas também o tempo separados e a falta que o outro fazia para si. Deus, quanto mais teria que esperar para tê-lo em seus braços novamente? Eles estavam tão pertos...
- Você prometeu que me daria uma chance, por favor, seja forte... por mim _L disse num tom baixo, olhando com pesar o monitor a sua frente.
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Beyond abriu os olhos e deparou novamente com a já tão corriqueira escuridão. Sua vida sempre fora rodeada dela, sempre que por ventura se lembrava de sua infância, estava sozinho em algum lugar; escondido e protegido por ela.
Escuro.
Sempre imaginou que os braços de uma mãe eram assim, lhe faziam tapar os olhos e do mundo se refugiar, essa era sua segurança. Se levantou do tapete felpudo e caminhou até a cozinha, estava sentindo sede e fome; aos poucos seus sentidos pareciam voltar.
Á dias não sentia nenhuma necessidade básica como fome, sede, além dos seus sentidos estarem defasados; seus ouvidos o enganavam com falsos ruídos, a vista embaçada, os dedos dormentes. Talvez estivesse doente realmente, talvez fosse apenas a falta de vontade de viver – ele não sabia explicar – então fora ver Matt e tentar tomar alguma energia para si. Talvez se forçasse seu próprio corpo a uma luta desmedida ou a um estupro e tudo voltaria ao normal como tantas outras vezes. Funcionou de certo modo, adormeceu (dormir também era algo que não conseguia fazer há dias), mas de um jeito que jamais esperaria.
O ato de Matt o pegou de surpresa, nunca, em hipótese alguma, fora abraçado por suas vitimas. Seu corpo instantaneamente relaxou e então os sentidos voltaram a funcionar.
Abriu o armário e alcançou um pote de geleia, seu estomago revirou, saiu de lá sem nada nas mãos dando as costas para o cômodo escuro. Atravessou o corredor e espiou para dentro do quarto de Matt, o ruivo estava deitado de costas para si assoviando uma melodia calma. Como era agradável ter a audição de volta, sem ouvir aqueles barulhos perturbadores e as lamentações que pareciam vir do mundo dos mortos.
Beyond abriu a porta do quarto por completo e adentrou o cômodo com passos lentos, Matt se virou de barriga pra cima o olhou o outro inclinando a cabeça. Se não estivessem na condição de prisioneiro e sequestrador, o ruivo poderia até abrir um sorriso e convidá-lo para sentar em sua cama, como dois bons amigos.
- Finalmente ouço só a sua voz _B. parou no meio do cômodo e fitou o outro colocando as mãos no bolso da calça jeans.
- Como assim?
- As vezes escuto ruídos, a audição se prejudica por algum fator desconhecido.
- Oh... entendo...
Matt se perdeu em nostalgias, quando atingiram mais ou menos 10 anos, Mello começou a ser perturbado pelo seu pequeno “dom”; era sensitivo. As noites transcorriam agitadas com o loiro agarrado a si por causa dos inúmeros pesadelos, sonhava com pessoas desconhecidas, todas tendo mortes horríveis. Durante o dia, se recusava a fazer qualquer coisa sozinho, dizia ver vultos e ouvir seu nome por onde fosse. Isso durou quase seis meses, olheiras profundas, baixo desempenho na escola e principalmente o isolamento era apenas algumas consequências daquele súbito. Levado pelo Sr. Roger á centro espíritas e até psiquiatras, logo o loiro, não deixou de sentir tais coisas, mas sim a conviver com elas.
Já fazia anos que Mello não dizia nada sobre, talvez tivesse realmente parado de ser perturbado.
- Você sabe muita coisa sobre nós, B?
- Tudo! _disse com uma animação anormal para a situação.
- ...tudo _repetiu desconcertado _isso é péssimo.
Por algum motivo, as bochechas de Matt se tornaram rubras formando um conjunto único com seus cabelos. O moreno chegou mais perto para olhar o rosto do outro, um tanto curioso.
- Sua expressão corporal está diferente.
- Como assim? _pois é, tudo ele tinha que pedir para o outro explicar.
- Como se estivesse com “ele”.
Ao ouvir a declaração de B, Matt desviou o olhar e se virou novamente para a parede. Era doloroso ficar sem notícias de Mello, saber que estava passando por aquilo tudo por cauda daquela pessoa á sua frente – novamente sua mente entrava em conflito. Ele sabia que alguém estava perto de salvá-lo e isso o animou consideravelmente naquelas horas, porém ainda era incerto que fosse o loiro – não, não era Mihael que mandara a mensagem mais cedo, ele saberia.
Beyond percebeu a mudança súbita de comportamento, estava curioso com ele, pois nunca tinha ficado perto de alguém com aquelas atitudes; suas vítimas todas acabavam o entediando e assim, eram mortas. Ao tocar no assunto “Mello”, o clima mudou para algo pesado, sufocante. O moreno mordeu os lábios, não era só curiosidade afinal, algo estava cutucando seu ser, um sentimento novo e bizarro; não, era mais uma vontade nova e bizarra e fazer seu “amigo” ficar confortável como momentos antes.
- Hum... o Mihael está vivo _disse entre os dentes, um pouco inseguro – aquela informação poderia mudar muita coisa de certa forma.
Ao ouvir a confissão, Matt literalmente voou para cima do moreno lhe segurando os ombros. Os orbes arregalados e a respiração ofegante denunciou sua falta de controle.
- O QUE VOCÊ DISSE?! Isso é verdade?!
- Eu só trouxe você, como já tinha dito, o Mihael ficou no apartamento desacordado _apesar da voz calma, suas mãos tremiam de nervosismo.
- ...vivo _repetiu para si mesmo.
Os lábios desenharam um sorriso bobo, seus olhos estavam desfocados e brilhantes como duas preciosas joias – então era mesmo possível ainda ter um resquício de esperança e sair daquele inferno. Matt queria socar B. e escapar daquele lugar o quanto antes, mas ainda era preciso manter a calma.
O moreno guardava consigo um armamento de fogo que nem de longe era brincadeira, coisas do exército como rifles, granadas e metralhadoras. E ele sabia bem o porque, se tinha alguém sendo procurado pelo mundo todo – incluindo o maior detetive do mundo – esse era Beyond Birthday. Sentiu calafrios ao se lembrar ainda da sua força física descomunal e a perfeição que tinha para entrar no psicológico das pessoas; ele era um assassino em potencial.
Matt não era burro, desde o início já tinha consciência de que Beyond poderia matá-lo num piscar de olhos apenas por falar algo impróprio, foi esse pensamento que o levou a falar com o moreno como se participasse de seu mundo louco. Entrar no jogo, tentar deixá-lo entretido a maior parte do tempo. Tinha obtido sucesso desde então, arrancou do outro uma informação crucial, pois nem o próprio Matt poderia prever sua reação, imagine o outro.
Depois da euforia, o ruivo parou para tentar voltar ao seu estado de calma e sentou-se novamente na cama. Ainda ofegante, olhou para B que exibia um olhar curioso, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, o mesmo começou a sorrir também e balançou a cabeça positivamente como se esperasse que o ruivo continuasse a comemorar. Sem muito o que pensar, ambos riram da situação e Beyond tomou as mãos de Matt para em seguida gira-lo numa dança boba.
... extra òo enjoy
- Mello, acorda seu preguiçoso!
- Hn... _resmungou sem ao menos se mexer.
- Gozar em meia hora e dormir pra todo sempre não dá né! Vou até a padaria tomar café da manhã _olhou uma ultima vez o adormecido Mello e saiu do quarto vestindo uma camiseta qualquer.
- Me espera... porra... _balbuciou coma voz abafada pelo travesseiro _também estou com fome.
- Então levanta! Vou com a sua moto _balançou as chaves fazendo um loiro mal humorado sair do cômodo enrolado no lençol.
- Nem ouse, Jeevas.
- E você pretende fazer o que exatamente? _riu presunçoso.
- Te comer e anda logo _apontou para o quarto enquanto o outro ria, batendo continência com a mão errada por sinal.
- Sim Sr, e eu quero de quatro, Sr!
O loiro sentiu o rosto foguear quando imaginou seu soldado de quatro gemendo pra si, logo a ereção ficou visível e não pode esperar um segundo pedido para agarrá-lo – Matt também não esperou uma segunda ordem.
...
- Mels... _o ruivo gemeu quase que inconsciente por causa do sonho que acabara de ter, na verdade era uma de suas inúmeras lembranças. Acordara excitado, chegou a ofegar quando despertou e percebeu que ele mesmo levara a mão até seu membro desperto.
Ainda envolto com a lembrança, e agora dominado pelo desejo de ter o outro em seus braços, acabou terminando o serviço ali mesmo, chamando pelo nome de seu amado Mello no ápice.
- ... como eu sou ridículo _olhou com desgosto para a sujeira que tinha feito no lençol, limpou a mão com mais força e se afastou para dormir mais um pouco e dessa vez, quem sabe não sonhar tudo e não acordar na melhor parte.
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- Aaah Matt!! Por que esse vagabundo não aparece na porra dessa câmera do inferno?! Para de gozar ai e aparece!!!!!! Se preguiçoso filho de uma puta paga... e se eu te pego eu te escangalho.
Um Mello á 48 horas sem dormir gritou com o notebook pela milionésima vez aquele dia, mal sabia ele que acertara quando reclamou de Matt e seus “afazeres”.
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