Ajna
6 Capítulo 05
Notas iniciais
Quinze anos após a profecia do Destino, em outro lugar no Terceiro Reino – chamado Dhara – o Caos era ainda mais profundo e a natureza manifestava sua ira contra o ser humano, tornando impossível a sobrevivência de qualquer espécie no local. Por isso, muitas pessoas tentavam fugir de lá em navios clandestinos, que cobravam pequenas fortunas e prometiam um paraíso como refúgio.
Enquanto a natureza mostrava novamente sua imponência perante os homens, cuspindo fogo e fumaça tóxica sobre tudo e todos, duas crianças, Cristina e Cristian, se perderam de seus pais e – tendo apenas uma a outra – correram sem olhar pra trás, em direção a praia, onde tentariam entrar despercebidas em algum navio prestes a zarpar. Aquele plano era a única fagulha de esperança que os mantinha vivos, eles precisavam disso para continuar sonhando com um futuro diferente e alguma perspectiva de felicidade.
Tudo acontecera conforme o planejado, a viagem já durava alguns dias e os irmãos – apesar da sede e da fome – permaneciam ocultos na embarcação, mas a tranqüilidade não durou muito, pois logo uma forte tempestade surpreendeu a todos e o navio foi feito em pedaços. Contudo, a luta pela vida tomava conta do espírito das duas crianças que, agarrando-se aos restos flutuantes de madeira, conseguiram manter-se por mais algum tempo, até avistarem uma ilha, onde poderiam colocar seus pés descalços e procurar por alimentos. Nada seria pior que Dhara, era nisso que acreditavam.
Assim que pisaram em Ajna, os órfãos perceberam que não seria fácil aventurar-se por aquela terra desconhecida, pois não conseguiam avistar nada além da estreita praia, uma vez que o lugar era cercado por montanhas realmente assustadoras, como se fossem feitas para afugentar os imigrantes e proteger os moradores do local. Porém, famintos e curiosos, Cristian e sua irmãzinha seguiram apenas seu instinto e continuaram caminhando por quase toda a Costa, até encontrarem uma estreita passagem entre a cordilheira, que os levaria até Anahata.
Dominados pela necessidade e avistando a floresta não muito distante dali, os irmãos não pensaram duas vezes antes de seguir caminhando, sem saber que Sombra já havia sentido sua presença e – expostos demais – não houve qualquer dificuldade para que os Coldess os encontrassem. Como irmão mais velho, o menino sentiu que deveria proteger Cristina como pudesse e, agindo apenas por um poderoso instinto protetor, se entregou aos estranhos sem hesitar nem por um instante, dando à irmã a chance de correr e se esconder do perigo.
A menina correu tanto quanto suas pernas lhe permitiam, tentando concentrar-se e salvar-se para honrar o sacrifício de sua família pela sua vida, mas assim que chegou à Fronteira da Morte e viu todos os cadáveres espalhados pelo chão do que parecia ter sido um lugar glorioso no passado, somado ao seu cansaço e fome, não resistiu e perdeu os sentidos.
Após a morte de Lumm, Kyelle ficara aos cuidados de Berta até se casar, ainda muito jovem. Infelizmente, sua esposa foi morta pouco tempo após o nascimento de seu filho e – mortificado pela dor do luto – ele voltou a morar com a velha senhora, até o dia em que esta partiu, de forma calma e serena, como havia sido por toda a vida.
Apesar de ninguém mais viver em Anahata, Kyelle trabalhava com os poucos que a conheciam e dela conseguiam tirar seu sustento, pois o local era protegido e – por Sombra não conseguir exercer seu poder maligno sobre ele – seu terreno era fértil e propício para a renovação da vida, onde a plantação vingava e os animais viviam e se reproduziam com tranqüilidade.
Era um dia de calor incomum, quase insuportável, mas o filho de Lumm regressava feliz de mais um dia de trabalho, pois havia conseguido suprimento mais do que suficiente. No entanto, uma surpresa lhe aguardava no caminho: algo lhe chamou a atenção, e ao se aproximar, não pôde ignorar uma criança sozinha, deitada à beira da estrada, mesmo que estivesse quase morta.
Ramon, filho de Kyelle, tinha pouco mais de dez anos e passava a maior parte do tempo sozinho em casa, onde desenvolvia seu conhecimento sobre a Lummini e também plantas medicinais. Todas as tardes ele esperava seu pai na estrada, para ajudá-lo a carregar a produção do dia, mas assustou-se ao ver que – além dos alimentos – ele também trazia consigo uma menina adormecida em seus braços, e um sentimento desconfortável tomou conta do seu ser, pois temia que fosse rejeitado e trocado por outra criança. Como ele sobreviveria na selva que era Ajna?
Assim que compreendeu a curiosidade e angústia no olhar do filho, Kyelle contou-lhe sobre as condições em que encontrara a criança e, recordando-se da profecia do Destino, pensou em pedir à Luz que o orientasse sobre aquilo, seria aquela a menina estrangeira de que o irmão da mestra falara?
Mesmo sem saber a verdade, mas apegando-se nisso como uma tábua de salvação, Kyelle decidiu contar ao filho sobre a profecia, também para tentar sensibilizá-lo de alguma forma, mas o menino não acreditou em nenhuma palavra contada pelo pai, uma vez que Luz e Destino haviam se tornado apenas seres mitológicos para os ajnianos, ainda mais depois que Sombra tomou tudo para si e eles não mais se manifestaram (Luz afastou-se por medo de interferir na profecia do irmão, e apenas vigiava tudo à distância, fazendo o possível para conter os estragos feitos pela irmã e deixando de ser reconhecida como protetora de Ajna pelos humanos, que agora nem ao menos acreditavam em sua existência).
Ramón sempre ouvia seu pai conversando com Luz, mas acreditava que eram apenas orações feitas à mestra, na qual apenas ele mantinha a crença, e por isso pensou que ele estava usando a história de deuses, profecia e destino apenas para enganar e convencê-lo a aceitar a desconhecida em sua casa. Porém, mesmo sem acreditar no pai e desconfiando da inocência da menina, resolveu aceitá-la na casa, mesmo que fosse apenas para agradar seu progenitor.
Quando Cristina acordou, Ramón simplesmente recusou-se a conversar com ela, e passaram a tratar-se como estranhos no mesmo lar, não se falavam, não se olhavam e não se tocavam, ele agia como ela não existisse.
E assim se passaram oito anos, quando – infelizmente – Kyelle foi acometido por uma grave doença no coração, e não houve planta ou oração capaz de salvá-lo, pois – como ele mesmo havia dito – era chegado o momento de reencontrar-se com Luz, ele sentia muita saudade de sua família, mas principalmente de sua “tia”, como a considerava.
Sozinha novamente e cansada de ser ignorada, Cristina decide enfrentar Ramón e o questiona sobre o motivo dele odiá-la tanto, sem que ela nem ao menos o tivesse provocado, e o garoto lhe conta sobre a profecia do Destino, a qual ele não apenas desacreditava, mas também repudiava a ideia de ser forçado a amar uma garota apenas por causa de uma lenda escrita há tanto tempo.
Ouvindo sua explicação, Cristina se aborrece ainda mais e diz a Ramón o quanto o acha fútil e arrogante, pois, mesmo que a profecia realmente existisse, quem garantia que eles fariam mesmo parte dos planos do mestre? Assim com ela, outras garotas também poderiam ter atravessado as fronteiras de Ajna, e ele estava agindo como um idiota apenas por se achar demais, e que eles nunca teriam nem ao menos a chance de se conhecerem, uma vez que estava em seus planos retornar à Dhara, uma vez que estava cansada de sentir-se rejeitada e sem ter uma casa pra chamar de lar.
Ramon sentiu-se mal com o desabafo da menina, pois sabia que tudo o que ela dissera era verdade, pois ele não tinha nenhuma certeza sobre a Profecia, agira apenas por ciúme do pai e, mesmo quando percebeu que a garota nunca desejara tomar seu lugar de filho, o orgulho lhe impediu de baixar a guarda e se aproximar. Afora ele sentia-se ainda mais incomodado ao saber que ela partiria a qualquer momento.
A partir daquele dia, mesmo sem lhe pedir perdão por sua atitude infantil desde que a conhecera, o jovem começou a se aproximar de Cristina e – ainda que as conversas fossem rasas e curtas e os toques inexistentes – começou a sentir-se atraído por ela. Assim, quando a moça decidiu organizar suas coisas para retornar à Dhara, ele foi tomado pelo medo e, de forma totalmente espontânea – quase desesperada – tomou a jovem em seus braços e com um beijo tentou lhe mostrar todo o amor que sentia por ela, que felizmente retribuiu seu sentimento, ainda que de forma inconsciente.
Mesmo com todos os problemas que assombravam Ajna, o jovem casal vivia feliz e eram – além de amantes – os melhores amigos que o Terceiro Reino conhecera. Mesmo sob o domínio de Sombra, eles trabalhavam juntos e, ao retornarem para casa, pesquisavam e treinavam a Lummini, pois era a única herança deixada por Kyelle, e eles desejavam passá-la para as gerações futuras.
Dois anos se passaram e, numa tarde chuvosa, Cristina não se sentia bem para sair de casa e, mesmo com o coração pesado, Ramón deixou-a e foi trabalhar sozinho, pois não podiam dar-se ao luxo de um dia de descanso, se ainda queriam comer e dar de comer aos marginalizados.
Mas os dias passavam e Cristina não apresentava nenhum sinal de melhora, ela passava as manhãs enjoadas e apresentava sonolência na maior parte do dia, mesmo se houvesse acabado de acordar. Ramón conhecia sobre as ervas medicinais, mas nada sabia sobre diagnósticos, e qual não foi sua surpresa ao descobrir – pelo único médico de Ajna – sobre a gravidez da companheira, eles finalmente teriam um fruto do seu amor.
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