— Podemos ir? – Miyako o tirou das ponderações.

Ambos seguiram para o Parque Central de Odaiba, ela precisava mesmo respirar ar puro, sabia que acabara de perder muito em um único dia.

…



Parque central de Odaiba

15:50 PM



A paisagem já começava a adquirir o dourado do entardecer. Numa trilha de bloquetes arredondadas, cercada por grandes árvores. Miyako e Ken seguiam lado a lado ainda calados. O local era silencioso e quase não se via nenhum transeunte.

Discretamente, Ken observava a garota, analisando-a com um tímido olhar de canto, escondido sob a franja lateral. Miyako parecia frágil e pensativa, um lado que ele nunca tinha visto até o presente. O rosto ainda estava enrubescido e com rastros de lágrimas.

Uma inquietude correu pelas veias de Ichijouji, sabia que deveria iniciar algum assunto, mas tinha receio de como fazê-lo. Essa trava o fazia se sentir um incompetente e mais uma vez lhe lembrava de que em outros tempos já teve confiança e coragem para lidar com qualquer coisa.

Essa era uma das muitas vezes em que ele admitia para si, que nem só de lados ruins, era feita sua existência como Kaiser. Aquela coragem, a atitude… Aquilo era como uma droga e em vários momentos a abstinência daquelas sensações quase o levava a loucura.

– Alí! – Miyako apontou para o alto de um escorregador.– Podemos nos sentar lá em cima?

Ken saiu de suas divagações e logo ficou com uma gotinha sobre a cabeça. Observou que chegaram em um parquinho com balanços, gira-gira, castelinhos, túneis e escorregadores.

– Acho que já estamos crescidos para subir neste tipo de brinquedo, não? – mas quando a olhou, notou que ela estava séria. – Eu quero dizer… As crianças podem chegar e querer escorregar…

– Ao longo do caminho, você viu alguma criança? – retorquiu. – Pois é? Este lugar está abandonado. – explicou se dirigindo para as escadas e começando a subir. Ken virou o rosto para a direção oposta, uma vez que ela vestia saia. – As crianças estão em casa brincando com seus tablets e as mães e babás acham mais fácil do que ter que trazê-las e tomar conta. – se sentou deixando um lugar para o outro.

VIsto que Miyako tinha razão, Ken escalou as escadas, jogou a pasta sobre a dela e se sentou ao seu lado. Era o maior escorrega e tinha uma vista bonita. Ele admirou a beleza daquele santuário ecológico intocado em meio a toda urbanização local.

— Uau! – exclamou espontâneo, maravilhado com a vista.

— É lindo, não é?

— Por isso você quis vir aqui? – concluiu. – É perfeito pra refletir.

— É mesmo perfeito...– ela se ajeitou a fim de ficar mais confortável e, involuntariamente acabou encostando a lateral do braço e ombros ao do amigo.– Obrigada por me fazer companhia.

Ken perdeu o foco por um segundo, era só um pequeno contato físico, mas ele precisava processar aquela proximidade, respirar fundo e pensar coerentemente. Colocou a parte mais longa de sua franja para trás da orelha e inalou profundamente, se concentrando.

Silencioso e introvertido, observou a garota a brincar com os dedos enrolando e desenrolando a meia 3/4 branca que compunha seu uniforme.

— Tudo bem se quiser perguntar, não vou te censurar. – ciciou olhando para a meia, referindo-se ao estado em que ele a encontrou no corredor. – Não precisa ser sempre tão formal. Acho que já passamos dessa fase.

E com isso ela quis dizer, bem mais do que todas as lutas que eles já travaram juntos, ou toda interação que tiveram durante aqueles quatro anos. Ela pontuava especificamente aquele abraço sobre o qual eles nunca conversaram.

— Eu sinto muito.– olhou um bando de pássaros voando no horizonte.– Não é como se eu pudesse controlar isso, mas eu prometo que vou me esforçar mais.

— Tá bom.– riu pelo nariz, desacreditada.

— Está me magoando. – brincou, o que era raridade.

— Wont!– ela riu e quedou para o lado encostando-se mais ao garoto.

Ken tensionou os músculos, puxou o ar com dificuldades. Seu coração descompassou e suas barreiras conflitaram-se com a satisfação em sentir a aura aconchegante da garota e seu característico aroma de roupa limpa. Ele precisava tomar alguma postura.

Miyako censurou-se pela atitude atrevida, mas agiu guiada pela fragilidade e a carência momentânea. E se ele se esquivasse? Se estivesse apenas com pena e tentando ser gentil e ela estava abusando disso? Seu coração apertou e as tristezas do dia somaram-se a insegurança.

— Me desculpe! – ela se afastou abrupta, se sentindo ridícula. Sabia que Ken era traumatizado com pessoas se aproveitando dele.

Ele não respondeu, apenas a puxou de volta e a envolveu em um abraço meio desajeitado e desconfortável, mas que passava bem o recado de que ela não precisava se desculpar.

—Se realmente não for invasivo, eu gostaria de saber o que te ocorreu? – ele sussurrou em tom acalentador se esforçando para controlar seu nervosismo.

Ela chorou ainda mais, por alívio, por gratidão, por aninho e… Precisou de um tempo para conseguir formular alguma frase. Ele a aconchegou mais ao contato e a deixou molhar o tecido de seu casaco, enquanto acariciava-lhe os cabelos lavanda.

Era como se a linda paisagem poente girasse em câmera lenta ao som de uma melodia perfeita, regida por infames almas clichês daqueles que já foram abençoados a experimentar a doçura e simplicidade do despertar dos sentimentos.

Miyako julgou que poderia ficar presa naquele abraço, por horas, julgava que Ken tinha “cheirinho de bebê” e inalando aquela fragrância, acalentada com meiguice, as dores das tristezas vivenciadas naquela tarde pareciam se esvair.

Ela enfim desabafou e, quase nada era novidade para ele, muito do relato Ken já tinha observado e deduzido. Mas ouvir dela era diferente, o fazia se sentir mais íntimo e importante.

Ken respirou angustiado quando percebeu que a noite já estava caindo e a iluminação dos postes começava a ascender. Como o tempo tinha voado. Não que ele estivesse feliz pela tristeza de Miyako, longe disso, mas tinha que confessar que era aprazível poder tê-la fragilizada em seus braços.

...

Residência Yagami

20:00

Hikari tinha rejeitado o jantar e antes que Tailmon a questionasse, ela colocou seus fones de ouvido e apagou a luz, ficando absorta em seu celular. Uma movimentação no grupo da escola lhe chamou a atenção. Quando ela abriu, viu uma foto de Miyako e Ken caminhando sozinhos após a aula.

Ela não quis ler os comentários e suposições. Na verdade estava feliz pela amiga. Estava magoada por não ter mais a ajuda dela, mas a raiva já estava passando. Não estaria pronta para pedir desculpas tão cedo. Talvez aquela fosse mesmo uma batalha só dela.

Olhou sua página e já tinha pilhas de cobranças sobre a foto do dia, pessoas ameaçavam deixar de seguir se ela não postasse. Isso não! Ela não perderia para Catherine! Pediu que Tailmon fosse na cozinha buscar um suco pra ela.

Solicita, Tailmon ficou feliz em poder ajudar, uma vez por lá, ela também procurou algo para a parceira comer. Assim que a digimon gatinha saiu, Hikari pulou da cama e procurou um pijama novo e fofo, arrumou a parte do quarto que iria precisar e tirou várias selfies.

— Ue, trocou de pijama? – Tailmon perguntou entrando no quarto com a bandeja em mãos.

— É o outro estava sujo.– mentiu. – Você trouxe torradas com geleia, obrigada.– tentou disfarçar bebendo o suco e pegando uma torrada.

— Sujo é? – a digimon piscou desconfiada. – Mas esse ainda está com a etiqueta. – apontou.

Hikari se engasgou com a torrada.

— Verdade, Tail! Obrigada, não tinha percebido, vou trocar.

Era mentira, Tailmon sabia, tinha visto que parte do quarto estava arrumado com bonecas e pelúcias, como se fosse para uma foto. Ela era madura, mas não ao ponto de entender o que a parceira pretendia fazer. Sentiu uma dor, um vazio e quis agir como uma gata e dar um passeio noturno.

— Hey, Tail...– já era tarde a digimon já tinha saído pela janela. – O que deu nela? Não importa, é bom que tenho privacidade para editar minhas fotos.

E assim ela fez, editou, fez cortes, adicionou filtros e criou a maquiagem de uma vida perfeita para que dezenas de trouxas acreditassem. A foto da doce bonequinha de porcelana em seu quarto de menina, trajando um pijama kawaii, foi postada.

Uma mensagem chamou a atenção de Hikari.

“Oi Yagami, parabéns pelo sucesso da sua página. Aqui é a Miyazaki Nozomi, talvez você não me conheça, mas eu sei que você se desentendeu com a Inoue.”

“A escola toda te conhece. Obrigada pelos parabéns. Como você soube sobre meu desentendimento com a Miyako-chan?”

“ Querida, como você mesma disse, a escola toda me conhece e como eu vi que sua página tem potencial, eu pedi que ficassem de olho em você.”

“ Potencial? Não estou entendendo.”

“Yagami, sua amiga agora deve ficar muito ocupada com o Ichijouji, provavelmente tentando descobrir se ele é um prodígio em áreas mais interessantes.(carinha safada) E você não vai poder ficar tirando selfies para sempre. O que eu quero dizer é que a minha irmã, Meisa, é ótima com uma câmera. Que tal se juntar a nós?”

Miyazaki mandou um link que Hikari abriu prontamente. Era o portfólio de fotografias de Meisa, era magnífico. Só podia ser uma ajuda do destino.

“ Sua irmã é muito talentosa!E o que vocês querem em troca? Não vão me fotografar de graça?”

Yagami mandou a mensagem com o questionamento. As irmãs Miyazaki eram as garotas muito conhecidas na escola, por serem de família rica e renomada, mas jamais olharam em sua direção antes.

Miyazaki convenceu Yagami de que foi fisgada pelas fotos lindas de sua página e queria que ela fizesse parte de seu círculo, como ela também adorava tirar fotos artísticas em lugares diferentes, julgava que se entenderiam muito bem.

Hikari pensou por algum tempo antes de responder. Não tinha gostado da brincadeira infame que a outra fez sobre Miyako e Ken, claro que se ela tivesse intimidade aquilo soaria até divertido, mas soou ofensivo. Isso provava que o caráter de Mozomi era duvidoso. Por outro lado, ela já não tinha vontade de andar com a turma e não queria ficar sozinha, também precisava de boas fotos para sua página. Respirou fundo e iniciou uma conversa com a mais velha, decidindo se arriscar.

…

Residência Takaishi

Takeru estava deitado em sua cama, enquanto Patamon lia um mangá do Hantaro. Notou que o chat do grupo de amigos composto por ele, Ken, Daisuke, Hikari, Miyako e Iori, estava vazio. Uma pontada de culpa o abateu. Naquela tarde ele tinha ido a casa de Catherine.

Flashback

Sentados em uma mesa redonda no gazebo do jardim, Takeru e Catherine receberam a companhia de outras três garotas de classes diferentes, que compunham o grupo de torcida da escola. Elas confidenciaram ter recebido mensagens sobre as mudanças do teste realizados para torcedoras.

— Obrigada meninas. Vocês ajudaram muito. – Catherine se levantou agradecendo e se despedindo das garotas. – Vocês precisam que eu as acompanhe até o portão?

— Era o certo a se fazer, não precisa agradecer, você dança muito bem. Espero que se junte a nós na torcida. E não precisa nos acompanhar. – Aoi curvou-se formalmente e as outras fizeram o mesmo. – Até breve, Deneuve-san, Takaishi-kun!

Pouco depois que as garotas se retiraram, o casal quebrou o silêncio.

— Então… A Hikari-chan armou mesmo pra te impedir de entrar na torcida? – Takeru falou horrorizado, queria ver onde o ciúmes de Yagami chegaria, mas não pensou que seria tão longe.

— Pois é. Não tem sido fácil ter que me adaptar a uma nova cultura. Eu sofro piadinhas devido às lendas culturais, algumas garotas tapam o nariz quando passam perto de mim.

— Eu não imaginava isso.

— Sei que não. As pessoas pensam que garotas bonitas e ricas são integralmente felizes. Não sabem que pais ricos trabalham o tempo todo para manter a riqueza e em certos momentos isso parece ser a única coisa que importa.

— Eu realmente não sei o que dizer.

— Estou vendo que você não sabe. E justo você que lê tantos livros. Tudo bem, você só está sendo normal. Nosso colégio é cheio de garotas que te veneram e não te condeno por desfrutar dessa adoração.

— Catherine-chan, está me ofendendo.– o loiro se levantou magoado.– Está dizendo que eu sou afetado por popularidade? Sei que está chateada com a atitude da Hikari-chan, eu concordo que foi péssima, mas…

— Mas você não tem culpa? Não sabia que ela gostava de você? Não sabia que era melhor ter falado sobre mim ou até me adicionado ao chat de vocês, antes de me levar naquela fezta?

— Eu não… Olha, eu só… Você pediu para conhecer todos.– apontou nervoso.

— Porque se não fosse na festa seria na escola e o resultado com a Yagami seria o mesmo. Ah, não só com ela, suas outras seguidoras também me perseguem. Colocaram um rato morto no meu armário!

— Espera? Você está me culpando pelas loucuras que as garotas cometem por ciúmes? Como eu poderia saber? Não sou vidente, nem psicólogo.

— Não estou dizendo isso. Você vê como o Ichijouji é assediado e como ele reage. Não aceita presentes, não passa número de telefone e nem redes sociais ativas ele possui.

— O diferencial de cada indivíduo é o dom de ser único em suas escolhas e atitudes. Não sou obrigado a rejeitar presentes. As garotas cozinham e fazem mimos manuais, seria uma grosseria recusar! – pegou sua pasta, ofendido. – Eu acho que é melhor ir para casa.

Ela o cercou.

—Eu não te chamei aqui para que saísse magoado comigo. Os amigos não são obrigados a falar só coisas doces o tempo todo. Não me odeie, só reflita. Sabe porque eu estou te responsabilizando pelas atitudes da Yagami e das outras garotas? Porque você se torna responsável por aquilo que cativa.

— O Pequeno Príncipe?

— É… Amigos não são totalmente independente da nossa influência, e versa.

Ela colocou a pasta no lugar e se sentou. Engoliu em seco. Catherine tinha razão. Ele foi influência para Hikari agir daquela forma. Ele deixou que aquelas garotas pensassem que tinham uma chance com ele. Era mesmo divertido vê-las competindo.

— Me desculpe. Eu te tratei como um objeto, não vi a problemática de ser estrangeira e não ter mais nenhum amigo além de mim. Eu poderia e deveria ter te incluído no nosso chat ah tempos, isso evitaria tantas coisas.– ele coçou a cabeça, desconcertado. – E sobre a Hikari-chan, poxa isso é tão complicado, mas eu vou dar um jeito.

E tinha outras coisas para serem ditas, mas ele certamente se envergonharia. Como explicar que o gosto da popularidade o cegou, realmente.

— Tudo bem, eu te desculpo. Hoje a escola ligou para os meus pais e contou que a Inoue confessou ter remexido no meu histórico pessoal, ela foi destituída do cargo e… Também me mandou uma mensagem combinando de me encontrar antes da aula, amanhã.

—Então é por isso que ela não almoça mais conosco. Meu Deus, o que a Hikari-chan fez? Mas… Ela realmente não é assim. A culpa é mesmo minha.

— Acredito que grande parte seja mesmo. Mas outro grande motivo pelo qual eu te chamei aqui foi que… A escola marcou uma reunião com meus pais. Eu decidi contar tudo pra eles, sobre a xenofobia que venho sofrendo, eu cheguei a gravar algo no celular. Principalmente, eu quero te contar que vou pedir para entrar na torcida e vou deixar a direção ciente do que a Yagami fez.

— Por favor, a dança é muito importante pra ela.

— E pra mim, não? Quando eu danço é a única forma que consigo chamar a atenção dos meus pais. Eles sentem orgulho, postam vídeos no grupo da família, mostram para os colegas de trabalho. Acho que é o jeito deles de demonstrar amor. Eu preciso disso. Sua amiga ia tirar isso de mim, por ciúmes de você. Agora eu vou tirar dela, mas estou avisando antes. Não sou a vilã da história, mas não sou mocinha de novela mexicana, para aceitar que aprontem comigo sem ter volta.

Takeru sentiu a consequência de sua negligência. Jogou um jogo com pessoas como peça, tudo pelo prazer da massagem em seu ego, agora as coisas estavam fadadas ao caos e ele tinha que pensar em como restaurá-las.