Ainda É Cedo
9 O Soldado Artista
Notas iniciais
– Agente 13, alguma novidade? – Fury chamou-a pelo rádio.
– Sim, diretor. – afirmou ela os observando em um carro atrás – Ao que parece a “pessoa”, que o senhor mencionou ,é uma garota. E eles estão dirigindo rumo a uma cidade litorânea.
– Siga-os.
–É o que estou fazendo senhor. E já chegamos a essa cidade, mas estranhamente eles estão indo para a periferia da cidade. – ela dizia surpresa e porque não dizer “chocada” – Um lugar muito... Confuso.
– Continue fazendo o seu trabalho. – ordenou – Vá até o local de destino deles e fique atenta. Tente se aproximar do Rogers sem dar muito na telha que está sobre minhas ordens.
Sharon sorriu confiante, observando-o rir com a “pessoa” no carro a sua frente.
– Sei exatamente o que fazer senhor. Cambio, desligo! – finalizou – Só preciso de uma oportunidade. – falou consigo mesma.
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#Steve
E a viagem rumo à cidade praiana de Isadora foi literalmente uma “viagem”. Segundo Isa aqui no Brasil a palavra “viagem” também é usada para expressar loucura, diversão e coisas parecidas. O português é uma viagem! Isadora é uma viagem! Resumindo, eu gosto da palavra viagem. Com seus dois sentidos.
A cidade era deslumbrante. A estrada tinha como margem o mar e do outro lado a Mata Atlântica. Era tudo tão verde, tão imaculado que precisei parar.
– Isa para o carro! – exclamei
– Que foi? Tá enjoado? – questionou fazendo o que pedi
– Não! – foi à única coisa que eu disse antes de pegar minha mochila e descer no meio da pista.
Ela ficou me olhando como se eu fosse um elefante cor de rosa. Não liguei. Estava maravilhado demais com a natureza para me importar com que ela pensa ou deixa de pensar.
– Steve você pirou? O que você está fazendo? Não se pode parar o carro no acostamento e escalar uma encosta.
Sim, eu estava subindo pela encosta.
– Para de reclamar e venha comigo. – pedi
Ela continuou no carro.
– Ô estadunidense, só pra você saber aqui no meu país temos regras tá? Eu não sei o que você ouviu falar do Brasil, mas nós não temos o costume de invadir matas e pegar macacos – resmungou – Steve volta aqui!
Nem liguei, continuei subindo. Ao perceber que eu não ia descer do barranco, Isa me acompanhou.
– Tudo bem, eu vou com você. – suspirou – Agora será que você pode me ajudar a subir aqui? Eu não gosto muito de andar no mato. Tem bicho aí.
Estendi minha mão e ela enlaçou a sua junto a minha, mas ainda estava cabreira.
– Pare de reclamar e venha comigo, Srta. Wollscheid. – eu disse em tom brincalhão – Este lugar é perfeito para...
–Para ser atingido por um raio, ser devorado por uma jaguatirica, ser assassinado, um lugar ótimo para escorregar e rolar morro abaixo até parar na pista e morrer de traumatismo craniano, um lugar ótimo para...
– Não, bobinha! – exclamei ao chegar ao todo do morro – Este lugar é perfeito para desenhar.
E novamente minha amada amiga que não amava muito o matagal, fitou-me como se eu fosse um alienígena.
– Você só pode estar de sacanagem comigo! – conclamou irritada – Você me fez subir até o topo desse morro – apontou o carro lá embaixo – De baixo de um sol desses, para desenhar?É isso mesmo?
Joguei minha mochila no chão e retirei um caderno de desenho e lápis.
–Senta aí, para de frescura.
–Frescura? – repetiu perplexa – Que coisa de florzinha, Steve! Desenho? Você me vai pra guerra, luta contra Hitler, peita Barack Obama e agora vai desenhar plantinha? Que coisa biba!
Ergui a sobrancelha, ofendido.
–Isadora!
– Que foi? – falou rindo antes de sentar-se ao meu lado e dar um soquinho no meu braço – Qual é? É muito esquisito sim você ter este seu lado “delicado”. Quer que eu faça umas florzinhas na sua unha? – zombou
Baguncei o cabelo dela, irritado.
– Nossa, como você é machista,moça!
Isa gargalhou.
–Estou brincando! Acho bem legal essa sua vibe mais “cultura”. Agora confesso que fiquei surpresa. – confessou me abraçando – Agora me deixa ver isso aí.
Puxei o caderno da mão dela.
–Não, claro que não!
–Ah qual? Por que não? Vai dizer que tem desenho de mulher pelada?
–Não! Claro que não! – repeti a mesma frase, nervoso.
– Fala sério, “Estevão”! – reclamou mandona, com as mãos na cintura – Por que não posso ver? Subi esse matagal com você. É o mínimo que o senhor deve fazer. Anda, para de palhaçada e me dá isso aqui. – avançou para cima de mim para pegar o caderno
– Eu não tenho que te mostrar nada. – rebati – Isso é pessoal, só pedi sua companhia para não vir sozinho! Agora fique longe que eu quero desenhar.
Senhorita insuportável ficou de pé na minha frente (na frente da luz!!) de braços cruzados.
– Três coisas, gatinho: Primeiro não obedeço a ordens de nova-iorquinos. Segundo, não recebo ordens de soldados artistas. E terceiro e mais importante. Não subi isso tudo para não ver seus desenhos. DÁ-ME ISSO AQUI! – ela puxou da minha mão antes que eu pudesse fazer alguma coisa – ARRÁ!!
–NÃO! ME DEVOLVE ISSO! – gritei correndo atrás dela que entrou mata a dentro – ISADORA! Isso é pessoal, me dá aqui!
Tarde demais. Ela abriu. Senti-me ficar mais vermelho que um tomate maduro.
Ela ficou olhando, folheando e sorrindo de forma boba.
– Por favor, me devolve! – implorei – Olha...E-E-Esses de-de-desenhos nem são tão bo-bons, na verdade são só uns rabisco que eu faço quando...
– Rabiscos? – me interrompeu com a voz suave – Isso é... Isso é fantástico. Steve você é um artista. A forma que desenhou a Peggy jovem e depois uma senhorinha... – ela ia descrevendo tudo que via,encantada – São lindos!
–Não, não são! – eu disse puxando o caderno das mãos dela- Você TEM que prometer que NUNCA vai comentar com ninguém sobre isso, ok? Isa?
Eu dizia isso de costas para ela e não percebi que uma página tinha caído e por isso ela estava em silêncio.
– Isa? – repeti
– Esta sou eu? – perguntou com a voz embargada – Você me desenhou?
Senti uma imensa vontade de cavar um buraco e entrar dentro.
– Que lindo Steve! – ela disse, emocionada, me abraçando – Que coisa mais fofa, nunca ninguém me desenhou!
– E-e-e-e-e-essa é... é... – ia mentir. Dizer que não era ela, mas não deu certo. Era óbvio que era ela. – Essa é você, desculpe. Eu sei que isso não tem nada de lindo. Isso é coisa de boiola, como você bem disse e...
– Ei! Shi! – me silenciou, colocando sua delicada mãozinha em minha boca e sorrindo – Isso não é nada gay. Eu só estava curtindo com a sua cara porque você é muito bobo, entra na pilha, fica nervoso... Isso é lindo, Steve, isso é arte. Eu não tinha ideia que você fosse tão bom ilustrando. É perfeito. Você tem que mostrar seu talento ao mundo.
–Não! – cortei o barato dela na hora – Tá maluca? Deus me livre o “mundo” ver meus desenhos! Quase enfartei porque você viu.
Isa rolou os olhos.
– Tudo bem, com o tempo de convenço. – decretou – Mas, eu quero que você me dê esse desenho.
– De jeito nenhum. Esse é meu. Posso fazer um para você, mas esse é meu.
– Por que não pode ser este?
– Po-po-por...
– Ok, não precisa explicar, Mister Gago. – ela não perdia uma chance de tirar uma com a minha cara. — Faça outro desenho de mim, agora.
Concordei com a cabeça, ainda nervoso. Meus desenhos são muito pessoais, nunca mostrei para ninguém.
– Ótimo, mas fique perto daquele willow ali – apontei a árvore
– Willow?
– É, aquela arvore ali. – apontei novamente
– Willow? – repetiu confusa – O que diabos é um ou uma willow?
–Argh, Isadora! É aquela árvore ali. – fui até a árvore e acenei.
Isa teve uma crise de risos.
– Steve isso é um salgueiro.
– Ai esqueci o nome em português, que diferença faz? – me irritei
–Faz TODA a diferença amigo.
– Cala a boca e faz o que estou mandando.
– Ogro! – resmungou, obedecendo
E lá foi ela se sentar e eu comecei a desenhar. E este trabalho levou longos quinze minutos, já que ela não podia falar nada e nem eu.
– Pronto! – eu disse ao fim
– Graças a Deus! – disse ela massageando a maxilar – Nunca mais vou sorrir na vida.
E cinco segundos depois, lá estava ela morrendo de rir.
E após desenhar Isa, a Mata Atlântica e a vista de cima do morro, prosseguimos com a viagem.
E num silêncio absoluto. Eu ainda estava desconfortável por ela ter visto meus desenhos. Claro que Isa é a pessoa que eu mais confio neste mundo (a única!) e que não temos segredos, mas ela saber que eu a havia a desenhado me deixava assustado. Eu só desenhava o que era importante para mim. Só o que eu realmente gostava. E será que é bom ela saber que eu gosto muito dela? Ela sabe tudo sobre mim e eu pouco sei de sua história.
– Sabia que willow é minha árvore favorita? – perguntei para quebrar o clima estranho.
– Salgueiro – enfatizou – é o nome de uma escola de samba lá do Rio. Hoje foi a primeira vez que eu vi uma arvore dessas. E também foi a primeira vez que eu abandonei meio carro no acostamento e me embrenhei num matagal.
Eu ri.
– Quando eu tiver uma filha o nome dela vai se Willow. Willow, não salgueiro.
– Coitada da sua filha! – concluiu ela sorrindo
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Uma hora depois, Japuíba – Periferia de Angra dos Reis
– Bem-vindo á Japuíba! – saudou rindo
Lembra quando eu disse que a cidade e sua estrada eram paradisíacas? Quem era só céu azul, mar mais azul ainda e o verde das arvores? Esqueça tudo isso. Como bem dizia Isadora, aquela era a Angra dos “reis”. O local onde Isa morava era BEM diferente. O céu continuava azul, havia verde (bem menos do que antes!) e havia um rio.
– Este é o Rio Bonito. Lindo né? – ironizou – Acredite, um dia ele já fez jus ao nome que tem!
Eu estava estupefato. O rio cruzava todo o bairro e era absurdamente podre. Água barrenta e de vez em quando algo passava boiando. Algo que variava entre um sofá e uma geladeira. E o mais impressionante de tudo era a felicidade das pessoas, a união. Era tudo muito simples, muito precário e as pessoas sorriam e se cumprimentavam como se estivesse tudo maravilhoso. Talvez realmente estivesse.
Do nada Isa largou a mão na buzina.
–AÊÊÊÊ BARRANCO!! – gritou para um gari – DERAM SORTE EM? ISSO FOI SORTE!
– AQUI É MENGO, MENINA! NÓIS É CAMPEÃO SEMPRE! – gritou o sujeito com muito orgulho do tal “mengo”.
– DO ATLETICO –PR ATÉ O TIME DE ANGRA GANHA! – rebateu ela rindo
– Quem é mengo? – sucumbi a curiosidade
– Um time ridículo de futebol! – respondeu ela alto para que o tal “Barranco” ouvisse, em tom de provocação
O divertido Barranco colocou a cara na janela.
– É gringo?
–Sim.
– Flamengo é o melhor time do Brasil, isso aí é inveja dessa tricolor bobona! – devolveu a afronta
Isa caiu na gargalhada e arrancou com o carro.
Barranco danou a cantarolar uma musiquinha, o mais alto que pode:
♪ E ninguém cala, esse chororô...
chora vascaíno ;
chora alvinegro ;
chora tricolor ;
Não ganha nada, time de chorão ;
perde o campeonato ;
vai pro vestiário ;
pede demissão. ♪
Pensei que Isadora fosse ficar irritada, mas ao invés disso, gargalhou, apertou a buzina e gritou “marmelada” pela janela, antes de virar a curva.
Eu estava perplexo.
– Pensei que não gostasse de futebol.
–E não gosto, mas gosto de perturbar os flamenguistas. –respondeu ainda rindo – Esta já é minha rua, Steve!
E assim que entramos na rua dela, um vulto preto e pequeno passou latindo freneticamente próximo ao carro.
Isa deu uma tapa na própria testa, como se estivesse envergonhada. Encostamos o carro frente á uma loja de materiais de construção.
– ISADORA VAI PEGAR ESSE DIABO DESSE CACHORRO! – rosnou um senhor de meia idade que havia saído de dentro da loja.
A menina revirou os olhos.
– Também senti sua falta. – foi sarcástica- Steve esse é meu pai, pai este é o Steve.
E dito isso foi atrás do cachorro louco que corria atrás das pessoas, as assustando
–LOOOOOOOOOOOOOOOOKI! – gritava desesperadamente correndo atrás do cachorro que corria atrás de uma senhora que corria do Loki.
Loki! Que nome!
Voltei ao pai de Isadora.
– O senhor deve ser o Senhor Miguel. Muito prazer, Steve Rogers!- me apresentei estendendo a mão.
Fiquei no vaco. Seu Miguel ficou me cercando com a cara muito desconfiada.
– Então você é o “amiguinho” da minha filha? – perguntou retoricamente, enfatizando aspas no amiguinho
Confirmei com a cabeça.
– O “amiguinho” que minha filhinha fica conversando pela internet. – ele cruzou os braços me encarando – Prazer conhecer você, “amiguinho”.
– Prazer conhecer o senhor também. Ah e muito obrigado por deixar eu ficar na sua casa por essas duas semanas. – continuei sendo simpático, mesmo apavorado.
Ele voltou a me cercar com o semblante mais implacável do que nunca.
– Só vou te dar um aviso – sussurrou de forma ameaçadora em meus ouvidos – Se você tentar qualquer gracinha,QUALQUER GRACINHA, com a minha Isadorinha... Você vai voltar para o seu país com uma parte do corpo a menos. – concluiu apontando as minhas calças – Está dado o aviso.
Fiquei estarrecido balançando a cabeça em positivo.
Isa chegou abraçando o pai, que fez um sinal de “estou de olho” para mim enquanto a abraçava. O que eu faço!!!
– E aí já socializaram? – perguntou ela com um chihuahua preto e raivoso nos braços – Cala a boca, Loki! – grudou no focinho do “Loki”.
–Claro filha! –exclamou ele me fitando – Nos entendemos muito bem né, Estava?
– Claro! – concordei de imediato. Eu é que não vou corrigir meu nome de Estava para Steve.
Felizmente, Isa corrigiu e entramos em um portão ao lado da loja. Felizmente² o pai amedrontador dela ficou na loja.
Engoli em seco, ainda atordoado com o Seu Miguel, segurei na mão de Deus e subi as escadas rezando para que Dona Elisa fosse mais simpática.
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