Ainda É Cedo
7 Mantendo Os Olhos Abertos
Notas iniciais
#Steve
E mais dois meses se passaram e surpreendentemente eu não sentia mais um vazio dentro de mim. Desde que ‘’acordei’’ tudo que fazia ou pensava era relacionado ao meu passado. Gostava de restaurantes antigos, de pessoas antigas, de filmes antigos... Eu tentava me enganar de que eu poderia viver com um cara do século XX, no século XXI. E então vou á Washington depois de tanto tempo para ver Peggy, conheço Isadora e tudo muda.
Percebi que não precisava ser daquele jeito. Se continuasse sendo aquele museu ambulante (como ela ‘delicadamente’ gosta de me chamar!) acabaria deprimido. E eu já estava deprimido. A diferença é que o ‘’eu deprimido’’ trabalha arduamente 25 horas por dia afim de não pensar em mais nada.
Agora não, agora eu gosto de pensar no futuro e no presente. Isa tem me ajudado muito nisso. Claro que ela não é lá muito normal, não gosta de lavar banheiros, nem de acordar cedo e muito menos de americanos, mas é divertidíssima e muito inteligente. Sabe o tipo de amigo que faz você se sentir especial? Isa é assim. Desde que a conheci, não abri mais minha pasta de recordações.
E nos últimos tempos, depois de meus insistentes pedidos, Isa me ensinava a falar português.
– Eu gostar de maça. – eu tentei traduzir a frase que ela tinha me mandado
– Eu não gostar. Eu não ser índio. – debochou – Eu não GOSTO de maça! – corrigiu- Tem que conjugar o verbo, Steve!
–Argh! Que droga, sua língua é muito difícil. Porque não pode ser uma palavra só para tudo?
– Mas, é claro que é difícil. Aqui é Brasil, não é país pra qualquer um não, meu querido!
Eu ri.
– Estou vendo. – tive que concordar — E ainda não entendi a diferença dessas duas “mangas” nessas frases aqui.
Mostrei a folha pela câmera.
– Eu odeio manga ela é azeda. – ela leu a primeira frase – A manga da minha camisa é pequena.
– E como pode isso? Essa pessoa está comendo a manga da camisa?
Ela gargalhou.
– Não, “Estevão”! – brincou – A manga da primeira frase é uma fruta típica daqui e a ‘’manga’’ da segunda é sleeve... Entendeu?
Não, claro que não!
– Entendi, mas não concordo.
– Não concorda por que?
– Por que podia ser palavras diferentes.
– Não entende a diferença das mangas, mas entendeu tudo que minha mãe falou sobre ‘’vaso sanitário’’. – se irritou
– Eu não entendi tudo, entendi metade e fui deduzindo o resto. – contei entre gargalhadas – Eu já te contei sobre o José e o por que eu sei algumas coisas do português.
– José? – perguntou perdida
– Fala sério, Isa. Já esqueceu? Ultimamente você anda esquecendo-se de tudo. Precisa descansar. – me preocupei
– Eu não tenho tempo pra dormir! Experimenta cuidar das gêmeas, Marina e Valentina, o dia inteiro e ainda ter que aturar as “adolescentísses” de Celina ao mesmo tempo. E vou dormir quando? – ela disse olhando o relógio – Olhe só, são 20h38min de uma sexta-feira e eu estou na faculdade. Só estou falando com você por que minha turma foi para uma palestra sobre sustentabilidade e isso enche o saco.
– Enche o saco? – me revoltei – Um dos assuntos mais importantes do século e você acha chato?
Ela revirou os olhos.
– Desculpa, esqueci que você é um gnomo com esse lance de natureza! – exclamou
– Eu não sou um gnomo! Só acho que você deveria se preocupar com o desmatamento da Amazônia já que faz parte do país que você taaanto ama. Fora que se as arvores morrerem...
– Já chega gnomo! – ela insistiu se jogando no teclado – Tudo bem, êêê viva a natureza!
Rolei os olhos, irritado.
– Eu te odeio.
– Odeia nada! – rebateu convicta – Agora me diga do tal do José.
– De novo, né?
– Desculpe, eu tô...
Ia brigar com ela, mas fiquei com pena. Isa trabalhava demais sem contar que se tem alguém que não pode reclamar dela, esse alguém sou eu.
– Tudo bem, Isa. – ponderei – Me desculpe, eu sei da sua situação. Bom, José foi um rapaz brasileiro com que tive a honra de trabalhar durante a guerra. Infelizmente, ele morreu no mesmo dia em que...
– Em que você perdeu o Bucky. – completou – Desculpa de novo, tinha me esquecido. Odeio esquecer coisas importantes de pessoas importantes.
– Eu sou uma pessoa importante?
Isa sorriu.
– O que você acha Steve?
– Que não. – fui sincero
– Você é importante. Importante e burro por não saber que é importante. – brincou
Senti-me corar e logo Isa gargalhou comprovando o fato.
– Você também é muito importante, Isa. Muito mesmo. E é por isso que eu quero que você descanse. Está parecendo um zumbi daquela série que me recomendou.
– Ai nossa, valeu! – resmungou – Ah e boa lembrança! O que está achando de The Walking Dead?- se animou – Já terminou a primeira temporada?
– Primeira temporada? Já estou terminando a terceira! É muito, muuuuuuuuuuito maneiro. – comentei rindo
– Eu sei, é viciante! Acaba logo essa terceira pra eu poder comentar da quarta com você!- disse ela histérica com a possibilidade de um parceiro Walker — Por falar nisso já coloquei no correio uma encomenda para você com uma carta e um Box com outra série exelente para você. E essa é séria.
– Jura? Qual?
– Homeland. Tenho certeza que você vai viciar.
– É sobre o que?
Isa olhou no relógio novamente.
– Procura no Google. – brincou – Preciso ir, gnomo. Tchau
– Gnomo não! Para com isso. – briguei
– Tchau, Gnomo! – espetou de novo antes de se desligar
Mesmo revoltado com o “gnomo”, procurei no Google sobre a tal série. E gostei muito do que vi. Bem o tipo de coisa que Isa gosta de me mandar: Coisas relacionadas á uma suposta face maligna do meu país de origem. 99% é pura conspiração e os outros 1% realidade, mas não digo isso pra ela. Deixo-a acreditar que eu acredito mesmo que somos “A Grande Serpente”.
No dia seguinte recebi uma ligação de Fury me informando de uma nova e audaciosa missão. Algum tempo depois, lá estava eu na SHIELD. Sério,determinado, militar ... Não havia vestígios do rapaz que no dia anterior conversava sobre séries de TV com a amiga. Na SHIELD eu não podia ser o rapaz do Brooklyn ou não na maior parte do tempo. Era preciso agir com a cabeça. Por mais difícil que fosse o meu ‘’trabalho’’, era aquilo que eu sabia fazer. Era aquilo que eu gostava de fazer.
Para minha surpresa a reunião não era com Fury. Era com o presidente da república.
– Olha só se não é o defensor da liberdade! – exclamou ele me cumprimentando – Sou uma grande fã do seu trabalho.
Sorri gentilmente e o agradeci.
– Confesso que estou um pouco surpreso em encontrá-lo aqui, Senhor Presidente.
– Ah meu amigo! Temos assuntos de interesse nacional á tratar. E era necessário que eu fizesse isso pessoalmente.
–Ah sim. E o que seria?
– Recebemos uma informação muito preciosa esta noite. – contou ele sentando-se a minha frente – Como o senhor foi informado, a pouco mais de dez anos invadimos o Iraque em busca de armas químicas. Não ganhamos a guerra, não conseguimos as armas e perdemos muitas vidas.
Instantaneamente a voz neurótica de Isa veio a minha cabeça dizendo “Mentira! Mentira! Mentira da brava! Queria petróleo, só isso. Mataram inocentes e ainda saíram com fama de heróis”. E tudo que Isadora falara foi confirmado pelos inúmeros livros que a mesma me dera de presente. Livros estes com um conteúdo completamente diferente dos que eu havia recebido de Fury. E ambos, aparentemente, abordavam a mesma guerra.
Concordei com a cabeça. Queria ver até onde ele iria.
– Depois de todo esse tempo, finalmente descobrimos a localização dessas armas.É a nossa chance de dar a volta por cima. – continuou ele – E precisamos de você. Capitão seu trabalho tem sido uma dádiva á humanidade. Você moldou o século. Graças a você nosso país é a maior potencia do mundo.
E até onde ser o todo poderoso é algo bom? Até onde “dar a volta por cima” pode ser bom? – me questionei em silencio.
– Precisamos que faça isso mais uma vez. – afirmou sorridente. Sorriso de político... Isa o odiaria mais ainda se o visse agora.
– E de que forma eu faria isso. Sem rodeios, o que vocês realmente o senhor deseja que eu faça. – enfatizei
Obama soltou uma risadinha enquanto esfregava as mãos.
– Precisamos que o senhor lidere uma tropa armada na cidade de Basra, onde as armas estão escondidas. Segundo nosso informante as armas estão em uma caverna a oeste da cidade, mas precisaríamos de nossos melhores homens para retirá-las.
Fitei-o ceticamente.
– E por que o senhor não mandou qualquer outro fazer este trabalho? Tem certeza que só descobriram isso esta noite? – fiquei cabreiro
Acho que ele não esperava meus questionamentos, pois ficou um tanto desconfortável.
– Capitão, uma invasão militar ao Iraque não é algo para qualquer um. Principalmente após o fim da guerra. O senhor liderou expedições á HIDRA e esteve com Hitler mais de uma vez. Não há ninguém neste país mais capacitado que você. – encheu minha bola
– Com todo o respeito, presidente, mas se a guerra acabou porque querem invadir? E invadir novamente por uma hipótese novamente? E ainda por cima meses depois do ocorrido na Síria? – contei como se contasse uma piada. Aquilo só podia ser piada. – Sr. Obama invadir Basra agora é atirar no próprio pé. Sem contar que o senhor se elegeu prometendo tirar os homens de lá. Acha propício um retorno agora? Me desculpe, mas a população não está muito feliz com o senhor depois da quase guerra na Síria. E me perdoe novamente, mas eu também não.
Silêncio no local. O homem a minha frente tinha uma expressão facial indecifrável.
– Vejo que está bem informado. Mas, temo que as informações que possua não sejam verídicas. O senhor é um homem bom, precisa me entender. O que houve na Síria... Bem, eles mataram milhares de crianças...
– E se nosso país os atacasse teriam sido mais e mais vítimas, presidente. – o interrompi.
Ele apoiou a cabeça sobre as mãos e soltou um grande suspiro. Estão achando que eu sou criança? Que vou cair nessa de salvar os pobres e indefesos dos Emirados Árabes? Acham mesmo que sou tão manipulável assim?
– Rogers nossos inimigos querem que nós acreditemos que nós somos os vilões. – disse ele depois de um tempo – Você mais do que ninguém sabe que nós lutamos pela liberdade. Não apenas a liberdade americana, mas a liberdade do mundo. Nós vamos neutralizar inúmeras ameaças antes que elas ocorram. Nós...
– Eu pensei que o castigo viesse depois do crime. – o cortei irritadíssimo – Que eu saiba durante este tempo que estive desaparecido não criaram uma bola de cristal. Não podemos atacar alguém apenas pela desconfiança que um dia eles nos ataquem. Isto é errado e perverso.
O presidente soltou uma risadinha debochada.
– Então temos que esperar um novo 11 de setembro acontecer para fazer algo? O mundo mudou Capitão Rogers. Se não agirmos nos destruirão. Você conhece bem, caos, guerra... Só basta um passo. Só basta ficarmos de braços cruzados.
– Não estou dizendo que temos que ficar de braços cruzados, estou dizendo que não é certo atacar outro país do nada.
Novamente uma risadinha. Não vou votar neste cara nas próximas eleições.
– A SHIELD e o governo americano lidam com o mundo da forma que ele é, não da forma que gostaríamos que fosse. – retrucou
Suspirei, bastante nervoso. Eu devo falar grego.
– Tudo bem, senhor. Mas, eu não vou fazer parte disso. – conclui convicto
– Façamos o seguinte, tire férias.
– O que?
– Isso, vá divirta-se! Em duas semanas conversamos sobre isso novamente, aposto que mudará de ideia.
– EU não vou mudar de ideia. Agradeço, mas não preciso de férias.
– Precisa sim, é uma ordem Capitão. – Fury adentrou a sala em tom de brincadeira – Duas semanas de licença. Tem trabalhado incansavelmente durante os últimos anos. Férias lhe farão bem.
Não tendo muita escolha e completamente contrariado acabei aceitando.
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Cheguei em casa ainda muito cabreiro com a visita do presidente á SHIELD. Não concordei com 99,9% das coisas que ele me disse. Tudo tão... Capitalista! Nossa falei igual à Isa, a comunista. Mas, era verdade.
Por falar nela a encomenda tinha chegado. Abri a caixa, pesada, e me deparei-me com muitas coisas : 10 CD’s, três livros, um Box da série “Homeland”, sete DVD’s, um aparelho portátil de som e uma carta.
Peguei a carta completamente bobo com tanto mimo e sentei-me no sofá.
“Querido John,
Não entendeu o início? Leia o livro de mesmo nome que está na encomenda hahaha (desculpa, não resisti a te chamar de John). Enfim, estou escrevendo para te explicar o que são essas de coisas na caixa. Comprei o som porque sabia que você não tinha e para mim gente sem música é gente infeliz. Ouça músicas, amigo!
Como eu já sabia que você ia ficar perdido na loja de CD’s e podia acabar comprando um disco por engano, tratei de providenciar isso. No embrulho roxo temos músicas gringas (para mim, para você a maioria é nacional!). Temos aí Michael Jackson (dispensa apresentações. Já comentamos sobre ele, lembra?), Whitney Houston (diva! Ouça! Ouça!), Aretha Franklin (essa é da sua época!), Elvis Presley (você não chegou a conhecer. É da época da minha mãe, mas musica boa não tem época. Eu amo!). O quarto CD do embrulho roxo é um mix das quarenta melhores músicas contendo músicas de Stevie Wonder (seu chara com talento musical!), John Lennon, Beatles (sou muito fã, por isso tem umas cinco músicas aí), Rolling Stones, ACDC...”
Fiz uma careta ao ler ACDC. Só me lembrava do metido do Stark. Continuei a ler a carta.
“... Ben Harper, Jack Johnson... Enfim muitos caras que cantam pra caramba! Sei que vai direto à Aretha Franklin por te trazer boas recordações, mas dê uma chance aos artistas modernos, ok? Ou não tão modernos assim já que a maioria já morreu (tenho um gosto musical vintage hahaha!).
Continuando... No embrulho azul tem outros cinco CDs brasileiros. Isso aí, estou te obrigando a amar o Brasil! Ame o Brasil, desgraça! Kkkkkkkkkkk Ok, surtei aqui. Na verdade não estou te obrigando a amar o Brasil (estou sim!), só estou mandando isso porque também temos musicas óóótimas e fará bem para o seu aprendizado em língua portuguesa. Aí estão meus grandes ídolos, Elis Regina, Roberto Carlos, Legião Urbana, Barão Vermelho, Gabriel o Pensador ( ele pensa! Não, não...Magina!), Pitty, Rita Lee, entre outros. Ouça que você vai gostar.
Nos filmes temos alguns clássicos do cinema (Titanic, Senhor dos anéis, O patriota- você vai amar! E outros ) e uns bem besta (Shrek, Esposa de Mentirinha, A Era do Gelo), mas que são legais para se distrair após um dia de trabalho.
Ah e esse três livros são só meus exemplares de Plano de Ataque, Uma breve História do Mundo e Código da Vinci, ou seja,estão em português. Não reclama!”
– Não vou reclamar sua chata! – falei em voz alta com se ela estivesse ali
“Dá série eu já falei, é ótima. Espero que curta meus presentinhos, te vejo no Skype no sábado. Não se esqueça de manter os olhos abertos.
Com amor, Isadora Wollscheid.”
Terminei de ler a carta com a certeza de que tinha que comprar um presente para Isa. E mais convicto ainda de que seria no Brasil, onde passaria as minhas férias.
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