Ainda É Cedo
41 A Hora do Pesadelo
Notas iniciais
Hotel Lydmar, Estocolmo – Suécia.
Arfando e banhada de suor, Natasha levantou-se da cama subitamente no meio da madrugada. Havia tido um pesadelo. Três pesadelos em uma só noite, um novo recorde para a Viúva Negra. Nem mesmo quando passava diariamente por torturas psicológicas havia chegada a este número.
Era sempre o mesmo sonho: Clint a denegrindo, acusando-a de ser uma bruxa, de não ter um coração, de ter o traído. E então apareciam os pais de Anna querendo matá-la e seu amigo nada fazia para defendê-la. O fim do pesadelo era o de sempre: Clint acertava uma flecha em sua cabeça e ela acordava em pânico.
Definitivamente a moça estava com a consciência pesada.
Ainda assustada, Romanoff levantou-se de sua cama, olhou as horas em seu relógio e viu que ainda era 3: 45h da madrugada; vendo que não ia mais conseguir voltar a dormir, foi ao banheiro tomar um banho quente e relaxante na banheira do hotel.
Estava em hotel de luxo, sozinha, fato que estranhamente não a deixava muito sossegada. Ficar sozinha sempre foi algo fabulosa para a ruiva, porem desde que negociou a pequena Rogers com Ivan, ficar sozinha era extremamente doloroso. Era como se todos os seus demônios a atormentassem noite e dia. Um frio percorreu-lhe pela espinha, apesar da água morna existente na banheira, e Natasha saiu rapidamente do banho.
Dirigiu-se até sua mala e lá encontrou uma toalhinha de mão com um nome bordado: Anna. Automaticamente abraçou a toalhinha como se fosse à menina.
–É... Acho que preciso consertar uma coisa. – disse ela. – Mas, não é por você Ann, é pelo Clint. Só pelo Clint. Eu não me impor... Eu não me importo com você, Ann. Eu não me importo.
Até então de roupão sentou-se frente à TV para pensar no que fazer, em como consertar a verdadeira cagada que tinha feito. Ligou o televisor e deparou-se com a seguinte manchete:
“Campo de Detenção da Baía de Guantánamo cruelmente atacado pela gangue do ex- Capitão América. A maior parte dos soldados se aliou ao marginal. Uma agente federal foi encontrada morta.”
Natasha se remexeu no sofá, desconfortável, o humor vacilando entre alegria e pavor. Aumentou o volume, prestando atenção a tudo que a repórter Pearl Stuart dizia.
– O governo dos Estados Unidos está em alerta total. – bradava a jornalista – A prisão onde Isadora Wollscheid, Sam Wilson, Clint Barton o famoso Gavião Arqueiro, entre outros criminosos estavam presos, foi veementemente atacada por Steve Rogers, Xiaoli Chan e outra agente federal cujo nome não foi identificado. Segundo o General George Tarleton da CIA – Companhia de Inteligência Americana – ele e outros agentes foram presos e humilhados pelo criminoso e muitos soldados americanos foram manipulados a participar do bárbaro ato. No local foi encontrado o corpo da Agente Sharon Carter...
–SHARON CAAAAARTER? – Romanoff não resistiu a um berro de alegria.
–... Com dois ferimentos de balas na região do abdômen e setenta e três facadas pelo corpo. – continuou a repórter — A perícia encontrou as digitais de Isadora Wollscheid Villani na faca usada pelo crime e esta é a principal suspeita do homicídio triplamente qualificado de Sharon Carter. Eu sou Pearl Stuart ao vivo de Guantánamo. Voltamos a qualquer momento.
Natasha desligou a televisão perplexa. Será? Será que a songamonga da Isadora MATOU aquela filha da mãe? Improvável!, pensou ela. Provavelmente só mais uma notícia sensacionalista. Dúvidas a parte, a russa tinha certeza de uma única coisa: Precisava recuperar o bebê antes de ir atrás de Barton. Caso contrário seu pesadelo poderia virar realidade.
Nem esperou amanhecer, pagou sua conta no hotel e dirigiu a mil por hora rumo à Escócia, atrás de Ivan, decidida a forçá-lo a dizer para que lugar da Ásia e para quem AJ tinha sido mandada. Algumas horas depois chegou a casa de Ivan.
Quase arrancou o botão da campainha de tanto que apertou.
Ninguém atendeu.
Começou então gritar o nome do homem.
Ninguém atendeu.
Perdeu a paciência e arrombou. Não tinha ninguém na sala, porém uma voz ecoou pelo local. Uma voz conhecida vinda da secretaria eletrônica.
–Uma pena. – lamentava a voz – Uma grande pena perder uma espiã tão formidável quanto você, Natasha.
–Fury? – só podia ser brincadeira
–Eu não estou aqui, fofinha, isso é só uma gravação. Na verdade, é só um agradecimento.
–Agradecimento? – ela estava surtando.
–... Quero agradecer pela sua ideia brilhante de roubar a filhote do Rogers e, claro, por ser tão previsível. Estou na sua cola desde que se separou do grupo e sempre soube que você seria o fracasso da missão daqueles calhordas.
–Não! – se ofendeu
–Sabe por quê? – continuava Fury em tom sarcástico – Porque você é como eu. Você não muda, é perversa, é cretina, é a Viúva Negra. Enfim, é uma pena perder uma agente como você e obrigado pelo “pequeno” grande trunfo. Anna, certo? Agora faça o favor de ir atrás daqueles imbecis e destruir aquele maldito dossiê...
–EU NÃÃÃÃO SEI ONDE ELES ESTÃO,POOORRA!! – se exaltou, embora soubesse que ele não escutava.
–... E avise-os que eu estou com a criança. – continuava ele parando para soltar uma gargalhada – Ai, Ai! Quero só ver como você vai dizer para o seu amaaaado Barton – provocou – Que vendeu aquela que ele confiou a você.
Natasha estava enfurecida até a raiz dos cabelos. Não é possível que ele tenha a vigiado durante todo esse tempo!
–... Tenho ouvidos em todos os lugares, docinho, já devia saber disso. Tchau bêbada fracassada, ande logo vá atrás de Barton e minta. Minta, Minta, minta!Afinal é só isso que você sabe fazer. Se eles não se entregarem e entregarem os documentos essa criança vai partir dessa para melhor e quem vai sofrer as consequências vai ser vo...
Em um ímpeto de fúria, a russa atirou contra a secretária eletrônica. Só podia ser brincadeira, não podia ser verdade! Fury sempre um passo a frente de todo mundo, como ela não previu que ele a seguiria? Logo ela que sabe que Nick era o mais perigoso por saber muito sobre ela.
Ele sabia que Natasha procuraria Ivan. Ele sabia que Anna seria vendida. Ele comprou Anna, isso estava claro. E mais claro ainda é que seu pesadelo só estava começando. Por descarga de consciência subiu as escadas da casa do amigo e não se surpreendeu ao encontrá-lo com uma bala alojada na cabeça.
–É estou mais sozinha do que nunca. – lastimou. – E mais fodida que o habitual.
Agora seu trabalho era caçar Clint o mais rápido possível e sofrer as consequências de suas ações. Natasha fora traída pelo próprio egoísmo.
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#Isadora
–Isadora? Isadoraaa? Filha fala alguma coisa, você tá aí? – minha mãe estalava os dedos frente ao meu rosto, desesperadamente.
Eu estava sentada em um banco do avião, todos me olhavam chocados. Steve não dizia uma só palavra, fitava-me como se fitasse um monstro. Os outros tentavam entender o porquê deu estar ensopada de sangue. Apesar de ver todos ali, eu estava longe. A voz de minha mãe parecia distante como o fim de uma música. Gotas de sangue pingavam dos meus dedos, meu rosto parecia ter sido pintado de vermelho.
–Isa? – ela insistia – Pelo amor de Deus, Esteeeevão! Estevão o que foi que aconteceu? De quem é esse sangue? Isadora, minha filha, vai lavar essa cara, está parecendo uma açougueira.
–Tá parecendo é o Jack o Estripador depois de estripar suas vítimas. – ouvi uma voz masculina brincar, mas não identifiquei o autor. Provavelmente, Sam.
Virei o rosto rumo a Steve. Ele abriu a boca para responder, mas nada saiu. Apenas balançou a cabeça, franziu o cenho, fez cara de nojo e ficou em silêncio. Parecia incapaz de expressar o que sentia. Caramba, eu matei uma pessoa!
–Qual é gente, o que diabos aconteceu lá embaixo? – Domi se jogou a minha frente sacudindo-me pelos ombros. – De quem é esse sangue? É do Fury, vocês o encontraram?
Steve deu um murro na parede do avião abrindo um buraco.
–NÃÃÃO, DOMINIKA, NÃÃÃÕ! – berrou em um tom patológico. – Esse sangue é da Sharon, a Isadora MATOU a Sharon.
Silencio total no ambiente, todos perplexos. As palavras dele foram ditas com tanta mágoa que me atingiram como um tsunami de canivetes. Escondi a cabeça entre as mãos e iniciei um choro compulsivo.
–Co — Como é? – ouvi minha mãe gaguejar – A Isa... Não, Estevão! Pare de mentir, minha filha jamais...
–Jamais? – ele a cortou completamente fora de si – Ela matou sim, dona Elisa, matou! Como, como uma mulher das cavernas ou uma, u-u-uma... Eu nem sei o quê.
–Calma, Steve, calma aê, cara! –ponderou Sam e Phil tentando acalmá-lo um pouquinho. – Espera aí, Isa...
Levantei o rosto para ele. Eu solucei tanto que os ferimentos do maxilar que a falecida tinham me causado voltaram a doer.
–Isinha! – exclamou Sam em tom de incredulidade – Você deu cabo da psicopata?
Fiz que sim com cabeça contendo um pouco o choro.
Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso. Domi estava com o queixo no chão assim como todo mundo ali.
–Er... Tudo bem, gente, qual é, aquela filha da puta matou o pai dela, quase matou as filhas dela, quase matou ela! – quem diria, Skye entrou na minha defesa – Está tudo bem, Isadora. Qualquer um fazia o mesmo e isso vai contar como legítima defe ...
–Não é legítima defesa quando se aplica setenta e três facadas em uma pessoa que não pode se defender. – Rogers a interrompeu violentamente, vermelho de tanta raiva, apontando o dedo pra minha cara como se eu fosse... Uma assassina. – E o que foi? E se ela tivesse exterminado todo o Brasil? Isso por acaso ia justificar ela ser morta também? Por acaso vivemos em um mundo regido pela lei do “olho por olho, dente por dente”? Você ter matado a Sharon só provou uma coisa: Que você é tão doente quanto el...
–CHEEEEEEEGA! – perdi a linha me levantado do chão – Pra você é tudo muito fácil, não é Steve? Deve ser mesmo para alguém que fica atrás dessa merda de escudo o tempo todo. Eu não tenho merda nenhuma na minha frente, eu venho sofrendo há DOIS ANOS por causa daquela vagabunda. O MEU PAI foi morto injustamente por causa dela, minha mãe foi presa na pior prisão do planeta por CAUSA DELA. – joguei na cara mesmo, a deus alto controle. Vou dizer tudo que está entalado na minha goela – E olhe só para mim?
Ele abaixou o rosto... covarde!
–OLHA! –vociferei – Olha o estado do meu rosto, veja só o que ela fez comigo!
–EU SEI ,TÁ BOM? – bradou de volta – EU SEI DISSO TUDO, EU TAMBÉM ESTOU SOFRENDO COM ISSO TUDO, SABIA? Eu quero justiça, Isadora, só não acho que a morte seja o castigo certo. Não vê que ela saiu no lucro nessa historia? Ela tinha que ser presa, julgada, condenada a prisão perpétua. Mas, nããão... Você preferiu matá-la, preferiu pagar na mesma moeda.
–Sim, eu quis pagar na mesma moeda.
De canto de olho observei que tinha uma plateia ao nosso redor. Dane-se!
–Você não sofreu o mesmo que eu, Steve. – completei a frase anterior em tom mais baixo – Você não ficou grávido, você não viu uma maluca pegar as suas filhas enquanto outro maluco te espancava, você não perdeu o seu pai, você não sentiu as dores do parto e nem a recuperação terrível da cesariana, você não acordou de madrugada...
–ISSO É INJUSTIÇA! – protestou enfezado – Já chega, Isa, não vou mais ouvir você me acusar de não cuidar das minhas fi...
–Ah você não vai ouvir? – debochei – Vai ouvir sim, porque é verdade! Sempre faz tudo pela metade, nunca consegue se quer trocar a roupa de uma delas, sem cortar a circulação sanguínea. Você é um ogroooo!! E eu estou de saco cheio disso tudo. Eu matei sim aquela vaca com setenta e três facadas; minha ideia era dar cem, mas você chegou antes. E se quer saber eu não me arrependo...

–Não se arrepende? – ele bufou exasperado – Você não se arrepende de ter ceifado uma vida? De ter sujado suas mãos e perdido sua dignidade por pura vingança?Afinal o que você é, um anjo vingador? Deus?
Fiz uma careta de ódio. Puritano dos infernos! Tive que soltar uma risada debochada.
–Disse o homem que provavelmente matou muita gente durante a Segunda Guerra Mun...
O barulho de outra porrada na parede do avião me impediu de completar a frase.
–Pro seu governo, Isadora Wollscheid, eu NUNCA matei ninguém. Nunca, em tempo algum. –se defendeu a voz já rouca após tanta gritaria. – E sabe por quê? Porque para mim o assassinato é um ato desumano, praticado por pessoas desumanas. É uma falta de respeito com a vida. Eu não entendo, não entendo como você pode fazer uma coisa dessas. Não me importa se ela merecia ou não, o que importa é que VOCÊ NÃO MERECIA FAZER ISSO.
Fiquei em silencio por um segundo olhando para a cara de decepcionado que ele me lançava.
–Eu a matei e vou matar qualquer um que fizer mal ou representar perigo para as minhas filhas. – encerrei o assunto enxugando as lágrimas. – E isso inclui você.
Ele riu um riso falso e doido.
– Então você está assumindo publicamente, para todo mundo aqui nesse avião, que se tornou uma assassina passional motivada pela vingança. – afirmou – Certo, você mudou mesmo.
–Sim, eu mudei. – concordei orgulhosamente.
–Para pior.
–Apenas despertei do maravilhoso de Isadora onde os seres humanos são bons, onde a igualdade social pode existir e onde deixar viva alguém que trancou seu bebê em uma cela por horas é perfeitamente aceitável. Desculpe senhor Rogers, mas essa Isadora patética morreu. Sabe do que eu me arrependo?
Steve fez sinal para que eu continuasse.
– De ter me apaixonado por você. – talvez eu tenha sido um pouco cruel ao dizer isso, pois a cara dele não foi das melhores. Continuei meu ataque dizendo: — Eu deveria ter ficado com o Brian, devia ter corrido atrás dele após nosso termino naquele restaurante e seguir viagem com ele para o Canadá. Ia ser melhor para todos, não acha? Meu pai estaria vivo, eu não estaria toda ferrada, nunca teria matado ninguém e...
–E as meninas não existiriam. – ele completou.
Ok, não tinha pensado nisso.
–Algo bom tinha que acontecer em meio a tantas tragédias, certo?- debochei – Em suma é isso, eu a matei e pronto. Não se preocupe que não vai ter que conviver por muito tempo com a “cruel assassina” aqui. Quando essa droga acabar eu vou voltar para a minha terra com as minha filhas e só teremos que nos ver quando for visitá-las.
Steve saiu daquela saleta sem dizer mais nada. Permaneci ali lutando para não voltar a chorar. Minha mãe e Domi levaram as duas meninas para os fundos do avião enquanto Sam e Phil foram atrás do Steve “consolá-lo”... Palhaços!
Beth, Skye, Xiaoli e Clint ficaram. Clint! Clint!
–Clint? – choquei-me ao perceber a presença dele ali – Você não...
–É... Eu fui pego. – explicou.
Pânico! Pânico! Pânico!
–E onde é que está minha filha?
O sujeito coçou a nuca, coçou o cabelo, mordeu os lábios e nada disse.
–Anda! – o apressei.
–Vai lavar o rosto primeiro, o que acha? – Xiaoli sugeriu – Você ainda está toda suja de sangue... Tem roupas naquela maleta ali.
Mesmo cabreira fiz o que ela pediu, entrei no minúsculo banheiro para tomar um banho.
Enquanto tomava banho caí no berreiro. Que vida triste! Que vida cruel! Por que, meu Deus? Por que eu tenho que passar por isso tudo? Será que sou mesmo o que Steve disse? Será que eu errei? Eu matei uma pessoa! UMA PESSOA!! Isso é grave, só agora sozinha debaixo do chuveiro percebo isso. Se bem que ela mereceu...
Ou talvez não tenha merecido. Talvez ela pudesse mudar na prisão, encontrar um cara bacana, se apaixonar, se tratar psicologicamente. Podia até pedir perdão um dia, quem sabe? Será que eu tinha esse direito? Será que alguém nesse mundo tem o direito de encerrar a vida de alguém? Em contraponto e se ela continuasse viva e fazendo o mal? Chorei compulsivamente por tudo. Pelas feridas ainda abertas em meu corpo e pela ferida imensa que eu mesmo tinha aberto em meu coração. Falei o que não devia, ouvi o que não devia. A verdade é que aquela Isadora patriota e idealista ainda está dentro dessa Isadora fria e passional aqui. Só não sei como eu vou tirá-la daqui ou destruí-la para sempre.
Fiquei mais alguns minutos no banheiro colocando band-aids nos ferimentos e tentando entender o que eu havia feito da minha vida. Essa loucura toda valeu a pena? Uma ideia vale uma vida? E o Steve... Não sei como me sinto em relação a ele. Ao mesmo tempo em que ele me dá paz, ele me dá ódio.
Sem nenhuma resposta para a multidão de perguntas em minha cabeça, me dirigi até Clint e os outros. No caminho encontrei o “capitão”, mas preferi não dar muita ideia.
–Cadê a Natasha? – inquiri ao arqueiro.
Beth sussurrou um “ui” preocupado. Estranho...
–Está mais calma? – a chinesa investigou
Concordei com a cabeça, embora que com tanto mistério eu já estava voltando a ficar nervosa. Beth fez sinal para que eu sentasse, obedeci, e ela fez carinho em meus cabelos. Estranho².
–Então... A Natasha não está aqui. – Barton anunciou com toda cautela possível. – E nem a Anna.
Fechei a cara prestes a ter uma sincope.
–Minha filha não está com aquela desalmada, está?
–No caso... No caso... No caso, sim, mas...
–Quê? –me desesperei – Como assim “no caso sim”, Clint? Eu a entreguei a você, a responsabilidade é sua.
–Eu sei, Isa, calma, ela está bem.
–Como pode ter tanta certeza? Aquela garota é maluca, violenta e odeia crianças. Especialmente as minhas!
Ele sorriu.
–Nat é “ fechada” (sim, ele definiu a monstra como fechada!), mas tem um coração não faria nada de mal a pequena. Sem contar que a fiz prometer que cuidaria dela. Nat nunca descumpriu uma promessa feita a mim.
Diante da minha cada de desconfiança ele reforçou, dizendo:
–Estou te dando minha palavra. Se algo acontecer a ela eu me responsabilizo.
–Olha lá em? – resolvi alertar. – E como é que ela vai nos encontrar? Afinal, para onde estamos indo?
–Melinda está nos levando para o México. – Xiaoli informou-me – Barton tem um refugio naquelas terras.
–E Natasha sabe disso, não demorará muito a perceber que fomos para lá. – acrescentou o bobo apaixonado pela russa. – Há essa altura já deve estar nos jornais o que aconteceu em Guantánamo.
–Certo. – só me restava concordar.
Não demorou muito até Melinda (mulher carrancuda e braço direito de nosso “padrinho” Phil) nos avisar que estávamos pousando em... hum... Algum lugar do México. Assim que desci do avião minha mãe agarrou meu braço.
–Precisamos conversar mocinha. – sussurrou em meus ouvidos – Não disse nada lá em cima, pra não dar mais confusão.
–Tudo bem. – concordei no momento que Steve passou trotando perto de mim de cara feia.
Era uma casinha velha no meio das árvores que muito me fez lembrar a casa que ficamos na Irlanda. Bons tempos, aqueles! Tudo era tão suave, que saudade! Mas, acabou, chega de melancolia. Tinham dois quarto, um ficou para as mulheres e outro para os homens. Ninguém nem ousou comentar nada sobre os últimos acontecimentos. A casa estava em silêncio profundo.
–Suas filhas são muito lindas. –comentou minha mãe em um raro momento que ficamos sozinhas no quarto. – Você foi muito cruel, Isadora.
–Não fui não.
–Foi sim. E o que você fez foi errado e você sabe disso. –retrucou – Esfaquear pessoas não é muito do seu feitio, não foi isso que eu te ensinei, Isadora.
Ai que ótimo, sermão de mãe pra fechar meu dia com chave de ouro.
–Ai mãe me dá um abraço aqui, dá! – mudei o assunto radicalmente a abraçando – Senti tanta a sua falta!
–Ah sentiu né? – e pronto... – Na hora de sair por esse mundo fazendo filhos e matando pessoas, não sentiu, né?
–Ai manhêêê! – me revoltei – Eu não podia te mandar uma carta, tá?
Ela riu.
–Eu sei, mas eu sofri muito. Imagino que agora que agora que é mãe entenda o que eu passei.
–E como. – lamentei – Mas, agora estou aqui e isso tudo já está acabando.
–Graças a Deus! Só cuidado para não acabar com coisas realmente importantes no processo. – alertou.
Bufei. Eu sabia do que ela estava falando.
–Não estou acabando com nada importante, apenas estou cortando o mal pela raiz.
Dona Elisa me deu um safanão e antes que eu pudesse reclamar ela já se pôs de pé, apontando o dedo para mim.
–Olha aqui dona Isadora! – rugiu brava – Se depois de tudo que você me passou, você simplesmente terminar com o Estevão e seguir sua vida, eu vou dar uma coça NOS DOIS. Ouviu bem? – Tá de sacanagem! Tive que concordar, embora não fosse obedecer. – Só não vou dar na sua cara pelo que você fez a essa mulher porque eu também faria o mesmo. Agora vai dormir que você tá horrível.
–Ai obrigada pelo elogio, estou me sentindo bem melhor agora. – debochei.
–Assassina! – zombou da porta
–Chata! – devolvi rindo antes de ela fechar a porta.
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SEIS DIAS DEPOIS
#Steve
Durante a última semana o sono não veio fácil para mim. Tento dormir algumas horas por noite, mas a energia nervosa que há dentro de mim faz com que eu me vire de um lado para o outro até que desisto e me levanto para fazer alguma coisa. E minha insônia tem nome: Isadora. Não sei, acho que é melhor eu começar a pensar em como será minha vida daqui em diante sem ela por perto e em como vamos nos dividir para cuidar das crianças em países diferentes. É parece que meu sonho de ter uma família transformou-se em pesadelo.
Não trocamos uma só palavra nos últimos dias. Quando damos de cara um com o outro, simplesmente nos ignoramos. Ao menos ela tem se recuperado bem dos ferimentos da surra. O inchaço dos olhos e boca sumiram, o apetite voltou e os machucados já estão em fase de cicatrização. A única ferida que não sara de jeito nenhum é a do meu coração. Eu não sei explicar direito o que sinto toda vez que olho para ela. Acho que é decepção. Talvez a culpa seja minha que sempre a julguei perfeita e esqueci que assim como eu era humana e humanos falham. Só sei que de alguma forma aquelas setenta e três facadas ardem em meu peito.
É difícil entender que a minha musa, minha princesa pode ser tão cruel quanto a russa Romanoff. É difícil entender que ela mudou e que eu não faço parte dessa mudança.
Simplesmente é difícil.
No meio disso tudo ainda tem Natasha que não aparece com a minha filha. Barton garante que ela vai nos encontrar, a pergunta é: Quando? Diferente do que Isa pensa, eu me preocupo muito, muito com elas. As quatro. Eu as amo incondicionalmente. As quatro.
–Sozinho, Capitão? – uma voz tirou-me de meus pensamentos.
–Oi Xiaoli.
–Posso me sentar aqui com você?
Fiz que sim com a cabeça.
–Se não se incomodar em ficar sentada no chão sujo, no meio do mato e a mercê dos mosquitos, fique a vontade. – brinquei.
Chan soltou uma risada e se sentou ao meu lado.
–Eu não sou a Isa, eu não me importo.
Ri junto a ela.
– É você não é. – lamentei.
–Você gosta bastante dela, né?
–Pega esse bastante e multiplica por bastante ao cubo e não vai chegar nem perto. –gracejei – Infelizmente eu a amo muito.
–Ela também...
–Por favor, não complete essa frase! – implorei – Estão me dizendo essa frase a semana inteira e eu sinceramente não quero criar falsas esperanças em mim mesmo. Ela está certa, tudo tem um fim e o nosso foi esse.
Xiaoli ergueu as mãos em rendição.
–Só acho que vocês estão muito cansados, precisam de um tempo juntos. –opinou – Nunca vi um casal tão atarefado quanto vocês. Desde que os conheci vocês estão nessa coisa.
–Nosso relacionamento entrou em crise depois que as crianças nasceram.
–Argh vocês parecem que estão casados há uns cinquenta anos! – exclamou – Isso já está acabando e quando acabar e vocês descansarem vão ver que só estavam exaustos. E eu já disse que ela está com depressão pós-parto.
Suspirei longamente. Seria bom se ela tivesse razão.
–Bom, e você Xiaoli?
– Eu o que?
–Quem é o cara que você está apaixonada? – perguntei curioso – Naquele dia acabou que você não revelou a identidade do sortudo.
Ela ficou vermelha de vergonha, eu ri.
–Ai não, por favor, não quero falar nisso. É loucura minha. – se afligiu.
–Ah qual é, pode confiar, não contarei a ninguém, juro.
–Não é isso é que... Ai Steve, é difícil, porque ele não... – eu meio que me identifiquei com o nervosismo dela. — Ele é incrível,ma-mas...
–Ma-Mas... – incentivei
–Mas, ele não gosta de mim dessa forma e está muito envolvido com outra.
–E quem seria maluco de se envolver com outra tendo uma mulher tão linda e inteligente quanto você disponível?
–Me acha linda?
–Mas, é claro. Anda, me diga quem é.
–E-E-E-Ele... Ai isso é tão ruim de se dizer, vamos esquecer isso, que tal?
–Fale Xiaoli, qual é...
–Tá bom, ele é você tá satisfeito? – jogou a pérola.
Fiz uma careta e gargalhei.
–Sério Xiaoli, para de graça, conte-me, quem sabe eu posso te ajudar a conquistá-lo.
Ela ergueu uma sobrancelha.
–Eu não estou brincando.
Meu sorriso sumiu no ato. Quê?
–Quê? – balbuciei — Eu?
–Sim, eu estou apaixonada por você. –confessou vermelha e de olhos fechados – Me desculpe, eu sei que é loucura. Entendeu porque eu não queria falar? Ai que vergonha...
Não a esperei terminar de falar, simplesmente a puxei para mais perto e beijei sua boca. Foi o tipo da coisa que se faz sem pensar em nada. Simplesmente a beijei para tentar esquecer Isa, mas tudo o que consegui foi me lembrar mais ainda. Aprofundei o beijo por raiva de lembrar-se dela quando não queria lembrar dela. Xiaoli estava correspondendo ao beijo. E ela era legal, bonita. Eu poderia me apaixonar por...
–Desculpe interromper o momento purpurina, mas a Natasha chegou. – uma voz conhecida nos interrompeu.
Chan se pôs de pé mega assustada.
–Isadora! – a exclamação dela saiu mais como uma suplica.
Isa sorriu para ela. Permaneci imóvel no chão.
–Me- me desculpe...
–Desculpa pelo quê garota? – ela cortou a chinesa em tom brincalhão – Vai logo lá para dentro que a russa quer falar com todos nós. Você vem senhor Rogers?
Ui ela me chamou de “senhor Rogers”! Ui ela está brava. E eu acho que no fundo isso é bom, quer dizer que ela ainda gosta de mim. Ou não? Xiaoli disparou para dentro.
Isa permaneceu de braços cruzados. Senti-me culpado por beijar Xiaoli no momento em que meus olhos encararam os dela.
–Desculpe, eu estava é que... Não foi isso que...
–Eu sei, eu vi! – respondeu em tom de risada – Parabéns, hein? Está superando suuuuperbem o seu relacionamento de dois anos que te rendeu três filhas. É assim que eu gosto! A propósito ela é uma gracinha.
–Não, espera...
Ela não esperou eu terminar de falar e foi para a sala. Eu sou um imbecil!
Sem muita escolha fomos até a sala falar com Natasha.
–Cadê a Anna? – por acidente eu e Isa falamos juntos. Fui fuzilado com os olhos.
–Fury a raptou. – respondeu ela na cara dura.
–O quê? – foi dito em uníssono junto a caras de indignação.
–Qual a parte do Fury pegou a...
–OLHA AQUI SUA FILHA DA PUTA, CADÊ A MINHA FILHA? – Isa partiu pra cima, Domi a deteve – Onde é que ela está? Clint! Vai ficar aí de braços cruzados.
–Nat o que aconteceu com a garota? – o Gavião perguntou baixinho.
–Está ficando surdo além de comunista, Barton? – se estressou a ré – Eu já falei que a praga da criança foi pega pelo Fury, poxa.
Ele se aproximou mais dela e semicerrou os olhos.
–Nat o que aconteceu com a garota? – repetiu no mesmo tom baixo e meio triste.
–POOOOOORRAAA! – perdeu a linha – Eu já falei que...
–NÃO MINTA NATASHA! – ele bradou determinado.
Ninguém ousou falar nada. A ruiva abaixou a cabeça, parecendo envergonhada. Fiquei mais preocupado ainda.
–Nat você... Nat! – ele ergueu o queixo da mulher com o polegar – Você cumpriu a promessa?
E o improvável aconteceu: Natasha Romanoff se lançou nos braços do colega e chorou.
–Descul-Desculpe Clint, desculpe! – clamou – Eu-E-Eu juro que se pudesse faria diferente, eu juro...
Ele se afastou dela.
–Onde está a minha filha? – rosnei
Silêncio.
–Cadê a Anna? – Isa entrou em pânico – O que você fez com o meu bebê?
Silêncio.
–FAAAALA MUNDIÇA! – Sam chutou o pau da barraca – Na hora de fazer a merda faz, na hora de contar tem medo?
Silêncio.
E eis que quando eu estava prestes a estrangulá-la ela diz aquilo que nunca, jamais podemos imaginar nem em nosso pior pesadelo.
–Eu a vendi. E quem a comprou foi o Fury e ele só vai devolvê-la quando nos entregarmos e entregarmos o dossiê.
O pesadelo ainda não acabou.
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