A notícia sobre a viagem de Darcy e Elisabeta à Londres correu rapidamente entre os conhecidos mais próximos do casal, surpreendendo a todos. Dona Ofélia, uma das primeiras a inteirar-se, era a mais animada. Ao saber da novidade, a matriarca da família Benedito logo imaginou que a motivação seria uma lua de mel, tendo em vista que o casal havia se casado de forma simplória, sem direito a festa, baile ou algo do tipo. Fator que a incomodou bastante. Na primeira oportunidade, Ofélia ansiosamente puxou Elisabeta para que a mesma lhe contasse todos os detalhes de A a Z. Para Elisa, o engano e a euforia de sua mãe fora bastante pertinente, pois, dessa forma, não teria a necessidade de expor o real motivo daquela viagem tão urgente.

— Londrrres! Ai Elisabeta, minha filha. Se não fosse pelo meu medo de navio, pedia hoje mesmo a você e ao meu genrinho querido que me levassem junto nessa viagem. Queria ver com meus próprios olhos se a Inglaterra é esse país tão evoluído como aquela tia do Darcy vivia matracando para todos os lados... Mas, diga-me minha primogênita, quanto tempo vocês pretendem passar na capital inglesa? Será que você vai voltar bilíngue? Ai! Que chique, eu ach...

— Calma, calma! – Disse Elisabeta, interrompendo-a. – Ainda não sei mamãe, e não é para tanto! Talvez passemos algumas semanas. Depende do estad... Digo, depende do meu humor e da agenda de Darcy. É isso! Mas não acredito que iremos demorar muito. A senhora bem sabe que eu detesto frio e Londres deve estar congelante nesta temporada. – Disse ela, tentando se esquivar da questão.

— Ah Elisa, um país, uma cidade maravilhosa daquelas, como ouço dizerem por aí, cheia de belezuras procê conhecer, e você vai se incomodar com o frio? Mesmo tendo um partidão daquele de dois metros de altura para te aquecer?

— Ai, ai dona Ofélia... – Elisabeta revirava os olhos.

— Para quem vivia fantasiando com aquelas ideias malucas de conhecer o mundo, e que ninguém conseguia tirar da sua cabeça, você está me decepcionando muito, viu?!

— Ora, mamãe, a senhora realmente não tem jeito! – Elisabeta aproximou-se da mãe, abraçando-a. – Mas não se preocupe! O meu sonho de conhecer o mundo segue intacto independente de frio, ventania, neve, calor, furacão, ou o que quer que seja! E sim, com o Darcy ao meu lado será melhor ainda.

— Estou começando a desacreditar disso, mas...

Mãe e filha prosseguiram conversando por algumas horas. Em todas as circunstâncias, das mais agradáveis até às mais infelizes, Dona Ofélia conseguia, mesmo sem saber, ser o motivos dos sorrisos mais bobos e transparentes de Elisabeta. Para Elisa, ocultar a verdade de sua mãe era um grande sacrifício, embora necessário.

Os momentos que passava na casa dos pais eram, para Elisabeta, uma espécie de bálsamo. Ela conseguia esquecer-se, ao menos por horas, todos os problemas que ainda teimavam em aparecer na sua vida. Tinha conseguido se livrar das armações de Susana que, por fim, estava presa. Mas o fato de saber que Lady Margareth estava à solta, munida de ódio e sede de vingança, tirava-lhe o sono.

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— Eu imploro! Deixe-me ficar aqui. – Os trajes e as gesticulações não deixavam negar que a mulher acabara de fugir do centro psiquiátrico. – Não tenho para onde ir, estou um trapo humano, sem nenhum centavo. Roubaram-me tudo, primeiro meu dinheiro, depois minha filha e agora a minha liberdade.

— Não se faça de vítima Margareth! A senhora sabia muito bem os riscos que corria ao tramar aqueles crimes. – O homem era implacável. Falava com a porta entreaberta, sem o menor indício de hospitalidade. –Achou mesmo que sairia ilesa de todas aquelas atrocidades? Primeiro uma explosão na fábrica, depois um atentado contra o próprio sobrinho!

— Não seja tão rude! Eu tenho motivos bastante plausíveis para ter investido meu tempo e minha inteligência nesses assuntos. E não deturpe as coisas. Em nenhum momento planejei contra a vida do meu sobrinho. Aquilo tudo não passou de uma triste fatalidade com uma dose de burrice do capanga que executou o plano, é claro. – Enquanto falava, a mulher arrumava os cabelos e olhava para um lado e para o outro, em tom de nervosismo. – O alvo era Elisabeta, a maior pedra de sapato que já cruzou o meu caminho.

— A senhora segue ostentando essa pose, esse nariz empinado, esse tal sangue inglês. Mas agora suplica por um teto e ainda assim, não baixa a guarda um só segundo. – O homem a fitava, desconfiado.

— Baixar a guarda? Eu? Classe não se perde por qualquer besteirinha, meu caro, você nasce e morre com ela.

— Sua classe irá te conceder um teto neste exato momento, minha cara? – Falou erguendo a sobrancelha, buscando testar as intenções daquela mulher.

— Ora, não me amole! Estou em missão de paz, não pretendo ficar nesse mausoléu que vocês gentilmente chamam de cidade. Deixarei o Vale assim que me reestabelecer. Dessa vez em definitivo. Entretanto, convenhamos que não seja com esta roupa de louca que irei conseguir. – A mulher apontava para si mesma, enquanto o homem a observava atentamente. – Só preciso de uma mão amiga. Não me negue a sua.

— Não sou seu amigo, mas me comove muito a capacidade de atuação que você possui Lady Margareth, os palcos de Londres perderam, de fato, uma esplêndida atriz.

— O senhor também perdeu seus filhos, não fisicamente, mas perdeu talvez o principal: o afeto deles. A estima, a atenção... Deve compreender a dor que sinto diariamente sem a presença de minha Briana, a luz dos meus olhos, o ar que eu respiro. – Ao passo que falava, os olhos da mulher enchiam-se de lágrimas. – Vamos Almirante, conceda-me um espaço de seu teto novamente, pelo menos por alguns dias.

— Está bem. Mas espero que seja de fato por poucos dias. Não quero me meter em problemas por sua causa! Admira-me muito a senhora procurar logo esta casa para se esconder. Aqui obviamente será um dos primeiros lugares que a polícia investigará. – Disse, convidando-a a entrar. – Ou a senhora se esqueceu de que foi daqui mesmo que o delegado Baltazar a levou detida?

— Não, nem perca seu tempo preocupando-se com isso! Antes de fugir do sanatório deixei uma carta com algumas pistas que provavelmente os direcionará a qualquer lugar, menos aqui. Ademais, para todos os efeitos, eu estou completamente louca, uma dama desnorteada e incapaz de pensar por mim mesma. – A mulher riu em tom debochado.

Lady Margareth hospedou-se novamente na mansão do parque, sendo acobertada pelo Almirante Tibúrcio. Por orientação daquele homem, a mulher não se acomodou em nenhum dos vários quartos da mansão, mas no sótão. O espaço era limpo e arejado, mas o que mais lhe agradava, era saber que ali poderia executar com maior discrição o seu mais novo plano de vingança contra Darcy e Elisabeta.