Ao chegar à casa de chá, Elisabeta alegrou-se ao encontrar naquele local Olegário e Charlotte. Após o consentimento de Darcy na continuidade de seu relacionamento, a caçula dos Williamson esbanjava felicidade ao lado de seu novo e divertido amor. A companhia daquele homem lhe trazia uma paz indescritível. Olegário havia passado por uma fase de transformação que impressionou todos aqueles que o cercavam. E de todos eles, Charlotte era talvez a mais afortunada, pois, Olegário prometeu fazer dela a mulher mais feliz do mundo. O fantasma de Diogo Uirapuru já não interferia no curso da sua vida. Para ela, a sensação era de que aquele ser de caráter desprezível jamais tivera cruzado seu caminho. Finalmente o mau tempo parecia ter se dissipado e a porta da esperança se aberto para ela novamente. Além de namorado, Olegário também se convertera em seu braço direito na pesquisa para o livro de Elisabeta, pesquisa na qual ela estava absolutamente engajada. Numa das mesas centrais do estabelecimento, o casal desfrutava de uma deliciosa sobremesa que, aos olhos de Elisa, parecia a melhor do mundo.

— Que alegria encontrar meu casal! – Disse Elisabeta, aproximando-se de Charlotte e abraçando-a. – Me desculpem meus cunhados, mas preciso dá uma beliscadinha no pedaço desta torta. Ela parece irresistível.

— Elisa! Fique à vontade! Ainda bem que você chegou minha cunhada. Oleg estava em um pé e outro, com umas ideias de perguntas um tanto questionáveis para fazer à Dona Agatha. Acredita?! Tive que freá-lo antes que iniciasse e pusesse nossa entrevista a perder. – Disse Charlotte, pressionando levemente a orelha do rapaz.

— Charllie, meu amor, eu só quero ajudar! Tenho certeza que um pouquinho de faísca vai deixar o livro sobre o Vale do Café ainda mais instigante. Criar um clímax nunca é demais. – Disse ele, enquanto puxava gentilmente uma cadeira para Elisabeta.

— Olha Olegário, eu agradeço muito a sua disposição em compartilhar suas ideias conosco. E, até certo ponto, concordo com você! Penso que Agatha contribuirá muito positivamente para nossa história. Mas, como o bom e velho jornalismo me ensinou em minha breve passagem pela redação, temos que pautar os assuntos mais relevantes e também aqueles essencialmente verídicos. Não podemos fantasiar muito. – Disse ela, enquanto preparava seu material e procurava avistar dona Ágatha naquele movimentado recinto.

Dona Ágatha, após atender dois clientes juntou-se à turma e começou a responder as perguntas que Elisabeta lhe fazia. A senhora esbanjava entusiasmo em seus relatos, o que despertava em Elisabeta uma grande satisfação. Dona Ágatha discorreu sobre muitos acontecimentos e, dentre eles, o episódio de uma cantora que chegou à cidade anos atrás e causou a maior confusão, pois – segundo ela – a mulher dava em cima de todos os homens casados do Vale sem o menor descaramento. “Uma completa desfrutável”, dizia. Elisa, juntamente com Charlotte e Olegário ouvia tais histórias pacientemente. Entretanto, o que mais lhe interessava era a trajetória daquela mulher à sua frente, que sozinha montara o próprio negócio e se destacava como uma das principais empreendedoras do Vale do Café.

— Eu fico muito lisonjeada com as suas palavras Elisabeta. E, de fato, me considero uma mulher de fibra. Como vocês podem ver, meu estabelecimento é um dos comércios mais movimentados do Vale. Mas, sentindo-me até íntima de vocês após falar tanto sobre minha vida nesta longa conversa, confesso que ando triste porque uma parte de mim segue incompleta. – A senhora estava visivelmente emocionada, deixando os demais sem reação. – Vicente, o senhor que trabalha para o seu esposo, e que é um agradável amigo, viajou há tempos e nem sequer uma ligação, um telegrama ou uma mísera carta me mandou. Desculpem-me. Preciso me ausentar. – Dona Ágatha retirou-se apressadamente, sentindo-se constrangida.

— Nossa! Não pensei que o Vicente fosse tão importante na vida da Dona Ágatha. Imaginava que ela fosse interessada no meu cunhado, Brandão... Preciso ajuda-la! Talvez Darcy tenha alguma informação sobre ele. – Elisa, sentindo-se arrasada com a demonstração de aflição daquela senhora, despediu-se dos cunhados que pretendiam dar uma volta pela cidade, deixou a casa de chá e regressou à fazenda Ouro Verde.

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A fazenda Ouro Verde aos poucos foi se tornando um lugar silencioso e tranquilo. Camilo e Jane haviam se mudado recentemente para a fazenda Bittencourt, após muita insistência por parte de Julieta e Aurélio. Ema e Ernesto, após uma séria conversa sobre o rumo do casamento, decidiram comprar uma confortável casa no centro. Não era um palácio, como Ema estava acostumada, mas as parcelas cabiam razoavelmente no bolso de ambos, o que gerou um consenso entre eles. Ludmilla e Januário regressaram para São Paulo. A nova temporada fez com que os negócios da ruiva impulsionassem e seu fiel escudeiro, François, não estava dando conta de todas as demandas e responsabilidades do negócio. Além de Darcy e Elisabeta, a única moradora da casa era Charlotte, que também já estava arquitetando planos futuros, deixando o irmão um tanto enciumado. Ao chegar à fazenda, Elisabeta foi informada por Dolores que Darcy estava à sua espera no quarto.

— Malas? Vamos viajar e não fui avisada? – Disse ela aproximando-se do marido e o abraçando carinhosamente.

— Sim Elisa, mas infelizmente não se trata de uma viagem a passeio. – Darcy segurou as mãos da esposa, que o observava confusa. Sua expressão era de profunda tristeza – Eu preciso te deixar a par de algumas coisas.

— Darcy estou começando a ficar aflita. Sua cara é de total preocupação. O que houve? — Disse soltando as mãos do amado e sentando-se na cama.

— Lembra do Vicente? Meu funcionário e braço direito? – Darcy parecia completamente desorientado, o que deixou Elisabeta apreensiva.

— Claro! Estive comentando sobre ele hoje mesmo. Por falar nisso, onde ele está? Dona Ágatha me parece muito preocupada com o “sumiço” misterioso dele.

— Eu... Eu o enviei à Europa há algumas semanas. Quase um mês e meio, para ser mais específico. Eu estava muito preocupado por não receber notícias sobre o meu pai. E, para ser sincero, estava começando a criar teorias na minha cabeça do que podia ter acontecido com ele. Só não imaginava que a resposta seria tão dolorosa. – Disse, sentando-se próximo a Elisa mantendo-se cabisbaixo.

— Darcy, meu amor, por que você ocultou isso de mim? – Elisabeta o fitava um tanto decepcionada.

— Eu queria poupa-la Elisa. Estávamos passando por momentos tenebrosos. Não queria preocupa-la ainda mais.

— Não concordo com os meios que você utilizou, mas compreendo seus motivos. Diga-me Darcy, qual foi a resposta enviada por Vicente? Por acaso era aquele envelope que lhe trouxe mais cedo?

— Sim! Lady Margareth esteve torturando meu pai todo esse tempo Elisabeta. Tudo para se apoderar daquela procuração e ficar à frente dos negócios da família, tudo por dinheiro, tudo por um maldito título de nobreza. A debilidade na saúde de Lorde Williamson não se deu por conta da doença, mas pelo completo descaso e abandono. E, do fundo da minha alma eu me sinto um pouco culpado por isso também.

— Não Darcy, não diga isso pelo amor de Deus! Olha para mim. – Disse puxando levemente o queixo de Darcy – Você não tem nada a ver com essa barbaridade. Você, meu amor, é uma das pessoas mais corretas que já conheci em toda a minha vida. Essa mulher que é um monstro! Totalmente desumana e imoral. Desculpe-me, sei que não é o momento, mas da sua família parece que só você e Charlotte possuem integridade.

— Você não está errada Elisa. Mas meu pai, com todos os seus defeitos, não merecia ser tratado dessa forma. Eu preciso busca-lo meu amor. O quanto antes. Lady Margareth está à solta e foragida da polícia. Temo muito por você, pela sua segurança. Por essa razão, quero que me acompanhe nessa viagem e, por gentileza, que não comente nada com Charlotte. Ou melhor, com ninguém. Trata-se de algo profundamente delicado, espero que você compreenda. Eu estou bastante envergonhado e horrorizado com a minha tia, você não imagina o quanto...

— Está bem meu amor, em todo caso traremos seu pai e faremos sua irmã muito feliz. Não é mesmo? – Elisa tentou um sorriso, falhando miseravelmente.

— Espero que sim. – Darcy não conseguia fingir fortaleza perante Elisabeta quando, na realidade, parecia querer desmoronar por dentro. A vontade de desabar nos braços de sua amada era maior do que tudo. E foi exatamente o que ele fez. Elisa o abraçou fortemente. Repetindo que ficaria tudo bem. Que ela estava ali para o que der e vier.