Ainda há esperança
13 Capítulo 13
Rômulo havia acabado de chegar à clínica. Após certificar-se de que seguiria a profissão, o médico estabelecera uma sociedade promissora com o Dr. Jonathas. Dessa forma, ficou acertado entre ambos que o mais jovem assumiria o horário da manhã no consultório, e o mais experiente o período da tarde. No expediente noturno, os dois alternavam o posto do plantão conforme a necessidade. Naquela manhã de segunda-feira, a agenda estava bastante tranquila. Rômulo havia atendido até o momento apenas cinco pacientes. Por um lado isso era um fator positivo; indicava que a população local estava saudável. A calmaria, no entanto, durou pouquíssimo tempo. Subitamente o rapaz fora surpreendido com a entrada de seu pai, Almirante Tibúrcio. O homem fitou-o de forma constrangida, exalando preocupação. O rosto estava suado e a respiração acelerada.
— Almirante? O que o senhor faz aqui? – Rômulo levantou-se, ficando frente a frente com o pai.
— Meu filho, não é do meu feitio pedir tal coisa, mas preciso que você me ajude. Ou melhor, ajude uma senhora que está entre a vida e a morte. – O homem apontava para a porta, que estava ainda aberta. Do lado de fora, era possível notar Lady Margareth deitada, ainda inconsciente no banco traseiro do automóvel. A mulher ainda estava com parte de seu disfarce, o que impossibilitava reconhecê-la de imediato.
— O que significa isso? Quem é aquela mulher? – Rômulo então se aproximou da porta, olhando fixamente para o carro, na tentativa de identificá-la. O rapaz teve um sobressalto ao constatar que a senhora tratava-se da mulher mais procurada do Vale do Café. Rômulo era considerado por todos os moradores da cidade um rapaz nobre; no sentido completo da palavra. Apesar de haver nascido em berço de ouro, sempre fora bastante humilde e não hesitava quando lhe solicitavam ajuda. Naquela ocasião, a princípio, sentira repulsa ao assimilar o fato de seu pai estar aliado com Lady Margareth, mas ao perceber o estado alarmante em que ela se encontrara o médico não pensou duas vezes e imediatamente foi socorrê-la.
Tibúrcio acompanhava, atentamente, os procedimentos de primeiros socorros executados por Rômulo. Era possível perceber que o médico sentia-se profundamente desconfortável com a situação.
— Não precisa se alarmar Almirante, sua cúmplice parece estar recobrando os sentidos. Só vai levar mais alguns minutos. – Após medicá-la, o rapaz passou a fazer um curativo em sua testa. – O sangramento já está controlado. Sugiro que após acordar, ela faça urgentemente alguns exames para certificar que não houve nada mais grave devido a pancada na cabeça. – O tom da voz de Rômulo era austero. Ele virou-se para o pai, com os olhos semicerrados. – Afinal, seria Lady Margareth sua cúmplice ou... sua mais nova amante? Porque só uma louca paixão justificaria esse acobertamento que você está dando a ela.
— Como ousa me desrespeitar dessa forma? Não esqueça que apesar de nossas desavenças eu ainda sou seu pai, Rômulo! – De passividade, sua voz passou a apresentar um tom agressivo.
— Ah! Evidente... Havia esquecido o quanto o senhor é digno do meu respeito. Bom, como sei que você não vai responder a minha pergunta diretamente; irá fugir ou se fazer de vítima, como de costume, quero deixar algo bem claro aqui! – De volta à sua sala, o rapaz apoiou as mãos fechadas sobre a mesa, encarando o pai. – Não irei compactuar com seus planos sujos, Almirante. Se depender de mim, daqui deste consultório, Lady Margareth vai direto para a cadeia.
— Eu não estive compactuando em nada com esta senhora. Apenas lhe dei abrigo por uns dias em minha casa. E isso foi tudo. – O homem começou a andar de um lado para o outro da sala, completamente consternado.
— Sei... Saiba que isso, apenas isso, não o isenta de seu erro.
— Então o que você sugere? Que eu me entregue à polícia também? – Almirante apoiou as mãos na mesa, tal qual Rômulo fazia, olhando fixamente para o filho.
— Não, eu sugiro que o senhor vá até a delegacia e informe ao delegado Baltazar que Lady Margareth está aqui. Talvez isso dignifique um pouco a sua existência. E também o impeça de ir preso como cúmplice dela.
— Está bem, você tem razão! Não tem o mínimo cabimento continuar respaldando esta senhora. Desde o princípio achei bastante perigoso e inadequado. Não sou um monstro como você e seu irmão pensam...
Dito isso, o homem saiu apressadamente do consultório. Rômulo então respirou fundo e desabou na poltrona, passando as mãos pelos cabelos. Após refletir por alguns minutos sobre a situação, o rapaz telefonou para a fazenda Ouro Verde. Elisabeta mal podia acreditar quando Rômulo informou o que estava acontecendo. O médico afirmou sentir-se envergonhado ao dizer que seu pai estava envolvido naquela situação. Elisa, do outro lado da linha, reforçou que Rômulo era uma das pessoas mais honestas e boas que ela já conhecera, e que não tinha por que se envergonhar de algo que não tinha participado. Enquanto Elisabeta conversava com Rômulo, Darcy entrou na sala discretamente; havia acabado de chegar da ferrovia após passar a manhã inteira trabalhando. O rapaz olhou para Charlotte, que estava sentada no sofá em frente à Elisabeta. Seus olhos azuis estavam mais brilhantes do que nunca. Darcy reconhecia perfeitamente aquele olhar da irmã. Ele perguntou com insistência o que estava acontecendo ali. Charlotte fez sinal com as mãos para que ele se sentasse ao seu lado, até que Elisabeta desligasse o telefone.
— E então? Posso saber o motivo de tanta euforia por parte das duas damas mais importantes da minha vida? – Darcy retirava o paletó, encarando-as com curiosidade.
— Fui convidada para ser a mais nova redatora de um importante jornal de São Paulo, Darcy! E ai? Você aceita ir comigo? Mesmo que tenhamos que morar naquele cortiço novamente? – Charlotte olhou para Elisabeta, segurando com dificuldade uma gargalhada.
— Morar em São Paulo? Como assim Elisabeta? E a ferrovia, e os seus planos, como ficam? – Ele então saiu de perto de Charlotte e aproximou-se de Elisa, segurando suas mãos. – Você sabe que eu sou capaz de ir até o fim do mundo com você, mas será realmente isso que você quer ou precisa neste momento? E a nossa ideia de criarmos nosso filho aqui no Vale?
— Ai, vocês são muito fofos! – Charlotte derreteu-se. – Elisa, minha cunhada, não seja tão má com meu pobre irmão...
— Darcy, é brincadeira! Eu inventei isso porque o que tenho a dizer é muito importante e merece que você esteja mais relaxado para ouvir. – Ela colocou as mãos sobre os ombros de Darcy, iniciando uma massagem. – Falei isso só para quebrar o clima.
— Ah, você jura?! Então mudar completamente nossos planos em fração de segundos seria uma coisa simples? – Ele questionou, sorrindo.
— Acho que seria algo típico de Elisabeta Benedito! – Ela apertou as bochechas de Darcy, dando um selinho. – Meu amor, agora falando sério... – Ela olhou fixamente para Darcy, e então ele pôde intuir a seriedade do que seria dito. – Nós finalmente localizamos sua tia. Lady Margareth está, nesse exato momento, internada na clínica onde Rômulo trabalha.
— Não brinca Elisabeta! Como foi isso? – Darcy arregalou os olhos, incrédulo.
Elisa começou, então, a explicar em detalhes tudo o que ficara sabendo através de Rômulo. Darcy ouvia atentamente. Conforme ela falava, as expressões do rapaz modificam-se continuamente. De felicidade a decepção, de surpresa a alívio. Após almoçarem, todos se encaminharam até o centro da cidade. Elisabeta não queria perder a chance de ver Lady Margareth cair de seu pedestal pela segunda vez.
***
Quando chegaram ao consultório, Darcy, Elisabeta e Charlotte encontraram o delegado Baltazar acompanhado de outros dois soldados, fazendo algumas perguntas a Rômulo. Ele gostaria que o médico confirmasse as informações que o Almirante havia lhe passado, ainda na delegacia, com relação ao envolvimento de seu pai naquele caso. Elisabeta se afastou de Darcy e Charlotte sem que eles percebessem, pois ambos estavam atentos assistindo ao questionário. Ao sair da sala principal, Elisa avistou a maca onde Lady Margareth encontrava-se deitada. A mulher estava com os olhos fechados, provavelmente dormindo. Elisabeta se aproximou, cautelosamente. Deitada daquela forma, Lady Margareth parecia completamente inofensiva. Depois de praticar tantas maldades, e ter passado tanto tempo foragida, era quase utópico vê-la de repente tão indefesa. Elisa passou alguns segundos observando-a, intensamente.
— O jogo acabou para você, La-dy Mar-ga-re-te. – Disse ela, pausadamente em tom irônico e abrasileirado. – Você nadou, nadou, nadou para acabar morrendo na praia... Jogou tantas pragas para mim e para minha família, mas nós somos batizados e protegidos. Ah, já sei... a senhora provavelmente deve ter se esquecido de quão devota é Dona Ofélia... Deixa eu te contar alguns segredinhos... Seu irmão, Lorde Williamson está esbanjando saúde; seus cúmplices estão todos presos, e logo a senhora fará companhia a eles; Darcy e eu nos casamos, e de nosso amor nascerá o fruto mais precioso do mundo, que em breve estará em meus braços, para a sua eterna tristeza... – Para provocar Lady Margareth, a moça falou as últimas palavras bem próximas ao ouvido daquela senhora. Elisabeta percebeu a respiração de Lady Margareth acelerar e, de repente, sentiu também as suas mãos agarrarem subitamente o seu pescoço, na tentativa de sufocá-la. Com bastante dificuldade, tendo em vista que a inglesa estava impondo toda sua ira, Elisabeta conseguiu gritar por socorro, chamando a atenção de todos que estavam na sala ao lado.
— Elisabeta, o que está acontecendo aqui? – Darcy gritou, correndo em direção da maca e afastando a esposa das garras de sua tia.
— Essa louca tentou me matar... Pensei que estivesse desacordada, mas estava fingindo.
— Essa garota estava me desafiando, Darcy! Controle os ímpetos dessa caipira.
— Elisabeta, não a provoque, não vale a pena. Lady Margareth perdeu e nós saímos vitoriosos dessa. – Darcy abraçou Elisa, beijando carinhosamente sua testa.
— Me desculpe, eu perdi o controle... Vamos embora Darcy, eu já disse tudo o que tinha para dizer a ela. Não estou me sentindo muito bem...
— Meu amor, vá com Charlotte. Eu preciso ficar para acompanhar os rumos dessa situação toda. Quero ter certeza de que minha tia não fugirá novamente. – Ele tornou a abraçá-la. Elisabeta concordou e retornou com Charlotte para casa. Darcy e Rômulo continuaram no consultório, prestando todos os esclarecimentos. Lady Margareth passou a ser vigiada 24 horas por dia enquanto esteve internada. Após realizar os últimos exames, a senhora foi encaminhada para a delegacia feminina. Em breve passaria por julgamento, no qual seria certamente condenada.
Fale com o autor