Elisabeta estava de frente para o espelho. Pela primeira vez, em muito tempo, sentia-se indecisa quanto à roupa que iria usar naquela ocasião tão especial. Em momentos como aquele, Ema era uma exímia conselheira. Sempre que tinha que participar de algum evento ou festa, lá estava a sua melhor amiga com dois ou três modelos diferentes à sua disposição, para que ela pudesse escolher à vontade. Era assim desde que ambas eram crianças, e continuou pela adolescência em diante. Mas Elisabeta voltou à realidade e percebeu que tudo havia mudado.

As responsabilidades da vida adulta, as oportunidades que o destino reservara para ambas fizeram com que as duas se separassem. Ema estava prestes a voltar de Paris, após passar uma temporada desenvolvendo uma nova linha de vestidos na cidade luz; mas não cedo o bastante para trazer consigo um modelo de vestido perfeito para Elisabeta. Algo que ela colocaria os olhos e escolheria de imediato. Dessa maneira, não poderia ajudá-la na missão e ela tinha que se virar sozinha. Sobre sua cama havia quatro vestidos em tons vermelho, todos muito bonitos e um mais larguinho do que o outro.

Olhando de perfil, a barriga de sete meses às vezes desenvolvia na cabeça de Elisabeta um súbito momento feminino de baixa autoestima, mas em fração de segundos, ela voltara a se sentir uma mulher imensamente realizada e linda. “A mais linda que o sistema solar já teve a oportunidade de presenciar”; ela podia perfeitamente escutar a voz de Darcy ecoando a clássica frase, que desde o segundo pedido de namoro, era repetida continuamente por ele. Especialmente durante a gravidez, quando Elisabeta reclamava das maçãs do rosto mais salientes que o normal. Após a condenação de Lady Margareth, que acontecera um mês após seu acidente na escada, a família Benedito Williamson voltou a reconhecer o significado da palavra paz.

A gestação de Elisabeta passava-se tranquilamente. Os enjoos e tonturas haviam cessado. As dores nas costas começaram a dar os primeiros indícios, fazendo com que Elisabeta diminuísse o ritmo acelerado de sua rotina. A cada mês ela se surpreendia com novas descobertas, com novas sensações. Uma delas Elisa jamais esquecera. Ela estava totalmente focada, escrevendo seu livro e submersa nas histórias do Vale quando, de repente, sentiu algo parecido como cócegas em sua barriga; como se houvesse uma borboletinha batendo asas compulsivamente ali.

Essa foi a primeira vez que seu bebê deu um sinal de vida mais palpável. Elisabeta não conseguiu conter a emoção. Após esse dia, as interações passaram a acontecer de forma mais frequente; e não só ela, mas as pessoas próximas também podiam presenciar e sentir através do toque os movimentos daquele serzinho já tão amado. Sempre que lia para Elisabeta, à noite antes de dormir, Darcy encostava a cabeça em sua barriga, suplicando para que o bebê reagisse e lhe proporcionasse mais um momento de fascinação. Era justamente dessa forma que ele ficava sempre que o sentia: Fascinado.

***

— Bom dia Charlottinha, posso entrar? – Elisabeta apareceu na porta do quarto da cunhada, inclinando a cabeça.

— Claro, Elisa! Acho que você lê pensamentos. Estava realmente querendo vê-la. – Charlotte estava terminando de desembrulhar uma grande caixa, a qual ela estava esperando com muita ansiedade. A moça colocou o objeto sobre a cama e aproximou-se de Elisabeta, depositando um beijo em sua barriga. – Como está o bebezinho mais lindo e amado da face da terra? – Perguntou, ainda com as mãos sobre a barriga da cunhada.

— “Eu estou muito bem titia linda, especialmente hoje.” – Elisa respondeu fazendo voz infantil, para a diversão de Charlotte.

— “Que bom, porque a titia está numa ansiedade só, e você é o calmante mais eficaz do mundo!” – Disse, continuando a brincadeira.

— Ai, Charlotte! Eu confesso que não estou preparada para este evento do ano. Você é como uma irmãzinha caçula para mim; será que eu estou com mais dificuldade de desapegar do que seu próprio irmão? – Elisabeta segurou as mãos dela, com os olhos marejados.

— Não fala assim, Elisa, que eu choro! – Disse, abraçando-a. – Ademais, é só o primeiro passo, ainda temos o segundo! E eu preciso da minha cunhada firme e forte acompanhando-me nas duas!

— Sim! Desculpe-me pela emoção incontida. Ainda não consegui lidar com mais esse presente da gestação. – Ela sorriu. – Você sabe que eu desejo toda a felicidade do mundo para você, não é mesmo? Quero que você voe alto, e alcance todos os seus sonhos. – Disse ela, tocando delicadamente o rosto da cunhada.

— Muito obrigada minha irmã, se é que posso te chamar assim também...

— Você ainda pergunta? – Elisa abraçou Charlotte, com certa dificuldade devido o obstáculo que a barriguinha proporcionava. – Então, será que posso ver o vestido da noiva mais linda? Porque o da madrinha aqui ainda não foi elegido. Estou repleta de dúvidas!

As duas sentaram-se na cama. Charlotte terminou de desembrulhar a caixa. Elisabeta ficou de boca aberta ao ver o belíssimo vestido de noivado da cunhada. Era um modelo parisiense, desenhado exclusivamente para a moça. Possuía as suas cores favoritas: branco e um pouco de tonalidade verde em alguns detalhes.

— Meu Deus, Charlotte! Olegário vai desmaiar quando vir você vestida assim, hoje à noite. – Charlotte sorriu.

— Espero que no mínimo ele elogie Elisa, imagina se de fato desmaia? Nossa festa de noivado seria uma comédia.

— Melhor nem pensarmos na possibilidade. – Elisa sorriu e ambas continuaram conversando. Charlotte foi intimada, por Elisabeta, a ajudá-la a escolher seu vestido. Elisa tinha quatro opções, mas precisava de um segundo olhar feminino para bater o martelo, e nada melhor do que a anfitriã da festa para fazê-lo.

À noite, a fazenda Ouro Verde estava iluminada e com uma bela decoração. Pouco a pouco os convidados davam o ar de sua graça. Os primeiros deles foram dona Ofélia, seu Felisberto e as quatro irmãs Benedito. Em seguida, apareceram à porta Julieta e Aurélio, empurrando a cadeira de rodas do Barão. O senhor estava com um olhar saudoso, observando cada parte daquela propriedade. Junto a eles, estava o casal Ema e Ernesto. Elisabeta desceu as escadas devagar e com um pouco de dificuldade. Darcy encontrava-se no andar de baixo e ao ver a esposa, subiu alguns degraus, ajudando-a a descer.

— Como você está linda, Elisabeta Benedito! Ou melhor, vocês. – Disse ele, beijando a mão direita dela e, em seguida, sua barriga. – E cheirosíssima também. – O rapaz não pôde evitar aproximar-se do pescoço dela, sendo induzido por seu perfume.

— Obrigada meu amor. Você, como sempre, está impecável! – Ela disse, ajeitando a dobra do colarinho da camisa de Darcy. Para que ele ficasse perfeitamente adequado.

O casal se aproximou dos primeiros convidados. Elisabeta abraçou calorosamente os pais e as irmãs. O assunto inicial no grupo fora, majoritariamente, sobre crianças. Cada uma das irmãs compartilhavam as mais novas descobertas e desafios da gestação. Lídia e Jane estavam muito perto de dar a luz aos seus bebês, ambas sentiam-se imensamente felizes e, ao mesmo tempo, apavoradas e cheias de dúvidas. Por essa razão, Cecília era muito solicitada na conversa, pois, apesar de não ter vivenciado aquele momento específico, era uma excelente mãe e já possuía bastante experiência ao cuidar tão bem de Mário. Alguns minutos depois, Lorde Williamson aproximou-se deles, acompanhado por Charlotte. Todos ficaram encantados com a beleza da menina. Antes mesmo de dizer uma palavra, Darcy já estava completamente emocionado. Quando Olegário se aproximou, beijando de leve a mão de Charlotte, foi inevitável para Darcy não sentir uma pitada de ciúmes. Afinal de contas, o rapaz estava encaminhando-se para se tornar o esposo de sua irmã; sua eterna garotinha. Com um firme aperto de mão, ambos se cumprimentaram.

— Que cara é essa meu amigo? É uma festa de noivado, não um velório! – Darcy foi surpreendido com uma batida de leve em suas costas. Quando se virou, deu de cara com Camilo. O jovem empreendedor havia acabado de voltar ao Vale, após passar uma temporada na capital paulista.

— Você fala isso porque não tem irmã, Camilo. – Após abraçar o amigo, o rapaz constatou que não estava se reconhecendo. Parecia o mesmo Darcy enciumado quando Olegário estava galanteando sua esposa, há muito tempo atrás. – Eu estou feliz por Charlotte, por Olegário também... só preciso me acostumar com a ideia.

— Você conseguirá, Darcy! Nessa vida a gente se acostuma com tudo meu amigo. Eu sofro muito quando preciso me ausentar e deixar Jane aqui, mas graças a Deus as viagens irão diminuir. Januário está conseguindo viabilizar todos os negócios na capital, enquanto o Barão, Ernesto e eu encaminharemos os daqui do Vale.

— Que boa notícia meu amigo, fico muito feliz por vocês! Realmente nosso Café está ganhando os mercados e os paladares brasileiros.

O salão já estava praticamente lotado quando começou a tocar a primeira música. A pista de dança estava à disposição para que seus pares a ocupasse. A primeira valsa seria dos noivos, mas Olegário cedeu gentilmente a vez ao pai da noiva. Lorde Williamson era um dançarino exemplar, mas queixava-se da idade e, por essa razão, dançaria apenas uma vez. Pai e filha valsearam durante uma música inteira; quando deu início a segunda faixa musical, Darcy segurou a mão da irmã, conduzindo-a a uma nova dança.

— Nossa mãe estaria orgulhosa de você neste momento, minha irmã. – Disse Darcy, segurando uma das mãos de Charlotte e apoiando sua cintura. – Você está deslumbrante.

— Obrigada, meu irmão! Eu tenho certeza que ela está nos assistindo, de algum lugar.

— Eu desejo que você seja imensamente feliz. Saiba que eu estarei aqui sempre, independente de qualquer coisa. Nunca hesite em contar comigo, está bem? – Ele a fitava, visivelmente emocionado.

— Eu te amo e te admiro muito, obrigada por ser esse irmão tão maravilhoso! – Ela respondeu, sentindo uma lágrima cair sobre o rosto. Darcy secou-a, em seguida, segurou sua mão direita delicadamente, fazendo com que a moça girasse em um belo passo pelo salão.

— Sei que a moça está substancialmente solicitada esta noite, mas será que poderia me dar a honra da próxima dança? – Olegário perguntou, aproximando-se dos irmãos. Darcy gentilmente cedeu a mão de Charlotte ao cunhando. Em seguida, dirigiu-se até Elisabeta, estendendo-lhe a mão.

— Será que os amores da minha vida aceitam dançar comigo? – Elisa segurou a mão de Darcy, caminhando até o centro da pista.

— Será uma honra. – Disse-lhe, fazendo uma breve e charmosa reverência.