Ainda há esperança
1 Capítulo 1
O Vale do Café definitivamente não parecia o mesmo lugar. Os últimos acontecimentos que movimentaram a pacata cidade deixaram os seus habitantes atônitos e consternados. Para Darcy Williamson, o atentado à Elisabeta fora o mais absurdo de todos e, apesar de ter saído sã e salva do episódio, ainda lhe corroía a ideia de que por um fio ela poderia não mais estar ali, ao seu lado. Esses pensamentos negativos comumente o importunavam e, com eles, surgia também uma forte angústia na qual ele não conseguia compreender, tampouco explicar. Embora tenha desenvolvido a habilidade de expor seus sentimentos, Darcy manteve guardado consigo toda aquela dor e apreensão. Não pretendia dividi-las com a esposa, com Charlotte ou qualquer outra pessoa, pois o que menos queria naquele momento era causar novas preocupações. O empresário estava há horas trancado em seu escritório, submerso em pensamentos e, ao mesmo tempo, tentando em vão avaliar alguns documentos referentes à ferrovia. Permaneceu desta maneira até o momento em que foi surpreendido com delicadas batidas na porta.
— Oi, meu amor! Será que atrapalho? – Perguntou Elisabeta fazendo uma careta divertida. Elisa carregava desajeitadamente uma bandeja e um pequeno envelope.
—Claro que não minha vida, ao contrário! Deixe-me ajuda-la. – Ele de pronto levantou-se indo em direção à esposa, pegando a bandeja e lhe depositando um beijo.
— Trouxe um lanchinho, afinal de contas meu esposo anda mais viciado no trabalho do que nunca. Tomar de volta as rédeas da construção da ferrovia te deixou muito produtivo, sabia?! Dona Julieta que o diga. Parece que agora o negócio vai para frente! – Disse ela expondo um sorriso faceiro.
— Ah! Então quer dizer que a Sra. minha esposa concorda com as justificativas de Lady Margareth? – Replicou ele, franzindo o cenho – Você também acha que eu andei procrastinando no trabalho? – Darcy começou a entrar na brincadeira, colocando o braço em volta da cintura da amada, fixando o olhar no dela.
— Não foi exatamente isso o que quis dizer. – Disse, enquanto envolvia os braços em volta do pescoço dele, acariciando sua nuca e tocando suavemente seus cabelos. – Mas olha só que ironia, Darcy! Estamos nos divertindo com aquele clima terrível criado por sua tia. Você acabou desempregado, com a relação estremecida com Julieta. Mas realmente é aquele ditado, até das piores tragédias podemos tirar um aprendizado, ou, neste caso, um sorriso. – O humor de ambos mudou.
— Você é a razão do meu sorriso mais genuíno, Elisabeta. Eu agradeço todos os dias o privilégio de tê-la aqui, comigo! – Acariciou de leve o rosto da amada e não pode deixar de notar seus olhos marejados.
— Darcy, meu amor, não me faça chorar! Você sabe que ultimamente ando quase igual uma manteiga derretida. Por falar em manteiga, senhorito, trate logo de experimentar toda a comida que lhe trouxe. Não se esqueça que você ainda está em recuperação. – Disse enquanto organizava as coisas na bandeja.
Darcy e Elisabeta passaram alguns momentos ali, naquela sala. Do lado de fora era possível ouvir sorrisos, histórias engraçadas e muitas, muitas declarações de amor. Os dois compartilhavam o início de uma linda jornada que, se dependesse deles, duraria a vida toda.
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Elisabeta ajeitava o vestido, enquanto Darcy abotoava a camisa. A saudade que ambos sentiam do corpo um do outro era dilacerante. Entretanto, Darcy ainda estava debilitado e, embora a paixão falasse mais alto, sabiam bem que não podiam extrapolar os limites impostos pelos médicos.
— Você é terrivelmente fascinante Elisabeta Williamson! Como pode me hipnotizar e me torturar dessa forma? – Questionou ele, passando a mão pelos cabelos e recompondo-se naquela vaga poltrona.
— Não é só você que se sente torturado Darcy, pode acreditar! – Elisabeta o fitou com um olhar extremamente malicioso. – Mas, embora eu seja completamente apaixonada por você, sua saúde vem sempre em primeiro lugar. Por essa razão, meu estimado maridinho tenho que deixa-lo no momento. Sou uma escritora muito, mas muito compromissada. – Enquanto ela falava, Darcy jogou a cabeça para trás balançando-a negativamente, em protesto. – Vou até a casa de chá, tenho uma entrevista marcada com Dona Ágatha. Quem mais poderia me conceder os melhores episódios recentes do Vale do Café para compor o meu livro?! — Elisa começou a roçar o pé direito na perna de Darcy, fazendo com que sua calça amassasse por completa.
— Melhor personagem não há! Pelo que conheço de dona Ágatha, ela é muito generosa quando o assunto diz respeito a conversas esporádicas e “despretensiosas”. Oh, que maldade Elisa! Dona Ágatha foi muito solicita quando mais precisamos. Ela me acolheu no momento de desespero, lembra? Naquele maldito atentado. – Darcy sentiu-se angustiado por falar mal de Ágatha. O que fez com que Elisabeta, mesmo sem querer, caísse na gargalhada. – Você tem toda razão meu amor. Apesar de dona Agatha gostar de uma conversinha, sejamos francos, ela é uma pessoa do bem. Mas chega de falar da minha personagem, o que preciso mesmo é encontra-la. Elisabeta deu um breve beijo no marido e saiu apressadamente. Enquanto isso, Darcy já recomposto notou que a amada deixou o envelope sobre a mesa, esquecendo completamente de entrega-lo.
— Minha esquecidinha. Vamos ver do que se trata...
Ao checar o verso daquele envelope, Darcy reconheceu a caligrafia. Pertencia a Vicente. Sua mente não queria acreditar no que seus olhos acabavam de ler. Era doloroso, frio e calculista demais. Como sua tia pôde chegar a esse ponto? Ele questionava-se repetidamente. Ao que tudo indicava, seu pai estava extremamente debilitado. Tinha sido abandonado em um asilo, ficando completamente a mercê dos cuidados -ou maus tratos- de estranhos.
Darcy andava de um lado ao outro daquela sala, completamente incrédulo. O telegrama de Vicente não era cem por cento claro. Porém, a urgência daquelas palavras fez com que ele quisesse partir imediatamente para Londres, a fim de ver com os próprios olhos o grau de monstruosidade cuja sua tia era capaz de possuir.
— Preciso trazer meu pai de volta ao Brasil imediatamente.
—
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