O Vale do Café, além de ostentar a fama de suas terras cobiçadas e férteis era reconhecido, também, por ser uma das menores cidades do estado de São Paulo; por consequência, era daqueles lugares simpáticos e aconchegantes onde todos os moradores se conheciam e onde as notícias se espalhavam mais rápido do que uma flecha acerta seu alvo. Foi assim com a notícia da gravidez de Elisabeta. Todos, desde os membros da família até os conhecidos mais distantes, ficaram muito felizes com a novidade. Darcy era o futuro pai mais maravilhado e ansioso do planeta. Desde que fora surpreendido por Elisabeta, o rapaz não parava de pensar, um dia sequer, no filho ou filha que estava por vir. Estivesse ele em casa ou no trabalho, seu pensamento era diversas vezes direcionado para aquela novidade. Darcy e Elisa estavam tão empolgados que discutiam nomes, caso fosse menino ou menina, sem chegar, todavia, a consenso algum; quem seriam os padrinhos, onde passariam as primeiras férias, e até disputavam com qual dos dois a criança se pareceria mais... Ema, no papel de melhor amiga de Elisabeta, se dispôs a ajudá-la com ideias para os modelos das primeiras roupinhas, mostrando novidades da moda exterior. Elisabeta ouvia os conselhos — um tanto exagerados— da amiga com muito bom humor e paciência. Entretanto, Dona Ofélia encarregou-se de começar a fazer com suas próprias mãos boa parte do enxoval. A senhora alegou ter recebido a missão de herança e transformado em uma tradição familiar. Ofélia salientou que sua mãe havia lhe presenteado muitas roupinhas feitas especialmente para suas cinco meninas. Esse ato era, acima de tudo, uma grande demonstração de amor. Elisabeta ficou muito agradecida e emocionada com a amabilidade e presteza de sua mãe. Afinal, “se dependesse dos seus dotes para a costura, a criança permaneceria da mesma forma que viria ao mundo” – Brincou Dona Ofélia. Desde que se entendia por gente, a filha mais velha do casal Benedito sempre fora conhecida por ser a mais apta à liberdade; a menina gostava de correr pelo campo, de cavalgar e gastar horas do dia explorando cada cantinho do Vale ao lado de Tornado, seu fiel escudeiro. Enquanto Ofélia, que permanecia com as outras meninas “debaixo de sua asa”, se preocupava sem saber o paradeiro da filha mais travessa— como ela se referia. As atividades de pintar, bordar, tocar brilhantemente o piano, [...] ditas adequadas para determinar uma moça prendada e, por consequência, torná-la graciosa aos olhos da sociedade, nunca fora seu forte. Na sua concepção, tais práticas mais pareciam um paradigma ultrapassado. A garota nunca se preocupou em estar dentro dos padrões e não sentia vergonha em dizer que não sabia dar um ponto numa linha. Não que ela julgasse fúteis as moças que dedicassem suas horas de lazer a tais atividades, pelo contrário, lhe parecia algo bastante apreciável; entretanto, essas competências a seu ver jamais deveriam ser julgadas como algo que determinaria os encantos e potencialidades reais de uma mulher. Para ela, essa visão era um tanto limitada.

A rapidez com que as notícias se espalhavam no Vale serviu de alerta para que Lorde Williamson tomasse algumas atitudes. Por conta própria, o senhor decidira manter-se o mais distante possível do movimento urbano e dos olhares curiosos, pois não queria, de forma alguma, que sua irmã sequer imaginasse que ele estava de volta à cidade. Independente de onde ela estivesse escondida, Lorde Williamson sabia que Lady Margareth era capaz de reaparecer e aprontar algo ainda mais grave. Dessa forma, o inglês passava todo o dia pela fazenda Ouro Verde. O homem poupava-se de participar das comemorações e passeios ao ar livre, além das reuniões e lazeres em família que aconteciam fora daquela propriedade. Darcy sentia-se contrariado e triste com a decisão do pai. Para ele, o isolamento era o pior dos castigos, ainda mais para alguém que havia passado recentemente por uma espécie de cárcere extremamente cruel. Apesar de ainda estar preocupado com a fuga de Lady Margareth, Darcy não pretendia se deixar intimidar e interferir na sua felicidade e na de sua família. Muito menos privar Elisabeta de algo que ela tanto estimava: sua liberdade.

***

A inglesa deu um ultimato. Após ter todos os telefonemas rejeitados, Lady Margareth havia enviado uma carta à Londres, ordenando que Robert, seu principal aliado no hospital em que Lorde Williamson esteve internado, lhe informasse detalhadamente tudo o que estava acontecendo por lá. A resposta veio quinze dias depois. A mulher saiu discretamente da mansão do parque cedo da manhã. A peruca grisalha a fez aparentar ter o dobro da sua idade. Seus trajes não eram nada refinados e a face não continha nenhum resquício de maquiagem. O que a deixara completamente irreconhecível. Chegou ao correio e recebeu a carta direcionada à Margarida Santos. O conteúdo daquele papel fez a mulher arder de raiva:

“Londres, 17 de agosto de 1910.

Prezada Lady Margareth,

Sei que a senhora não costuma tolerar falhas, mesmo que os problemas saiam completamente do controle. Nas últimas semanas, não pude atender aos seus telefonemas. Estou sendo monitorado pela direção do hospital. A única maneira de mantermos contato é por meio de correspondências como esta, que espero não ser extraviada. Sem mais delongas, irei deixá-la a par dos fatos... Tudo estava indo perfeitamente nos conformes, como combinado. Eu estava tendo o controle absoluto no que diz respeito ao tratamento “especial” de seu irmão, Lorde Williamson, desde a medicação até a restrição de visitas. Isto até a chegada de um senhor, um tal de Vicente. Ele trouxe consigo muitas documentações em nome do seu sobrinho, Darcy Williamson. Esses papéis lhe davam o total direito de decidir os rumos do tratamento do seu irmão. Dentre esses documentos, havia atestados e relatórios médicos que afirmavam que a senhora esteve internada em uma clínica psiquiátrica aí no Brasil, o que a impediria terminantemente de continuar à frente das incumbências relacionadas à Lorde Williamson. Mas essa não é a pior parte. Seu sobrinho e uma moça estiveram aqui e conseguiram fazer com que seu irmão recebesse alta e deixasse o hospital. Eu tentei questionar algumas possíveis irregularidades na intenção de impedi-lo, mas não consegui. Pelo contrário, me tornei, aos olhos dos meus superiores, uma espécie de ameaça, correndo o risco até de perder meu trabalho. Poderia pedir desculpas pelo ocorrido, mas como a senhora pôde ver através dos meus relatos, a culpa não foi minha.

Sem mais observações.

Atenciosamente,

Robert F.”

— Mas que petulante! enfermeirozinho de meia tigela incompetente! – Lady Margareth grunhiu, em voz baixa. Em seguida amassou o papel bruscamente. Seus olhos ardiam como se fossem expelir fogo naquele exato momento. As poucas pessoas que estavam próximas a ela observavam com curiosidade aquela estranha figura deixar o local, puxando o longo vestido um tanto esfarrapado. Lady Margareth não queria assumir, mas aos poucos as suas fichas estavam se esgotando. Tinha acabado de ler a carta, num ritmo acelerado quase que engolindo as palavras. Não podia permanecer no meio daquela gente por muito tempo. Ao regressar à mansão do parque, sentou-se no sofá da sala de visitas, pegou uma taça com uma das mais fortes bebidas da adega da mansão e tornou a lê-la, dessa vez com um pouco mais de calma e atenção.

— O que você está fazendo aqui na sala, está maluca Margareth? Não tem medo de outra pessoa entrar e descobri-la? – A mulher foi interrompida, momentos depois, pela voz autoritária do Almirante Tibúrcio, que acabara de chegar.

— Talvez seja apenas isso o que me resta... – De raiva o olhar dela passou a apresentar insanidade. De repente, a mulher levantou-se e subiu as escadas da mansão com bastante pressa.

— O que está fazendo? Por acaso enlouqueceu? – Lady Margareth estava no topo da escada, de braços abertos e com a carta e o copo de bebida ainda em mãos.

— Eu sou uma farsa, Tibúrcio. Só me aproximo de pessoas incompetentes, que me passam para trás. Talvez seja o momento de me render... Você não acha?! – Tibúrcio tinha suas dúvidas quanto à sanidade de Lady Margareth, mas naquela ocasião, sua expressão indicava que a mulher beirava a loucura. – Susana me passou para trás. Ela tirou fotos do delegado Kléber, outro incompetente, e me fez ficar em suas mãos. Darcy, meu próprio sobrinho, também me passou para trás, depois de tudo que fiz por ele. A sua mulher, aquela maldita da Elisabeta não se incomodou com o fato de eu ter destruído o seu trabalho inútil sobre essa cidadezinha fora do mapa... E Archibald, aquele ingrato goza plenamente de saúde em algum lugar por ai, quando deveria estar definhando lá na Inglaterra, como estava destinado a ser... E minha filha, minha Briana está morta, por culpa de todos eles.

— Do que você está falando, mulher? Foi mesmo capaz de tantas atrocidades? – O Almirante escutava, abismado, a mulher relatar amarguradamente todos os seus feitos.

Lady Margareth propositadamente deu um passo em falso, fazendo com que seu sapato esbarrasse na lateral do tapete e lhe causasse uma queda brutal. Os olhos de Tibúrcio acompanhavam, apavorados, a mulher rolar escada abaixo. Lady Margareth estava completamente inconsciente, para o desespero do Almirante. Ele apoiou a cabeça dela em seu colo. Tentando reanimá-la. Mas sem obter respostas. Ao inclinar levemente o rosto dela, o homem constatou haver um corte profundo em sua testa. O que o fez entrar em pânico instantaneamente. Não havia outra alternativa senão levá-la imediatamente ao hospital, ainda que isso pusesse em risco sua própria liberdade.