Ainda existe amor?
2 Capítulo 2 - Surpresas
Imediatamente, Maria se perdeu em seus pensamentos. A surpresa daquela revelação lhe trouxe uma certa nostalgia; voltou, por um momento, ao um passado distante e esquecido. Agora tudo começava a fazer sentindo. Realmente não era apenas uma impressão, ela já havia transitado por aquele lugar na companhia de sua família. A cabana dos Ibañez, que na verdade pertencia à Patrícia pois Arthur, seu marido, havia lhe presenteado no aniversário de casamento, era o lugar escolhido para o lazer não só da família San Romãn, como também dos Mendizábal e dos Rivero.
Fernando não parava de olhar a mulher sentada ao seu lado, não estava entendendo o porquê daquela atitude. Viu a expressão de Maria mudar assim que pronunciou a palavra "Ibañez". Não quis parecer inconveniente, até porque os dois se conheciam há algumas horas, mas como ele era um homem prestativo, pensou que se soubesse o que estava se passando, poderia ajudar a bela mulher que mexeu com o seu coração.
Fernando: tocando no ombro de Maria – O que houve senhorita? Desculpe, mas estou preocupado, você parece assustada...
Maria: desviando seu olhar da janela e voltando-se para o homem que a tocava — Desculpe, Fernando... apesar de não me conhecer deu pra você perceber que sou um tanto quanto misteriosa e até instável às vezes. – esboçando um meio sorriso- Eu não era assim, acredite. E ao ouvir você pronunciar esse nome, fiquei um pouco sentida. Sabe, eu cheguei a conhecer a família em questão. — pronunciando esta última frase de forma quase inaudível.
Fernando: aparentando surpresa em seu olhar – Jura? O meu pai era um grande amigo do falecido senhor Emiliano. Antes de minha mudança pra Miami cheguei a visitar várias vezes a cabana que você alugou. A família Ibañez só tinha um único herdeiro, Arthur. Eu não o conhecia, pois não morava de fato aqui, passei quase toda minha vida morando na Europa, concluí meus estudos e me mudei pra Miami a fim de cuidar de uma das firmas do meu pai. Mesmo longe do país, fiquei sabendo da tragédia que se passou nessa família.
Maria: confusa- Tragédia? — voltou-se novamente para o homem — Por acaso você está falando do assassinato da esposa de Arthur?
Fernando: Não só desse caso. Pelo o que fiquei sabendo, Arthur Ibañez era um homem... azarado! Sim, completamente azarado — dando ênfase na palavra. A vida foi bastante cruel com ele, a sua primeira noiva também foi assassinada de forma brutal, a jogaram de uma varada. E vejam só, cinco anos depois a esposa é assassinada com um tiro a queima roupa. Ele deve ter sofrido tanto... quanta falta sorte!
Maria: franzido as sobrancelhas enquanto falava- Estranho... você fala de Arthur com um certo saudosismo, como se ele já estivesse...
Fernando: completando a frase de Maria — Morto? Pois sim! Arthur Ibañez morreu fazem vinte anos. Na verdade, a polícia especulou na época que se tratava de um suicídio... pelo visto você nunca morou aqui, não é? Porque o caso foi bastante repercutido... — analisando meticulosamente a expressão de tristeza que preencheu o rosto de Maria
Maria: olhando para qualquer lugar do para-brisa – Eu morava na capital, mas por questões pessoais me mantive fora do país por vinte anos. Por isso a surpresa com a notícia, não a esperava... sinceramente — com o último fio de voz que lhe restava.
Fernando: percebendo a situação incomoda que havia criado- Poxa, me perdoe. Pela sua reação, presumo que você era bastante amiga da família.
Maria: tentando mudar de assunto- Não se preocupe, de qualquer forma, eu teria que saber da notícia em algum momento. — dando uma pausa e respirando fundo- Bem... acho que já podemos ir, não é mesmo? Parece que já está ficando tarde e estou com a roupa encharcada, não quero pegar um resfriado. E muito mesmo quero que você fique doente.
Fernando: girando a chave do carro – Vamos! Não estamos mais tão longe assim da cabana.
Uma única palavra resumia Maria naquele momento: tristeza. Como Arthur poderia está morto? Será que realmente ele havia se matado? Porque se isso realmente tivesse acontecido, Maria iria se sentir culpada pelo resto de sua vida. Ela sabia que não havia matado a esposa do senhor Ibañez, mas tinha certeza da grande dor que ele sentiu ao saber que a mãe de seu filho estava morta, que a mulher que tanto venerava e amava nunca mais estaria ao seu lado. Esses eram motivos suficientes para nunca mais querer viver. Apesar dos problemas no casamento, que eram constantes devido à falta de atenção de Patrícia e sua indiferença, Arthur acreditava que as coisas entre eles iriam mudar, que o amor poderia renascer. Por isso planejou aquela viagem para Aruba. Ah, maldita Viagem! Se pelo menos por uma única vez Maria pudesse mudar algo em seu passado, sem dúvida nenhuma nunca teria aceitado o pedido de seu marido, mas como ela fazia de tudo para agradá-lo e vê-lo feliz, deixou de lado os pressentimentos que a alertavam sobre os perigos daquela viagem.
Enquanto isso na mansão San Romãn, os filhos mais velhos de Estevão, Estrela e Heitor, desciam as escadas em direção à sala de jantar. Estrela com fones de ouvido, dançava ao som de uma música de rock. A menina escondia-se por detrás da personagem "adolescente rebelde". Já Heitor parecia-se tanto com a mãe; um rapaz sorridente e sensato, que apesar de se divertir na noite e ter as mesmas características do pai quando tinha a sua idade, considerava a ideia de um dia se casar e constituir uma família. Sabia que isso demoraria um pouco, até porque não lhe agradava, no momento, largar a vida se solteiro e todos os benefícios que ela trazia.
— Mansão San Romãn -
Heitor: descendo as escadas enquanto olhava para Estrela que balançava os cabelos sem parar- Não sei como a Estrela consegue ouvir esse tipo de música. Até parece que está sendo eletrocutada – rindo ao acompanhar o movimento corporal frenético da irmã.
Estrela: tirando um dos fones do ouvido- O que você disse – gritando?
Heitor: passando as mãos pelos ombros de Estrela- Nada irmãzinha! Vamos logo, nossas tias e o papai já devem estar nos esperando pra jantar.
Estrela: — passando as mãos pela cintura do irmão e livrando-se completamente dos fones de ouvido — Ah sim. Eu estou com tanta fome que seria capaz de comer durante três dias, sem parar. Parece que minha greve de fome para convencer o papai de largar aquela mulherzinha não deu certo. Fala sério, por que a vida tem que ser tão sórdida, humilhante e traiçoeira?
Heitor: o jovem parou por um momento para a olhar a irmã mais de perto — Estrela, para de ser tão dramática! Desse jeito não vamos convencer o papai de que a Ana Rosa é apenas uma caçadora de tesouros interessada em subir socialmente na vida. Não se preocupe, ainda vamos arranjar um jeito de desmascará-la perto dele, mas para isso precisamos estar unidos e saudáveis. Então... NADA DE GREVE DE FOME! – elevando o tom da voz e rindo em seguida
Neste momento, Estevão saída do escritório em direção à sala de jantar. Foi inevitável o encontro com os filhos.
Estevão: sorrir ao ver os filhos- Então vocês ainda estão aí? Pensei que já estivessem na sala de jantar...
Heitor: descendo o último degrau- Papai, boa noite. – abraçando-o — Já estávamos a caminho da sala de jantar. Pelo visto a reunião terminou bem mais cedo do que o esperado.
Estevão: passando as mãos pelos cabelos e respirando pesado- Sim, o seu tio Evandro não estava se sentindo muito bem. Preferi adiar a reunião para amanhã de manhã. Preciso marcar uma consulta no cardiologista, aquelas dores no peito dele estão me deixando preocupado...
Estrela: apoiando-se no ombro de Heitor- Papai! Desculpe me intrometer, não quero parecer insensível ou algo parecido, mas acho que o tio Evandro abusa demais do senhor. Desde que me entendo por gente, ele tem sido internado nos melhores hospitais do país às suas custas. Não estou negando ajuda, mas ele tem dinheiro... muito dinheiro. – diminuindo o tom da voz com medo da reação do pai.
Estevão: — demonstrando certo incômodo diante do comentário da jovem- Estrela, filha, já conversamos sobre esse assunto. Desde que Vera e o filho morreram naquele horrível acidente o seu tio Evandro entrou numa depressão tamanha. São anos de solidão e sofrimento, ele sente uma angustia muito grande. E aliás, vocês sabem que gosto de ajudar as pessoas próximas à família, e principalmente ele que é como um pai para mim.
Estrela: — dando-se por vencida- Está bem papai! Não está mais aqui quem falou... Agora vamos para a sala de jantar, porque eu estou com muita fome.
Estevão: aproximando da filha e lhe dando um beijo terno na testa – Que filha mais boba que eu tenho. A rebelde sem causa mais insistente que conheço. Pelo que vejo você já esqueceu aquela história de greve de fome... como se Estrela San Romãn conseguisse viver longe dos doces e guloseimas de Tia Carmem.
Estrela: apertando levemente o braço esquerdo do pai- Ai! Se o senhor não fosse tão cabeça dura e entendesse que a Ana Rosa é apenas uma oportunista, as coisas seriam tão fáceis de se resolver!
Estevão: — olhando-a seriamente – Estrela...
Heitor: interrompendo os dois — Papai, vamos logo! Não ligue para Estrela, essas músicas que ela anda escutando devem ter desconfigurado essa cabecinha amarelada — fazendo menção aos cabelos louros da irmã.
E assim os três caminharam até a sala de jantar. Para chegar até ela, era preciso passar por um largo e longo corredor, as paredes eram preenchidas por vários quadros e retratos. Um deles chamava atenção por sua beleza e perfeição. Uma mulher em pose imperial, cabelos pretos, olhos verdes, lábios finos, um ar sereno e meigo, um olhar arrebatador, pele branca e um sorriso tímido. Aquela era Laura San Romãn, a maior adoração de Heitor e Estrela. No entanto, aquela mulher era uma MENTIRA! Uma farsa que foi alimentada por vinte anos, uma imagem construída para acobertar a covardia do pai. Um custo bastante alto para Estevão, que precisou pagar bem caro pelo silêncio daqueles que diziam ser seus amigos.
Depois de alguns minutos, finalmente Maria e Fernando chegaram à cabana dos Ibañez. A chuva já havia cessado e o carro estacionou bem em frente à casa. Maria ainda estava com os cabelos todos bagunçados, a maquiagem borrada e o vestido grudado ao corpo. O homem que a acompanhava destravou o cinto de segurança e abriu uma pequena caixinha que ficava acima do volante, de dentro dela retirou um cartão azul, nele estava contido o endereço e telefone de Fernando.
— Carro de Fernando -
Fernando: estacionando o carro- Enfim, chegamos! Quer ajuda com as malas? — virou-se procurando uma resposta de Maria.
Maria: enrolando os cabelos em formato de coque – Imagina! Eu já abusei demais de você. Não quero lhe atrapalhar ou incomodar.
Fernando: destravando o cinto de segurança- Para com isso! Eu adorei ajudar você, aliás essas malas parecem estar bem pensadas para uma mulher que acabou de chegar cansada e exausta de uma viagem. Espere, vou lhe dá algo. – abrindo a caixinha acima do volante – Este aqui é o meu cartão.
Maria: pegando o pequeno cartão das mãos do homem- Mas... por que eu precisaria do seu cartão?
Fernando: retirando a chave da ignição – Eu sei que você já se esqueceu, mas prometi mandar consertar o seu carro. Precisamos manter contato, eu sei onde lhe encontrar, e agora, só falta você saber onde me escondo – rindo feito criança.
Maria: sorri largamente- Você é insistente assim o tempo todo?
Fernando: olhando nos olhos de Maria – Não, só quando encontro pessoas que mexem comigo e que se tornam especiais.
Maria: um pouco desconcertada com o comentário de Fernando — Bem, eu vou começar a tirar as minhas malas – destravando o cinto de segurando e saindo do carro imediatamente.
Fernando: saindo do carro e abrindo o porta-malas – Posso te fazer uma pergunta?
Maria: Se não for me ofender, claro que pode.
Fernando: parando por um momento — Você sempre fica vermelha quando recebe um elogio? Ou gostou especificamente do meu?
Maria: retirando sua bolsa do carro – Eu... – olhando-o – Eu acho que somos dois estranhos e essa conversa é sem sentido algum. Adoraria entrar na minha cabana e esquece um pouco do desse mundo cruel e frio! Satisfeito?
Fernando: caminhando até a porta com as malas de Maria- Você tem personalidade, eu gosto disso – rindo. Aqui estão suas malas, SEM NOME. – deixando a bagagem da mulher em frente da porta de entrada. Foi um prazer ajudá-la. Amanhã pela parte da tarde, eu trago seu carro novo em folha.
Maria: ajeitando as bolsa nos ombros – Não precisa, me dá a chave do meu carro, eu mesma mando consertá-lo!
Fernando: tirando a chave do bolso e jogando no ar, aparando na descida com as mãos – Tarde demais! As chaves estão comigo e se as quiser novamente vai ter que vim buscar, e vou logo avisando, eu sei correr muito bem.
Maria: respirando fundo- Está bem! Você venceu. Mas ai de você se sumir com o meu carro, posso percorrer o mundo todo, mas ainda encontro você senhor... – olhando para o cartão – Navarro!
Fernando: sorrindo- Está bem, SEM NOME! Trarei seu carro em perfeito estado, até melhor do que quando você o comprou, garanto! Boa noite – virando-se e andando até o carro.
Maria: parou por um momento, sorriu e olhou para o homem que se afastava- MARIA!
Fernando: — virando depressa- Oi?
Maria: Maria. Este é o meu nome.
Fernando: — o homem esboça um sorriso no canto da boca- Você tinha razão... o seu nome não é feio. Na verdade é um dos meus nomes prediletos.
Maria: colocando as mãos na cintura- Não me diga? Você só pode ser uma alucinação da minha cabeça, eu tenho certeza! O meu carro nunca quebrou, eu não estou molhada, e o meu o cabelo não está em frangalhos!
Fernando: aproximando-se um pouco da mulher — Talvez se você fechar os olhos e bater palmas três vezes eu desapareça e tudo volte ao normal.
Maria: rompeu em risos ao escutar a sugestão do homem — E correr o risco de você sumir com o meu carro? Nunca! Vá e volte amanhã com ele, senão...
Fernando: — afastando-se– Tudo bem – acenando e entrando no carro- Boa noite, Maria!
O carro de Fernando logo sumiu no horizonte, dando uma sensação de conforto à Maria. Seus olhos percorriam todos os cantos daquela grande e luxuosa cabana. Assim que entrou, trancou a porta principal e colocou as malas perto do sofá. Caminhou até a lareira e com um pouco de habilidade conseguiu acendê-la. Como estava velha! Parecia não ter sido usada há anos. Depois de aquecer as mãos perto do fogo, subiu as escadas cautelosamente; ouviu uns estalos vindo do solo, aquela parte da casa nunca foi tão segura, oca como a vida de quem morava naquele lugar. Logo que chegou ao corredor do segundo andar, avistou, sem nenhuma dificuldade, o quarto onde costumava se hospedar junto com seu marido. Com uma das suas malas mais pequenas nas mãos, olhava hesitante para aquela grande porta, sabia que se entrasse naquele lugar reviveria o passado que tanto tentava esquecer.
Decidiu por enfrentar de uma vez por todas seus medos. Girou a maçaneta e adentrou no quarto. Nada havia mudado, cada coisa estava exatamente no mesmo lugar. A cama, o lençol rendado, os objetos em cima do criado mudo, enfim, todas as coisas estavam ali. Aquilo era estranho, depois de 20 anos é esperado que algo familiar se torne irreconhecível. Aquelas quatro paredes já tinham sido testemunhas das noites de amor mais apaixonadas e prazerosas. Dos beijos mais cálidos, dos abraços mais ternos e acolhedores.
Dirigindo-se até o banheiro, acendeu as luzes e percebeu que ela ainda estava lá, a banheira branca em que tanto gostava de banhar-se. Pegou alguns sais que estavam guardados na mala e preparou rapidamente um banho. Em seguida, retirou sua roupa, peça por peça, caminhando nua até o lugar, prendeu novamente os cabelos e adentrou delicadamente a banheira. Fechando os olhos inclinou-se sobre ela, mergulhando seu corpo por completo. No mesmo instante um milhão de pensamentos bombardearam sua mente, era como se aquilo já tivesse acontecido, um dejavú.
Imediatamente abriu os olhos e balançando a cabeça procurou afastar as imagens que haviam se instalando dentro de si. Apressadamente, terminou o banho que mal havia começado. Coberta com um roupão, voltou para o quarto. Enquanto secava os cabelos avistou dentro de sua mala um anel feito de galhos de roseiras, tão pequeno e imperceptível, ela nem mesmo sabia que ele ainda estava por ali. Sentou-se na cama e tomou o anel nas mãos, inevitavelmente, relembrou o dia em que havia sido presenteada por ele.
Maria: — tomando o anel nas mãos – Pensei que você não existisse mais... – roçando o anel entre os dedos, esboçando um olhar perdido.
— Flash Back On –
Obs.: A autora recomenda que a leitura deste Flash Back seja acompanhada da canção Para tu Amor (Juanes)
https://www.youtube.com/watch?v=3NXh5XJfR-0
Era fim de tarde em uma das praias particulares mais bonitas de Aruba. Maria e Estevão caminhavam por ela de mãos dadas. Um passeio que se tornou inesquecível por justamente ter sido o último. Depois de Maria ter esticado uma grande toalha branca na areia, ambos sentaram e começaram a trocar beijos apaixonados. As mãos do homem percorriam as costas lisas e delicadas da mulher, que por sua vez abraçava-o pela cintura. Por um momento, Estevão afastou-se da mulher e tirou do bolso alguns galhos de roseira que sorrateiramente havia arrancado do jardim do hotel onde estavam hospedados. Pediu que Maria fechasse os olhos e aguardasse pela surpresa que ele preparava.
Maria: de olhos fechados — Amor... já?
Estevão: concentrado na atividade que estava realizando- Calma, minha vida. Estou quase terminando... só falta um pequeno detalhe...e... pronto! Pode abrir os olhos — ajoelhando-se em cima da toalha.
Maria: direcionou seu olhar para mãos de Estevão — Dois anéis – sorrir- são lindos.
Estevão: pegando uma das mãos de Maria – Sim, dois anéis que representam a aliança que vamos fazer a partir de agora.
Maria: olhando confusa para o homem – Aliança? Como assim?
Estevão: acariciando os cabelos de Maria — Ao colocar esses anéis um no dedo do outro, estaremos prometendo que nunca vamos nos separar, que vamos nos amar por toda a vida e que nunca desistiremos desse sentimento que nos mantém unidos.
Maria: tentando ajeitar o cabelos que o vento insistia em bagunçar – Mas Estevão... eu sempre vou te amar, não importa o que aconteça. Sei que nesses últimos dias temos brigado, por culpa minha. Se eu não fosse o meu ciúme. Como sou boba! Pensar que você e Patrícia...
Estevão: colocando um dos dedos sobre os lábios da esposa — Xiu! Não vamos lembrar desses momentos desagradáveis. Só quero te amar minha Maria, esquecer por um segundo os problemas e o mundo. Por isso te trouxe para esse lugar, belo e harmonioso. Tenho certeza que quando voltarmos para a casa, poderemos recomeçar novamente o nosso amor, sem dúvidas ou intrigas de pessoas que não querem a nossa felicidade, porque tenho certeza que essas ideias de traição não poderiam ter vindo da sua cabeça...
Maria: interrompendo Estevão — Amor... por favor, eu não quero mais brigar! Eu já havia lhe dito que ninguém está me colocando contra você, apenas sou um tanto quanto insegurança. Sempre pensei que a opinião da sua família e amigos seria mais importantes do que o nosso amor.
Estevão: acariciando o rosto de Maria- Eles podem falar ou pensar o que quiser, não me importa. Mas vamos deixar essas coisas de lado. Hã? – tomando uma das mãos de Maria e logo em seguida encaixando um dos anéis- Maria Fernandez, eu te amo e prometo que nada vai nos separar. E todas as vezes que eu olhar para esse anel lembrarei de todos os nossos momentos de amor, dos teus beijos, da tua boca, da tua pele e de todo o prazer que você me faz sentir.
Maria: — encaixando o último anel no dedo de Estevão- Estevão San Romãn, eu te amo e prometo nunca esquecer você. E todas as vezes que olhar para esse anel, lembrarei do único homem que me faz estremecer por completo, dos teus sussurros de amor, dos nosso momentos, das declarações. E com certeza eu vou sorrir, pois também lembrarei da tamanha sorte que tenho por ser a única dona dos teu corpo e dos teus pensamentos.
Maria permaneceu olhando para Estevão em silêncio, seus lábios clamavam por um beijo do homem forte e esbelto que parado a admirava. Imediatamente, ele encaixou suas mãos na cintura da mulher, que vibrou ao sentir o toque possessivo do marido. Depositando seus lábios ao dela, deu leves mordiscadas seguidas de beijos tímidos. A deitou por cima da toalha branca e delicadamente arrastou a alça da parte de cima do biquíni que Maria vestia...
— Flash Back Off -
Maria optou por voltar à realidade. Preferiu não continuar com aqueles pensamentos. Pra quê se machucar? Sabia muito bem que aquilo nunca mais voltaria acontecer, ela não era mais a mesma, as circunstâncias também não. Tinha que aceitar que nunca mais se sentiria como a sua antiga versão.
Depois de voltar-se novamente para o quarto, fixou seus olhos no anel por alguns segundos. Lágrimas tímidas correram de seus olhos. Tentou se manter forte, respirou fundo, colocou novamente o anel em seu lugar, enxugou seu rosto e prometeu a si mesma que nunca mais voltaria a ser fraca.
Maria: — enxugando algumas lágrimas – Como é possível que a pessoa que mais me amou, ter sido a mesma que mais destruiu a minha vida? Não posso entender... não posso! Chega! Isso não passou de um momento de fraqueza, tenho que me manter firme em meu objetivo. Não voltei por causa de Estevão San Romãn, ele não me importa! Quero recuperar o amor de meus filhos e provar a minha inocência!
A mulher repetiu a última frase para si mesma durante várias vezes naquela noite. Entretanto, um coração apaixonado exige explicações para seguir em frente de novo, e as de Maria não eram tão convincentes assim. Depois de colocar o pijama, rapidamente caiu num sono profundo. Precisava dormir e descansar seu corpo, que clamava por roupas secas e lençóis quentinhos.
O dia logo amanheceu. Em um dos hotéis cinco estrelas da cidade, o mais procurado diga-se de passagem, encontramos Fernando Navarro fechado em sua sala e mergulhado em uma papelada que parecia nunca ter fim. Assim que chegou ao seu local de trabalho, pediu que seu assistente levasse o carro de Maria ao conserto. Não conseguiu esquecer o sorriso e o encanto da mulher que cruzou sua vida em uma fria e solitária noite. Fernando era um homem de muitas mulheres, mas nenhuma, até então, havia mexido tão profundamente com o seu coração. Na noite anterior, decidiu isolar-se do mundo e tudo o que lhe sufocava, por isso dirigia naquela estrada em direção à cabana que o pai havia lhe deixado de herança. Maria havia sido uma agradável surpresa. A todo instante olhava para o relógio, desejava que os ponteiros corressem e magicamente batessem seis horas da tarde. Necessitava vê-la novamente. Fernando era um homem bonito, alto, cabelos lisos, sempre bem penteados, sua roupa casual era o famoso terno preto, com raras variações que iam da camisa polo branca ao um jeans azul desbotado.
Perdeu a atenção quando Teodoro, seu assessor, entrou repentinamente na sala. Fechando a porta bruscamente, dirigiu-se à Fernando com uma certa intimidade. Sentando em uma das cadeiras do lado oposto ao seu chefe, o indagou sobre a sua súbita aparição no hotel, algo que não era muito comum, já que o senhor Navarro tinha a fama de menosprezar os hotéis localizados no México, pelo fato de ter permanecido e gerenciando os bens do pai em Miami.
— Sala de Fernando -
Teodoro: entrando de repente na sala – Fernandinho! Quando me disseram que você estava nesta sala e revisando estes papéis, não acreditei! Eles já estavam sujos de tanta poeira, faz alguns meses que você não aparece no hotel. Mas não se preocupe, tenho cuidado de tudo muito bem, como você já pôde ter constatado – sentando na cadeira. E aí quem é a mulher?
Fernando: virando-se surpreendido com a pergunta – Você ficou maluco? Além de ser folgado é louco. Saí daqui Teodoro, preciso terminar isso tudo até às seis da tarde.
Teodoro: pegando um lápis que estava largado sobre a mesa e balançando entre os dedos – Chefinho, fale a verdade! Não precisa mentir para o seu amigo aqui, sou lobo velho. Eu sei muito bem que o trabalho é como uma válvula de escape para todos os seus problemas. Que aliás sempre começam quando algum ser humano do sexo feminino cruza o seu caminho, ou melhor, cruza com você nas suas noitadas. Então, quem é a gostosa da vez?
Fernando: tirando os olhos do documentos e dando um leve sorrisinho — Teodoro seu cafajeste! Eu não sei como ainda não te demitir... mas tudo bem, eu vou contar. Conheci uma mulher ontem à noite. Linda e diferente de todas que já passaram pela minha vida. Ela tem personalidade, tem charme e carisma. Apesar de ser um tanto misteriosa, gostei de tê-la ajudado, e alguma coisa me diz que ela gostou de mim. Sabe meu amigo – inclinando-se sobre a cadeira- pela primeira vez na vida... acho que estou apaixonado!
Teodoro: deixando escapar uma gargalhada irônica- Apaixonado? Deixa desse papo de mulherzinha, aposto que quando provar dessa fonte, essa paixonite aguda vai desaparecer. Conheço o chefe que tenho, aliás, o país todo conhece. Desde que chegou aqui tem sido notícia constante nas colunas sociais. Espero que essa mulher misteriosa não se desencante ao saber das suas aventuras...
Fernando: revirando os olhos- Quer saber, nem sei porque ainda conto esse tipo de coisa para um cara duro e cafajeste como você. Quer fazer o favor de dá o fora daqui? Preciso trabalhar! Se não tiver nada de interessante para me dizer, a porta da rua é serventia da casa – apontando para fora do escritório.
Teodoro: jogando o lápis na mesa – Calma! Eu vim aqui por um motivo bem interessante. Conhece a família San Romãn?
Fernando: ajeitando o terno – A dona das empresas de transportes?
Teodoro: consentido- A própria! Acabei de receber um convite destinado a Fernando Navarro, da festa dos 95 anos da empresa San Romãn. Como todos os anos eles alugam o salão do hotel para comemorarem com os amiguinhos da alta sociedade, acho que você deveria comparecer. Eles são clientes muitos especiais, se é que você me entende — lançou um olhar sugestivo para Fernando.
Fernando: pensativo- Sabe que essa não é uma má ideia? Talvez eu vá, deixe o convite na minha mesa. E agora que já acabou, pode ir! Porque você é pago pra trabalhar e não para ficar batendo papo com o seu chefe. ADEUS!!!– gritando enquanto apontava em direção a entrada da sala.
Alguns quilômetros dali, encontramos Estevão. Ele havia acabado de sair de uma reunião longa e cansativa. Ao passar pelo salão principal da empresa, encontra Lupita, sua secretária, que o aguardava ansiosa.
— Salão principal -
Estevão: caminhando até a sua sala com uma maleta nas mãos – Bom dia, Lupita. Por acaso você chegou agora? Não lhe vi na reunião.
Lupita: levantando-se de sua cadeira- Bom dia. Senhor, me perdoe, tive que ir até o hotel Rizin entregar o convite do senhor Fernando Navarro, não conseguir enviá-los com os demais convites. Isso não voltará acontecer.
Estevão: sorrindo- Não se preocupe, Lupita. Apenas lhe perguntei porque fizeste falta na reunião, pessoas competentes e esforçadas como você são raras hoje em dia. E então, o senhor Navarro virá?
Lupita: gesticulando enquanto respondia a pergunta- Ainda não sei, o assessor dele ficou de me ligar para confirmar a presença. Pelo o que fiquei sabendo, ele chegou a pouco tempo ao país e tem uma agenda bem grande.
Estevão: coçando a testa — Entendo! Caso Heitor chegue, peça para que venha até a minha sala. Preciso entregar alguns extratos bancários. Por favor, que ninguém me incomode, com exceção de meu filho.
Lupita: — consentindo- Está bem, senhor.
— Cabana de Maria -
As horas passaram depressa. Em todos os relógios da cidade batiam exatamente seis horas da tarde. Maria encontravam-se na cozinha da cabana, preparando o jantar daquela noite. Passou toda manhã, como também toda a tarde pensando como faria para resolver o problema em que havia se metido, não poderia mais permanecer naquela moradia, precisava urgentemente instalar-se em um apartamento. Por fim, decidiu que no dia seguinte compraria o primeiro jornal e procuraria incansavelmente um novo lugar para morar.
Enquanto cortava alguns temperos, ouviu a campainha, que tocava insistentemente. Quem seria àquela altura? Não estava esperando alguém em especial, ninguém que lembra-se no momento. Enxugando as mãos no guardanapo, correu até a sala e abriu a porta receosa.
Maria: abrindo a porta enquanto arrumava os cabelos – Boa noite... você?
Fernando: sorrindo- Surpreso com minha visita? Você esquece tão rápido das pessoas com quem se relaciona?
Maria: arqueando as sobrancelhas- "Com quem se relaciona?". Acho que você deve ter batido na porta errada — gargalhando. Eu nem lhe conheço direito.
Fernando: acompanhando-a na gargalhada- Maria, quão espirituosa você é. Eu apenas passei para lhe entregar isso – tirando as chaves do carro de Maria do bolso.
Maria: sorrindo- Meu carro! Pensei que você iria desaparecer com o pobre. Espero que nada tenha sumido de dentro dele, eu sei quantas moedas tinham no portas luvas – rindo. Agora é sério, brincadeiras à parte, obrigada Fernando. Nem sei como agradecer.
Fernando: — com as mãos no bolso começa a balançar o pé esquerdo pra frente e pra trás – Mas eu sei! Poderia me agradecer me convidando para jantar, porque estou faminto. E como você está com esse avental, suponho que estas cozinhando.
Maria: encostando-se na porta – Não sei... eu não cozinho tão bem assim, e além do mais, conheço você faz apenas algumas horas.
Fernando: incrédulo- Você não confia em mim? Eu lhe ajudei numa estrada soturna e fria, mandei consertar o seu carro e não lhe passei uma cantada brega em nenhuma dos momentos em que estivemos juntos. Ora, acho que sou um homem confiável!
Maria: rindo- Quem sabe em uma outra oportunidade, Fernando. Hoje, preciso ficar sozinha, ainda estou organizando as minhas coisas.
Fernando: conformado- Está bem! Então... será que posso te fazer um outro convite?
Maria: olhando o homem da cabeça aos pés – Que tipo de convite?
Fernando: Bom, hoje pela manhã fui informado de que um jantar vai acontecer no meu hotel dentro de duas semanas. Na verdade é uma festa de aniversário de uma das maiores empresas de transportes do país. E eu gostaria muito que você me acompanhasse, cheguei a pouco tempo na cidade e não me sinto muito à vontade para desfrutar sozinho desse tipo de ocasião. Que tal, aceita Maria?
Maria: pensativa- Fernando... eu...
Fernando: seu olhar suplicava por um "sim" — Por favor... não custa nada me acompanhar.
Maria: respirando fundo – Tá bom! Você venceu!
Fernando: sorrir largamente, não conseguiu esconder seu entusiasmo — Obrigado, Maria. Sabe, a família San Romãn faz questão da minha presença, e eu não queria chegar na festa sozinho ou mal acompanhado. Não pega bem pra um homem como eu.
De repente o mundo parou por alguns minutos, ao ouvir aquele nome Maria deu um passo para trás e afastou-se cambaleando. Não podia ser! O destino novamente lhe poria frente a frente com quem ela deseja evitar um encontro tão repentino.
Maria: balbuciando- Família San Romãn...
Continua
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