Ainda existe amor?
1 Capítulo 1 - Encontros
Uma chuva torrencial caia sobre a capital do México. Em algum lugar deserto, numa estrada que levava a uma pequena Cabana ao leste da cidade, encontramos uma mulher: cabelos à altura dos ombros e olhos verdes; confusa e atônita. O carro que conduzia parou de repente. Sem ter como resolver a situação do lado de dentro do veículo, decidiu destravar o cinto de segurança e sair em meio à chuva. E por falar nela: uma chuva travessa, que insistia em molhar seu vestido, deixando transparecer as curvas sinuosas da bela mulher.
— POV's Maria-
Se fecho os olhos consigo me lembrar com exatidão daquele dia. Um dia que tinha tudo pra dá certo, mas pelo visto a vida decidiu interromper os nossos planos, os nossos sonhos. Que tola eu fui. Realmente acreditei que ele me amava, que se importava comigo. Eu me imaginava em seus braços, na verdade, eu me imaginava em qualquer tipo de situação que envolvesse nós dois.
Depois de vinte anos terei que enfrentar o pior julgamento de todos: o de meus filhos. Um júri não representa nada perto do olhar repulsivo e discriminatório daqueles seres que nasceram de mim, que foram gerados de um amor puro e sincero. Bem, eu pelo menos tinha convicção daquele amor, já ele... e quem se importa com ele? Um homem pérfido e cruel, que não se preocupou em nenhum momento com o que eu sentia ou como seria a minha vida dali por diante.
Mas chega de pensar nele! Tenho que encontrar um meio de refazer minha vida e descobrir quem cometeu àquele crime bárbaro, quem foi o covarde que me deixou pagar anos por um homicídio! Por sorte tenho a cabana que aluguei, não sei, mas acho que já passei por esse caminho antes, me parece tão familiar. Besteira! Devo estar imaginando coisas. Que cheiro é esse? Por que meu carro está parando? Ah não! Isso que dá alugar carros em concessionárias de segunda!
— POV's Maria -
Maria: Raios!!! — girando a chave do carro e ouvindo apenas o som fraco do motor- Não posso acreditar que o meu carro emperrou bem no meio do nada. Vou ter que descer e verificar o que aconteceu.
Maria Fernandez havia acabado de chegar à cidade. Vintes anos presa mudaram totalmente a personalidade da jovem humilde e ingênua, agora, apenas um desejo dominava seu coração e, de certa forma, dava sentido à vida: VINGANÇA. Isso mesmo! Esse sentimento destrutivo mobilizava sua existência e lhe deu forças para suportar os anos de sofrimento que passou dentro da prisão em Aruba. Os anos naquela lugar haviam sido suportáveis graças à ajuda e conselhos de Gardênia, uma mulher sábia e forte, que a confortou em um dos momentos mais tristes de sua vida: o dia em Estevão San Romãn, seu ex marido, a abandonou à própria sorte, desprezando-a de maneira fria, sem ao menos lhe dá a chance de se explicar ou defender. Gardênia era sua companheira de cela, acusada também de forma injusta, colocou-se no lugar de Maria e tentou ensinar-lhe como viver e, acima de tudo, como sobreviver naquela prisão. Os anos se passaram e Gardênia foi posta em liberdade, deixando sua amiga desolada, porém, auxiliada por Luciano, um advogado que com o passar dos anos se tornou seu melhor amigo e um amante secreto.
Naquela noite, Maria dirigia-se ao lugar que havia alugado provisoriamente. Um anúncio no jornal divulgava uma cabana vazia, longe alguns quilômetros da capital mexicana, na verdade, longe de seu passado e das pessoas que habitavam nele. Ela precisava de um tempo para pensar, espairecer e reorganizar sua vida, que estava uma verdadeira bagunça. Era como se ela tivesse nascido novamente, como se o mundo se abrisse inédito diante dos seus olhos. Isolar-se, pelo menos naquele momento, seria a solução mais indicada. Não pensar em ninguém, ou melhor, não pensar em alguém em especial, ele, o homem que mais amou... ou ainda amava? Ah, um turbilhão de sentimentos e sensações a rodeava, não sabia se ele ainda era tão indiferente assim ao seu coração. A pergunta "ainda existe amor?" a deixava balançada, com as estruturas totalmente abaladas.
Algo ainda deixava Maria um tanto intrigada, pois o dono da cabana não havia se revelado. Um intermediário realizou todos os transmites e nem ao menos fez exigências ou ditou regras no ato do aluguel, apenas entregou as chaves do imóvel, o endereço e assinou os documentos sem pronunciar ou desvendar uma palavra sequer sobre o tal dono misterioso. Àquela horas, esse era um dos menores problemas de Maria. Um carro emperrado e com fumaça saindo por todos seus orifícios fazia parte do presente daquela mulher, um problema imediato que precisava de uma solução URGENTE!
Maria: — abrindo o capô do carro- Céus! Deve ser o motor. Aquele vendedor me enganou. Como pude ser tão idiota? Alguma coisa me dizia que havia algo de errado com aquela concessionária... vender um carro a um preço baixíssimo só podia ser um truque pra acabar rápido o estoque. — passando as mãos pelos cabelos que estavam completamente molhados- Agora só me resta esperar uma alma piedosa passar por esse lugar e convencê-la a me dá uma carona, se bem que... será que alguém teria essa coragem? Ou melhor, será que alguém em sã consciência sairia de sua casa nesse temporal? Ah Maria, você já começou bem, se as coisas continuarem assim, já imagino como será o final dessa história.
Encostada na lateral do carro, olhava para o início da estrada tentando ver ou pelo menos cria a imagem de um carro se aproximando. A estrada era escura e aquela situação não agradava nada à Maria. Estava sozinha e aparentemente indefesa. Apesar de já ter lidado com situações bem piores, uma estrada deserta era extremamente perigosa para uma mulher bonita como ela. Seu corpo conservava a mesma aparência de vinte anos atrás, mais madura e sedutora, com certeza atrairia olhares se fosse vista daquela forma. Uma silhueta bem desenhada, cintura fina, postura ereta e quadris largos, esse era o biótipo da mulher que estava na estrada, sem contar os cabelos molhadas que grudavam em seu busto dando-lhe um charme arrebatador.
Em alguns quilômetros distantes dali, a família San Romãn preparava-se para jantar. Como era de costume, Estevão trancava-se em seu escritório todas as noites, ninguém até aquele momento sabia o que exatamente ele fazia por ali. O dono de uma das maiores empresas de transportes do México havia se convertido em um homem duro e amargo, que somente baixava a guarda perante seus filhos; eles sim eram a razão de viver do empresário, a única lembrança de um passado bom e terno que viveu ao lado do grande amor de sua vida. Como ela era amada por ele, tão linda e sensível. De olhos verdes e poderosos, olhos que eram dele. Pra falar a verdade, ela era dele, por completo, sem reservas ou pudores.
Parado, com umas das mãos apoiava o queixo e a outra repousou sobre a perna, destinou seu olhar a um lugar qualquer da sala, até que o toque estridente do celular o despertou, então, fugiu de seus pensamentos distantes e voltou para a "realidade".
— Ligação On-
Estevão: levando o telefone até à orelha- Alô? Quem fala?
Ana Rosa: Quem fala? Você só pode está de brincadeira. Não acredito que se dirige dessa forma à sua futura esposa, meu amor!
Estevão: passando as mãos pelo cabelo meio hesitante — Ana Rosa... desculpe. O meu dia foi exaustivo, não foi minha intenção ofendê-la, meu amor. Posso saber qual o motivo dessa ligação tão repentina?
Ana Rosa: Claro que pode. Aliás, você pode tudo. Eu liguei apenas pra saber como você está, minha vida. E...
Estevão: E?
Ana Rosa: Ah! Está bem! Não consigo esconder nada de você mesmo. Quero saber se posso ir jantar com a sua família, hoje. Você me prometeu que me levaria pra falarmos com os seus filhos sobre o nosso casamento, mas como sempre acabou se esquecendo.
Estevão: respirando fundo- Ana Rosa, já conversamos sobre isso. Ainda não posso lhe assumir oficialmente como minha noiva. Preciso preparar os meus filhos. Você sabe muito bem que eles amam e veneram a mãe, dificilmente entenderão imediatamente a minha decisão de casar novamente.
Ana Rosa: mordendo os lábios- Mas Estevão! Eu não quero manter um relacionamento desse jeito... às escondidas!
Estevão: Eu entendo meu amor, essa ideia também não me agrada, mas por enquanto vamos ter que esperar. Seja paciente, já lhe falei que no final valerá a pena.
Ana Rosa: Está bem! Mas saiba que essa sua decisão me deixa muito triste.
Estevão: Não fique. Prometo que amanhã bem cedo vou lhe visitar. Hã? Isso não lhe anima?
Ana Rosa: sorrindo- Claro que essa notícia me anima. Estarei esperando meu amor, enrolada em uma das minhas melhores toalhas...
Estevão: sorrindo maliciosamente – Você adora me provocar. Agora preciso desligar, Ana. Logo minha tia estará batendo na porta anunciando o jantar. Beijos!
Ana Rosa: Beijos, meu amor. Te amo.
— Ligação Off -
Assim que desligou o celular, Estevão abriu uma das gavetas de sua escrivaninha, esta ficava ao lado direito e era trancada com chave. Tomou uma pequena caixa nas mãos, ao abri-la, uma surpresa foi revelada: fotos dele juntamente com uma mulher, muitos envelopes, cartas, muitas cartas, um lenço branco rendado e um anel feito de galhos de roseira. Pegou o pequeno anel e de repente seus olhos encheram-se de lágrimas. No instante seguinte, alguém entrou no local, por um descuido ou falta de atenção ele havia deixado a porta destrancada. Apressadamente Estevão pôs todos aqueles objetos dentro da caixa, atrapalhado e meio confuso deixou transparecer sua feição de surpresa e espanto; aquelas lembranças lhe deixavam acuado, era como se estivesse cometendo um crime todas as vezes que revirava aquelas fotos, que relembrava aqueles momentos. A culpa tomava conta de si.
— Estrada –
Alguns minutos haviam se passado. Um forte clarão pode ser visto ao longe, aquilo animou a Maria, mas também a deixou receosa. E se fosse alguém com desejos maldosos? Arrumou as alças do vestido que usava e tentou parecer o mais feia possível. Bagunçou um pouco os cabelos, o que a deixou ainda mais sedutora do que o normal. Um carro grande e preto aproximou-se e parou bem ao seu lado, ficou ali, inerte, com vidros fechados. As pernas de Maria tremiam e suas mãos suavam. Para sua surpresa, um homem finalmente saiu do carro. Ao deixar a porta do automóvel entreaberta, deu a chance da mulher constatar que ele estava sozinho.
Fernando: saindo do carro apressado, tentando proteger-se da chuva- Senhorita... você está bem? Houve algum problema?
Maria: limpando a água do rosto — Algum problema? Tirando o fato de que meu carro quebrou no meio da estrada e estou toda molhada, nada tão terrível – rindo sem jeito. Mas estou bem, obrigada.
Fernando: tirando as mãos da cabeça e estendendo a Maria- Que mal educado! Desculpe! Prazer, me chamo Fernando Navarro... e você... quem é?
Maria: dando dois passos para trás- Bem... eu me chamo... sabe, não me leve a mal, mas não lhe conheço, tenho certo receio em apresentações formais, pelo menos nessas condições.
Fernando: retirando a mão- Entendo. Desculpe, mas não se preocupe, não sou nenhum maníaco disposto a atacar uma mulher indefesa, se é isso que você está pensando. – ri sem jeito- Será que posso ajudá-la em algo?
Maria: Se você for um mecânico de carros ou alguma coisa parecida, seria de grande utilidade – rindo.
Fernando: Que falta de sorte! Eu só entendo de gerenciamento de Hotéis. A experiência mais próxima com carros que tive foi ao seis anos de idade quando o meu carrinho de controle remoto quebrou e eu tentei consertá-lo, em vão, claro. Mas posso lhe dá uma carona, se assim preferir. Deixamos seu carro aqui, e amanhã pela manhã prometo que mando alguém de minha confiança buscá-lo e levá-lo para o reparo. Que tal? – arqueando as sobrancelhas.
Maria: hesitante- Não sei... você mora por aqui?
Fernando: balançando a cabeça- Não, não. Tenho uma casa mais à frente. Mas somente vou até lá para relaxar. Na verdade eu moro na cidade. E você? Mora por aqui?
Maria: olhando para o homem ainda um pouco desconfiada- Não, apenas aluguei uma cabana por essa região....
Fernando: Que maravilha! Somos vizinhos, então. Agora faço questão de lhe ajudar, será um prazer. Hã? Vamos – pedindo gentilmente? Eu prometo que não vou lhe machucar SEM NOME!
Maria: rindo- Sem nome?
Fernando: sorrindo- Ora, você nem ao menos me disse o seu, presumo que ele deva ser feio, tanto receio para dizer um nome.
Maria: Pois verá que não é! Quem sabe algum dia ainda lhe conte. Sabe, vou aceitar a carona. Não pretendo me aventurar nessa estrada por uma simples crença besta que diz: "nunca confie em estranhos". Vou acreditar em você, mas se tentares alguma gracinha, eu aviso: sei como deixar alguém desmaiado em dois tempos.
Fernando: gargalhando- Nossa! Calma! colocando as mãos para cima- Juro que não vou fazer nada – beijando o dedo mindinho.
Maria simpatizou-se com Fernando. Por mais que fosse um estranho, havia algo nele que a fazia acreditar que ainda existiam pessoas de bem no mundo, que ajudavam as outras sem segundas intenções ou interesses fajutos. Com a ajuda do homem pegou suas malas e colocou na parte traseira do carro, fechou o seu e entrou no dele. Após apertarem o sinto de segurança, seguiram no caminho.
— Mansão San Romãn -
Ainda em seu escritório, Estevão tentava, em vão, esconder a caixa que havia trazido à tona. Alba San Romãn, sua tia, uma mulher fria e sem escrúpulos algum, fez questão de repreendê-lo por sua insistência em lembrar dela. Ah, como Alba a odiava. Ela conseguiu o que todas haviam tentado, inclusive Alba, mas fracassaram: o amor daquele homem. Como é torturante amar alguém e não poder tocar ou sentir tal pessoa. Alba conhecia bem esse sentimento. Quando o assunto era amores reprimidos, a senhora San Romãn se destacava por sua abundante experiência no assunto.
Alba: entrando no escritório- Boa noite meu querido sobrinho- o fitou seriamente ao perceber que este tentava esconder algo.
Estevão: colocando uma das mãos por cima da caixa- Por que a senhora não bateu antes de entrar? Sabe muito bem que não gosto que me atrapalhem quando estou em meu escritório.
Alba: sorrindo sarcasticamente- Estevão, eu bati, mas você não escutou – se aproximando da mesa sorrateiramente. — Acho que estava envolvido demais relembrando o seu passado – olhando fixamente para a caixa que Estevão tentava esconder.
Estevão: — lançando um olhar de repreensão que fez Alba pensa duas vezes antes de continuar com suas insinuações – Tia, escute uma coisa, da minha vida cuido eu! Não lhe devo satisfação dela, então, se me der licença, eu gostaria de acabar de organizar umas coisas antes do jantar – tentando abrir a gaveta para pôr a caixa novamente.
Alba: passando o dedo indicador sobre uma de suas têmporas – Essa caixa era dela, não é mesmo? Aquela maldita mulher. Nem morta ela nos deixa em paz.
Estevão: levando da poltrona um pouco alterado- A senhora saber muito bem que ela não está morta. Pra falar a verdade, quem morreu um pouco a cada dia nestes vinte anos, fui eu. Mas não quero falar sobre isso, meus filhos estão em casa e a qualquer momento um deles pode entrar por essa porta, não quero criar nem um tipo de situação embaraçosa que não possa ser resolvida sem dizer mais mentiras à eles. Por favor, tia, saia, logo acompanho vocês à mesa de jantar.
Alba: respirando fundo- Está bem... Mas não esqueça que você nunca estará sozinho, eu sempre estarei aqui ao seu lado.
Estevão: — sentando-se novamente- Obrigada, tia Alba.
— Estrada -
Dentro do carro todos estavam calados. Fernando olhava para Maria com curiosidade, uma mulher tão bela e misteriosa ao mesmo tempo. Procurou não esconder de si mesmo o interesse que ela havia despertado. Reparou que ela não era casada, pelo menos em seu dedo nenhum anel denunciava um compromisso. Decidiu por romper com aquele silencio, nem que fosse da forma mais tímida possível.
Fernando: Então — ele falou, deu uma pausa e continuou com a voz mais baixa- será que eu poderia ver o endereço da cabana que você alugou?
Maria: tirando os olhos da janela e virando-se para o homem- Oi? Ah sim! Desculpe, me distrair com meus pensamentos. O endereço está dentro de minha bolsa- esticando as mãos e pegando a bolsa que estava no banco de trás. Achei! Eu sabia que estava por aqui. Prontinho – entregando o cartão a Fernando.
Fernando: Deixe-me ver... – pegando o cartão das mãos de Maria- Não acredito, este mundo é mesmo muito pequeno. Impressionante!!! – lendo o cartão com o endereço.
Maria: colocando alguns fios de cabelo para trás da orelha enquanto o olhava de forma curiosa- O que houve? Você conhece o lugar?
Fernando: sorrindo- Não só conheço como já o visitei várias vezes. A cabana dos Ibañez é uma das mais bonitas da região!
Maria: parando por um momento e olhando fixamente o homem- Você disse Ibañez?
Fernando: parando o carro por um momento- Sim... a famosa e multimilionária Familia Ibañez. Algum problema?
Maria: levando um dos dedos à boca – Então quer dizer – dando uma pausa e falando para si mesma- que a cabana que eu aluguei pertence à família de Patrícia...
Continua
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