Ainda assim...
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Enquanto os presentes eram distribuídos, Niko se esbaldava de felicidade. Para Niko, o Natal era a melhor festa do ano, pois de todas as festas cristã, esta era uma festa em que as pessoas se despiam de maldades, tristezas, preconceitos... e davam lugar a solidariedade, amizade, amor, respeito... Niko olhou pra Félix e sorriu docemente tentando imaginar o comentário bizarro que seu amigo faria a respeito deste seu pensamento. Então, ele olhou para o amigo de Félix e Márcia, que estava vestido de Papai Noel e alegremente distribuía os presentes de sua família e amigos fazendo desta festa de Natal em sua casa especial. Enquanto Márcia abria o presente que ele tivera que improvisar para a pequenina MaryJane, Niko olhou para Fabrício com uma leve tristeza, pois não pôde deixar de pensar nos seus pais e irmãs ausentes justo nesta noite tão especial para ele, uma vez que todos ficaram em Santos ajudando os desabrigados da sua cidade invadida por enchentes causada pelas mãe natureza que este ano mostrou sua face mais terrível neste primeiro dia de verão.
Seus pensamentos foram interrompidos com a alegria e descontração daquela mulher que Niko acabara de conhecer, mas já gostava muito pelo seu despojamento e simplicidade. “Era do Fabrício, mas agora é da MaryJane.” Niko respondeu sorridente, grato por ter tido a ideia.
Fabrício foi o próximo presenteado, e a pronúncia do nome de seu filho levou Niko de volta para seu breve passado. Engraçado como são as coisas, há menos de 5 meses atrás, Niko e Eron fizeram planos para esta noite, seus pais estariam ali junto com suas irmãs, seus dois filhos e Eron. A sua família completa celebrando o nascimento de Jesus a quem ele agradeceria imensamente por ter-lhe permitido realizar um sonho que outrora parecia impossível. No entanto, hoje, não estavam presentes nem Eron, por motivos óbvios, nem seus pais e irmãs, mas por outro lado estava aqui Félix e sua inusitada e alegre ‘família’. Niko riu-se com o disparate da situação, quando em sã consciência Niko pensaria que teria um Natal tão alegre e cheio de pessoas tão excêntricas, porém tão agradáveis.
Há algumas horas atrás quando voltava da igreja com Adriana e seus filhos, ele contava para ela que recebera a derradeira confirmação da ausência de seus familiares no Natal.
“Mas o Sr. Vai passar o Natal sozinho Seu Niko?” A babá disse inconformada.
“Claro que não Adriana, eu vou passar o Natal com meus dois filhos lindos, que eu amo tanto e, pela graça de Nossa Senhora, fui presenteado.” Niko falou com seu jeito doce mas sincero.
“Eu sei Seu Niko, mas criança dorme cedo, com certeza estarão no terceiro sono à meia noite.” Adriana pontuou.
“É, é verdade Adriana.” Niko falou languidamente, mas logo emendou. “Mas é bom também, que eu aproveito para descansar, porque estes últimos dias aquele shopping estava uma loucura menina, e o restaurante pegou carona também, graças a Deus.” Niko empurrava o carrinho de Fabrício enquanto falava, mas sem tirar a atenção de Jayminho que brincava de subir e descer em bancos, meio-fio de jardins ou qualquer outro obstáculo que estivesse pela frente. “Jayminho, cuidado meu filho, para você não cair nem pisar na grama.”
“Pode deixar pai, eu sou o máximo fazendo aventura, olha só pra você ver ó.” O menino falou enquanto se equilibrava, já Niko só balançou a cabeça e voltou a falar com Adriana. “Sei. Deste jeito não chega nem até 9 horas.” Niko sorriu amavelmente. A babá só balançou a cabeça e também sorriu ainda inconformada de ver seu tão querido patrãozinho passar o Natal sozinho.
Ao chegar em casa, Niko foi para o quarto com as crianças para se trocarem enquanto Adriana foi para a cozinha. Depois de ter trocado Fabrício ele deixou Jayminho jogando videogame no quarto e foi para a cozinha pois queria pedir um último favor para Adriana antes dela sair, e, ao entrar na cozinha a babá estava desligando o telefone e logo que viu o Sushiman começou a falar junto com o patrão.
“Adriana...”
“Olha seu Niko...”
Eles riram mas Niko deixou a moça falar. “Pode falar Adriana.” A moça ainda estava um pouco encabulada pois não sabia se seu patrão iria gostar ou não da notícia. “Sabe o que é Seu Niko. É que eu não vou mais precisar da folga hoje e, se o Sr. não se importar eu posso ficar e passar o Natal aqui com o Sr.”
“Imagina Adriana. Vai lá pra sua casa, ficar com sua família. Não vou me sentir bem em saber que por minha causa, você não passou o Natal com a sua família.”
A babá, realmente estava triste por seu patrão ter que passar o Natal sozinho, mas não era por isso que ela iria ficar. “Sabe o que é Seu Niko.” Ela disse mexendo os pés timidamente enquanto torcia os dedos das mãos nervosamente. “Eu já contei pro Sr. que minha mãe me pôs pra fora de casa quando eu contei que meu padrasto tava dando em cima de mim, há uns anos atrás, não foi?” Ela baixou os olhos de vergonha da própria desgraça.
“Contou sim Adriana, mas você me disse também que ele tinha deixado a sua mãe na ocasião.” Niko falou educadamente tentando não deixa-la ainda mais embaraçada. “Foi sim Sr., e por isso mesmo minha mãe botou pra fora de casa e disse que nunca mais queria me ver.”
“Até você chegar lá na sua casa com o dinheiro para comprar comida para seus outros dois irmãos menores que estavam passando fome.” Niko falou com certa indignação e tampou a própria boca quando percebeu a indelicadeza de seu comentário. “Ai, desculpa Adriana. Desculpa, isso não é da minha conta.” Ele se desculpou educadamente. “Imagina Seu Niko, é verdade mesmo.” Ela falou sinceramente deixando Niko menos sem jeito. “Mas porque você está me relembrando essa história justo hoje Adriana?” Ele perguntou tentando entender. “Pois então Seu Niko. Acontece, que meu padrasto voltou pra casa hoje. Era minha mãe no telefone dizendo para eu não ir pra casa pra não constranger todo mundo no Natal.” Desta vez a babá não conseguiu encarar o patrão, então fincou o olhar nos dedos dos pés.”
“Ai, Adriana eu sinto muito.” Niko não sabia o que mais poderia dizer, então só abraçou a moça carinhosamente. Então se lembrou do porquê desta conversa ter começado. “E, claro que você pode passar o Natal aqui comigo. Será ótimo pois você me fará companhia. Olha como Deus as vezes escreve certo por linhas tortas.” Niko riu sinceramente tentando desanuviar o ar. A moça não falou nada, apenas retribuiu o sorriso com gratidão no olhar.
“E você, o que ia dizer Seu Niko.” Ela logo emendou, assim o constrangimento de sua história infeliz ficaria nos esquecimento de vez. “Ah, sim Adriana. Eu ia te pedir pra ficar com as crianças só mais umas duas horas para eu poder visitar um amigo. O Félix, lembra dele? Ele veio aqui algumas vezes jantar comigo.” Niko explicou e a moça apenas acenou confirmando que se lembrava. “Eu sei que já é tarde mas eu prometi que iria até a casa dele ainda hoje.”
“Claro Seu Niko, não tenho nada pra fazer mesmo. Fico cuidando das crianças, pode ir tranquilamente.”
“Mas, você ainda está de folga esta noite viu? Então trata de colocar uma roupa bem bonita, porque quando eu voltar, você será minha convidada para o Natal.” Niko riu sinceramente.
“Ai, brigada, Seu Niko.” Adriana alargou o sorriso.
Niko voltou a realidade quando Jayminho questionou sobre seu presente e a troca de presentes durou por mais algum tempo até que todos saíram da sala, deixando apenas Niko e Félix, este demonstrava um certo incômodo, provavelmente pensando nas explicações que daria para Niko. Mas isso Niko poderia descobrir mais tarde.
Niko aproveitou a deixa onde todos estavam distraídos na sala de jantar para entregar o presente que havia comprado para Félix. Ele ainda não sabia o que dizer ao lhe entregar o presente, uma vez que para ele, presentes, principalmente no Natal e principalmente para as pessoas a quem se é próximo, deve ser algo especial e não material. Mas a verdade é que apesar de Niko considerar Félix um amigo, ele não sabia muito sobre ele, pelo menos nada que realmente importava. E, durante a última semana enquanto Niko rodava em círculos tentando encontrar um presente adequado isso ficou evidente para ele. De certa forma, aquilo o incomodou, talvez tenha sido inclusive por causa disso que ele começou a estranhar aquelas pequenas coisas que em princípio pareciam bobagens. E no fim, Niko se viu um total analfabeto no que diz respeito a Félix o que o levava ao problema em questão. O Sushiman não sabia nada que o ajudasse a escolher um presente apropriado pra Félix. Ele não conhecia nem mesmo suas preferencias por música, flores ou até “se” ele gostava de flores... Ele até conhecia bem seu gosto culinário, ele poderia dar de presente um jantar. Niko pensou em um dos dias que ele rodava horas a fio sem conseguir nada que lhe agradasse. “Será?” Niko suspirou sorridente, mas logo sacudiu a sua cabeça. “Você já fez vários jantares pra ele, isso não seria nenhuma novidade. Se bem que, sempre foram jantares de agradecimento, nunca um presente, mais íntimo...” Niko se encostou no parapeito do hall do shpping pensativo enquanto sentia um fervilhar estranho em seu estômago, e logo se recuperou. “Nicholas Corona, você não toma jeito, ai ai ai.” Niko repreendeu a si mesmo, ajeitou o corpo, levantou a cabeça e entrou na primeira loja masculina a sua frente. Um loja de sapatos.
Agora, ajoelhado ali, na sua frente com aquele presente estúpido nas mãos. Niko não sabia o que dizer e claro, acabou falando um monte de bobagens. Tudo bem que no meio daquele monte de bobagens sobre roupas e sapatos ele conseguiu tocar o amigo, e foi quando finalmente Niko percebeu que ele podia dar um presente ao seu amigo, um presente de verdade.
******
Mais tarde naquela noite, um Niko inquieto tentava, em vão, rolava de um lado para o outro da cama tentando achar o sono. Mas, não importava o que ele fizesse, ele não conseguia esquecer todas as coisas que Félix lhe contara quando estavam a sós no quarto de Fabrício poucas horas atrás.
“Carneirinho fala alguma coisa, qualquer coisa, me atira pedras. Pronto, você com certeza não tem pecados e pode ser o primeiro a atirar pedras neste corpinho esbelto.” Félix tentou, mas não conseguiu esconder sua aflição com a piada.
“Imagina Félix, eu não vou atirar pedras em você. Eu... eu só não entendo como...” Niko respirou fundo, segurou as mãos de Félix e olhou em seus olhos. “Porquê?”
“Ai Niko, porque, porque... por dinheiro, poder, para ser visto, pra ser amado. Sei lá. E olha que você não sabe da missa a metade. O fato é que eu fiz coisas horríveis, coisas das quais eu me envergonho, coisas que eu não tenho nem coragem de te contar porque se eu te contasse você me expulsaria da sua casa a ponta pés, igual Adão e Eva foram expulsos do paraíso, assim, pra nunca mais voltar.” Félix finalizou gesticulando com as mãos um enxoto.
“Pára, Félix. Eu jamais iria fazer isso com você. Não depois de tudo que você fez por mim.” Niko, podia estar abismado com tudo o que Félix havia lhe contado. É claro que Niko conhecia sua fama de mau-caráter, mas a verdade é que não foi este lado do Félix que ele conheceu, muito pelo contrário. O Félix que ele conheceu, ajudara Niko a recuperar seus filhos, e, depois de hoje de manhã, ao vê-lo vender HotDog na 25 março, sem falar da forma como ele tratava Márcia e a pequena MaryJane, Niko não tinha dúvidas de seu julgamento de caráter. Félix era do bem. Ele tinha certeza que havia algo que fizera com que ele cometesse todos estes atos de corrupção ou se envergasse pelo caminho errado.
“Ai Carneirinho...” Félix passou sua mão direita pelo rosto do amigo suspirando. “Porque eu não te conheci antes.” Ele falou, não pela primeira vez. Só que, por alguma razão, desta vez, Niko se sentiu lisonjeado e, ignorando todas borboletas dentro do seu estômago, Niko sorriu para o amigo.
Um som de gemido da babá eletrônica, chamou a atenção de Niko, mas depois de confirmar que eram apenas os barulhos normais de uma criança dormindo ele voltou ao seus pensamentos. Félix pode ter feito muita coisa errada, com certeza ele fez, mas por outro lado, a sua resiliência diante de tudo o que estava acontecendo, seu e bom humor, sua amizade e, mesmo com Niko tendo oferecido sua ajuda no que ele precisasse. O homem moreno nunca lhe pedira nada, talvez por orgulho, Niko sabia. Mas, por outro lado, se ele era tão canalha como ele próprio se intitulava, porque ele não se aproveitou de Niko, de sua ingenuidade, de sua fragilidade pra conseguir ficar por cima? “Não seria exatamente difícil ele fazer com que eu me interessasse por ele.” Nico falou pra si mesmo, mas continuou com suas conjecturas. Tudo bem que Niko não era rico, mais ainda assim seria uma situação melhor do que Vender HotDog na 25 de março? E, por tudo isso, Niko admirava aquele homem.
Mas o que ele podia fazer para ajuda-lo. Niko pensou em oferecer a ele a vaga de gerente que Niko relutava a preencher já fazia algum tempo. Félix, certamente, conseguiria assumir este papel, mas será que ele aceitaria ser gerente de um restaurante japonês? É claro que aquela era uma posição melhor do que a sua atual posição, mas Niko sabia que Félix provavelmente acharia que ele inventara a posição para ajuda-lo e aquilo poderia ter um efeito contrário e acabar magoando o seu amigo.
“Sabe Niko, de tudo isso que está acontecendo, a única coisa que realmente me deixa sem chão...” Eles, agora, estavam sentados no sofá da sala, de frente um para outro enquanto Márcia e Adriana conversavam na cozinha e Reinaldo jogava vídeo game com Jayminho. “Hum.” Niko segurava a cabeça com o braço apoiado no encosto do sofá. “Minha mami poderosa.” Félix baixou levemente o olhar para depois olhá-lo nos olhos novamente. “Ela sempre foi meu refúgio, a única que sempre me dava colo, mesmo quando não concordava comigo, ela estava lá por mim. Mas desta vez, desta vez eu fui longe de mais. E eu sinto tanta...” O homem moreno fechou os olhos ressaltando ainda mais suas palavras “... tanta, saudades dela!”
“Nossa Félix, mas o que mais você pode ter feito...” Niko levantou a sobrancelhas e mexeu a cabeça enquanto pegava a sua taça de vinho sobre a mesa “... além de tudo o que você me contou...” Ele levou o vinho a boca e tomou um gole “... para que sua mãe não possa te perdoar.”
“Ai Niko, se eu te contasse...”
Neste momento eles foram interrompidos por Márcia que já segurava MaryJane dormindo no colo com o seu próprio cansaço estampado no rosto.
“Ô menininho. A não ser que você esteja planejando dormir aqui, o que não seria uma má ideia...”
“A casa está a disposição...” Niko convidou.
“Mas eu devo ter roubado a água que lavou os pés dos apóstolos, para ouvir uma coisa destas. Onde Já se viu, acampar na sala do Niko depois da ceia de Natal que ele nos convidou por educação”
“Imagina Félix, eu convidei porque queria vocês aqui comigo.”
“Educação sim. E confesso que eu adorei a sua educação.” Félix deu aquele sorriso engasgado de quando ele diz uma verdade nua. “Mas a ceia já está de bom tamanho. Vamos criatura, vamos que o caminho até a sua casa é longo.” Félix usou seu tom ácido pra falar.
“Eu levo vocês.” Niko levantou imediatamente e para pegar a chave do carro.
“Imagina carneirinho, você já trouxe a gente, está muito tarde, para você ter que ir e voltar.” Félix tentava tirá-lo de cabeça, embora torcesse para que não tivesse sucesso.
“Eu trouxe, eu levo. Vamos” Niko ajudou Márcia carregando a bolsa da criança enquanto Félix emendou. “Ainda bem, porque pegar taxi na noite de Natal a essa hora, não seria nada fácil viu.” Félix admitiu mais alto do que pretendia.
É isso!!! Niko de repente teve um estalo. Mami poderosa. Era assim que Niko iria ajudar o Félix. Primeiro, fazer com que ela o perdoasse. O perdão de sua mãe, era o que Félix mais precisava para começar a sua jornada rumo à uma nova vida.
Finalmente Niko tinha um plano e com um sorriso no rosto ele fechou os olhos e dormiu, quase instantaneamente.
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